Misery

Stephen King · Capítulo 2 de 5 · parte 1/4

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Misery

Annie

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

I

Quando você olha para dentro do abismo, o abismo também olha para dentro de você. Friedrich Nietzsche

1

fannnnn

umer ummmmm

fannnnn umer ummmmm

Isto ressoa: mesmo no nevoeiro.

2

Mas algumas vezes esses sons diminuíam — assim como a dor — e permanecia apenas o nevoeiro. Lembrava-se das trevas: trevas sólidas haviam precedido o nevoeiro. Isto significava que estivesse melhorando? Faça-se a luz (mesmo que nevoenta) e a luz foi feita. E dai em diante? Aqueles sons existiam durante as trevas Ele não sabia responder a essas perguntas. E fazia sentido formular tais perguntas? Não sabia responder a esta também.

A dor localizava-se em algum lugar abaixo dos sons, à esquerda do sol e ao sul dos seus ouvidos. E isso era tudo o que realmente sabia.

Por um período de tempo que lhe pareceu longo demais (e assim foi, já que a dor e o nevoeiro eram as duas únicas coisas que existiam), aqueles sons eram a única realidade exterior. Não tinha a menor idéia de quem ele era ou do lugar onde estava, e não fazia questão de saber, seria preferível ter morrido. Mas dentro daquele nevoeiro de dor que lhe envolvia a cabeça como nuvens de uma tempestade de verão, ignorava até mesmo este desejo.

Com o passar do tempo, percebeu que havia períodos sem dor, e que estes obedeciam a um ciclo. E então, pela primeira vez, desde que se elevara das trevas, precedidas pelo nevoeiro, ele teve um pensamento e este nada tinha a ver com qualquer que fosse a sua atual situação. Ele pensou numa estaca partida ao meio que fora fincada nas areias da praia Revere, onde seus pais freqüentemente o levavam quando criança. Ele sempre insistia para que estendessem a toalha num local onde pudesse contemplar aquela estaca, que lhe parecia uma presa saliente e solitária de um monstro ali enterrado. Gostava de ficar sentado e observar a maré vir subindo até cobrir a estaca e então, horas mais tarde, depois de terem comido seus sanduíches e a salada de batatas, depois dele ter persuadido seu pai lhe dar os últimos drops de Kool-Aid que ele trouxera dentro de uma enorme bolsa térmica, e pouco antes de sua mãe decidir que era hora de arrumarem as coisas para voltarem para casa, a ponta da estaca de madeira apodrecida tornava a aparecer. À princípio, via-se apenas um pedaço dela reluzindo por entre as ondas e, depois, ela começava a crescer, mais e mais. por volta da hora em que todo o lixo fora recolhido e jogado dentro de um enorme latão onde se lia mantenha sua praia limpa, em que todos os brinquedos de Paulie haviam sido guardados,

(Paulie, é esse meu nome eu sou Paulie e hoje à noite a mamãe vai passar óleo Jonhson's para crianças em minhas queimaduras de sol, pensou ele por entre as estrondosas trovoadas que agora vivia) e em que a toalha de praia já havia sido dobrada, a estaca teria reaparecido quase totalmente, com suas laterais escurecidas e gastas pelo limo, coberta de espuma. É o movimento das mares, tentara lhe explicar seu pai, certa vez. Mas ele sempre soubera que era por causa da estaca. A maré ia e voltava. A estaca permanecia, mesmo que algumas vezes não pudesse ser vista. Se não fosse a estaca, a maré não existiria.

Essa lembrança girava e girava em sua cabeça, como o vôo de uma mosca indolente, e ele tentou descobrir seu significado, mas os sons o interromperam por um longo tempo.

fannnn

liii tuuuuuuudo

fannnn umer ummmm

Às vezes os sons cessavam. Às vezes ele cessava. A primeira lembrança verdadeiramente clara deste "agora", o "agora" fora do nevoeiro da tempestade, era de ter morrido, de subitamente ter dado conta de que não conseguia mais respirar. Mas estava tudo bem, isto até era bom; conseguia suportar um pouco de dor, mas assim já era demais e ele sentiu-se feliz por estar chegando o seu fim.

