Medicinas indígenas e as políticas da tradição: entre discursos oficiais e vozes indígenas
Apresentação
Cada vez mais surgem no cenário nacional brasileiro iniciativas voltadas para o fortalecimento e a valorização de conhecimentos, práticas e praticantes tradicionais inscritos em contextos socioculturais particulares. Se, por um lado, o Estado, na última década, estimulado pelas tendências do desenvolvimento mundial, começa a elaborar normativas e políticas públicas que utilizam a noção de tradicional para qualificar seus objetos, por outro, iniciativas de "revitalização cultural" também passam a ser tomadas por povos e comunidades localmente situados, no intuito de contribuir para a sua reprodução social e econômica. Como exemplo dessas iniciativas, podem ser citadas duas experiências importantes de fortalecimento e "revitalização" das medicinas tradicionais indígenas: o Projeto Medicina Tradicional Baniwa, que integra o Projeto Rede Autônoma de Saúde Indígena da Universidade Federal do Amazonas (Garnelo, 2004a); e o Projeto Medicina Tradicional no Alto Rio Negro executado pela organização não governamental (ONG) Associação Saúde sem Limites em parceria com a Federação Indígena do Alto Rio Negro, entre 2001 e 2004 (Athias, 2007).
A medicina tradicional indígena constitui um dos objetos frequentemente pautados tanto pelas políticas públicas, aqui compreendidas como programas de ação governamental voltados para realizar objetivos e metas previamente estabelecidas (Dallari Bucci, 2006), quanto pela luta dos povos indígenas para fazer valer
os seus direitos por uma atenção diferenciada à sua saúde. 1 Apesar de atualmente não haver uma política nacional específica sobre esse tema, existe um conjunto de políticas públicas que usa a noção de tradição para qualificar os seus objetos e público-alvo. Essas políticas, aqui denominadas políticas da tradição, configuram uma particular formação discursiva, da qual fazem parte igualmente os discursos oficiais sobre as medicinas tradicionais indígenas.
Por que abordar as políticas da tradição se o foco deste livro recai sobre a emergência das medicinas tradicionais indígenas no campo das políticas públicas? Porque os enunciados que abordam o terna estão situados em um contexto discursivo mais amplo, configurado pelas relações estabelecidas entre o Estado brasileiro, os organismos internacionais e os povos indígenas. Em outras palavras, é importante analisar as políticas da tradição, na medida em que constituem o contexto oficial em que os discursos sobre as medicinas tradicionais indígenas circulam. Ao reconhecer a eficácia das medicinas tradicionais indígenas e estabelecer como uma das suas diretrizes a articulação dos serviços de saúde com os sistemas tradicionais indígenas de saúde, a Política Nacional de Atenção a Saúde Indígena (Brasil, 2002) instaurou as condições legais para que o governo, em parceria com a sociedade civil organizada, passasse a fomentar um conjunto de ações de desenvolvimento das medicinas indígenas. Ao mesmo tempo, abriu mais um canal de negociações interétnicas entre os povos indígenas e o Estado, por meio do qual recursos, bens e benefícios passaram a ser captados e revertidos por lideranças para atender aos interesses localmente situados de suas comunidades indígenas. Portanto, as relações interétnicas historicamente estabelecidas entre os povos indígenas e o Estado-nação são constitutivas do campo da saúde indígena no Brasil, configurando-o como um espaço fronteiriço de articulação das diferenças étnicas e culturais que nele interagem.
A heterogeneidade dos agentes que compõem esse campo, por sua vez, é marcada tanto pelos distintos pertencimentos étnicos (indígenas e não indígenas) quanto pelos variados vínculos que mantêm com as instituições nas quais atuam - sejam governamentais ou não governamentais, sejam nacionais ou internacionais. E, na medida em que as perspectivas desses agentes são influenciadas pela posição que eles ocupam, o campo discursivo da saúde indígena passa a ser atravessado por diversas vozes e vários entendimentos, interesses e versões sobre as medicinas tradicionais indígenas. Os agentes socialmente posicionados, que falam sobre esse assunto, por sua vez, encontram-se em constantes disputas pelo poder simbólico para, ao fazerem prevalecer o seu ponto de vista, instituírem a sua verdade sobre as medicinas indígenas e a realidade sobre a qual atuam. Afinal, na luta política, são as disputas "pelo poder de conservar ou de transformar o mundo social, conservando ou transformando as categorias de percepção desse mundo" (Bourdieu, 2005: 142), que estão em jogo.
