Minha Esta Noite
Capítulo 3
Kara acordou tarde no dia seguinte, sentindo-se completamente descansada e imaginando onde estava, até que se lembrou do episódio na calçada e do resgate logo em seguida por Simon Hudson.
Ele estava lá ou ficaria fora o dia inteiro?
Deslizando silenciosamente para fora da cama imensa, Kara encostou a cabeça na porta do quarto, sem ouvir nada além de silêncio. Ela pegou um roupão de seda preto que provavelmente pertencia a Simon e abriu uma porta na outra extremidade do quarto. Aliviada ao encontrar um banheiro, trancou a porta, tirou as roupas depressa e soltou os cabelos. As roupas ficaram amontoadas no chão.
Ela precisava de um banho. E café!
Sentindo-se mais como si mesma depois de tomar banho, limpa e enrolada no roupão de Simon, ela hesitou enquanto procurava uma escova de dentes e pasta no balcão de mármore perto da pia dupla. Sem querer abusar, mas desesperada por uma escova de dentes, Kara abriu algumas das portas e quase riu alto ao encontrar uma escova novinha em folha, ainda na embalagem. Depois de usá-la, tentou domar os cabelos molhados com uma das escovas de cabelo de Simon. Tardiamente, ela torceu para que ele não se importasse. Isso mesmo, faça de conta que a casa é sua, Kara.
Como se ela algum dia pudesse ter uma casa como aquela. O luxo gritante em volta a deixou espantada e ela encarou a banheira imensa com um suspiro longo. O que não daria para passar uma hora dentro dela.
Ela não era uma garota materialista, mas, ainda assim, sabia apreciar uma banheira fenomenal. O apartamento dela só tinha um chuveiro minúsculo e um longo banho de imersão era algo que teria que esperar até que se formasse na faculdade e pudesse ter um lugar só seu. E ele terá uma banheira. Ela decidiu naquele momento que isso seria um requisito.
Afastando-se da tentação da banheira oval enorme, Kara apertou o roupão em volta do corpo e pegou as roupas e a toalha, tentando não imaginar o corpo musculoso e nu de Simon reclinado dentro d’água.
Mas que mulher idiota! Pare de pensar no filho da chefe e procure a maldita mochila para que possa dar o fora daqui.
Saindo do quarto, ela hesitou, sem saber exatamente para onde ir. O apartamento era imenso. Havia quartos de hóspedes, lindamente decorados, na outra extremidade do longo corredor que levava ao quarto principal. Ela quase soltou uma exclamação ao sair do corredor e entrar em uma sala de estar espaçosa, que tinha teto alto e belo e mobílias de couro bege.
Puta merda! Ela já vira uma televisão tão grande? A tela dominava uma parede inteira, parecendo quase uma tela de cinema.
Esse lugar não tem naaaaada a ver comigo!
Os pés descalços deixaram o carpete felpudo e pisaram na madeira lisa quando ela entrou lentamente em uma cozinha que seria o sonho de qualquer chef. Decorada em verde escuro e creme, tinha todas as conveniências que uma pessoa poderia desejar e várias que ela nem conseguiu identificar.
Kara viu a mochila sobre a mesa da ilha e abriu-a para guardar as roupas emprestadas na parte maior, ainda segurando a toalha molhada, pois não sabia o que fazer com ela.
— Como está se sentindo? — Ela saltou quando a voz baixa soou na cozinha silenciosa. Kara cobriu o peito com a mão trêmula quando o coração saltou e ela se virou para Simon, que a observava em silêncio, com um braço apoiado casualmente no batente da porta. Os cabelos escuros ainda estavam úmidos, como se tivesse acabado de sair do banho, e ele vestia calça jeans que envolvia a parte de baixo do corpo musculoso de forma harmoniosa. Os ombros enormes e o peito largo estavam cobertos por uma camisa de flanela verde. O homem estava... um arraso.
Os olhos castanhos passearam pelo corpo dela, ficando cada vez mais ardentes. Para cima e para baixo. Para cima e para baixo. Kara apertou o roupão ainda mais. — Desculpe. Eu não tinha mais nada para vestir.
Ele deu de ombros ao se afastar da porta. — Ficou muito melhor em você do que em mim — respondeu ele com voz rouca ao andar até o armário do outro lado da cozinha. — Café?
