Minha Esta Noite

J. S. Scott · Capítulo 1 de 7

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Minha Esta Noite

Capítulo 1

Simon Hudson estava parado silenciosamente nas sombras do saguão opulento, com as mãos nos bolsos da calça jeans e um dos ombros apoiado no batente de uma janela grande virada para a rua. O corpo inteiro estava tenso e os olhos castanhos escuros varriam a calçada com o foco intenso e completo de um louco.

Onde diabos ela está? São dez e quarenta.

Ele sabia que Kara estava trabalhando naquela noite. Nas duas noites anteriores, ela não fora trabalhar por motivos de saúde, mas voltara ao trabalho no restaurante de Helen, atendendo às mesas no turno de plantão. Ele conferira. A mãe dele era proprietária do bistrô onde Kara trabalhava e era geralmente bem direta com as informações quando Simon perguntava, mas ele era cuidadoso. Se não fosse, a mãe o perseguiria para descobrir por que queria informações sobre Kara. A mãe era maravilhosa, mas era inquisitiva, e se transformaria em um cão de caça atrás de um rastro se achasse que o interesse de Simon não era casual. Ele seria encurralado até a morte, com a mãe querendo saber exatamente quais eram as intenções dele com Kara.

Simon franziu a testa. Não que ele tivesse qualquer intenção. Ele tinha fantasias e todas envolviam Kara deitada na cama dele, gritando seu nome enquanto a fazia gozar sem parar.

Simon respirou fundo e soltou o ar lentamente, tentando fazer com que o corpo relaxasse e dizendo a si mesmo que devia estar maluco por ficar exatamente na mesma posição, noite após noite, por causa de uma mulher a quem nunca fora apresentado oficialmente. Mas lá estava ele... de novo, de costas para o porteiro curioso, espiando pela janela como um perseguidor desequilibrado, querendo ver Kara Foster, nem que fosse de relance. Alguma coisa sobre a mulher provocava instintos estranhos, territoriais e protetores que o mantinham lá, de vigia, esperando que ela passasse, a caminho de casa, pelo prédio de apartamentos onde ele morava.

E, quando ele a visse, faria a mesma coisa que sempre fazia. Ele a seguiria à distância, tentando não alarmá-la, e esperaria até que ela entrasse com segurança no apartamento. Depois, daria meia volta e caminharia até sua casa.

Ele não falaria com ela, nem mesmo chegaria perto. Nunca fazia isso. Não que não quisesse, mas Kara cursava a faculdade de enfermagem e trabalhava em horário integral no restaurante da mãe dele. De acordo com a mãe, Kara se recusava terminantemente a namorar, pois não tinha tempo nem energia para um relacionamento. Provavelmente estava certa. Aquela mulher maluca não dormia nem comia o suficiente. Não tinha ninguém que se preocupasse com ela, exceto a mãe dele... e Simon. No ano anterior, Simon provavelmente se preocupara mais com o bem-estar de Kara do que uma dezena de familiares teria se preocupado. E ele nem podia chamá-la de amiga. O problema era que... ele não era um familiar e os sentimentos que tinha estavam longe de serem fraternais.

Meu Deus, ela era demais!

Simon teve que reprimir um grunhido de frustração ao pensar na primeira vez em que vira Kara, com os olhos azuis brilhando de alegria, cachos negros dos cabelos sedosos escapando do eterno rabo de cavalo e o corpo esguio movendo-se graciosamente de uma mesa à outra no restaurante da mãe dele. Aos vinte e oito anos, ela ainda tinha um olhar de inocência e vulnerabilidade que deixou Simon completamente enfeitiçado. Desde então, ele estivera prisioneiro.

A mãe falava sobre Kara como se fosse uma filha e Simon sabia que as duas tinham uma ligação especial, não formada pelo sangue, mas por uma amizade especial. Que merda... se Kara fosse mais jovem, Simon tinha quase certeza de que a mãe a adotaria. Torcendo os lábios ligeiramente, Simon torceu para que a mãe nunca esperasse que ele fosse um irmão para Kara. Isso não aconteceria. Sempre que a via, o pênis ficava imediatamente duro e pronto. O que diabos havia naquela mulher em particular que o deixava tão inquieto e agitado?

