Misery
Misery
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
— Já.
Paul não precisara fazer muito esforço para urinar, porque com tanto movimento, ele acabara ficando mesmo apertado.
— Agora é hora de voltar para a cama — disse ela pegando o urinol e colocando-o no chão.— Você deve estar exausto. . . e suas pernas devem estar doendo muito. . .
Paul concordou com a cabeça, embora na verdade não conseguisse sentir mais nada — a dose excessiva do remédio o arrastava para a inconsciência com uma rapidez impressionante e ele já começava a enxergar o quarto através de uma transparente nuvem cinzenta. Mas Paul ainda tinha um pensamento na cabeça: Annie ia levantá-lo, e só não veria o volume das caixas em suas nádegas se fosse completamente cega.
Annie empurrou a cadeira até a cama.
— Só mais um pouquinho, Paul, e você poderá dormir direito.
— Você poderia esperar cinco minutos? — conseguiu perguntar Paul.
— Eu pensei que você estivesse cheio de dores, rapaz — insinuou ela.
— E estou. . . — respondeu ele através da nuvem que se tornava ligeiramente mais densa — Está doendo muito. . . muito mesmo. Principalmente o joelho. . . bem onde você me deu um soco quando. . . quando ficou nervosa. . . Ainda não estou preparado para você me pegar no colo. . . você poderia esperar uns cinco minutinhos. . . para. . .
Paul sabia exatamente o que queria dizer, mas as palavras lhe fugiam, perdendo-se pela nuvem cinzenta. Sentindo-se impotente, sabendo que ia acabar sendo pego, ele a encarou.
— Para o remédio fazer efeito, não é isso o que você quer dizer? Paul balançou a cabeça, agradecido.
— Está bem, eu espero. Vou arrumar as compras e volto daqui a pouco.
Assim que Annie deixou o quarto, Paul enfiou a mão na cueca e retirou as caixas de remédio, escondendo-as embaixo do colchão. A nuvem tornava-se cada vez mais densa, mudando de cinza para o negro.
Empurre as caixas o mais que puder, pensou ele, às cegas. Certifique-se que as caixas não vão vir junto do lençol se Annie resolver trocar as roupas de cama. Certifique-se que as caixas. . .
Escondida a última caixa, Paul deixou-se ficar recostado na cadeira, olhando para o teto, onde três letras M pareciam flutuar.
África, pensou ele.
Agora é preciso enxaguar, pensou ele.
Estou numa bruta enrascada, pensou ele.
Rastros, pensou ele. Será que deixei algum rastro? Será. . .
Paul Sheldon desfaleceu. E quando voltou a si, quatorze horas mais tarde, a neve tornara a cair.
II
MISERY
A arte de escrever não causa dor; nasce da dor.
MONTAIGNE
1
A VOLTA DE MISERY
De Paul Sheldon Para Annie Wilkes
Capítulo 1
Ian Carmichael não seria capaz de se mudar de Little Dunthorpe nem por todos os tesouros da Rainha, mas tinha que admitir que quando chovia em Cornwall, a chuva era sempre mais forte do que em qualquer outro lugar da Inglaterra.
No cabideiro que ficava no vestíbulo, havia uma pequena toalha pendurada e Ian a usou para secar os cabelos louros, após ter pendurado o casaco encharcado e de ter tirado as botas.
Ao longe, ressoando pela sala, ele podia ouvir os acordes de uma melodia de Chopin , e ele ficou ouvindo, paralisado, com a toalha na mão esquerda.
Em seu rosto, a água da chuva se misturou as lágrimas.
- Nunca chore na frente dela, meu amigo; isso é algo que você nunca deve fazer - dissera-lhe Geoffrey certa vez.
E Geoffrey estava certo, como sempre. Seu velho e bom amigo Geoffrey raramente se enganava. Mas quando estava sozinho, a viva lembrança de Misery escapando da morte sempre o invadia e era praticamente impossível conter as lágrimas. Ian a amava tanto. Sem ela, não saberia viver. A vida sem Misery não faria o menor sentido para ele.
O parto de Misery havia sido longo e difícil, mas não tão longo e difícil quanto o de qualquer outra mulher, afirmara a parteira. Foi só depois da meia-noite, cerca de uma hora depois de Geoffrey ter saído a cavalo em busca de um médico, que a parteira começou a ficar preocupada de verdade. E foi por essa hora que a hemorragia começara.
- Meu bom amigo Geoffrey! - murmurou Ian, entrando na cozinha ampla e aconchegante, típica das casas de campo do sudoeste da Inglaterra.
- Falou comigo, senhor? - perguntou a senhora Ramage, a excêntrica e adorável governanta que vinha saindo de dentro da despensa. Como sempre, sua touca estava tombada para o lado e ela fedia a rapé, um vício que ela acreditava, depois de todos esses anos, ser ainda um segredo.
- Nada de importante, senhora Ramage.
- Do Jeito que o seu casaco está pingando, senhor, imagino que deva ter se afogado lá fora!
- Quase isso.
"Se Geoffrey tivesse demorado mais dez minutos naquela noite, Misery teria morrido..." Embora tentasse afastar da cabeça esse pensamento terrível e também inútil, ele sempre surgia, pois Ian não podia conceber sua vida sem a presença de Misery.
Mas para livrá-lo desses pensamentos tristes, o choro de uma saudável criança fez-se ouvir. Era seu filho que acabara de acordar e reclamava pela mamada da tarde. Ian distinguiu a voz de Annie Wilkes, a eficiente enfermeira de Thomas, acalmando a criança e trocando-lhe a fralda.
- O pequenino está com apetite hoje! - observou a senhora Ramage. Por alguns instantes, Ian ficou se deliciando com a idéia de ser pai de um menino, até que a esposa surgiu na porta, interrompendo seus pensamentos.
- Olá, querido!
Ian levantou os olhos e olhou para a sua Misery, para a sua querida. Ali estava ela, parada na porta, com os cabelos castanhos caindo sobre os ombros, com suas mechas vermelho-escuras que refletiam o inexplicável brilho de emoções passadas. Seu rosto continuava pálido, mas já se podia notar que ele começava a recobrar o viço anterior. Os olhos escuros e expressivos refletiam o brilho das luzes da cozinha, brilhando como pequeninas pedras preciosas sobre um fundo de veludo Negro.
- Minha querida! - disse ele, correndo para abraça-la, como fizera certo dia em Liverpool, quando julgara que os piratas a haviam raptado, tal como previra Mad Jack Wickersham.
