Misery
Paul
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Paul gritava e gritava. Dores! Deusa! Dores! Oh, África! Annie olhava para ele e para o lençol preto e ensangüentado com uma ligeira preocupação. Seu rosto era o de uma mulher que acaba de ouvir no rádio que um terremoto matou dez mil pessoas na Turquia ou no Paquistão.
— Você vai ficar bom Paul — disse ela, numa voz subitamente assustada.
Ela começou a olhar de um lado para o outro sem parar, tal como fizera no dia em que as chamas do livro estavam prestes a sair de seu controle. De repente ela achou o que procurava e pareceu ficar aliviada.
— Vou jogar fora esse lixo.
Annie apanhou o seu pé. Os dedos ainda tremiam. Quando Annie chegou até a porta, eles pararam de se mexer. Paul ainda pôde ver uma cicatriz que tinha no peito do pé. Lembrava-se dela. Ele pisara numa garrafa quebrada quando era menino. Foi na praia Revere? É, ele achava que sim. Ele se lembrava de ter começado a chorar e de seu pai lhe dizer que era apenas um pequeno talho — seu pai o mandara parar de agir como alguém que tivesse perdido o pé. Annie parou na porta e voltou-se para ele. Paul gritava e se contorcia no lençol queimado e encharcado de sangue. Seu rosto estava tão pálido quanto o de um defunto.
— Agora você está amputado. E não venha botar a culpa em mim. A culpa é toda sua.
Annie sumiu. E Paul também.
23
Uma nuvem negra. Paul afundava numa nuvem negra, sem se importar se a nuvem significava a morte ou a inconsciência. E ele quase desejou que fosse. Só que. . . sem dores, por favor. Sem lembranças, sem dores, sem horror, sem Annie Wilkes.
Paul afundava em direção à nuvem, afundava para dentro da nuvem, mal distinguindo seus próprios gritos e o cheiro de sua própria carne queimada.
Os pensamentos de Paul foram se desvanecendo. Deusa! Vou matar você! Deusa! Vou matar você! Deusa!
E então nada mais havia além do vazio.
III
PAUL
"Não adianta. Estou tentando dormir há meia hora e não consigo. Escrever tornou-se aqui uma espécie de vício. É a única coisa que desejo fazer. Essa tarde, li tudo o que escrevi. . . e me pareceu tão vivido. Sei que parece vivido por que minha imaginação preenche todos os trechos que uma outra pessoa não compreenderia. Quer dizer, é vaidade minha. Mas parece um toque de mágica. . . Eu simplesmente não consigo viver o presente. Se o fizesse, enlouqueceria."
JOHN FOWLES O Colecionador
1
Capítulo 32
- Jesus Santíssimo - murmurou Ian, jogando-se para frente.
Geoffrey agarrou-o pelo braço. A batida ritmada dos tambores ecoava em sua cabeça como algo saído de um ritual assassino. As abelhas zumbiam sem parar, entrando e saindo da clareira como que atraídas por um ímã, pensou Geoffrey repulsivamente, tal como eles.
2
Paul segurou a máquina e sacudiu-a. Uma peça pequenina caiu sobre o tablado que lhe servia de mesa. Paul apanhou-a.
Era a letra t. A máquina de escrever tinha simplesmente cuspido o seu t.
Vou reclamar à gerência. Não vou apenas pedir uma máquina nova, vou exigir outra! Ela tem dinheiro, eu sei que tem. Talvez esteja escondido no meio das frutas no celeiro ou enfiado entre as paredes do Lugar Risonho, mas ela tem grana, e o "t", meu Deus, a segunda letra mais usada em minha língua. . .
Mas é claro que ele não ia pedir nada a Annie, e muito menos exigir. Em tempos passados, vivia um homem que teria pelo menos tido coragem de pedir. Um homem que vivia consumido por dores terríveis, um homem que não tinha nada a que se agarrar, nem mesmo a essa droga de livro. Aquele homem teria pedido outra máquina. Machucado ou não, aquele homem tinha tido peito de pelo menos tentar enfrentar Annie Wilkes.
Esse homem tinha sido ele, e Paul achou que devia se envergonhar. Mas aquele homem tinha duas grandes vantagens sobre este: aquele homem tinha dois pés. . . e dois dedos polegares.
Paul ficou pensativo por alguns instantes, releu a última linha que escrevera (preenchendo mentalmente os espaços em branco) e simplesmente voltou ao trabalho.
Melhor assim. Melhor não pedir nada. Melhor não fazer provocações. Lá fora, as abelhas zuniam. Era o primeiro dia de verão.
3
Tinham sido.
- Solte-me! - gritou Ian, levantando as mãos para Geoffrey. Seus olhos saltavam furiosos do rosto lívido e ele parecia ignorar totalmente quem o segurava, impedindo-o de se aproximar de sua querida. Geoffrey teve certeza que Ian ficara fora de si quando Hezekiah puxou os arbustos e eles puderam ver o que estava acontecendo. Ian estava quase na beirada e ao menor movimento acabaria caindo na clareira. Se isso acontecesse, ele traria Misery consigo.
- Ian..
- Solte-me! - disse ele, tentando livrar-se das mãos de Geoffrey.
- Não faça isso, senhor. - murmurou Hezekiah, receoso. - As abelhas ficarão irritadas, podem picar a senhora..
Ian não pareceu ter ouvido. Com o olhar perplexo e ao mesmo tempo furioso, ele deu um soco no seu velho amigo Geoffrey, que ficou a ver estrelas.
Hezekiah começou a balançar o potencialmente mortífero gosha - um saco com areia que os Bourkas usavam em seus trabalhos ocultos - e disse:
- Não! deixe que eu cuido disso!
Com certa relutância, Hezekiah segurou a ponta do fio de couro que prendia o saco e balançou-o vagarosamente, como se ele fosse um pêndulo.
Ian deu outro soco em Geoffrey e dessa vez os dentes dele abriram um corte nos lábios. Ele sentiu o gosto do sangue quente a lhe escorrer pela boca e segurou a blusa desbotada de Ian, que ficou ainda mais rasgada do que já estava. Por pouco ele não se soltou. Meio atordoado, Geoffrey percebeu que Ian vestira essa mesma blusa no jantar oferecido pelo barão e pela baronesa, há três dias atrás. Claro que era a mesma camisa, nenhum deles tinha tido oportunidade de trocar de roupa desde aquela noite. Há três dias atrás... pelo estado da camisa, Ian parecia estar usando a camisa há pelo menos três anos e Geoffrey teve a sensação que o jantar parecia ter sido há pelo menos três séculos atrás. "Só há três dias atrás," pensou ele novamente, ainda atordoado, pouco antes de Ian começar a lhe bater outra vez.