Simon fodera mulheres que eram mais atraentes ou mais sofisticadas e nenhuma delas jamais tocara nas emoções dele. Ele era um solitário que preferia passar o tempo com o computador em vez de participar de funções sociais. Mas havia momentos em que precisava da companhia de uma mulher para se aliviar fisicamente. Usar a própria mão de vez em quando não resolvia o problema. Simon tinha certas conhecidas para aquelas ocasiões, mulheres que davam a ele o controle de que precisava ter no quarto, sem fazerem exigências nem perguntas. Mas que merda! Aquilo fora o suficiente para ele... até que vira Kara.

Fazendo uma careta, sem tirar os olhos da rua, Simon enfiou as mãos mais fundo nos bolsos e ajustou a posição, dando uma folga ao ombro ao encostar os quadris na parede. Minha nossa, ele estava comportando-se de forma ridícula. Por quanto tempo ele sonharia acordado com uma mulher que nem mesmo sabia de sua existência? Até que ela terminasse a faculdade de enfermagem e mudasse de cidade? Até que ela se casasse?

Ele quase rosnou ao pensar em outro homem colocando as mãos no corpo delicioso de Kara. Simon lutou contra um instinto puramente selvagem que surgiu ao pensar em outro homem tocando na mulher dele.

Ela não é a sua mulher, idiota. Caia na real.

Pela primeira vez na vida, Simon desejou ser mais parecido com o irmão mais velho, Sam, a outra metade da Corporação Hudson. Sam não teria problema algum em abordar Kara. O estilo do irmão sempre fora jogar o charme, conquistar e descartar, e Sam não teria nem pensado na possibilidade de ser rejeitado. Provavelmente porque Sam nunca fracassava! O único irmão usava a população feminina como uma pessoa muito gripada usava lenços de papel. Sam teria derrubado as defesas de Kara, conseguiria convencê-la a tirar a calcinha e, depois, simplesmente a descartaria para conquistar a próxima mulher.

Ah, merda, não. Simon amava o irmão, mas nunca deixaria Sam seduzir Kara. Ele nem mesmo queria que os dois ficassem no mesmo aposento.

Porque ela é minha.

Simon balançou a cabeça, surpreso com o próprio comportamento. Sim... ele gostava de estar em controle. Na verdade, precisava estar no controle. Mas nunca desejara uma mulher em particular. Agora, ele mal conseguia pensar em outra coisa que não fosse a bela garçonete que atraíra a atenção dele um ano antes.

Você tem medo dela.

Simon fez uma careta. Claro que não! Ele não tinha medo de nada. E, com certeza, não tinha medo de Kara Foster. Ela só... não era uma amante provável. Por que perder tempo com ela?

Ele fodia.

Não namorava.

E gostava das coisas assim.

O irmão Sam era o rosto da empresa, o comerciante. Simon entendia de computadores e sentia-se feliz de ficar em segundo plano. O que ele sabia sobre seduzir uma mulher? Nunca precisara obrigar uma mulher a ir para a cama. As mulheres que fodia só ficavam com ele para ganhos pessoais. Ele era conhecido como um amante generoso. Não era tolo o suficiente para acreditar que tivessem qualquer sentimento por ele. Isso ele entendia. Com isso, conseguia lidar.

Talvez eu precise achar um jeito de foder Kara e acabar com essa obsessão maluca.

Seria o suficiente? Será que ele conseguiria se livrar dessa fixação pela mulher se achasse uma forma de tê-la?

Cristo! Precisava fazer alguma coisa. A preocupação irracional com Kara ficara cada vez pior no ano anterior, fazendo com que ele não quisesse nenhuma mulher além dela. Durante aquele ano inteiro, ele só gozara com a própria mão e realmente precisava dar um jeito nisso. Mas... não conseguia. Se tentasse fazer alguma coisa, se telefonasse para outra mulher, veria o rosto bonito de Kara e desligaria o telefone.

Que merda, estou obcecado por ela.