A senhora Ramage lembrou-se de súbito que deixara alguma coisa por fazer na sala e deixou-os, com um sorriso nos lábios. A própria senhora Ramage também costumava perder-se em pensamentos, imaginando como seria a vida de todos eles se Geoffrey tivesse chegado uma hora mais tarde com o medico, naquela noite escura de tempestade, há dois meses atrás; e se a transfusão experimental de sangue não tivesse surtido o efeito esperado, embora seu patrão tivesse tão bravamente concordado em doar seu próprio sangue à esposa.
- Tem certas coisas que não devemos ficar pensando - resmungou ela, seguindo pelo corredor.
Era um bom conselho e Ian já o havia repetido para si mesmo. Às vezes, porem, era muito mais fácil dar conselhos do que recebê-los - tanto ele quanto a senhora Ramage já haviam descoberto isso.
Ian abraçava Misery com firmeza, sentindo que ela vivera, morrera e agora voltara a vida, e ele podia senti-la através do doce perfume de sua pele cálida.
Ian colocou a mão no colo de Misery e sentiu as batidas fortes de seu coração.
- Se você tivesse morrido, eu teria morrido junto - sussurrou Ian.
Misery passou a mão pelo pescoço do esposo, apertando-o ainda mais contra si e disse:
- Não diga isso, meu amor; é uma tolice. Eu estou bem aqui. Agora, me dê um beijo... Se eu tiver que morrer de alguma coisa, vai ser de desejo por você...
Ian lhe deu um longo beijo e afundou as mãos nos cabelos castanhos e sedosos de Misery.
E durante aqueles instantes, nada no mundo tinha a menor importância para os dois.
2
Annie colocou as três folhas datilografadas em cima da mesinha-de-cabeceira e Paul ficou à espera de algum comentário. Ele não estava nervoso, mas curioso, além de muito surpreso consigo mesmo pela facilidade com que mergulhara outra vez no universo de Misery, um universo piegas e melodramático. Mas não havia sido tão desagradável quanto ele imaginara a princípio. Muito pelo contrário, ele sentira um quê de reconfortante, como calçar um velho par de chinelos. E foi por esse motivo que ele ficou boquiaberto e completamente pasmo com a crítica que ela fez:
— Não está certo.
— Você. . . você não gostou?
Paul mal podia acreditar no que ela dizia. Como podia gostar tanto dos outros livros Misery e não gostar desse? Todos os elementos que tanto caracterizavam os livros anteriores estavam ali presentes, transformando-o numa caricatura: a velha governanta de ar maternal cheirando rapé na despensa, Ian e Misery alisando um ao outro como qualquer casalzinho assanhado que acaba de chegar do baile do ginásio da escola numa sexta à noite. . .
Mas agora era a vez de Annie mostrar-se admirada.
— Não gostei?! Como poderia?! É maravilhoso! Cheguei a chorar quando Ian a tomou em seus braços. Eu simplesmente não pude evitar. . .
De fato, Paul reparou que Annie tinha os olhos ainda vermelhos.
— E foi tão gentil de sua parte dar o meu nome à enfermeira de Thomas. . .
Muita esperteza de minha parte, é o que você quer dizer, pensou ele. Pelo menos é o que espero. E se é que você quer saber, o nome do bebê ia ser Sean e, não, Thomas. Eu só mudei porque ia ter que preencher mais um maldito n.
— Então eu não compreendo. . .
— Não, você não compreende. Eu não disse que não gostei do livro, eu disse que não estava certo. Você trapaceou, vai ter que começar novamente. . .
Como podia tê-la julgado a leitora perfeita? Você bem merece, Paul: quando comete um erro de início, vai com ele até o fim. A Leitora Fiel acabara de se tornar uma Editora Impiedosa.
Mesmo sem perceber, Paul assumiu um ar concentrado, como sempre fazia quando ouvia algum leitor. Era o que ele chamava de expressão "Em que posso ser útil, senhora?" Para ele, a maioria dos editores era como uma mulher que invade a oficina e vai logo instruindo o mecânico para dar um fim no barulho estranho do motor ou no ruído embaixo do painel, e quer o serviço pronto para ontem. Seu ar sincero de concentração servia para bajular os editores, e quando eles se sentiam adulados, muitas vezes acabavam abrindo mão de suas idéias malucas.
— Como assim? — perguntou.
— Geoffrey foi em busca de um médico; até aí, tudo bem. Isso foi no capítulo trinta e oito de O filho de Misery. Só que o médico nunca apareceu, você sabe muito bem disso. O cavalo de Geoffrey caiu ao pular a cerca de terreno daquele imprestável, o senhor Cranthorpe — eu espero sinceramente, Paul, que esse trapaceiro receba um castigo bem merecido em A volta de Misery. Geoffrey quebrou algumas costelas e ficou a noite toda na chuva, até que um pastor o encontrou. O médico não apareceu; você entende agora?
— Acho que sim. — respondeu Paul, sem conseguir tirar os olhos dela.
Julgara que ela estava querendo bancar a editora, ou até mesmo a colaboradora, preparando o terreno para lhe dizer o que e como escrever. Mas a coisa não era bem assim. Vejamos o caso do senhor Cranthorpe. Ela esperava que ele fosse castigado, mas não fez disso uma exigência. Para ela, o curso da história era algo fora de seu alcance, embora tivesse o autor do livro em suas mãos. Mas há certas coisas que simplesmente não podem ser feitas. A criatividade, ou á falta de criatividade, nada tinha a ver com essa história; e insistir nisso era algo tão tolo como refutar a lei da gravidade ou jogar pingue-pongue contra a parede. Ela era a Leitora Fiel, sim, mas isso não significava que também fosse a Leitora Palerma.
Annie não admitia que ele tivesse matado Misery. . ., mas também não admitiria que ele a trouxesse de volta utilizando-se de algum artifício duvidoso.
Mas meu Deus do céu! Eu matei Misery!, pensou ele, desanimado. Como vou sair dessa?
— Quando eu era garota, costumava assistir a seriados no cinema. Havia um episódio novo a cada semana. Tinha o do Flash Gordon, do Vingador Mascarado e até um sobre Frank Buck, aquele homem que foi para a África caçar animais selvagens e que conseguia dominar leões com a força do olhar. Você se lembra desses seriados?
— Lembro, sim; mas. . . você não pode ser tão velha assim, Annie. Você deve ter assistido a esses seriados na televisão ou então ficou sabendo deles por um irmão ou irmã mais velho.