Ah, minha nossa, sim! Ele podia muito bem ter perguntado se ela queria terminar a faculdade de enfermagem. Era totalmente viciada. — Sim, por favor. Se não for muito trabalho.
— Sente-se. Você deveria estar descansando. — Ele acenou na direção da ilha e ela se sentou em um dos bancos altos.
Kara observou quando ele colocou uma xícara na máquina de café, derramou pó em um recipiente e fechou-a. A máquina começou a fazer barulho e o café ficou pronto em segundos.
— O sonho de toda pessoa que ama café — disse ela suspirando quando ele lhe entregou a xícara fumegante.
— Espero que goste de café preto — comentou ele ao pegar creme na geladeira e colocá-lo em frente a ela, juntamente com o açucareiro. — É uma marca mais forte.
Kara sentiu o aroma delicioso que subia da xícara e ficou com a boca cheia d’água. — O cheiro está fabuloso. — Ele estendeu uma colher e ela a pegou, com os dedos encostando nos dele. A mão dela formigou com o toque leve e um calor se espalhou pelo corpo. Ele estava parado perto, tão perto que ela sentiu o odor masculino quando ele estendeu a mão em direção às pernas cobertas pelo roupão de seda. Ela prendeu a respiração quando os dedos dele encostaram no tecido, incendiando-a por dentro.
— Deixe que cuido disso. — Ele ergueu a toalha molhada do colo dela, com os nós dos dedos deslizando lentamente pelas coxas ao puxar o pano.
Ela estava tremendo. Tremendo de verdade, só por causa daquele toque leve e casual dele. Minha nossa, ela precisava se afastar. Para algum lugar onde não conseguisse sentir o cheiro dele, não conseguisse sentir o calor que ele emanava e as vibrações inquietantes de energia sexual. — Obrigada. — A voz de Kara estava fraca ao soltar a toalha.
Ela soltou um suspiro de alívio quando ele andou até um cômodo perto da cozinha e voltou sem a toalha. — Você não respondeu à minha pergunta. Como está se sentindo?
Ela afastou os olhos do corpo tentador dele e colocou creme e açúcar no café. — Eu me sinto ótima. A febre foi embora. Obrigada por me ajudar, mas preciso ir embora. — Ela fechou os olhos e quase gemeu ao sentir o gosto rico e forte do café.
— Você não pode ir embora. Não hoje. Nem amanhã. — A voz de Simon estava neutra. Ele foi até a cafeteira e colocou mais pó na máquina, abaixando a tampa com mais força do que o necessário.
— Por quê? — Ela arregalou os olhos e encarou-o com um olhar surpreso.
Com os olhos grudados na xícara de café que acabara de preparar, ele se sentou em frente a ela em outro banco, pegou a colher da mesa e colocou um pouco de creme no café. — Você foi despejada.
O café derramou sobre os dedos de Kara quando ela pulou em choque. Seus olhos voaram para o rosto dele, momentaneamente atônitos. — Isso não é possível. Lydia paga o aluguel. Ela recebe a minha parte todos os meses. — Com um gesto automático, ela pegou um guardanapo no centro da ilha para limpar os dedos, sem registrar a queimadura superficial porque estava chocada demais com o que ele dissera. Era alguma brincadeira? O senso de humor dele era totalmente distorcido? Será que não sabia que não era uma coisa simpática brincar com uma mulher praticamente sem dinheiro usando aquele tipo de coisa?
O olhar dele finalmente encontrou o dela, com uma expressão sombria e um toque de pena. — Receio que sua colega tenha fugido. A única coisa que havia no apartamento ontem à noite era algumas caixas que continham uns documentos seus da faculdade, certidão de nascimento e outros papéis.
As mãos de Kara começaram a tremer e ela as cruzou sobre o balcão de mármore. Não podia ser verdade. Não era verdade. — Deve haver algum engano.
— Não há engano algum. Minha assistente falou com o locador hoje cedo. A sua colega foi despejada. O processo de despejo estava correndo há algum tempo. Ontem foi o último dia. — Simon bebeu um gole do café sem afastar os olhos dos dela.