As posições que conformam o campo da saúde indígena estão distribuídas em um amplo espaço social, configurando uma rede de relações que vincula as múltiplas localidades - comunidades e povos indígenas - às esferas nacionais e internacionais. A dinâmica relacionai mantida entre o global e os locais propicia que os discursos oficiais sobre as medicinas tradicionais indígenas irrompam nessas localidades, dinamizando interações sociais e transformando realidades sociomédicas. Assim, em razão das relações estabelecidas entre os diferentes agentes socialmente posicionados que atuam no campo, contextos translocais são fundados, dando lugar ao surgimento de novas formações culturais.
Este livro tem origem no trabalho do doutoramento, desenvolvido no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina, e seu objetivo é contribuir para a compreensão do processo de emergência da medicina tradicional indígena no campo das políticas de saúde indígena (Ferreira, 2010). Apresento, portanto, por um lado, um mapeamento dos discursos oficiais dos organismos internacionais e das políticas públicas brasileiras que empregam a noção de tradição para qualificar os seus objetos - medicina tradicional, parteiras tradicionais, conhecimentos tradicionais, povos e comunidades tradicionais. Por outro, considero as falas indígenas sobre os cuidados com a gestação e o parto proferidas durante eventos que, no decorrer de 2006, congregaram parteiras, pajés e agentes indígenas de saúde (AISs) de diferentes povos que habitam a região do Alto Juruá, estado do Acre. Esses encontros foram viabilizados pela política pública executada pela Área de Medicina Tradicional Indígena (AMTI), do Projeto Vigisus II/Fundação Nacional de Saúde (Funasa).
Acredito que, por meio dos enunciados dos diversos agentes socialmente posicionados no campo da saúde indígena, a categoria discursiva medicina tradicional consolida-se corno objeto de políticas públicas. Porém, esse é um objeto semanticamente inacabado, diante da constante revisão de seus sentidos a cada vez que se discute o tema em situações comunicativas particulares. Se tudo aquilo que está sendo dito sobre a medicina tradicional indígena contribui para defini-la, então essa categoria se encontra em permanente construção dialógica, e os sentidos que a informam são emergentes.
As políticas públicas instauram realidades sociais e criam novos locais de cultura ao definirem os seus objetos e os públicos a quem elas se destinam. Ao concentrar o poder simbólico-administrativo de fazer existir por meio da nomeação oficial, o Estado define os conceitos empregados no escopo dessas políticas e institui dispositivos discursivos que transformam os seus objetos em híbridos culturais. No caso das políticas relacionadas às medicinas tradicionais, por exemplo, a validação científica dos conhecimentos e das práticas e a qualificação dos seus praticantes constituem dispositivos poderosos por meio dos quais são delineados os caminhos da sua integração aos sistemas de saúde nacionais.
As relações entre o Estado brasileiro e os organismos internacionais são importantes no processo de elaboração das políticas da tradição, cujo advento constitui um fenômeno moderno, pois tanto esses organismos quanto o Estado-nação são organizações políticas características da modernidade. Existem, pois, vários alinhamentos e correspondências entre as perspectivas assumidas por este e por aqueles, e a dicotomia entre tradição e modernidade é estruturante dos seus discursos oficiais, na medida em que a primeira é definida nos termos da segunda ou em oposição a ela. Nesse caso a noção de tradição aplicada pelas políticas públicas é um constructo moderno!