Nas bochechas sólidas de Annie formaram-se duas covinhas, que logo desapareceram.
— Ora, seu tolo. . . Eu tinha mesmo um irmão mais velho e nós costumávamos ir ao cinema todos os sábados à tarde. Isso foi em Bakersfield, Califórnia, onde fui criada. Eu gostava do cine-jornal, dos desenhos animados e dos filmes, mas o que eu mais adorava eram os seriados. Eu me pegava pensando neles nos momentos mais inesperados, durante a semana toda; quando assistia a uma aula chata ou quando tomava conta daqueles quatro fedelhos da senhora Krenmitz, que morava no andar de baixo. Eu simplesmente odiava aqueles fedelhos. . .
Annie mergulhou em mais um de seus silêncios melancólicos, desligando-se de tudo, olhos fixos no canto do quarto. Era a primeira vez que isso acontecia depois de um longo período e Paul ficou incomodado com a idéia de Annie estar entrando em mais uma de suas fases negativas. Se isso estava mesmo acontecendo, era melhor tomar cuidado.
Passados alguns instantes, Annie se recobrou e, como sempre, tinha no rosto uma expressão de surpresa, como se não esperasse encontrar o mundo ainda no mesmo lugar.
— Rocket Man era o meu favorito. Lá estava ele, no fim do capítulo seis — Morte no Céu — totalmente inconsciente, dentro de um avião caindo vertiginosamente. Ou então no capítulo nove — Destruição pelo Fogo — em que ele termina amarrado numa cadeira, dentro de um armazém em chamas. As vezes era o carro que não tinha freios, em outras era a exposição a um gás venenoso ou alguma coisa relacionada com eletricidade. . .
Annie falava com uma emoção tão genuína que chegava a soar como algo grotesco.
— São os chamados filme de suspense — arriscou dizer ele. Annie franziu as sobrancelhas e disse:
— Eu sei muito bem, seu espertinho. Às vezes fico pensando que você acha que eu sou burra!
— Mas é claro que não, Annie!
Ela fez um gesto impaciente com uma das mãos e Paul compreendeu que era melhor — pelo menos por hoje — não interrompê-la mais.
— Era a maior diversão tentar descobrir como ele ia conseguir escapar. Às vezes eu descobria, outras vezes não. Mas eu não ligava muito, contanto que eles agissem corretamente. Estou me referindo às pessoas que escreviam as histórias.
Annie lhe dirigiu um olhar cortante para ter certeza que ele entendera a indireta. Paul dificilmente não teria entendido.
— Como por exemplo, a vez em que ele estava inconsciente dentro do avião. Ele recobrou os sentidos e descobriu um pára-quedas embaixo do assento. Ele pulou e conseguiu se salvar — e isso foi certo.
Qualquer professor de literatura discordaria de você, minha cara, pensou ele. Você está se referindo a uma coisa chamada de Deus ex machina, o deus de um mecanismo, utilizado primeiramente nos anfiteatros gregos. Quando o autor metia o herói numa enrascada impossível de escapar, do alto do palco descia uma escada toda enfeitada de flores. O herói sentava-se nela e era içado para o alto, livrando-se do perigo. Só que o mais simplório camponês entenderia o simbolismo: o herói fora salvo por Deus. Mas esse deus ex machina — também conhecido no meio teatral como o "velho truque do pára-quedas embaixo do assento" — saiu de moda por volta de 1700. Exceto, é claro, para os seriados do Rocket Man e para os livros de Nancy Drew. Acho que você está um pouco desatualizada, Annie.
Por um instante terrível e também inesquecível, Paul pensou que ia ter um ataque de riso. Mas como o humor de Annie não estava lá muito bom naquela manhã, era melhor se prevenir contra um provável castigo desagradável e doloroso. Levando a mão até a boca, Paul simulou um acesso de tosse.
Annie lhe deu alguns tapas tão fortes nas costas, que chegaram a lhe machucar.
— Está melhor?
— Estou sim, obrigado.
— Posso continuar, Paul, ou você agora vai ter um ataque de espirros? Quer que eu apanhe o balde? Você não está com vontade de vomitar?
— Não, Annie, por favor, continue. O que você está contando é simplesmente fascinante.
Annie pareceu se acalmar — mas não muito, só um pouquinho.
— Encontrar um pára-quedas embaixo do assento foi uma saída correta. Talvez não muito realista, mas correta.
Paul estava estarrecido — as tiradas brilhantes e ocasionais de Annie sempre o deixavam assim — e viu-se obrigado a concordar com ela. "Correto" e "realista" podem ser sinônimos em alguns casos, mas este não era um deles.
— Vejamos agora um outro episódio em que você poderá ver exatamente o que há de errado com o que escreveu ontem. Escute bem o que vou dizer, Paul.
— Sou todo ouvidos.
Annie lançou-lhe um olhar penetrante para ver se ele não estava debochando, mas Paul tinha no rosto pálido o ar compenetrado de um aluno estudioso. A vontade de rir passara por completo quando dera conta que Annie podia saber tudo a respeito de "deus ex machina", exceto o nome.
— Então muito bem. Este era um dos episódios em que havia um carro sem freios. Os bandidos haviam posto Rocket Man — vestido com o disfarce de sua identidade secreta — dentro de um carro sem freios. Em seguida, soldaram as portas e largaram o carro numa estrada sinuosa nas encostas de uma montanha. Eu me lembro que naquele dia eu fiquei sentada só na beirada da cadeira do cinema. . .
Annie estava sentada na beirada de sua cama e Paul estava de frente para ela. Haviam passado cinco dias desde que ele se aventurara a sair do quarto e Paul estava surpreso com a rapidez com que se recuperara do episódio. Só o fato de não ter sido descoberto parecia lhe proporcionar uma agradável sensação revigorante.
Ela tinha os olhos perdidos na folhinha da parede, onde um menino sorridente deslizava de trenó num interminável mês de fevereiro.
— E lá estava Rocket Man, coitado, sem sua roupa ou seu capacete especial, tentando dirigir o carro e abrir a porta ao mesmo tempo, mais atrapalhado que um homem de um braço só tentando colocar um papel de parede.
Subitamente, Paul conseguiu visualizar a cena e instintivamente compreendeu como algo tão absurdo e melodramático podia ter sido apresentado como cena de suspense. As tomadas seriam feitas de um ângulo que mostrasse o abismo e seriam desordenadas e rápidas. Corta. Aparecem os pés de Rocket Man (Paul via claramente os sapatos — um modelo bico fino típico dos anos quarenta) pisando inutilmente no pedal solto. Corta. Aparece o ombro dele empurrando a porta. Corta. Aparece a porta pelo lado de fora, mostrando-nos um pedaço de solda que está se soltando. A cena mais idiota, nem um pouco literária, mas que servia para alguma coisa. Acelerar corações, por exemplo. Uma versão cinematográfica do Chivas Regal do interior.