- Maldito seja você! Solte-me!
Ian socava o rosto de Geoffrey sem parar. Em seu estado normal, Ian seria capaz de morrer por aquele amigo.
- Você quer demonstrar o seu amor por ela matando-a? - perguntou Geoffrey, calmamente - Se é isso o que quer fazer, então você terá que me bater até eu perder os sentidos.
Ian hesitou. Um brilho aparentemente sensato pareceu retornar a seus olhos aterrorizados e enlouquecidos.
- Preciso ir ter com ela - murmurou ele, como que dentro de um sonho. - Desculpe-me por ter batido em você, Geoffrey, desculpe-me sinceramente, meu velho amigo.. sei que você me compreende, mas eu preciso... você esta vendo..
Ian olhou novamente, como que para confirmar a cena terrível que se descortinava a sua frente. Mais uma vez, ele fez menção de correr em direção a Misery, presa a uma arvore, no centro da clareira. As mãos levantadas dela estavam presas no galho mais baixo do eucalipto, única árvore existente na clareira, pelas algemas de aço do Barão Heidzig, único objeto que os Bourkas aparentemente haviam gostado, antes de empurrá-lo para dentro da boca da deusa, levando-o de encontro a uma morte inquestionavelmente terrível.
Dessa vez, foi Hezekiah quem segurou Ian. Os arbustos roçaram uns nos outros, fazendo barulho e Geoffrey olhou para dentro da clareira quase sem ar, como um homem escalando uma montanha com uma carga de explosivos nas costas. "Uma picada apenas. Só uma e ela morre", pensou ele.
- Não, senhor... - disse Hezekiah, com uma certa paciência assustadora - É como se a deusa dos Bourkas dissesse... se formos ate lá, as abelhas saem desse transe, e se isso acontecer, não terá mais importância se ela morrerá com uma só picada ou com mil. Se as abelhas acordarem, todos nós morreremos, mas ela será a primeira e sua morte será a pior.
Pouco a pouco, Ian começou a se acalmar e ficou entre os dois homens, um branco e o outro negro. Um pouco relutante, Ian olhou para a clareira, como se não quisesse ver, mas ao mesmo Tempo sem conseguir evitar o olhar.
- O que vamos fazer? 0 que vamos fazer para salvar a minha querida?
- Eu não sei - respondeu Geoffrey.
Ele próprio estava tão aflito que mal conseguiu reprimir o que ia dizer. Não era a primeira vez que este pensamento lhe ocorria. Ian possuía a mulher que ele também amava (embora em segredo) e podia desabafar, grilar e ficar quase tão histérico quanto uma mulher, ao passo que ele precisava sempre disfarçar seus sentimentos. Mas afinal de contas, para o resto do mundo, ele e Misery eram apenas amigos.
"É, apenas amigos", pensou ele com ironia, voltando os olhos para a clareira, para a sua "amiga".
Misery não usava uma só peça de roupa, mas Geoffrey julgou que mesmo um padre puritano, desses que aparecem nos vilarejos três vezes por semana para rezarem a missa, não a acusaria de indecente. Esse padre fictício sairia correndo só de ver Misery, mas seus gritos seriam causados mais pelo terror do que por atentado ao pudor. Misery não usava uma só peça de roupa, mas estava longe de estar despida..
Misery estava coberta por abelhas, da cabeça até a ponta dos pés. Ela parecia vestida num estranho hábito de freira, que se mexia e ondulava pelas curvas dos seios e quadris, mesmo sem ter a menor sombra de vento. Seu rosto parecia coberto por um véu, tal qual as mulheres muçulmanas. Só os olhos azuis podiam ser vistos através daquela mascara que rastejava lentamente pelo rosto, pelos lábios, pelo nariz e pelo queixo de Misery. Mais abelhas gigantes e marrons africanas, as mais venenosas e enfezadas de todo o mundo, rodeavam as algemas do barão cobrindo as mãos de Misery como se fossem luvas.
Enquanto Geoffrey a observava, mais e mais abelhas surgiam de todos os lugares, e ele reparou, apesar de seu estado, que a maioria delas vinha do oeste, onde estava localizada a grande rocha com o rosto da deusa.
Os tambores pulsavam num ritmo inalterável e as batidas eram quase tão soporíferas quanto o zumbido das abelhas, mas Geoffrey sabia que o adormecimento delas era apenas ilusório, pois testemunhara o que tinha acontecido com a baronesa - graças a Deus Ian tinha sido poupado do espetáculo... O zunido soporífero das abelhas subitamente aumentava tal como o zunido de uma furiosa serra elétrica... um som que abafara os gritos agoniados da mulher morrendo aos poucos. Ela era uma mulher tola e fútil, e perigosa também - quase os matara ao soltar a surucucu de Stringfellow - mas fosse ela tola ou não, fútil ou não, perigosa ou não, ninguém, nem homem nem mulher, merecia morrer daquele jeito.
A pergunta de Ian ecoou na cabeça de Geoffrey: "O que vamos fazer? O que vamos fazer para salvar a minha querida?"
- Não há nada que possamos fazer agora - respondeu Hezekiah - mas ela não corre perigo. Enquanto os tambores estiverem tocando, as abelhas continuarão adormecidas, e a senhora Misery também adormecerá.
As abelhas cobriam o corpo de Misery como um lençol grosso e móvel. Os olhos dela, abertos mas absortos, pareciam começar a dar lugar às abelhas fervilhantes e barulhentas.
- E se os tambores pararem? - perguntou Geoffrey, num sussurro.
E então, os tambores pararam. Por um segundo, os três
4
Paul olhou para a última frase sem acreditar no que via. Ele levantou a Royal — ele continuava a fazer da máquina um tipo peculiar de halteres toda vez que Annie estava fora do quarto, só Deus sabe por quê — e sacudiu-a. Uma outra letra caiu no tablado que lhe servia de mesa.