Na perspectiva dessas políticas, a tradição é pensada como atributo de culturas estáticas, em que os conhecimentos e práticas tradicionais perduram por muitos anos, transmitidos de forma imutável de uma geração para outra.
Por ser destituída de agência, a tradição precisaria, então, ser submetida ao escrutínio científico de modo a desenvolver o seu potencial e a validá-la cientificamente. Nos contextos discursivos oficiais, os povos indígenas são considerados "naturalmente tradicionais" e, em geral, passam a ser classificados pelas políticas públicas como povos e comunidades tradicionais.
Partilho da compreensão de Sahlins (1997a), que, em termos antropológicos, define tradição como os distintos modos pelos quais as transformações socioculturais se processam mediante as tentativas dos povos indígenas de incorporarem o sistema mundial ao seu próprio sistema de mundo. A transformação sociocosmológica, nesse caso, seria "necessariamente adaptada ao esquema cultural existente" (Sahlins, 1997a: 62). Porém, agregam-se a esses sentidos- os que informam as políticas públicas e os que fazem parte do arcabouço conceitual da antropologia - os significados que os próprios indígenas atribuem à tradição. No caso dos participantes dos eventos do Alto Juruá, a noção de tradição foi usada para contrastar diferenças e demarcar fronteiras entre as formas indígenas e os procedimentos não índios de cuidar da gestação e do parto. Aqui, essa categoria discursiva remete ao regime de etnicidade que pauta as relações interétnicas entre povos indígenas e o Estado brasileiro.
Se as políticas da tradição, ao irromperem em contextos locais particulares, podem reconfigurar os discursos localmente situados, então, os enunciados veiculados durante os encontros entre parteiras, pajés e AISs também foram suscetíveis a essas influências. Desses eventos comunicativos dialogicamente estruturados - que emergiram a partir das relações estabelecidas entre os povos indígenas, representados por suas lideranças, e o Estado, representado pela Área de Medicina Tradicional Indígena -, participaram representantes dos diferentes povos indígenas que habitam a região do Alto Juruá - Katukina, Kaxinawa, Yawanawa, Shanenawa, Nukini, Nawa, Jaminawa-Arara, Arara, Ashaninka e Kulina.
Além de tratar dos cuidados indígenas com a gestação e com o parto (dietas, uso de folhas e remédios tradicionais, rezas etc.), os discursos proferidos durante esses eventos também possibilitaram uma avaliação dos cursos de capacitação das parteiras indígenas tradicionais que aconteceram no Acre entre 2000 e 2004. A possibilidade de execução desses cursos foi instituída por uma política pública específica desenvolvida pelo Ministério da Saúde (MS), o Programa Trabalhando com Parteiras Tradicionais. Para os participantes dos encontros, esses cursos demarcaram as diferenças entre as formas indígenas de parir e de assistir os partos antes e depois do seu advento, bem como evidenciaram o contraste existente entre a forma do branco versus o modo do índio de gestar e de dar à luz.
Nesse contexto discursivo, foram usadas diversas categorias para expressar os múltiplos entendimentos dos participantes sobre os conhecimentos, as práticas e o papel dos cuidadores envolvidos com a gestação e o parto indígenas. A organização dialógica dos encontros permitiu que os sentidos atribuídos a essas categorias surgissem durante as conversações que ali foram realizadas. Alguns dos termos postos em debate e que tiveram seus sentidos desvelados no fluir dos diálogos foram: parteira, pajé, agente de saúde, pré-natal tradicional, branco, cultura etc. Ao emergir associada a essas outras categorias, a noção de medicina tradicional passou a fazer parte de uma constelação semântica particular. Considerar as associações entre as múltiplas categorias que conformam essa constelação e o contexto comunicativo de sua irrupção se faz fundamental para se compreender os sentidos que a medicina tradicional indígena assume nos enunciados sobre o tema.