— A estrada termina num precipício e todo mundo sabe que se Rocket Man não sair daquele velho Hudson, ele é um homem morto. Meu amigo, lá vinha o carro e Rocket Man ainda insistia em tentar fazer os freios pegarem ou abrir a porta e aí. . . o carro despenca! Voa pelos ares, choca-se naquela muralha de pedra e explode, indo cair no mar. Surge então um letreiro na tela: Próximo Episódio — O Monstro Voa.
Sentada na beiradinha da cama, Annie apertava as mãos com força, ofegante
— Depois disso, eu mal consegui assistir ao outro filme — disse ela sem se voltar para ele e com os olhos ainda perdidos na parede. — E não pensei no Rocket Man uma vez ou outra durante aquela semana. Eu pensei nele o tempo inteiro! Como conseguiria escapar? Eu mal podia imaginar. . . No sábado seguinte, ao meio-dia, eu já estava plantada na porta do cinema, embora a bilheteria só abrisse à uma e quinze e o filme não começasse antes das duas. Você sabe o que aconteceu, Paul? Não, você nem imagina!
Paul continuou calado, embora desconfiasse o que acontecera em seguida. Compreendia agora como ela podia ter gostado do que escrevera, mesmo achando que não estava certo. E Annie expressara sua opinião sem a sofisticação literária e muitas vezes não confiável de um editor, mas com a flagrante e incontestável convicção de uma Leitora Fiel. Paul ficou surpreso em descobrir que estava envergonhado. Annie estava com razão. O que ele escrevera não estava certo.
— O outro filme sempre começava com o final do último episódio. Eles mostraram a estrada, o precipício e Rocket Man tentando abrir a porta. Mas alguns instantes antes do carro despencar, eles mostraram a porta se abrindo e Rocket Man rolando pela estrada! Só então o carro voou pelos ares. O cinema veio abaixo e todos davam vivas porque Rocket Man se salvara, mas eu não fiquei contente, Paul! Eu fiquei furiosa! E comecei a gritar: "Não foi isso o que aconteceu semana passada! Não foi isso o que aconteceu!"
Annie levantou-se bruscamente e começou a andar de um lado para o outro, socando uma mão na outra. Os olhos brilhavam e os cabelos ondulados caíam sobre o rosto ligeiramente abaixado.
— Meu irmão tentou me fazer calar, mas quando viu que não ia adiantar, tentou tapar minha boca com as mãos. Eu lhe dei uma mordida e continuei gritando: "Não foi isso o que aconteceu semana passada! Será que vocês não se lembram? Será que ficaram todos com amnésia?!" Meu irmão disse assim: "Annie, você ficou maluca?", mas eu sabia que não estava maluca. Foi então que apareceu o gerente do cinema dizendo que se eu não me calasse ele teria que me colocar para fora. Aí eu respondi: "O senhor pode apostar como eu vou embora! Isso foi um truque sujo, não foi isso o que aconteceu semana passada."
Annie virou-se e Paul pôde ver claramente um brilho assassino naquele olhar.
— Ele não podia ter saído da porcaria daquele carro! Ele ainda estava lá dentro quando o carro despencou no abismo! Você está me entendendo?
— Estou.
— VOCÊ ESTÁ ENTENDENDO?
Com toda a ferocidade, Annie deu um salto na direção de Paul. Mesmo com a certeza de que ela vinha para machucá-lo como da vez anterior, possivelmente porque não tivesse como se vingar do roteirista trapaceiro que retirara Rocket Man do Hudson antes dele cair no abismo, Paul não se esquivou. Ela abrira para ele a janela de seu passado e Paul pôde ver através dela as raízes da instabilidade atual de Annie. E isso o deixou aterrorizado: a revolta de Annie, apesar de infantil, era algo inquestionavelmente real.
Annie, porém, não bateu nele. Segurou-o pela camisa, e o puxou até que seu rosto quase tocasse no dela:
— VOCÊ ENTENDE?
— Entendo, Annie, entendo sim.
Annie o encarou com um olhar furioso e sombrio. Depois de alguns instantes, julgando que ele devia estar dizendo a verdade, ela largou sua camisa com um certo descaso, empurrando-o contra a cadeira.
Paul fez uma careta de dor.
— Então você sabe muito bem o que está errado.
— Eu acho que sim.
Deus pode me mandar um castigo se eu disser que sei de um jeito para consertar essa situação!
E aquela sua outra voz acrescentou prontamente: Não sei se Deus vai lhe castigar ou salvar, Paulie, mas de uma coisa eu tenho certeza: se você não arranjar uma maneira de trazer Misery de volta — uma maneira em que ela acredite — ela vai acabar te matando.
— Então comece a escrever. — disse ela, secamente, saindo do quarto.
3
Paul olhava para a máquina à sua frente. Enes! Ele jamais imaginara quantas letras "n" havia em média numa linha datilografada.
Eu pensei que você fosse um dos bons, provocou a máquina de escrever. Paul arrumara para ela uma voz zombeteira, um pouco precoce, como a de um adolescente bom de mira num filme de faroeste — um garoto preocupado apenas em fazer fama rapidamente aqui por essas paragens. Você não é assim tão bom; não consegue nem agradar uma ex-enfermeira maluca e gorda. Vai ver, o seu talento também foi afetado naquele acidente. . . e você ainda não se recuperou.
Paul recostou-se na cadeira o mais que pôde e fechou os olhos. Seria mais fácil aceitar a recusa de Annie pelo que ele escrevera se pudesse pôr a culpa na dor, mas, na verdade, as dores haviam diminuído.
As cápsulas roubadas estavam muito bem escondidas entre o colchão e o estrado da cama, mas Paul ainda não tomara nenhuma delas — só em saber que ele as tinha era o bastante. Era algo como um "seguro contra Annie". Annie as acabaria encontrando se enfiasse na cabeça a idéia de virar o colchão, mas este era um risco que ele estava disposto a correr.
Nenhum outro problema havia surgido entre eles desde a discussão sobre o papel. Ela lhe trazia o remédio regularmente e Paul perguntava a si mesmo se Annie não desconfiava que ele estava viciado naquela droga.