Lá de fora vinha o ruído do cortador de grama azul-claro — Annie estava no jardim, dando uma aparadinha na grama para aqueles porcarias, os Roydmans, não terem nada a falar a respeito dela na cidade.
Paul recolocou a máquina no tablado e levantou-a só de um lado para apanhar a peça que caíra. Os raios longos do sol da tarde inclinavam-se pela janela e Paul olhou para a letra, incrédulo.
O pedacinho de metal, em alto relevo, e sujo de tinta era:
E e
Para sua alegria, a velha Royal cuspira a letra mais usada de sua língua.
Paul olhou para o calendário. A foto de um campo florido mostrava o mês de maio, mas ele passara a contar os dias numa folha de rascunho e, de acordo com este calendário particular, estavam no dia 21 de junho.
Deixe que venham esses loucos, longos e preguiçosos dias de verão, pensou ele com amargura, jogando a letra de metal na lata de lixo.
O que fazer agora? Mas é claro que ele sabia qual era o próximo passo. Escrever à mão. Era este o próximo passo.
Mas não agora. Paul sentiu-se subitamente cansado. Embora há poucos segundos atrás estivesse ansioso para atrair Ian, Geoffrey e o sempre divertido Hezekiah até a emboscada dos Bourkas, fazendo com que todos entrassem dentro das cavernas atrás do rosto da deusa para o grande final. A brecha no papel fechara-se com um estrondo.
Amanhã.
Amanhã ele continuaria a história à mão.
Dane-se para escrever à mão. Reclame à gerência, Paul.
Mas ele não ia fazer tal coisa. Annie andava muito esquisita.
Paul ouvia o ruído monótono do cortador de grama, via a sombra dela no chão e, como sempre acontecia quando ele ficava a pensar que Annie andava muito esquisita, a imagem do machado subindo e descendo voltava à sua cabeça; a imagem do rosto horrendo e impassível de Annie todo salpicado de sangue. Tudo tão claro. Cada palavra que ela proferira, cada grito que ele gritara, o barulho do machado partindo o osso, o sangue na parede. Tudo cristalino. E, como ele sempre também fazia, Paul tentou bloquear essas lembranças.
Paul entrevistara inúmeras vítimas de acidentes para escrever a reviravolta final de Carros velozes — Tony Bonasaro sofria um acidente quase fatal ao tentar fugir da polícia (o acidente levava ao epílogo do livro, em que Tony era interrogado por um colega do falecido tenente Gray, num quarto de hospital). E Paul ouvira sempre a mesma história. A maneira como ela era contada podia ser diferente, mas o conteúdo era sempre o mesmo: Eu só lembro de entrar no carro e de ter acordado aqui. Não lembro de mais nada.
Por que isso não acontecera com ele?
Porque os escritores lembram-se de tudo, Paul. Especialmente dos sofrimentos. Mande um escritor tirar a roupa e aponte para cada cicatriz e ele lhe contará a história de cada uma delas. As maiores acabam virando livros, não amnésia. Para ser um escritor é preciso ter um pouco de talento, mas o único pré-requisito de verdade é a capacidade de lembrar a história de cada cicatriz.
A arte consiste na permanência das lembranças.
Quem disse isso? Thomas Szasz? William Faulkner? Cyndi Lauper?
Esta última lhe trouxe outras lembranças, uma associação triste e dolorosa, comparada à sua situação atual: Cindy Lauper cantando em seu jeito alegre uma música chamada "Girls just want to have fun". Era tão clara a lembrança que Paul quase podia ouvi-la: Oh daddy dear, you're still number one/ But girls, they wanna have fuh-un/ Oh when the workin day is done/ Girls just wanna have fun*
* "Você continua sendo meu preferido, papai/ Mas as meninas querem se divertir Quando saem do trabalho/ As meninas só querem se divertir."
Subitamente, Paul desejou escutar uma música de rock-and-roll muito mais do que algum dia ele desejara um cigarro. Não precisava ser Cindy Lauper. Qualquer um servia. Jesus Cristo, Ted Nugent seria bom.
O machado descendo.
O zunido do machado.
Não pense nisso.
Isso era tolice, ele vivia dizendo a si mesmo para não pensar nisso, mas sabia o tempo inteiro que aquilo estava bem ali, como um nó na garganta. E ele ia ficar com aquilo engasgado ou ia tomar a atitude de um homem e colocar tudo para fora?
Outra lembrança; hoje era o dia das Mais Pedidas de Paul Sheldon. Lembrara-se de Oliver Reed como o cientista maluco, porém convincente, do filme The Brood, de David Cronenberg. Reed incitava seus pacientes do Instituto de Psicoplasmática (nome que Paul achou terrivelmente engraçado) a "irem até o fim, a irem direto até o fim".
Bem. . . talvez aquele não fosse um mau conselho, dependendo da ocasião.
Eu fui até o fim uma vez. Foi o bastante.
Isso era um disparate. Se ir até o fim uma vez apenas era o bastante, era melhor ele ter virado um vendedor de aspiradores de pó como seu pai.
Vá até o fim. Vá com isso até o fim, Paul. Comece com Misery. Não. Sim. Dane-se.
Paul inclinou-se, pôs as mãos sobre os olhos e, gostasse ou não, começou a passar tudo de novo até o fim. Tudo até o fim.
5
Ele não morrera nem dormira, mas depois da amputação a dor desaparecera. Ele se deixara levar como um balão de puro pensamento, separado do corpo e preso apenas por um fio comprido.
Droga, por que estava se preocupando? Ela fizera mesmo. E desde aquele instante até agora, seu tempo fora tomado por dores, tédio e acessos ocasionais de trabalho no livro tolo e melodramático, apenas para escapar dos dois primeiros. Nada fazia sentido.
Ah, não é assim — há uma ligação, Paul. Há uma linha que liga isso tudo. Uma linha bem verdadeira. Você não vê?
Misery, claro. Era ela a linha que a tudo ligava, mas fosse falsa ou verdadeira, não deixava de ser tola demais.
Como substantivo comum, significava dor*, geralmente uma dor prolongada e freqüentemente sem sentido; como nome próprio, significava um personagem e um enredo, este último muito mais prolongado e sem sentido, mas que estava chegando ao fim. Misery ocupara os últimos quatro (talvez cinco) meses de sua vida, muito bem, era Misery demais, Misery todos os dias, mas, sem dúvida, isso era muito simples, sem duvida. . .