É claro que várias nuances significativas dos discursos analisados escaparam à reflexão antropológica aqui empreendida. Isso se deve tanto à complexidade do fenômeno abordado, que, por ser processual, multidimensional e polissêmico, excede as tentativas de inscrição da ação social por meio da escrita, quanto à própria limitação imposta pela natureza desse empreendimento. Encontrei-me, pois, diante da difícil tarefa de, entre uma diversidade de vozes, escolher aquelas que se tornariam alvos de reflexão. Contudo, os discursos trazidos falam por si e extrapolam a própria análise realizada.
Se nos discursos oficiais nos deparamos com o processo de construção dos objetos das políticas da tradição por meio do poder simbólico-administrativo do Estado de fazer existir pela nomeação, as vozes indígenas nos eventos comunicativos do Alto Juruá se reportam aos processos de irrupção dessas políticas em contextos locais. Ao serem apropriados pelos povos indígenas, os discursos oficiais são postos a serviços dos seus interesses culturalmente situados - assim, estamos diante do fenômeno de indigenização da modernidade em uma de suas faces.
A Área de Medicina Tradicional
Indígena como contexto: entre o local
e o global
Este livro é um produto do projeto de pesquisa Análise Antropológica sobre os Dados Secundários do Banco de Dados da Área de Medicina Tradicional Indígena do Projeto Vigisus
II/Funasa. 2 As informações, resultados e lições aprendidas e produzidas no âmbito dos projetos de pesquisa-ação realizados pela
AMTI entre 2004 e 2009 compõem esse banco de dados. 3 No entanto, o fato de eu ter atuado como gerente da AMTI faz com que as reflexões aqui desenvolvidas também sejam fruto da minha experiência de gestão - lugar de onde a análise, como processo de produção de conhecimentos, foi efetivada.
Se por um lado ocupar essa posição no campo da saúde indígena me fez despertar para a importância de compreender os processos discursivos oficiais por meio dos quais as medicinas tradicionais -seus saberes, práticas e praticantes - se tornavam objetos de políticas públicas, por outro as vozes indígenas, aqui apresentadas como dados etnográficos, também emergiram a partir da minha atuação como gerente das ações realizadas pela AMTI. Assim, em virtude das implicações metodológicas que essa situação instaura, torna-se importante apresentar a AMTI como o contexto no qual o conhecimento antropológico aqui veiculado foi elaborado.
Visando a concretizar a diretriz da Política Nacional de Atenção à Saúde Indígena (PNASPI) que prevê a articulação dos serviços de saúde aos sistemas tradicionais indígenas de saúde, no decorrer do ano 2004 a Funasa criou a AMTI no âmbito do subcomponente Ações Inovadoras em Saúde do Projeto Vigisus II. O Vigisus -Projeto de Modernização do Sistema Nacional de Vigilância em Saúde foi efetivado via Acordo de Empréstimo n. 7.227/1999 estabelecido entre o governo brasileiro e o Banco Mundial. Formado por dois componentes - Vigilância em Saúde e Saúde Indígena -, foi idealizado para ser implementado em três fases. Durante a fase 2, que esteve em vigência entre 2004 e 2009, o componente Vigilância em Saúde esteve a cargo da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, ao passo que o componente Saúde Indígena ficou sob a responsabilidade da Funasa (Macedo, 2007).
O principal objetivo da AMTI era a elaboração de estratégias para a articulação entre as medicinas indígenas e o sistema oficial de saúde. Os demais objetivos eram: contribuir para a valorização, o fortalecimento, a manutenção e a atualização dos saberes e práticas tradicionais de cuidado com a saúde; produzir subsídios para a construção de políticas públicas de saúde indígena; colaborar para a consolidação do direito indígena à atenção diferenciada à sua saúde (Ferreira & Osório, 2007).
Para atingir esses objetivos, na AMTI se adotou a metodologia de pesquisa-ação (Thiollent, 2007) na realização de projetos participativos antropologicamente orientados, que associaram o processo de produção de conhecimentos às ações práticas propostas pelas lideranças indígenas representantes de diferentes povos do país. A pesquisa-ação foi considerada a estratégia metodológica adequada para implantar o plano de ação da AMTI, justamente por preconizar a participação de todos os interessados -gestores, pesquisadores, lideranças indígenas - nas distintas etapas de desenvolvimento do projeto: desde a elaboração da proposta e execução das atividades até a avaliação dos resultados alcançados.