Ora, Paul, o que é isso, você está exagerando, não?
Não, não estava. Há três dias atrás, certo de que Annie se encontrava no andar superior, Paul apanhara uma das caixas do remédio e lera a bula de cima a baixo, embora julgasse já ter lido o suficiente quando se deparou com o principal componente da droga. Novril soletrava-se assim: C-O-D-E-Í-N-A;
O fato é que você está melhorando, Paul. Dos joelhos para baixo, suas pernas podem se parecer com desenho de um garoto de quatro anos de idade, mas você está melhor. Você pode passar sem aspirina ou Empirin, não é você que precisa de Novril. Você está apenas alimentando o seu fantasma.
Ele tinha que reduzir a quantidade das cápsulas; ele precisava deixar de tomar algumas delas. E até que conseguisse isso, Annie continuaria a mantê-lo preso numa corrente, assim como o mantinha preso na cadeira — numa corrente de cápsulas de Novril. . .
Tudo bem, eu vou deixar de tomar uma das duas cápsulas que ela me traz de vez em quando. Vou esconder embaixo da língua e guardá-la junto das outras, embaixo do colchão. Mas não hoje. Ainda não estou preparado para isso hoje. Fica para amanhã.
Em sua cabeça, surgiu a voz da Rainha passando sermão em Alice: Nós aqui sabemos o que deveríamos ter feito ontem, e sabemos o que devemos fazer amanhã, mas nunca sabemos o que devemos fazer hoje.
Ora, ora, Paulie, você é mesmo um impostor, insinuou a máquina com a voz firme de valentão que ele inventara para ela.
— Nós, os trapaceiros, nunca somos muito divertidos, mas você tem que reconhecer que nós nunca desistimos — murmurou Paul.
É melhor você pensar seriamente a respeito da quantidade enorme de remédio que está tomando, Paul. É melhor você pensar muito seriamente a esse respeito.
Subitamente, Paul decidiu, sem mais nem menos, que começaria a diminuir a dose de remédio quando conseguisse escrever um primeiro capítulo que agradasse a Annie, um capítulo que ela julgasse não ser uma mentira.
Uma parte dele — aquela que ouvia às melhores e mais sensatas sugestões de editores com uma dose de boa vontade meio contrariada — protestou dizendo que a mulher era maluca e que não havia como prever o que ela iria ou não aceitar; qualquer coisa que ele tentasse seria apenas uma jogada de sorte.
Mas uma outra parte — esta, muito mais consciente — discordava. Ele saberia reconhecer uma boa idéia assim que a tivesse, e ela faria aquele monte de bobagens que dera a Annie para ler — bobagens que haviam lhe custado três dias de trabalho e recomeços sem fim — pareceram um monte de cocô de cachorro ao lado de uma moeda de prata. E não sabia ele que estivera tudo errado desde o início? Não era de seu feitio escrever com tanta dificuldade, tampouco encher uma cesta de lixo até a metade com folhas datilografadas também só até a metade, folhas que invariavelmente terminavam com frases do tipo: "Misery voltou-se para ele, olhos brilhando, e seus lábios murmuraram as palavras mágicas: "Oh, que merda", isso não está dando certo!!! Paul colocara a culpa nas dores e no fato de encontrar-se numa situação tal, que não precisava escrever só para o seu sustento, mas para salvar sua própria vida. Suas primeiras idéias não passavam de mentiras ilusórias. Para falar a verdade, a fonte secara. O texto era ruim porque ele estivera mentindo, e ele sabia muito bem disso.
— Ela conhece o seu jogo muito bem, seu cabeça oca. E agora, o que pretende fazer? — perguntou a máquina de escrever com sua voz insolente e irritante.
Ele não sabia, embora imaginasse que fosse preciso fazer alguma coisa, e rápido. Ele não levara em consideração o estado de espírito de Annie naquela manhã, e podia se considerar um cara de sorte por ela não ter lhe quebrado as pernas de novo com um taco de beisebol, nem derramado ácido em suas mãos, ou qualquer coisa do gênero, para demonstrar que não gostara da maneira como começara o livro. Essas reações críticas eram sempre possíveis, levando em consideração a visão unilateral que Annie tinha do mundo. Se conseguisse escapar desta com vida, Paul mandaria um recado para Christopher. "Quando o editor me lembrava que você estava pretendendo fazer a crítica de um de meus livros, minhas pernas costumavam tremer. Você me elogiou algumas vezes, Chris, meu velho amigo, mas também arrasou comigo mais de uma vez, você bem sabe. De qualquer forma, eu só queria lhe dizer para continuar assim e fazer o pior que puder, pois acabo de descobrir um novo e completo método crítico, meu caro. Poderíamos chamá-lo de Churrasqueira Colorado ou de Escola de Pensamento do Balde Amarelo. Ele faz com que as coisas que vocês escrevem pareçam tão assustadoras quanto um passeio pelo carrossel do Central Park."
Isso tudo é muito divertido, Paul; ficar inventando bilhetes para mandar para críticos pode ser um bom passatempo, mas o que você precisa mesmo é de colocar mãos à obra. O que acha?
É, é isso mesmo.
A máquina sorria afetadamente para ele.
— Como eu te odeio! — murmurou Paul de mau humor, desviando os olhos para a janela.
4
A tempestade de neve que começara no dia seguinte ao da sua expedição ao banheiro persistira por dois dias. Havia pelo menos quarenta e cinco centímetros de neve no chão, desde a última nevasca. Quando o sol finalmente despontou por entre as nuvens, o jipe Cherokee de Annie não passava de um monte indistinto, na alameda em frente à casa.
No momento, porém, o sol voltara a brilhar e o céu mais uma vez surgia radiante. Sentado perto da janela, Paul sentia o calor e a luminosidade do sol em seu rosto e em suas mãos. Longos pingentes de gelo tornavam a derreter ao longo do telhado do celeiro. Paul lembrou rapidamente do carro coberto de neve, pegou uma folha de papel e colocou-a na Royal. No canto superior esquerdo da folha, escreveu A volta de Misery e, no canto direito, o número 1. Paul puchou a folha e bateu: Capítulo 1. Paul batia nas teclas com mais força do que necessário só para Annie ouvir que ele, finalmente, começara a escrever alguma coisa.
Logo abaixo de Capítulo 1 havia aquele imenso espaço branco como um banco de gelo, no qual ele tropeçaria e morreria, asfixiado pela massa gelada.
África.
Contanto que eles agissem corretamente.
Aquele pássaro veio da África.