* — Misery, em inglês, é o substantivo usado para designar 'sofrimento', 'dor' e 'aflição' e, não, 'miséria'.
Não, Paul. Nada é simples em se tratando de Misery. Exceto pelo fato que você deve sua vida a ela, assim como isso pode ser. . .você acabou virando Scheherazade afinal de contas, não foi?
Mais uma vez, Paul tentou afastar esses pensamentos da cabeça, mas não conseguiu. As lembranças permaneciam. A carcereira também queria se divertir. Um pensamento novo e inesperado lhe surgiu na cabeça, dando margem a uma nova série de pensamentos.
O que você continua a não ver, justamente por ser tão óbvio, é que você está se passando por Scheherazade para você mesmo.
Paul piscou os olhos, abaixou a mão e ficou vendo os raios de sol de verão que ele não esperara ver novamente. A sombra de Annie surgiu e desapareceu.
Seria aquilo verdade?
Scheherazade para mim mesmo? Se isso fosse verdade, então ele estava na frente da maior idiotice do mundo: ele devia sua vida ao fato de querer terminar uma droga de livro que Annie o persuadira a escrever. Ele devia ter morrido. . . mas não pôde morrer. Não enquanto não soubesse como o livro ia terminar.
Você está ficando maluco.
Tem certeza?
Não, ele não tinha. Ele não tinha certeza de nada.
Só de uma coisa: sua vida dependera e continuava a depender de Misery.
Paul deixou a mente vagar.
A nuvem. Comece pela nuvem.
6
Dessa vez, a nuvem tinha sido mais escura, mais densa e, de certo modo, mais suave. A sensação não era a de estar flutuando, mas escorregando. Às vezes, os pensamentos surgiam, outras vezes ele sentia dores e, algumas vezes, ele ouvia a voz de Annie, distante, como da vez em que as chamas do livro escaparam da churrasqueira e ela quase perdeu o controle da situação.
— Beba isso, Paul... . você precisa beber isso!
Escorregando?
Não.
Este não era o verbo apropriado. O verbo correto era afundando. Paul lembrou-se de um telefonema às três da manhã, na época em que estava na Universidade. O inspetor do alojamento do quarto andar bateu em sua porta muito sonolento chamando-o para atender o telefone. Era sua mãe. Venha o mais rápido que puder, Paulie. Seu pai teve um ataque. Ele está afundando... Paul foi para casa o mais rápido que pôde, forçando o velho Ford a uma velocidade de setenta quilômetros por hora, apesar das trepidações que surgiam sempre que ele passava dos cinqüenta. No final das contas, seu esforço foi em vão. Quando ele chegou, seu pai não estava mais afundando — já tinha afundado.
O quanto ele não teria chegado perto de afundar na noite do machado? Paul não sabia dizer, mas o simples fato dele quase não ter sentido dores na semana seguinte à amputação talvez fosse um bom indicador do quanto ele tinha chegado perto de afundar. Além do pânico na voz de Annie.
Paul estivera num estado de semicoma; mal conseguia respirar devido aos efeitos colaterais do remédio que inibia a respiração, e os tubos de glicose estavam de novo espetados em seu braço. O que o trouxe de volta foram o rufar dos tambores e o zumbido das abelhas.
Tambores Bourkas.
Abelhas Bourkas.
Sonhos Bourkas.
As cores voltavam vagarosamente, e implacavelmente para uma terra e uma tribo que não existiam além das margens do papel em que ele escrevia.
Sonhava com a deusa, com o rosto da deusa, seu vulto negro sobre a mata verde, meditando, se desgastando. Deusa negra, Continente Negro, um rosto de pedra cheio de abelhas. Mas uma imagem se sobrepôs a todas essas e, com o passar do tempo, ela foi se tornando cada vez mais clara, como se um slide gigantesco estivesse sendo projetado na nuvem em que ele se encontrava. Era a imagem de um velho eucalipto no centro de uma clareira. Pendurado no galho mais baixo do eucalipto via-se um par de algemas antigas de aço. As abelhas passeavam pelas algemas, mas elas estavam vazias. Elas estavam vazias porque Misery tinha. . .
— Escapado? Ela tinha, não tinha? Não era assim que a história deveria continuar?
Era, mas ele não tinha tanta certeza agora. O que significavam aquelas algemas vazias? Ela teria sido levada para algum lugar? Para dentro do rosto da deusa? Levada para a grande Abelha Rainha dos Bourkas?
Você está se passando por Scheherazade para você mesmo.
Para quem você está contando essa história, Paul? Para quem ? Para Annie?
Claro que não. Ele não olhava pela brecha no papel para ver Annie, ou para agradar Annie. . . ele olhava pela brecha para fugir de Annie.
A dor recomeçara. E as cãibras. A nuvem começou a clarear e a desvanecer. Paul começou a ver o quarto, o que era mau, e a ver Annie, o que era ainda pior. Mas ele decidira viver. Uma parte dele, que era tão viciada em seriados quanto Annie fora quando garota, havia decidido que ele não ia morrer enquanto não soubesse como o livro ia acabar.
Teria ela sido salva por Ian e Geoffrey?
Ou teria sido levada para dentro do rosto da deusa?
Era ridículo, mas essas perguntas tolas lhe pareciam realmente precisar de respostas.
7
A princípio, Annie não quis que ele voltasse ao trabalho. Paul podia ver nos olhos dela o quanto Annie ainda estava assustada. Ele não devia ter morrido por pouco. Ela estava tomando cuidados extremos com ele, trocando os curativos de seu coto ainda úmido a cada oito horas (com um ar de quem sabia que jamais ganharia uma medalha pelo que fizera — embora achasse que merecia — Annie o informara que, de início, trocara os curativos de quatro em quatro horas), dando-lhe banhos com uma esponja e esfregando álcool em seu corpo — como se repudiasse tudo o que havia feito a ele. Para Annie, o trabalho o faria sofrer. Sei que isso vai lhe atrasar, Paul. Não diria isso, se não achasse, acredite em mim. Você pelo menos sabe o que vai acontecer, mas eu estou louca para descobrir o que vai acontecer em seguida. Ao que parece, ela havia lido tudo o que ele escrevera — todo o seu trabalho pré-cirúrgico, poderíamos assim dizer — enquanto ele estava à beira da morte. . . mais de trezentas páginas datilografadas. Paul deixara sem preencher os enes das últimas quarenta páginas, mas Annie fizera isso por ele e veio lhe mostrar as folhas com um desafiante ar de orgulho. Os enes dela eram caprichados e contrastavam com os dele, que não passavam de rabiscos.