Os projetos de pesquisa-ação foram viabilizados por meio de parcerias instituídas entre a AMTI e ONGs indígenas ou indigenistas. Cada projeto contou com uma equipe de execução composta por especialistas de distintas áreas do saber científico e por representantes indígenas. Dessa forma, ao mesmo tempo que as ações concretas propostas por lideranças indígenas eram viabilizadas, conhecimentos acerca dos fenômenos pautados pelo projeto eram produzidos. Ao instituir a participação como o contexto ético no qual tais ações deveriam ser realizadas, a AMTI transformou as equipes de execução dos projetos em comunidades interétnicas de comunicação (Cardoso de Oliveira & Oliveira, 1996), isto é, em instâncias em que as decisões, os acordos e as compreensões sobre a condução das atividades eram dialogicamente construídos entre os integrantes da equipe.
Entre 2004 e 2008, foram realizados oito projetos de pesquisa-ação, organizados em três eixos temáticos: sistemas de atenção ao parto e atenção à saúde materno-infantil; plantas medicinais e remédios tradicionais; xamanismo e intermedicalidade. Os eventos comunicativos que constituíram o contexto discursivo das falas aqui analisadas fizeram parte do Projeto Valorização e Adequação dos Sistemas de Parto das Etnias do Acre e Sul do Amazonas, executado em parceria com a ONG Instituto Olhar Etnográfico e com o movimento indígena da região.
O fato de a AMTI ter sido viabilizada por meio de um acordo de empréstimo entre o governo brasileiro e um organismo internacional- o Banco Mundial coloca-a em um espaço fronteiriço situado entre o global e o local: por um lado, constituiu-se uma política pública que utiliza a noção de tradição para qualificar seus objetos; por outro, ao se reconhecer os direitos dos povos indígenas sobre as suas medicinas tradicionais, instaurou-se um processo participativo para implantação do seu plano de ação envolvendo lideranças indígenas localmente situadas. Essa posição de fronteira ocupada pela AMTI é conflituosa justamente por estar localizada entre as tendências desenvolvimentistas dos organismos internacionais e do Estado-nação, que possibilitam a sua existência, e os interesses dos povos indígenas que participaram dos projetos por ela fomentados. De qualquer forma, ao possibilitar que os discursos oficiais irrompessem nas diferentes localidades onde ocorreram os projetos de pesquisa-ação, a AMTI contribuiu para conectar essas realidades locais às ordens nacionais e internacionais mais abrangentes.
Como gerente da AMTI, eu também ocupei uma posição de entremeio, situada entre as práticas discursivas oficiais e as vozes indígenas veiculadas desde as localidades em que estão inscritas. Mais uma vez, me vi como antropóloga das fronteiras a analisar discursos que surgem em eventos comunicativos viabilizados pelas decisões antropologicamente orientadas que tomei ao ocupar uma posição de gestão. Dessa maneira, esses discursos são efeitos de políticas públicas desenvolvidas em lugares distantes daqueles onde ocorreram e, ao irromperem nas localidades, instituíram novos locais de cultura, os quais requerem novos lugares do "fazer antropológico', e o lugar de gestão se constitui em um desses lugares possíveis.