Tinha um pára-quedas embaixo do assento.
África.
Agora é preciso enxaguar.
Paul sabia que não devia, mas deixou-se levar pelos pensamentos — se Annie o pegasse à toa ao invés de trabalhando, certamente ficaria furiosa. Ele não estava à toa; Ele estava, de certa forma, pensando. Buscando. Procurando.
Procurando o quê, Paulie?
Isso era óbvio. O avião estava caindo. Ele estava procurando o pára-quedas embaixo do assento. OK? Certo o bastante?
Certo o bastante. Encontrar um pára-quedas embaixo do assento é uma saída correta. Talvez não muito realista, mas correta.
Quando era criança, sua mãe o mandara uma ou duas vezes para uma colônia de férias no Centro Comunitário de Malden, durante o verão. E foi lá que ele aprendeu esse jogo. . . as crianças sentavam-se em círculo. . . o jogo era mais ou menos como os seriados que Annie gostava. . .ele quase sempre ganhava. Como era mesmo o nome do jogo?
Paul podia ver um grupo de quinze ou vinte crianças sentadas em círculo num canto do pátio, onde o sol não batia. Todas elas vestiam camisetas do Centro Comunitário de Malden e escutavam atentamente às instruções que o supervisor dava. Você Consegue?, o nome do jogo era Você Consegue? e era exatamente como os seriados, o nome daquele jogo era Você Consegue? Paulie, e é esse o nome do jogo agora, não é?
Era. Ele achava que sim.
Em Você Consegue?, o supervisor começaria a contar uma história a respeito de um menino chamado Corrigan, o descuidado. Corrigan estava perdido no meio de uma floresta na América do Sul. Subitamente, Corrigan percebeu que há leões cercando-o por todos os lados. Corrigan, o descuidado, está cercado por leões que se aproximam a cada minuto que passa. São apenas cinco da tarde, mas isso não é problema para aqueles pequenos gatinhos. No entender dos leões sul-americanos, o jantar às oito da noite é algo que vale apenas para os bobos.
A mente sonolenta de Paul via claramente o cronômetro do supervisor, embora fizessem mais de trinta anos que ele tivera nas mãos aquele cronômetro de prata de lei. Podia ver a lâmina fina dos números, o ponteiro menor que marcava os décimos de segundo e as letras miúdas que formavam o nome do fabricante: annex.
O supervisor escolheria um deles e perguntaria: "Daniel, você consegue?'' No instante que ele acabasse de falar, o cronômetro era acionado e Daniel tinha exatamente dez segundos para continuar a história. Se não conseguisse dizer nada naquele espaço de tempo, Daniel teria que abandonar o círculo e sair da brincadeira. Mas se conseguisse salvar Corrigan dos leões, o supervisor olharia para o círculo e faria a pergunta seguinte — e era esta, precisamente, a pergunta que lembrava Paul a situação em que se encontrava. A segunda pergunta do jogo era: "Ele conseguiu?".
Este era exatamente o papel de Annie. Não era necessária uma saída realista, mas uma saída correta. Daniel poderia dizer, por exemplo: "Por sorte, Corrigan, o distraído, estava com a sua Winchester e tinha bastante munição. Ele matou três leões e os outros fugiram assustados!" Neste caso, Daniel conseguira encontrar uma saída. O supervisor pararia o cronômetro e começaria outra história em que Corrigan, o distraído, se encontrava preso até a cintura num poço de areia movediça.
Dez segundos, porém, não eram o bastante e todos se atrapalhavam facilmente ou. . . tentavam trapacear. Alguém poderia continuar a história assim: "Foi então que apareceu aquele pássaro enorme, um abutre andino, penso eu, e Corrigan agarrou-o pelo pescoço; o pássaro o levantou pelos ares, e livrou-o da areia movediça."
Quando o supervisor perguntasse: "Ele conseguiu?", você tinha que levantar a mão se concordasse com a solução apresentada, ou mantê-la abaixada se achasse que ele ou ela haviam trapaceado. No caso do abutre andino, a criança provavelmente seria convidada a deixar o círculo.
Você consegue, Paul?
Claro! É assim que ganho a vida. É assim que consigo manter duas casas, uma em Nova Iorque, outra em Los Angeles. Por que eu consigo. E não tenho que pedir desculpas por isso, com os diabos! Tem um monte de gente que escreve melhor do que eu, entende melhor as pessoas e compreende do que a mente humana é capaz — estou cansado de saber disso! Mas quando o supervisor perguntava: "Eles conseguiram?", quase ninguém levantava a mão. Mas eles levantavam a mão para mim. . . ou para Misery. . .mas no final, é tudo a mesma coisa. Você consegue? Claro, pode apostar que sim! Há milhares de coisas neste mundo que eu não consigo fazer. Não conseguiria rebater uma bola em curva, mesmo que voltasse para a escola. Não sei consertar um vazamento numa pia. Não sei andar de skate nem tirar um fá maior no violão. Tentei me casar duas vezes, mas não consegui manter o casamento em nenhuma delas. Mas quando se trata de levar você por aí, de amedrontá-lo, de envolvê-lo, de fazer você chorar, rir e até gritar — eu consigo! Eu sou capaz! EU CONSIGO.
— O que temos aqui, meus amigos, são duas coisas em demasia: muito papo furado e muita folha em branco. — murmurou a voz insolente da máquina de escrever, intrometendo-se em meu profundo devaneio.
Você consegue?
Claro! Claro que sim! Ele conseguiu?
Não. Ele trapaceara. Em O filho de Misery, o médico não viera. Talvez a maioria de vocês possa ter se esquecido do que aconteceu na semana passada, mas o ídolo de pedra jamais se esquece. Paul tinha que deixar o círculo e sair da brincadeira. Me desculpem, por favor. Agora é preciso enxaguar. Agora é preciso. . .
5
— Enxaguar — murmurou Paul, apoiando-se no lado direito do corpo. Sua perna esquerda ficou ligeiramente torcida e uma onda de dor o invadiu, tirando-o da sonolência em que se encontrava. Cinco minutos haviam passado. Annie estava na cozinha lavando os pratos e ele ouvia o barulho da louça, a água caindo. Ela geralmente cantarolava enquanto fazia suas tarefas, mas Annie hoje estava em silêncio. Mau sinal. Aqui vai um boletim meteorológico especial para os moradores do município Sheldon. Um furacão está se aproximando e deve atingir o município até as cinco da tarde. Repito: Um furacão está. . .