Foi então que sentiu uma boca grudar-se na sua, sem dúvida alguma a boca de uma mulher, apesar dos lábios secos e duros. A respiração daquela mulher entrou pela sua boca, desceu-lhe pela garganta e lhe invadiu os pulmões, e quando aqueles lábios se afastaram dos seus, ele sentiu, pela primeira vez, o cheiro de sua carcereira. Sentiu-a pelo hálito da respiração, que ela forçara para dentro dele como um homem força certa parte de seu corpo dentro do corpo de uma mulher relutante. Era um hálito fétido, mistura de biscoitos de baunilha com sorvete de chocolate, molho de galinha e manteiga de amendoim.

Escutou uma voz que gritava:

— Respire, seu filho da mãe! Paul, respire!

Aqueles lábios encaixaram-se de novo aos seus e aquele hálito desceu por sua garganta abaixo, deslocando o ar como um trem do metrô que passa e levanta atrás de si folhas soltas de jornal e papéis de bala jogados pelo chão. Os lábios dela soltaram-se dos seus e ele pensou: "Pelo amor de Deus, não expire esse ar em cima de mim", mas ele não pôde evitar e aquele mau cheiro, oh que mau cheiro, que terrível mau CHEIRO.

— Respire, seu filho da mãe! — guinchou aquela voz que ele não via de onde vinha.

— Eu respiro, mas por favor não me faça isso de novo, não me contamine mais — e ele realmente tentou respirar, mas antes que terminasse, aqueles lábios grudaram-se de novo aos seus, aqueles lábios secos e mortos como duas tiras de couro curtido, E ela o invadiu com seu hálito novamente.

Quando ela tirou os lábios de sua boca, ele não só deixou que a respiração dela saísse de seus pulmões, como a expulsou com todas as suas forças, numa gigantesca expiração. Cuspiu-a para fora dele; e esperou que seus pulmões voltassem a trabalhar, da maneira como vinham fazendo durante toda a vida, sem qualquer ajuda sua. E como eles não voltaram, ele fez um esforço gigantesco e inspirou ruidosamente e aí, sim, seus pulmões voltaram a trabalhar sozinhos e com a maior rapidez, numa tentativa de expulsar o gosto e o cheiro daquela mulher para fora dele.

O ar comum nunca lhe pareceu tão agradável.

Ele começou a ver-se envolvido de novo no nevoeiro, mas antes

que aquele mundo se desvanecesse diante dele, ouviu a mulher murmurar:

— Ufa! Esta foi por pouco!

Não, não foi por pouco, pensou ele, e desmaiou.

Sonhou com a estaca, tão real, que ele quase podia tocar a ponta verde-musgo com palma da mão.

Quando voltou ao seu estado de semiconsciência, ele conseguiu relacionar a estaca com a sua situação atual — que lhe fugia das mãos. A dor nada tinha a ver com as marés — essa foi a mensagem do sonho que lhe ficou realmente na memória. A dor parecia ir e voltar, mas era como a estaca — às vezes visível, outras vezes coberta, mas sempre presente, quando a dor não o arrasava com aquele nevoeiro denso e cinzento feito pedra, ele agradecia silenciosamente, mas não se deixava enganar — ela ainda estava ali, esperando para reaparecer. E não era mais uma única estaca e sim duas; a dor eram as estacas, e uma parte já descobrira há um longo tempo o que só agora sua mente reconhecia: as estacas partidas ao meio eram suas duas pernas quebradas.

Só muito tempo mais tarde, porém, ele foi capaz de entreabrir os lábios colados um no outro pela saliva ressecada e resmungar um "Onde estou?" dirigindo-se à mulher sentada ao lado de sua cama, que tinha um livro nas mãos. O nome do autor daquele livro era Paul Sheldon e foi sem a menor surpresa que ele reparou ser esse um de seus livros.