Discursos como dados etnográficos
Os discursos aqui analisados são compreendidos como dados etnográficos secundários e podem ser classificados em duas modalidades: os escritos (textos) e os falados (atos de fala). Os segundo capítulo trabalha, basicamente, com os textos dos organismos internacionais e das políticas públicas brasileiras, que empregam a noção de tradicional para qualificar os seus objetos. Para o desenvolvimento do capítulo que descreve os eventos comunicativos que constituíram o contexto de emergência das categorias discursivas aqui analisadas, foi utilizada a documentação pública produzida pela AMTI (relatórios, projetos, produtos de consultoria). Por fim, os capítulos que tratam dos discursos dos indígenas veiculados durante os encontros no Alto Juruá foram elaborados por meio das gravações realizadas pela equipe interétnica de execução desses eventos comunicativos. O material em áudio, em forma bruta, foi encaminhado pelo Instituto Olhar Etnográfico à AMTI como um dos produtos da consultoria por eles
prestada.4
O registro em mídias eletrônicas e digitais permitiu o descolamento dos discursos do contexto de fala imediato e a sua reprodução em outros tempos e em outros espaços, tais como o deste livro. É preciso considerar que "todos os modos de armazenamento de informação são, simultaneamente, formas de comunicação, [que] rompem com a comunicação direta, exaustiva na interação humana nas culturas de tradição oral" (Giddens, 2008: 39). A transcrição dos áudios desses eventos, por sua vez, foi por mim realizada.
De qualquer forma, mesmo não estando presente nos eventos comunicativos que constituíram o contexto dos discursos aqui analisados, como gerente da AMTI exerci influência direta na configuração de tais situações, participando dos diálogos que aconteceram como um 'outro ausente'. O que permitiu o arranjo dessa complexa situação etnográfica é a própria situação de modernidade da qual fazemos parte.
O advento da modernidade arranca crescentemente o espaço do tempo
fomentando relações entre outros 'ausentes', localmente distantes de
qualquer situação dada ou interação face a face. Em condições de
modernidade, o lugar se torna cada vez mais fantasmagórico: isto é, os
locais são completamente penetrados e moldados em termos de influências
sociais bem distantes deles. O que estrutura o local não é simplesmente o
que está presente na cena; a 'forma visível" do local oculta as relações
distanciadas que determinam sua natureza. (Giddens, 1991: 27)
Ao tomar tanto os discursos oficiais quanto as vozes indígenas pronunciadas em eventos localmente situados como dados etnográficos, busco elaborar uma descrição densa do fenômeno de emergência da medicina tradicional no campo das políticas públicas de saúde indígena. Desse modo, tento desvelar algumas complexas camadas de significados que informam esse fenômeno, expondo dimensões significativas que, ao estarem entrelaçadas e serem "simultaneamente estranhas, irregulares e inexplícitas", precisam primeiro ser apreendidas para, posteriormente, serem analisadas à luz da teoria antropológica (Geertz, 1989: 22). Ainda assim, o texto aqui apresentado constitui uma interpretação de interpretações outras. Tratando-se, portanto, de uma ficção, no sentido de ser 'algo construído', uma leitura do que acontece em vários lugares interconectados pela realização das políticas da tradição.
Sobre os capítulos
Este volume está organizado da seguinte forma: o primeiro capítulo "Estado-nação, poder e modernidade: revisitando conceitos" constitui-se de uma teórica sobre o papel dos Estados-nação e dos organismos internacionais, como organizações políticas características da modernidade, tanto na instituição de um mundo internacionalmente conectado quanto na configuração de realidades sociomédicas híbridas e translocais. Nele, analiso as influências que os organismos internacionais exercem no processo de elaboração das políticas públicas nacionais, bem como os poderes - simbólico e administrativo - exercidos e os dispositivos utilizados para ampliar o monitoramento reflexivo do Estado moderno. Por outro lado, considero os processos de produção dos híbridos culturais e de indigenização da modernidade levados a efeito pelos povos indígenas ao se apropriarem das políticas públicas a fim de manter a sua autonomia e reverter a seu favor o controle que o Estado passa a exercer sobre o mundo da vida de suas comunidades.
No segundo capítulo, "Os discursos oficiais e a emergência do tradicional como objeto de políticas públicas", apresento uma análise sintética dos discursos oficiais dos organismos nacionais e das políticas públicas, à luz da discussão teórica desenvolvida no primeiro capítulo. No Brasil, a elaboração das políticas públicas é influenciada pela dinâmica internacional - política e econômica- do sistema mundial. Diante disso, avalio o modo como essas influências propiciam o surgimento das políticas da tradição e de que maneira o tradicional passa a qualificar os objetos das políticas públicas, abrindo caminho para a emergência de objetos híbridos de políticas públicas.