Mas já era hora de parar de brincadeiras e arregaçar as mangas para o trabalho. Ela queria Misery de volta do mundo dos mortos, mas tinha que ser uma saída correta. Não muito realista, mas correta. Se conseguisse fazer isso nessa manhã, talvez conseguisse segurar a depressão que ele pressentia a caminho, antes que ela explodisse com toda a sua força.
Com o queixo apoiado numa das mãos, Paul observava a vista da janela. Estava agora totalmente desperto e, mesmo sem dar conta, sua mente não parava de pensar um só instante. Os dois ou três andares superiores de sua mente — aqueles que se ocupam de pensamentos do tipo: "qual a última vez que lavei a cabeça" ou "será que Annie vai trazer a próxima dose de remédio na hora certa?" — pareciam ter sumido de cena; deviam ter saído discretamente para degustar um prato de carne ou algo assim. Seus sentidos estavam ligados, mas Paul não prestava a menor atenção ao que seus olhos viam ou ao que seus ouvidos escutavam.
Uma outra parte de sua mente trabalhava furiosamente buscando idéias, rejeitando-as, combinando-as e rejeitando as combinações. Paul tinha noção deste processo interior, mas não tinha, nem tampouco queria, um contato direto com ele. Aquele era um trabalho duro e suado, como o dos trabalhadores explorados.
Paul chamava a esse processo de TENTAR TER UMA IDÉIA; e TENTAR TER UMA IDÉIA era bem diferente de TER UMA IDÉIA. TER UMA IDÉIA era uma maneira mais simples de dizer: "Eu estava inspirado" ou "Eureca!" ou, ainda, "Minha musa me inspirou!"
A idéia de Carros velozes surgira em sua cabeça um belo dia em Nova Iorque. Ele saíra de casa com a única intenção de comprar um videocassete para sua casa na rua 83, quando passou por um estacionamento e viu um dos empregados tentando abrir a porta de um carro com um pé-de-cabra. Isso foi tudo. Paul não tinha idéia se aquele ato era certo ou errado e, depois de andar dois ou três quarteirões, aquilo já não tinha mais importância. O empregado do estacionamento acabara de se tornar Tony Bonasaro. Ele sabia tudo sobre Tony, exceto o nome, que tirou mais tarde de um catálogo telefônico. Metade da história já amadurecera em sua mente e o restante começava a se encaixar. Paul sentia-se leve, feliz, extasiado. Sua musa chegara e ela era tão bem-vinda quanto um cheque inesperado chegando pelo Correio. Saíra para comprar um videocassete e voltara para casa com algo muito melhor. Ele tivera uma IDÉIA!
Tentar TER UMA IDÉIA não era um processo tão nobre nem tão sublime — embora fosse tão misterioso e necessário — quanto o outro. Quando se está escrevendo um livro, quase sempre aparece um bloqueio em alguma parte, e não adianta querer ir adiante, a não ser que se tenha uma IDÉIA.
Quando precisava de alguma IDÉIA, Paul geralmente vestia um casaco e saía para um passeio. Para ele, caminhar era um ótimo exercício, embora fosse também tedioso. Se não tivesse que sair em busca de uma IDÉIA, Paul levava um livro. Quando não havia com quem conversar durante o passeio, o livro tornava-se uma necessidade. Mas quando era realmente preciso TER UMA IDÉIA, o tédio estava para o bloqueio na história como a quimioterapia está para um sujeito canceroso.
Lá pelo meio de Carros velozes, Tony matara o tenente Gray quando este tentou lhe colocar algemas, sorrateiramente, dentro de um cinema em Times Square. Paul queria que Tony escapasse impune — pelo menos por algum tempo — porque não haveria uma terceira parte do livro mostrando Tony atrás das grades. Tony não podia simplesmente sair do cinema e deixar Gray sentado numa poltrona com o cabo de uma navalha enfiado embaixo do braço esquerdo, porque pelo menos três pessoas sabiam que Gray saíra para se encontrar com ele.
O problema era: como se livrar do corpo. E Paul não sabia o que fazer. Aparecera o bloqueio. E era esse o jogo. Corrigan, o distraído, acaba de matar um cara dentro de um cinema em Times Square e agora precisa levar o corpo até o carro sem que ninguém faça comentários do tipo: "Ei, esse cara está mesmo morto como parece ou apenas sofreu algum ataque?" Se conseguir levar o corpo de Gray até o carro, Corrigan irá até Queens e o largará numa construção abandonada que conhece. Paulie, você consegue?
Não era preciso responder em dez segundos, é claro. Paul ainda não tinha vendido o livro — estava escrevendo por conta própria — e não havia nenhum prazo estipulado para entrega. Mas havia sempre um prazo, uma hora em que era preciso deixar o círculo, e a maioria dos escritores sabia disso. Quando o bloqueio demorava muito a ser transposto, a história começava a se deteriorar, a cair aos pedaços; todos os pequeninos truques e artimanhas começavam a aparecer.
Paul saíra para um passeio e nada tinha em mente, exatamente como neste momento. Ainda não caminhara nem dois quilômetros quando um de seus trabalhadores forçados gritou lá de dentro: E se ele começar um incêndio?
Podia dar certo. Paul ainda não tivera o "estalo", nem sentia-se verdadeiramente inspirado; era como um carpinteiro que olhasse para um pedaço de madeira achando que ele pode quebrar o galho.
Tony podia tocar fogo no estofo de uma poltrona. Como? Ora, nesses cinemas, as poltronas estão sempre rasgadas. Haveria muita fumaça. Bastante fumaça. Ele não sairia de imediato. Assim que fosse possível, ele sairia carregando Gray, que passaria perfeitamente por uma pessoa desmaiada. E então?
A idéia era boa, mas não tinha nada de excepcional. Além disso, havia uma série de detalhes a serem elaborados. Mas ele tivera UMA idéia. Podia continuar o livro.
Paul nunca precisara ter uma idéia para começar um livro, mas seu instinto lhe dizia que isto podia ser feito.
Sentado calmamente na cadeira, o rosto na palma da mão, Paul observava o celeiro. Se pudesse caminhar, estaria lá fora, dando um passeio pelo campo. Sentado calmamente na cadeira, quase a cochilar, Paul esperava que algo lhe ocorresse. Não tinha noção de nada a seu redor, exceto dos pensamentos interiores. Construíra edifícios inteiros de faz de conta, fizera cálculos, acabara condenando-os e demolindo-os num abrir e fechar de olhos. Dez minutos se passaram. Quinze. Annie passava o aspirador na sala, sem cantarolar. Paul ouvia o barulho do aparelho, sem sentir que estava ouvindo. Os sons entravam por um ouvido e saíam pelo outro, como água correndo por uma calha.