— Sidewinder, Colorado —, respondeu ela quando ele finalmente conseguiu falar — Meu nome é Annie Wilkes e sou...

— Sei quem você é — interrompeu ele —, você é minha fã número um.

— Sim! — exclamou ela, sorrindo — é isso mesmo o que eu sou.

3

Trevas. Dor e nevoeiro. A seguir, tomar conhecimento de que, apesar da dor constante, ela era algumas vezes sufocada através de um acordo desagradável que ele supunha trazia-lhe alívio. A primeira lembrança verdadeira: a de ter morrido e de ter sido trazido de volta graças à respiração fedorenta daquela mulher.

Lembrança seguinte: os dedos daquela mulher enfiavam-lhe alguma coisa na boca, a intervalos regulares. Era algo parecido com umas cápsulas, mas como não lhe desse água, as cápsulas permaneciam em sua boca, e à medida que iam se desmanchando, deixavam um gosto terrivelmente amargo, como o de aspirina. Teria sido ótimo cuspir aquele amargor, mas ele sabia que era melhor engolir, pois era ele quem fazia a maré subir, cobrir a estaca

(ESTACAS são ESTACAS, elas são duas, tudo bem, elas são duas agora, mas fiquem quietas, vocês sabem, bem quietas quietinhas shhhhhhh) e fazer com que ela sumisse por algum tempo.

Todas essas lembranças lhe chegavam a intervalos bem espaçados, mas como a dor não cedesse e, sim, se desgastasse (tal como a estaca da praia Revere também devia ter se desgastado, já que nada é eterno, pensou ele — a criança que fora um dia teria certamente zombado de tamanha heresia), as coisas externas começaram a tomar um ritmo mais rápido e o mundo real, com toda a sua carga de lembranças, experiências e preconceitos, se restabeleceu. Ele era Paul Sheldon, e escrevia livros de dois tipos: os bons e os best-sellers. Casara-se duas vezes e se divorciara outras tantas. Era um fumante inveterado (ou tinha sido, antes que isso acontecesse, o que quer que "isso" significasse). Algo muito sério acontecia a ele, mas ainda estava vivo. O nevoeiro cinza-chumbo começou a se dissipar cada vez mais rápido, antes mesmo de sua fã número um lhe comprar a velha Royal, com seus estalidos, seu sorriso amarelo onde faltava um dente, e sua voz de Ducky Daddles. Mas muito antes disso, Paul já havia compreendido que estava numa bruta de uma enrascada.

4

A fração intuitiva de sua mente via aquela mulher antes mesmo que ele desse conta que a estava vendo, e devia também tê-la compreendido antes mesmo dele pensar que a estava compreendendo — e por que outra razão ele associava a ela imagens tão sinistras e ameaçadoras? Todas as vezes em que ela entrava no quarto, vinha-lhe à cabeça a imagem de túmulos, do destino, e de ídolos cultuados por supersticiosas tribos africanas, descritas nos romances de H. Rider Haggard.

A imagem de Annie Wilkes como uma deusa africana saída de livros como She ou As minas do rei Salomão era, não só ridícula, como também estranhamente apropriada. Ela era uma mulher corpulenta e, com exceção dos seios volumosos e nada convidativos que sobressaíam por baixo do casaco de malha cinza com que estava sempre vestida, seu corpo parecia totalmente desprovido de curvas femininas — não se notavam as curvas da cintura, das nádegas, e nem mesmo as da batata das pernas, sempre escondidas pelas diversas saias de algodão que usava em casa (quando cuidava de suas tarefas ao ar livre, ela se recolhia em seu quarto e colocava calças jeans). Seu corpo era robusto, mas nada atraente. Passava-lhe a sensação de algo coagulado, fechado, sem orifícios, sem espaços abertos ou hiatos.