No terceiro capítulo, "O contexto de emergência das vozes indígenas: os encontros de parteiras, pajés e AISs no Alto Juruá", apresento algumas informações a fim de caracterizar o contexto comunicativo que propiciou a emergência dos discursos indígenas sobre gestação e parto. Além disso, descrevo a organização e a programação das três reuniões de parteiras, pajés e AISs que aconteceram no Alto Juruá, bem como os participantes e os princípios estruturais que configuraram as interações estabelecidas entre eles.
No Capítulo "Cursos, partos e parteiras tradicionais: apropriações indígenas dos conhecimentos e das coisas do branco", analiso, com base nos discursos veiculados nos eventos do Alto Juruá, os processos de apropriação e indigenização dos cursos de parteiras e, consequentemente, dos conhecimentos e dos materiais dos kits parteira neles distribuídos. As falas indígenas revelaram o quanto a realização desses cursos transformou a prática do "pegar menino" no âmbito das aldeias indígenas, contribuindo para alterar os papéis e a própria organização comunitária do cuidado com a gestação e o parto. Um dos principais efeitos desses cursos foi a criação do cargo de parteira tradicional em comunidades indígenas onde ele não existia.
No capítulo "Os outros cuidadores: agência, intermedicalidade e gênero", considero os discursos que tratam dos papéis que os pajés e os AISs desempenham no cuidado com as gestantes, as parturientes e os recém-nascidos. Esses discursos expressam o quanto a prática desses cuidadores assume um caráter intermédico quando, no exercício de sua agência, fazem diversos arranjos entre saberes e procedimentos inscritos em diferentes horizontes socioculturais - o indígena e o biomédico. Por outro lado, também revelam que a agência desses cuidadores está marcada pela sua identidade de gênero. Faço, portanto, uma reflexão sobre a forma como as relações de gênero são determinantes na distribuição das incumbências de cada um dos agentes que cuidam da gestação e do parto, e como os cuidados dispensados nesse período extrapolam o domínio feminino, envolvendo a rede familiar e de parentesco em que a mulher está inserida.
No capítulo "Folhas, rezas e dietas: a emergência da medicina tradicional e do pré-natal indígena", enfoco os discursos que tratam das práticas de autoatenção durante a gestação e o parto, e que, além de garantir a saúde da mulher e do recém-nascido, também fazem parte dos processos socioculturais de produção de corpos e de pessoas aparentadas entre os povos indígenas do Alto Juruá. Para demonstrar que a noção 'medicina tradicional indígena' é constantemente recriada em seus sentidos nas múltiplas situações dialógicas em que é colocada em pauta, analiso como essa categoria discursiva e os múltiplos sentidos a ela associados emergem no decorrer dos encontros entre parteiras, pajés e agentes de saúde. Da mesma forma, considero a expressão "pré-natal tradicional' uma categoria discursiva híbrida emergente, empregada pelos participantes para se referirem ao conjunto de práticas comunitárias utilizadas nos cuidados com a gestação.
No último capítulo, "Contrato, dádiva e a luta por reconhecimento", trato das reivindicações dos participantes das reuniões do Alto Juruá pela contratação remunerada das parteiras indígenas. Nesse contexto discursivo, as demandas por contrato estão associadas à luta pela conquista do reconhecimento pelo Estado da atuação das parteiras. Mas essa luta também encerra outra dimensão: a manutenção do reconhecimento das comunidades e das gestantes sobre a importância do trabalho das parteiras. Reflito sobre as implicações do contrato remunerado na organização dos cuidados comunitários com a gestação e o parto, na medida em que o reconhecimento profissional implica a regulamentação do oficio e a integração das parteiras ao sistema oficial de saúde.