Por fim, os rapazes dos trabalhos forçados deram uma luz, como faziam de vez em quando. Eles não paravam um só instante e Paul não os invejava nem um pouco.
Sentado calmamente na cadeira, Paul começou a TER UMA IDÉIA. A parte consciente de sua mente voltava a trabalhar — O DOUTOR ESTÁ! — e ele pegou essa idéia como se pega uma carta que o carteiro joga por debaixo da porta. Paul começou a examiná-la, quase a rejeitou (aquilo não era o rumor de reclamações dos rapazes lá de dentro?), decidiu reconsiderá-la e chegou à conclusão de que metade dela serviria para alguma coisa.
Uma outra luz — esta, mais intensa que a primeira.
Paul começou a bater com os dedos no peitoril da janela, inquieto.
Por volta das onze da manhã, começou a trabalhar. A princípio, num ritmo lento — uma ou outra batida seguida de longos intervalos silenciosos; algo equivalente a um arquipélago visto do alto: uma comprida fileira de montinhos de terra, entrecortada por extensas faixas azuis de mar.
Pouco a pouco, os intervalos de silêncio foram diminuindo e podia-se ouvir, de vez em quando, eventuais piques de batidas na máquina — elas soariam tão agradáveis na máquina elétrica de Paul, mas as batidas da Royal eram pesadas e terrivelmente irritantes.
Paul, entretanto, não prestou a menor atenção à voz esganiçada da máquina. Lá pelo final da primeira página, ele ainda estava aquecendo, mas ao chegar ao final da segunda, Paul já estava num pique total.
Algum tempo mais tarde, Annie desligou o aspirador e apareceu na porta do quarto a observá-lo. Paul não fazia a menor idéia de que Annie estava ali parada — para falar a verdade, ele não fazia idéia nem que ele estivesse ali. Conseguira escapar. Encontrava-se no cemitério da igreja de Little Dunthorpe, respirando o ar úmido da noite, sentindo o aroma do musgo, da terra e da neblina; ouviu o relógio da torre da igreja presbiteriana bater duas badaladas e colocou-o na história, sem pestanejar. Quando estava embalado, Paul chegava a ver as cenas através do papel. E era assim que se sentia agora.
Annie ficou a observá-lo por um longo tempo. Estava imóvel, com o rosto sério e sombrio, mas satisfeito. Quando ela foi embora, Paul sequer ouviu os pesados passos dela pelo corredor.
Paul trabalhou direto até às três da tarde e, às oito da noite, pediu a Annie que o colocasse de volta na cadeira; trabalhou por mais três horas, embora fortes dores o atacassem por volta das dez. Quando ela entrou no quarto, às onze horas, Paul pediu mais quinze minutos.
— Por hoje já chega, Paul. Você está branco feito uma vela.
Annie o colocou na cama e em menos de três minutos Paul estava dormindo. Pela primeira vez desde que saíra do nevoeiro, Paul conseguiu dormir direto a noite inteira. E pela primeira vez também, não teve qualquer tipo de sonho.
Mas sonhara bastante enquanto estivera acordado.
6
A VOLTA SE MISERY
De Paul Sheldon Para Annie Wilkes
Capitulo 1
Por um instante, Geoffrey Alliburton não soube dizer quem era aquele homem batendo na porta, não só porque estivesse sonolento e a campainha o tivesse acordado de um sono profundo. Para ele, a vida numa pequenina vila tinha um aspecto irritante: ali não vivia gente suficiente para que uma pessoa pudesse ser considerada um perfeito estranho; muito pelo contrário, havia apenas gente o suficiente para que um reconhecesse o outro de imediato. Algumas vezes, bastava ver alguém familiar para se começar uma conversa - esta sensação de familiaridade nem escondia uma improvável mas inteiramente possível relação ilegítima do passado. Na maioria das vezes, era possível lidar com esses momentos: a conversa seguia o seu curso normal e sempre a pessoa tentava se esforçar ao máximo para lembrar o nome de uma pessoa que ela não devia ter esquecido. A coisa só se tornava mais embaraçosa quando dois rostos familiares apareciam de uma só vez e a pessoa se via na obrigação de fazer as apresentações.
- Espero não estar incomodando, senhor - desculpou-se o homem, sem parar de revirar um boné de pano barato que tinha nas mãos.
A luz do lampião que trazia, Geoffrey pôde ver um homem de pele amarelada, cheia de rugas, com uma expressão terrivelmente assustada.
- Eu não queria falar com o senhor Bookings. Pelo menos não antes de ter falado com o senhor, se o senhor entende o que quero dizer.
Geoffrey não entendia, mas lembrou-se subitamente quem era aquele visitante noturno. A menção do nome do senhor Bookings, ministro da igreja, esclarecera o mistério. Há três dias atrás, o ministro encomendara o corpo de Misery no pequeno cemitério que ficava atrás da sacristia. Este homem estivera presente ao enterro e se mantivera a uma distância considerável, onde ninguém reparasse nele.
Chamava-se Colter e era um dos sacristãos da igreja. Ou melhor, para usar de franqueza, ele era coveiro.
- Em que lhe posso ser útil, Colter?
- São aqueles ruídos, senhor - disse o homem, cheio de hesitação. Os ruídos no cemitério. A senhora não descansa em paz, senhor, não descansa mesmo, senhor, eu estou com medo. Eu...
Geoffrey sentiu como se alguém tivesse lhe dado um soco na boca do estômago. Respirou fundo e sentiu uma onda quente de dor nas costelas, enfaixadas pelo doutor Shinebone. As sombrias previsões do medico afirmavam que ele certamente pegaria uma pneumonia depois de ficar a noite inteira dentro de uma vala, embaixo de um temporal. Já haviam passado três dias, porém, e Geoffrey não sentira nenhuma ponta de febre nem fora atacado pela tosse. Estava certo que não ficaria doente. Deus não perdoava os pecados assim tão facilmente, mas Geoffrey acreditava que Ele o pouparia para que pudesse viver bastante e perpetuar a memória de sua pobre querida.
- O senhor está bem? - perguntou Colter. - Ouvi dizer que o senhor não estava nada bem naquela noite. Na noite em que ela morreu...
- Sim, estou bem - assegurou-lhe Geoffrey - Esses ruídos que você afirma escutar, Colter... você sabe que eles não passam de pura imaginação, não sabe?