Embora ela não tivesse feito nenhum comentário a respeito, Paul acreditava que ela fizera aquilo ou como prova de seus cuidados — Como você pode dizer que eu fui cruel com você, Paul, depois de ver todos esses enes que eu preenchi? —, ou como um gesto de reparação, ou, ainda, como um possível rito quase supersticioso: muitos curativos trocados, muitos banhos de esponja, muitos enes preenchidos e Paul sobreviveria. Os trabalhos da Abelha Rainha dos Bourkas é poderoso, Bwana, preencha esses enes e tudo acabará bem.
Foi assim que ela havia começado. . . mas, então, o ter que apareceu. Paul conhecia todos os sintomas. Ela não estava brincando quando afirmara estar louca para saber o que ia acontecer em seguida.
Porque você continuou a viver só para saber o que ia acontecer em seguida, não é isso o que quer dizer?
Podia parecer maluquice, algo tão absurdo que ele devia se envergonhar, mas achava que sim.
Ter que.
Paul ficara irritado ao descobrir que conseguia desenvolver isso à vontade nos livros Misery, mas quando se tratava de seus livros sérios, ele raramente conseguia, ou mesmo nunca. Você não sabe exatamente onde buscar o ter que, mas sempre sabe quando o encontra. Ele fazia o ponteiro de um suposto marcador interior subir até o máximo. Mesmo sentado de frente para a máquina, meio de ressaca, entre goles de café e uma ou duas pastilhas de Rolaid a cada duas horas (sabendo que ele devia largar o cigarro, pelo menos durante a manhã, mas sem nunca tomar a iniciativa), meses antes de acabar o livro e alguns anos-luz antes dele ser publicado, você sentia o ter que quando o encontrava. E quando isso acontecia, Paul sentia-se envergonhado e manipulado. Mas era isto o que sustentava o seu trabalho. Jesus Cristo! Havia dias em que a brecha no papel era pequenina, seu brilho era fraco e os diálogos eram tolos demais. Ele ia em frente porque não tinha outra alternativa. Confúcio dizia que se um homem quisesse plantar uma fileira de milho, teria primeiro que revolver uma tonelada de terra. Assim, um dia a brecha se abria numa visão panorâmica e brilhava mais que os raios de sol num filme épico de Cecil B. De Mille. E ele sabia que encontrara o ter que, bem vivo, forte e ativo.
O ter que, em: "Acho que ainda vou ficar aqui uns quinze ou vinte minutos, querida, tenho que ver como este capítulo vai terminar!" O cara que diz isso passou o dia inteiro no trabalho só pensando na hora de deitar, mas sabe que se demorar um pouco a ir para a cama, a mulher estará dormindo quando ele finalmente entrar no quarto.
O ter que, em: "Sei que está na hora do jantar — ele fica furioso quando jantamos com a TV ligada — mas eu tenho que saber como isso vai terminar."
Tenho que saber se ela vai viver.
Tenho que saber se ele vai pegar o patife que matou o pai.
Tenho que saber se ela vai descobrir que sua melhor amiga está saindo com o seu marido.
Ter que. Tão detestável quanto um emprego num bar de segunda, tão bom quanto uma trepada com a garota mais bem-dotada do mundo. Ah cara era tão ruim ah cara era tão bom ih cara no final das contas não tem mais importância se foi rude ou grosseiro porque no final das contas era como aquela música dos Jacksons — não pare até ter tido o bastante.
8
Você está se passando por Scheherazade para você mesmo. Esta não era uma idéia que ele pudesse expressar ou mesmo compreender, não naquela ocasião; ele estava cheio de dores. Mas ele já sabia daquilo, não?
Você não. Os rapazes dos trabalhos forçados. Eles sabiam.
É, isso fazia sentido.
O barulho do cortador aumentou e Annie apareceu na janela. Ela reparou que ele estava olhando e fez um aceno com a mão. Paul retribuiu o aceno, levantando uma das mãos — aquela que ainda tinha o dedo polegar. Annie sumiu de vista. Política da boa vizinhança.
Paul finalmente conseguira convencê-la de que voltar ao trabalho seria bom para ele. . . Vivia perseguido pelas imagens nítidas que o haviam atraído para fora da nuvem, e perseguido era a palavra exata: enquanto não conseguisse transportar aquelas imagens para o papel, elas permaneceriam vivas dentro dele.
Embora não tivesse acreditado nele — não naquela ocasião —, Annie consentiu que ele voltasse a trabalhar. Não que ele a tivesse convencido, mas por causa do ter que.
A princípio, ele só conseguira trabalhar por alguns curtos e dolorosos espaços de tempo — quinze minutos, meia hora, talvez, se a história assim exigisse. Mas eram minutos dolorosos. Qualquer mudança de posição lhe atiçava as dores no coto da perna, como a brisa do vento atiça as chamas de uma fogueira que está quase apagando. As dores eram terríveis enquanto ele estava escrevendo, mas o pior eram as duas horas seguintes. A ferida, que começava a cicatrizar, provocava uma coceira tão forte que sua perna parecia coberta por um enxame de abelhas indolentes, quase o levando à loucura.
Ele estava certo, não ela. Ele não voltou a ficar bom — o que seria difícil na atual situação — mas a saúde melhorou e ele se sentiu mais forte. Paul reconhecia que seus horizontes haviam diminuído, mas aceitava o fato como sendo o preço de sua sobrevivência. Ele estava genuinamente surpreso de ainda estar vivo.
Sentado na frente da máquina, cujos dentes estavam cada vez mais podres, e lembrando dos tempos em que seu trabalho predominava sobre os acontecimentos, Paul cochilava. É, ele achava que talvez tivesse sido seu próprio Scheherazade, tanto quanto era agora a própria mulher do seu sonho, entregando-se aos mais impetuosos arroubos e fantasias. Paul não precisava de um psiquiatra para lhe dizer que escrever também tinha o seu lado auto-erótico — você toca a máquina, não a sua pele, mas qualquer um desses gestos estava intimamente ligado à velocidade dos sentidos, à agilidade das mãos e à entrega sincera da arte de fingir.