Acima de tudo, ela lhe dava a perturbadora sensação de solidez, como se não houvesse ali veias ou órgãos internos, como se ela pudesse ser apenas uma compacta Annie Wilkes, de um lado a outro e de cima a baixo. E estava cada vez mais convencido de que os olhos dela, embora aparentassem se mover, eram apenas pintados. Eles não deviam se mexer mais do que os olhos de certos rostos pintados, que dão a impressão de segui-lo com o olhar para qualquer lado que você ande. Imaginava que se pudesse enfiar dois dedos de sua mão por dentro das narinas dela, não conseguiria avançar nem três milímetros, e logo esbarraria numa superfície sólida (talvez levemente suada ao toque dos dedos); até mesmo o casaco cinza, as saias antiquadas que usava em casa, e o jeans desbotado para as tarefas no quintal, pareciam fazer parte daquele corpo fibroso, sólido e sem orifícios. Sendo assim, a sensação de que ela fosse como uma deusa num romance impetuoso não o surpreendeu nem um pouco. Como os ídolos, ela oferecia uma única coisa: um terror incômodo, constante e profundo. Como um ídolo, ela tudo dominava.

Não, espere um pouco, isso não está correto. Ela realmente oferecia alguma coisa a mais. Ela lhe dava as cápsulas que faziam a maré subir, cobrindo as estacas.

As cápsulas eram a maré; Annie Wilkes era a presença da lua, enfiando-lhe cápsulas na boca como quem joga detritos ao mar. Ela lhe dava duas cápsulas a cada seis horas. A princípio, ele percebia a chegada dela quando sentia dois dedos entrando-lhe pela boca (muito cedo ele aprendeu a absorver avidamente aqueles dedos nojentos, apesar do gosto amargo do remédio), e, mais tarde, já a distinguia pelo casaco cinza e uma de suas muitas saias. A noite, ela sempre trazia consigo um de seus livros. Surgia num roupão felpudo cor-de-rosa, o rosto reluzente e besuntado de creme (ele seria capaz de dizer facilmente o principal componente daquele creme, mesmo que jamais tivesse posto os olhos na embalagem: o cheiro de lanolina era forte e notório) e o sacudia, tirando-o de seu sono profundo. Trazia suas cápsulas aninhadas na palma das mãos e ele percebia, por trás dos ombros sólidos daquela mulher, a lua cavernosa, aninhada a um canto da janela

Passado algum tempo — depois do seu temor ter se tornado evidente demais para ser ignorado — foi que ele percebeu que ela o vinha dopando com um analgésico chamado Novril, composto por uma alta dosagem de codeína. A razão por que ela não precisasse lhe trazer a comadre com a freqüência habitual não se devia apenas ao fato de estar numa dieta baseada unicamente em alimentos líquidos e gelatinosos (anteriormente, durante o nevoeiro, ela o alimentara por via intravenosa), mas também por que o uso de Novril acarretava prisão de ventre nos pacientes que o tomavam. Outro efeito colateral do Novril, e este muito mais sério, era a redução do nível respiratório em pacientes sensíveis. Paul não se encaixava particularmente nesta categoria, embora fosse um fumante crônico há quase dezoito anos, mas sua respiração havia parado de verdade pelo menos uma vez: quando ela lhe fizera respiração boca a boca. Era possível que houvessem ocorrido outras paradas respiratórias durante o nevoeiro, mas ele não poderia lembrar. O que aconteceu a ele poderia ter sido apenas uma parada respiratória, mas ultimamente vinha suspeitando que ela quase o matara com uma acidental dose excessiva. Ao contrário do que se imaginava, ela não sabia tanto assim a respeito do que estava fazendo. E isso era apenas uma das coisas que o amedrontavam em Annie.