Ah, meu Deus, ah, meu Deus, ah, meu Deus! A mente de Kara disparou ao perceber as implicações da revelação dele. Sem lugar para morar. Sem pertences. Mas que diabos?
— Deve haver algum engano — sussurrou ela, descendo o olhar para a xícara. Por favor, faça com que isso seja um engano. Ela nunca conseguiria pagar o aluguel nem repor os pertences. — E as minhas coisas? As minhas roupas?
— A sua colega foi meticulosa. Não havia nada lá, exceto algumas caixas.
— Deve ser o lugar errado.
— Era o lugar certo, Kara. Sinto muito.
Simon falou o endereço e o nome do locador e da colega. — Está tudo correto?
Lágrimas encheram-lhe os olhos azuis quando ela assentiu, sem conseguir dizer uma só palavra por causa do nó na garganta. Meu Deus... ela estivera equilibrada na corda bamba por anos, sem uma rede de segurança. E, agora, caía para a morte pouco antes de chegar ao fim da corda.
Ela raramente falava com Lydia, mas nunca achou que a colega fosse capaz de algo como aquilo. Elas eram cordiais uma com a outra, mas Kara só ficava em casa à noite para estudar e dormir, e os encontros com Lydia eram esporádicos. Ela deixava a parte dela para o aluguel e as contas sobre a minúscula mesa da cozinha todos os meses, sem nunca duvidar de que a colega usasse o dinheiro para pagar tudo. Pelo jeito, não usara. — Isso não está acontecendo — disse ela baixinho, sentindo como se o mundo tivesse se despedaçado. E, na verdade, fora o que acontecera. Apenas algumas palavras, um desastre, uma traição, bastaram para que a vida dela desmoronasse.
— Você está bem? — perguntou Simon hesitantemente, bebendo o café e estudando-a com cuidado.
— Sim. Não. Não sei — disse ela incrédula. — Preciso pensar. — O que faria? Onde viveria? Como sobreviveria? Ela empurrou a xícara para longe e enterrou a cabeça nos braços. Ela estava destruída. Pense, Kara. Pense. — Eu não sabia. Como eu pude não saber? — perguntou ela a Simon, mas, na realidade, mais a si mesma enquanto tentava entender como aquilo pudera acontecer.
— Sua colega abandonou a faculdade no último semestre. Pelo jeito, ela escondeu tudo para que ainda pudesse pegar o seu dinheiro até que tivesse que ir embora — respondeu Simon com a voz furiosa. — Eu sinto muito, Kara. Você já tem problemas o suficiente sem isso.
Ela ergueu o rosto e o olhar confuso e cheio de medo encontrou os olhos furiosos dele com surpresa. Ele estava com raiva. De Lydia. Das circunstâncias. Obviamente, Simon tinha coração. — T-tudo se foi? Os móveis, as coisas do meu quarto, meus outros pertences? — gaguejou ela com o choro causando um nó na garganta.
— As únicas caixas que sobraram foram trazidas para cá pela minha assistente, Nina. Elas estão sobre a cama no quarto de hóspedes — disse ele em tom grave. — Eu verifiquei tudo, Kara. Foi tudo calculado. A sua colega levou tudo no último dia. Se você tivesse ido para casa ontem à noite, teria encontrado o apartamento vazio. Fico feliz por não ter precisado passar por essa surpresa tarde da noite. Nina entregou a chave para o locador. As fechaduras serão trocadas. Você não pode voltar para lá.
Sem lar. Sem cama. Sem lugar algum para onde ir.
O desespero e a sensação de perda explodiram dentro dela que, subitamente, não conseguia respirar, não conseguia pensar. Lágrimas silenciosas correram-lhe pelo rosto e a única coisa em que ela conseguia pensar era nos quatro anos anteriores de luta e esforço. Para nada. Tudo aquilo fora inútil. Ela acabaria em um abrigo, se tivesse sorte de encontrar uma vaga. A faculdade teria que esperar até que ela se recuperasse do golpe.
— Não. Ah, meu Deus, não. — Ela respirou fundo, tentando reprimir o pânico, mas foi inútil.
Com o corpo tremendo e as mãos cobrindo o rosto, Kara Foster fez algo que não fazia desde a morte dos pais.
Ela chorou.
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