E aquilo não era uma espécie de trepada, mesmo que das mais i1árias? Porque foi só ele recomeçar. . . ela não o interrompia enquanto ele estava trabalhando, mas assim que ele terminava, ela vinha apanhar as folhas com a desculpa de preencher as letras que faltavam. Do mesmo modo como um homem de faro sexual aguçado sabe quais as garotas que o vão aborrecer no final da noite, Paul sabia que, na verdade, Annie vinha apanhar sua dose diária. Apanhar o seu ter que.
Os seriados. É, de volta aos seriados. Com a diferença de que nos últimos meses ela está indo todos os dias ao invés de apenas aos sábados à tarde; e o Paul que a leva agora é o seu escritor de estimação ao invés do seu irmão mais velho.
As restrições de Paul contra a máquina de escrever aumentavam à medida que as dores iam diminuindo, mas ele foi ficando mais tolerante. . . apesar de ultimamente não estar conseguindo escrever rápido o bastante para atender as exigências de Annie.
O ter que foi o que os manteve vivos — sem dúvida; não fosse por isso, Annie o teria matado e se suicidado há muito tempo atrás — mas foi também o motivo dele ter perdido o dedo polegar. Foi horrível, mas de certo modo, cômico também. Pode parecer ironia, Paul, mas vai fazer bem ao seu sangue.
Pense no quanto não poderia ter sido pior.
Ela podia ter cortado seu pênis, por exemplo.
— E pênis eu só tenho um — disse ele, começando a rir desvairadamente no quarto vazio, de frente para a Royal detestável, com seu sorriso onde faltavam vários dentes. Paul gargalhou até sentir o estômago doer, até o coto da perna doer. Paul gargalhou até a mente doer. A certa altura, as gargalhadas se transformaram em soluços secos, que atiçaram a dor no que restava do polegar esquerdo. Só então ele parou de rir. De um modo meio deprimente, Paul perguntou a si mesmo o quanto não estaria perto de enlouquecer.
Não que isso tivesse qualquer importância, supôs ele.
9
Alguns dias antes da amputação do dedo — menos de uma semana, talvez — Annie entrou no quarto com dois pratos fundos cheios de sorvete de baunilha, uma lata de calda de chocolate Hershey, uma lata de creme chantilly Reddi-Wip e um pote de cerejas ao marasquino tão vermelhas quanto uma amostra de sangue num tubo de ensaio.
— Pensei em fazer um sundae para nós, Paul — disse ela num tom de voz de quem fingia estar contente.
Paul não gostou nem do tom de voz, nem do olhar inquieto de Annie. Sou uma menina levada, é o que dizia aquele olhar. Ele desconfiou e ficou apavorado. Era muito fácil para ele imaginar Annie com aquele olhar colocando umas peças de roupa no degrau de uma escada, um gato morto em outro.
— Ora, Annie, muito obrigado — disse ele, observando-a colocar duas nuvens imensas de creme chantilly num dos pratos. Seus gestos demonstravam certa prática meio desajeitada de quem é viciada em doces há muitos anos.
— Não precisa agradecer. Você merece. Tem trabalhado tanto. . . — insinuou ela, entregando-lhe o sundae.
O doce ficou enjoativo depois da terceira colherada, mas Paul achou mais prudente continuar comendo. Uma das regras de sobrevivência mais fundamentais desse lugar tão pitoresco era: Quando Annie oferece, é melhor comer. Por alguns instantes, os dois ficaram em silêncio. Annie, então, pôs a colher no prato, limpou o sorvete derretido e a calda que lhe escorria da boca com as costas da mãos e disse amigavelmente:
— Conte-me o fim da história.
— O que foi que você disse? — perguntou ele, largando a colher no prato.
— Conte-me o fim da história. Eu simplesmente não agüento mais esperar.
E ele não sabia que isso ia acontecer? Sabia. Se alguém viesse entregar a Annie os vinte novos filmes da série de Rocket Man, será que ela ia esperar para ver um por semana, ou pelo menos, um por dia?
Paul olhou para o sundae de Annie — semidevorado, com uma cereja enterrada no creme chantilly e outra boiando na calda de chocolate — e lembrou-se dos pratos com restos de doce espalhados pela sala.
Não, Annie não era do tipo que sabia esperar. Ela assistiria aos vinte filmes numa única noite, mesmo que ficasse com a vista cansada e com uma violenta dor de cabeça.
Porque Annie adorava coisas doces.
— Não posso fazer isso — respondeu ele.
O rosto de Annie escureceu — mas não havia nele um certo alívio também?
— Não? Por que não?
Porque você não terá a menor consideração por mim amanhã de manhã, ele pensou em dizer. Mas ia dar um aperto nela Um aperto rigoroso.
— Porque sou um péssimo contador de histórias.
Annie sorveu o que restava do sorvete em cinco enormes colheradas que teriam congelado a garganta de Paul. Ela o encarou com raiva, não como se ele fosse o grande Paul Sheldon, mas como alguém que tivesse se atrevido a criticar o grande Paul Sheldon.
— Se você é um contador de histórias tão ruim assim, como pode ter escrito tantos best-sellers e ter uma multidão de admiradores que adoram o que você escreve?
— Eu não disse que era um péssimo escritor de histórias. Para falar a verdade, eu acho até que sou muito bom nisso. Mas como contador de histórias, sou um fracasso. . .
— Você está arrumando uma porcaria de desculpa.
O rosto de Annie estava ainda mais sombrio. Ela cerrou as mãos, apoiadas sobre o pano grosso da saia. O Furacão Annie estava de volta. Tudo o que ia embora, voltava. Só que a situação era agora diferente, não era? Paul estava mais aterrorizado do que nunca, mas ela perdera um pouco do domínio sobre ele. Sua vida agora não parecia valer tanto assim, com ter que ou sem ter que. Paul só tinha medo que ela o machucasse.
— Não é desculpa — retrucou ele. — São coisas diferentes, é como querer comparar laranjas com maçãs, Annie. As pessoas que contam histórias geralmente não conseguem escrever histórias. Se você pensar realmente que quem escreve histórias sabe se expressar bem, é porque nunca assistiu um escritor tentando dar entrevista no programa Today.