Simon olhou para alguém que se aproximava, com a mente quase imediatamente começando a descartar a mulher de cabelos escuros que vestia uma minissaia de couro preta e um blusão vermelho. Ele nunca vira Kara vestir qualquer outra coisa que não fosse calça jeans e camiseta com o logotipo do restaurante, o traje casual padrão dos funcionários do estabelecimento da mãe.

Surpreso, ele olhou novamente quando a mulher se aproximou, soltando uma exclamação quando o rosto dela ficou à vista. Santo Cristo! Era Kara. Ela estava perto o suficiente para que ele conseguisse ver as feições, o mesmo rosto que assombrava seus sonhos molhados todas as noites, mas a roupa…

O que diabos ela estava vestindo?

Simon conseguia ver quase todos os centímetros das pernas longas e esguias na minissaia ultracurta e a roupa inteira moldava os seios, o tronco e a bunda como uma luva. O pênis levantou imediatamente em alerta e ele tirou as mãos dos bolsos. Elas se fecharam em punhos rígidos quando um fio de suor correu-lhe pelo rosto. Seguido de outro. E mais outro.

Mas que inferno! O que ela tinha na cabeça? Vestida daquele jeito, estava praticamente implorando que um homem aparecesse e arrancasse-a da rua.

E, por Deus, ele seria aquele homem. Não deixaria aquela oportunidade para outro macho, alguém que poderia machucá-la.

Será que ela não percebia que estava em Tampa? Uma cidade enorme! Não era uma cidade minúscula onde pudesse andar pelas ruas à noite sem ser notada nem abordada.

Simon abriu uma das mãos e agarrou a moldura da janela para se apoiar, sem tirar os olhos da mulher que se aproximava. Rangendo os dentes, Simon sabia que aquele era o dia em que teria que se aproximar dela, chegar mais perto do que nunca. Ele não conseguia mais controlar aquelas emoções animais e selvagens. Não gostava delas nem estava acostumado com elas. A única coisa que queria era recuperar a sanidade, voltar ao computador e trabalhar na paixão que tinha pelo desenvolvimento de jogos de computador, sem que o cérebro fosse tomado por pensamentos eróticos com Kara.

Senso. Razão. Controle. Era assim que funcionava e do que precisava para ser ele mesmo novamente. E ele voltaria ao estado mental normal, não importava as medidas drásticas que precisaria tomar para conseguir isso. De alguma forma, ele acabaria com aquele desejo incrivelmente idiota e furioso por Kara Foster.

Com a decisão tomada, Simon empurrou a moldura da janela e endireitou o corpo, abaixando a “máscara” até que o rosto não mostrasse qualquer emoção. Ele era bom nisso. Fora criado em uma área de Los Angeles onde a maioria das pessoas normais nunca nem entraria. Um lugar onde ser fraco, frágil ou lento de alguma forma significava ser destruído.

No mínimo, Simon Hudson era um sobrevivente. Com o disfarce firmemente no lugar, ele afastou o olhar da janela, virou-se bruscamente e andou com passos determinados na direção da porta.

 

Kara Foster estava tendo um dia horrível!

Ela mudou a mochila de lugar para que ficasse mais firme no ombro e estendeu a mão para a bainha da saia ridiculamente curta, puxando-a para baixo para cobrir a bunda. As roupas ficaram ótimas na amiga, Lisa, que era vários centímetros mais baixa e sete anos mais jovem que Kara. Infelizmente, não tinham a mesma aparência no corpo mais alto e mais cheio de Kara. O blusão ficava justo sobre os seios generosos e a saia era curta demais, mal escondendo as nádegas.

Ela era uma mulher que conhecia as ruas, pois crescera em uma das piores áreas de Tampa e saíra da experiência intacta. Kara sabia como se proteger, como evitar atenções indesejadas. Então, que diabos estava fazendo em uma roupa destinada a metê-la em encrencas? Que burrice, Kara. Que burrice!

Franzindo a testa, Kara se forçou a continuar caminhando. Não era nada demais. Ela estava em uma área decente. E daí se ela parecia uma vagabunda? Mais oito quarteirões e estaria em casa, livre para finalmente tirar aquela roupa ridícula e vestir algo confortável, como jeans e camiseta.