— Bem, eu não quero mais esperar — advertiu ela, de mau humor. — Fiz um sundae gostoso para você e o mínimo que você poderia fazer era me contar algumas coisas, não precisa ser a história toda. . . por exemplo. . . o barão vai matar Calthorpe? — Os olhos dela brilhavam. — Isso é uma coisa que eu quero muito saber. E o que ele vai fazer com o corpo, se o matar? Vai cortar em pedacinhos e colocar naquele baú que a esposa dele não perde de vista? Acho que é isso que vai acontecer.
Paul sacudiu a cabeça de um lado para o outro — não para indicar que ela estivesse errada, mas para demonstrar que ele não ia contar nada.
O rosto de Annie escureceu mais ainda, mas ela lhe disse numa voz suave:
— Você está me fazendo ficar com raiva e sabe disso, não é, Paul?
— Claro que sei, mas não posso evitar.
— Eu poderia fazer você evitar. Eu poderia fazer você contar.
Mas Annie parecia frustrada, como se soubesse que não poderia fazer tal coisa. Ela poderia fazer com que ele dissesse certas coisas, mas não contar o que ela queria.
— Annie, você lembra de me ter contado o que um garotinho diz para a mãe quando ela o surpreende brincando com o detergente da pia? Mamãe, como você é malvada! Não é isso o que você está dizendo agora? Paul, como você é malvado?
— Se você me fizer ficar com mais raiva, não respondo pelos meus atos.
Paul percebeu, entretanto, que o momento crítico passara — por mais estranho que pareça, Annie era muito vulnerável a esses conceitos de disciplina e comportamento.
— Eu vou ter que arriscar. Porque estou no papel daquela mãe. Eu não estou lhe dizendo não para ser malvado, ou para lhe contrariar, mas porque faço questão que você goste do livro. . . Se eu lhe contar o que você quer saber, você não vai gostar mais dele e nem vai querer mais o livro.
E aí, o que vai acontecer comigo, Annie?, ele pensou mas não disse.
— Então me conte pelo menos se aquele negro, Hezekiah, sabe realmente onde está o pai de Misery! Conte pelo menos isso!
— Você quer o livro ou quer que eu responda um questionário?
— Não fale comigo nesse tom de sarcasmo!
— Então não finja que não entendeu o que eu disse! — gritou ele, em resposta. Annie recuou, entre surpresa e apreensiva, e seu rosto desanuviou. Tudo o que restou foi o olhar esquisito da menina levada. — Você quer abrir a barriga da galinha dos ovos de ouro! É isso o que está acontecendo. Mas quando o fazendeiro da história fez isso, o que ele passou a ter foi uma galinha morta e um monte de tripas sem valor algum!
— Está bem, Paul, está bem. Vai acabar de tomar o sorvete?
— Não agüento mais comer.
— Estou vendo. Eu aborreci você, me desculpe. Acho que está com a razão, eu não devia ter perguntado.
Annie estava completamente calma outra vez. Ao contrário do que ele imaginava, ela não ficou com raiva nem entrou em depressão. A velha rotina voltou ao normal. Ele escrevia, Annie lia ao final do dia. E entre a discussão e a amputação do dedo se passou um tempo suficiente para que ele não relacionasse uma coisa com a outra. Mas só até esse momento.
Eu reclamei da máquina, pensou ele, olhando para a Royal e ouvindo o cortador de grama. Paul teve a impressão que o barulho dele diminuíra, mas não deu conta que era ele, e não Annie, quem estava se distanciando. Ele estava quase cochilando. Dera para fazer isso agora, passar o tempo cochilando como os velhinhos nos asilos.
Não reclamei muito; uma vez só. Mas foi o suficiente, não foi? Mais do que suficiente. Foi quando? Uma semana depois dela aparecer com aqueles sundaes horríveis? Por aí. Uma semana e uma reclamação. Eu só disse que a batida das teclas sem as letras estavam me dando nos nervos. Eu nem ao menos sugeri que ela arrumasse outra máquina usada com todas as letras na loja daquela mulher, Nancy Whoremonger, ou sei lá quem mais. Eu só disse que aquelas batidas estavam me dando nos nervos e então, em questão de minutos, presto chango, você olha para a mão esquerda de Paul e vê o polegar, olha de novo e já não o vê mais. Só que ela não fez isso porque eu reclamei da máquina, não é mesmo? Ela fez isso porque eu lhe disse um não e ela teve que aceitar. Foi um gesto de vingança. E a vingança foi resultado de uma compreensão. Compreensão de quê? Ora, de que não é só ela quem coloca as cartas na mesa — e que exerço um certo domínio passivo sobre ela. O domínio do ter que. Até que acabei virando um Scheherazade razoável no final das contas.
Isso era loucura. Isso era cômico. Mas também era real. Milhões de pessoas podiam zombar, mas só por não terem ainda percebido o quanto pode ser forte a influência da arte — mesmo um tipo tão degenerado quanto os romances populares. As donas-de-casa distribuíam suas tarefas de acordo com as novelas da tarde. Se voltavam a trabalhar, tratavam de comprar imediatamente um videocassete para gravarem as novelas e assistirem quando chegassem em casa. Quando Arthur Conan Doyle matou Sherlock Holmes em Reichen-bach Falls, toda a Inglaterra vitoriana se uniu em um só coro, exigindo a sua volta. O tom dos protestos foi exatamente igual aos de Annie — eles não tinham ficado consternados, mas, furiosos. Doyle foi repreendido até mesmo por sua mãe, quando ele comunicou a ela a intenção de matar Holmes. A resposta indignada veio pelo correio: "Matar o simpático senhor Holmes? Que disparate! Não se atreva!"
O caso de um amigo seu, por exemplo, Gary Ruddman, que trabalhava na Biblioteca Estadual de Boulder. Paul apareceu um dia para visitá-lo e deu com as cortinas cerradas e uma faixa preta na porta. Paul ficou preocupado e bateu várias vezes até que o amigo viesse atender. Vá embora, pediu Gary, Estou muito triste. Uma pessoa morreu. Uma pessoa muito importante para mim. Paul quis saber quem havia morrido e Gary lhe respondeu, aborrecido: Van der Valk. Paul sentiu que Gary se afastava da porta e bateu outra vez, mas não obteve resposta. Van der Valk, ele soube mais tarde, era um detetive criado — e depois destruído — por um escritor chamado Nicolas Freeling.