Kara reprimiu um suspiro enquanto se concentrava unicamente em chegar no minúsculo apartamento que dividia com outra estudante. As pernas estavam frias e ela estremeceu, andando mais depressa para aquecer o corpo. Era janeiro em Tampa e, apesar de o dia ser agradável, as noites eram frias. Ela deveria ter levado o casaco, mas acabara se atrasando naquela manhã.

Não planejara ficar com as pernas nuas e o traseiro balançando na brisa.

O dia está quase acabando.

Graças a Deus!

Ela derramara café na calça jeans e na camiseta mais cedo. Sem tempo para ir para casa trocar de roupa antes de ir trabalhar, Kara aceitara com gratidão a oferta de roupas limpas de Lisa, uma amiga que nunca saía de casa sem uma muda de roupa no carro. Não que Kara não apreciasse a bondade da amiga. Ela apreciava, com certeza. Kara só queria ser capaz de usar as roupas com a mesma atitude que Lisa. Mas... não conseguia. Estava acostumada a ser discreta e sentia-se mortificada pelo fato de que provavelmente parecia uma garota de programa com sapatos feios. Ela passara o dia inteiro e o início da noite com um tom rosado no rosto, tentando desesperadamente não inclinar o corpo.

Quando chegara ao restaurante para trabalhar, a chefe dela, Helen Hudson, ficara com pena e encontrara um avental que chegava até os joelhos de Kara e cobria a parte de trás que estava exposta.

Desejando ter ido para casa com o avental, ela puxou novamente a parte de baixo da saia minúscula com um gesto cheio de frustração, torcendo para que nada além das coxas estivesse aparecendo.

A exaustão tomou conta do corpo de Kara e o estômago roncou. Ela estivera tão ocupada no trabalho que não tivera tempo para comer. O restaurante pequeno e aconchegante estivera cheio, muito mais do que o normal, pois era sexta-feira à noite. Na verdade, ela ficara feliz com a quantidade de clientes. O dinheiro das gorjetas que tinha na mochila era tudo o que havia entre ela e uma conta bancária totalmente zerada. Talvez pudesse comprar algumas coisas no mercado agora que tinha um pouco de dinheiro. As prateleiras em casa estavam vazias e a colega parecia estar em uma situação financeira ainda pior. Lydia nunca comprava comida e o que Kara comprava desaparecia rapidamente.

Último semestre! Você consegue.

Foram quatro longos anos e Kara se sentia muito mais velha do que os vinte e oito anos que tinha. Na verdade, ela simplesmente se sentia velha. Ponto. A maioria dos colegas da faculdade mal tinha idade para beber e só pensava em festas, enquanto Kara só conseguia pensar em viver um dia de cada vez, chegando cada vez mais perto da formatura.

Ela perdera os pais em um acidente de carro aos dezoito anos e era praticamente sozinha. Depois de trabalhar vários anos como garçonete, mal sobrevivendo, sabia que precisava ir para a faculdade ou resignar-se a sobreviver sem ver um fim para a pobreza.

Ela não se arrependia da decisão de ter ido para a faculdade, mas fora difícil, uma estrada árdua e solitária. Estava grata por estar quase no fim.

Você conseguirá. Está quase lá!

Kara parou abruptamente quando a calçada começou a oscilar e a visão ficou embaçada. Ah, merda. Ela estendeu a mão para se segurar em um poste enquanto o cérebro girava e o corpo tremia. A tontura tornou impossível avançar mais um passo. Mas que merda. Eu deveria ter parado para comer alguma coisa.

— Kara! — Ela ouviu a voz em tom de barítono baixa e sem sentido penetrando o cérebro enevoado. A voz era abrupta, mas era reconfortante saber que alguém que a conhecia, que a reconhecera, estava lá.

Balançando a cabeça, tentando clarear a visão, Kara segurou com mais força no poste de metal e fez força para não desmaiar na calçada gelada de pedra quando o corpo oscilou precariamente, preparando-se para a queda.

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