Paul ficara convencido que a reação de Gary era das mais infundadas; ele achava que Gary estava bancando o pretensioso. Em resumo: era só pose. Paul continuou a achar isso até 1983, quando leu The World According to Garp. Ele caiu na bobagem de ler pouco antes de deitar a cena em que o filho mais novo de Garp morre, imprensado na alavanca da mudança. Paul ficou horas sem conseguir dormir. A cena não lhe saía da cabeça. Enquanto rolava na cama, Paul reconheceu que era ridículo ficar se lastimando pela morte de um personagem de livro e, é claro, era exatamente isso o que ele estava fazendo. A compreensão deste fato, entretanto, não foi de muita ajuda, e Paul foi levado a pensar que Gary talvez tivesse sentido algo muito mais forte com a morte de Van der Valk do que ele julgara na ocasião. Isso tudo lhe trouxe à memória uma outra lembrança: a de terminar de ler The Lord of the Flies, de William Golding, aos doze anos de idade; era um dia quente de verão e ele ia para a cozinha tomar um copo de limonada gelada. No meio do caminho, Paul saiu em disparada para o banheiro e vomitou.
Subitamente, Paul começou a lembrar de outros casos de entusiasmo obsessivo: o povo se aglomerando no porto de Baltimore todos os meses à espera do navio que trazia os novos fascículos de Litle Dorrit e Oliver Twist, de Dickens (muitos se afogavam, mas isso não desencorajava ninguém); a anciã de cento e cinco anos de idade que afirmara querer viver até que Galsworthy terminasse de escrever The Forsyte Saga — e que morrera menos de uma hora depois de terem lido para ela a última página do último volume; o jovem alpinista hospitalizado, vítima de um caso supostamente fatal de hipotermia, cujos amigos tinham lido sem parar, vinte e quatro horas por dia, o livro The Lord of the Rings. Até que ele saísse do estado de coma; e como esses, centenas de outros casos..
Paul imaginava que todo escritor de best-seller tivesse um ou mais casos de envolvimento radical de leitores no mundo do faz-de-conta que eles criavam. . . casos de complexo de Scheherazade, inventou ele agora, quase cochilando ao som do cortador de grama que parecia ecoar cada vez mais longe. Lembrava-se de duas cartas sugerindo temas para os livros Misery, com cenários do tipo Disneyworld. Uma delas chegava a incluir uma planta tosca e grosseira. O primeiro prêmio, entretanto, ficou para uma outra admiradora (Annie Wilkes ainda não tinha aparecido na sua vida), a Sra Roman D. Sandpiper III, de Ink Beach, na Flórida. A Sra Roman D. Sandpiper, cujo nome era Virgínia, transformara um dos quartos do andar superior de sua casa na sala de Misery. Ela incluíra na carta retratos Polaroid da cadeira de balanço de Misery, da escrivaninha de Misery (tão completa que chegava a ter metade de uma carta de agradecimento ao senhor Faverey, onde ela dizia que estaria de plantão no dia 20 de novembro, na School Hall Recitation — Paul achou a letra extraordinariamente apropriada para a sua heroína, não uma letra redonda e floreada com a da maioria das mulheres, mas uma letra vertical apenas meio feminina, do sofá de Misery, do bordado de Misery. (Deixe que o Amor o Ensine; Não se atreva a Ensinar o Amor), etc, etc, etc. A Sra Roman D. ("Virgínia") Sandpiper garantia que os móveis eram autênticos e não reproduções, Paul como não pudesse ter certeza, acabou achando que deviam ser mesmo. Assim sendo, esse pedacinho de mundo de faz-de-conta devia ter custado à Sra Roman D. ("Virgínia") Sandpiper alguns milhares de dólares. A Sra Roman D. ("Virgínia") Sandpiper apressou-se em dizer que não estava se utilizando da personagem dele para ganhar dinheiro e que não tinha a menor intenção de fazê-lo — Deus não permita! — mas ela gostaria muito que ele visse as fotos e lhe dissesse se havia alguma coisa errada (ela tinha certeza que devia ter muitas). A Sra Roman D. Sandpiper esperava também que ele desse a sua opinião a respeito. Ao ver as fotos, Paul tivera uma sensação estranha e extraordinariamente impalpável — era como se estivesse olhando fotografias de sua própria imaginação. Ele sabia que daquele dia em diante todas as vezes que tentasse imaginar a sala e o estúdio de Misery, as fotografias da Sra Roman D. ("Virgínia") Sandpiper lhe viriam imediatamente à cabeça, bloqueando a sua imaginação com uma realidade expressiva, mas de apenas uma dimensão. Dizer a ela o que estava errado? Loucura. Daquele dia em diante era ele quem iria se preocupar com isso. Paul escreveu um bilhete dando-lhe os parabéns e expressando sua admiração — um bilhete que de modo algum insinuava certas perguntas a respeito da Sra Roman ("Virgínia") Sandpiper que haviam lhe passado pela cabeça, por exemplo, o quanto ela era realmente tímida. A resposta veio com novas fotos Polaroid. Se a primeira carta da Sra Roman D. ("Virgínia") Sandpiper trazia duas folhas escritas à mão e sete Polaroides, a segunda chegara com dez folhas e quarenta Polaroides. A carta era um manual completo (e exaustivo ao extremo) dos lugares onde a Sra Roman D. ("Virgínia") encontrara cada peça, quanto pagara e como fora restaurada. A Sra Roman D. ("Virgínia") Sandpiper dizia ainda que encontrara um homem chamado McKibbon que possuía uma espingarda antiga e que ele fizera para ela o tiro na parede, ao lado da cadeira. Embora não pudesse garantir a legitimidade histórica da espingarda, a Sra Roman D. ("Virgínia") Sandpiper certificara-se de que o calibre era o mesmo. Em sua maioria, as fotos eram closes de pequenos detalhes. Não fosse pelas explicações escritas no verso, elas poderiam estar em qualquer revista de palavras cruzadas, na seção "Adivinhe o que É", em que a maxiampliação de uma das hastes de um clipe de papel ficava parecendo um poste ou o abridor no alto de uma lata de cerveja, uma escultura de Picasso. Paul não respondeu a essa carta, o que não impediu a Sra Roman D. ("Virgínia") Sandpiper de lhe escrever mais cinco (as quatro primeiras com fotos Polaroides) antes de se fechar num silêncio enigmático e ligeiramente ofendido.