Cerca de dez dias após ter emergido das trevas, Paul descobriu três coisas quase ao mesmo tempo. A primeira delas era a certeza de que Annie dispunha de uma grande quantidade de Novril (na verdade, ela dispunha de uma grande quantidade de remédios, de todos os tipos). A segunda, que estava viciado em Novril. E a terceira, que Annie Wilkes era uma mulher louca e muito perigosa.

5

As trevas haviam antecedido a dor e o nevoeiro; pouco depois, ele começou a lembrar do que existia antes das trevas, à medida que ela ia contando o que havia acontecido. Ele fizera as perguntas habituais que uma pessoa normalmente faz após recobrar a consciência e fora informado que se encontrava na pequena cidade de Sidewinder, no Colorado. Ela lhe contou que lera cada um de seus oito romances pelo menos duas vezes, e que os seus prediletos, os livros da série Misery, ela havia lido umas quatro, cinco, seis vezes talvez, e que desejara que ele pudesse escrevê-los com mais freqüência. Ela contou ainda, que mal pôde acreditar que o seu paciente fosse mesmo o escritor Paul Sheldon, mesmo depois de ter conferido o documento de identidade, que estava na carteira.

— E por falar nisso, onde anda minha carteira? — perguntou ele.

— Eu a guardei num local bem seguro — respondeu. Subitamente, porém, o sorriso dela se fechou e seu semblante anuviou-se, numa expressão que ele não gostou nem um pouco — era como descobrir uma fenda muito profunda no meio das flores de verão em um campo aprazível.

— Você acha que eu teria coragem de roubar alguma coisa de sua carteira? — indagou ela.

— Não, é claro que não. É que... —É que toda a minha vida está ali naquela carteira, pensou ele. A minha vida longe deste quarto. Longe dessa dor. Longe do jeito com que o tempo parece se esticar, como um fio comprido e cor-de-rosa de chiclete que um menino estica com a mão quando está aborrecido — porque é isso o que está acontecendo nessa última hora mais ou menos, enquanto as cápsulas não vêm.

— E então, meu caro? — insistiu ela.

Aterrorizado, ele percebeu que os olhos dela se fechavam e tornavam-se cada vez mais sombrios. A fenda estava se abrindo, como um terremoto se alastrando por trás das sobrancelhas. Ele podia ouvir o gemido penetrante do vento lá fora e, subitamente, lhe veio à cabeça a imagem dela levantando-o pelos ares e jogando-o por cima dos ombros sólidos. Ele cairia estendido no chão como um saco de estopa atirado contra uma parede de pedras e ela o deixaria lá fora até transformar-se num bolo de neve. Ele morreria de frio, mas, antes disso, suas pernas latejariam e ele gritaria de dor.

— É só porque meu pai sempre me dizia para não tirar os olhos de minha carteira — retrucou ele, assombrado com a facilidade com que a mentira lhe saíra dos lábios.

Seu pai tinha um modo de vida tal, que nem dava conta da existência de Paul, a não ser para o absolutamente necessário. Tanto quanto podia se lembrar, seu pai só lhe dera um único conselho em toda a sua vida. No seu décimo quarto aniversário, seu pai havia lhe dado um envelope pequeno com uma camisinha Red Devil dentro.

— Deixe isso na carteira — dissera Roger Sheldon —, e se algum dia você ficar excitado com alguma garota num drive-in, perca um segundo entre excitado o bastante para querer e excitado demais para se preocupar e coloque a camisinha. Já tem criança demais neste mundo e não quero ver você entrando para o exército aos dezesseis anos de idade.

— Meu pai me disse isso tantas vezes, que nunca mais me esqueci prosseguiu Paul. — Peço desculpas se a ofendi.

Ela se descontraiu. Abriu um sorriso, a fenda fechou-se. As flores de verão balançavam no campo outra vez. Ele imaginou que se enfiasse uma de suas mãos dentro daquele sorriso não encontraria nada além de trevas, ainda que flexíveis.

— Não fiquei ofendida. Sua carteira está bem guardada. Espere um pouquinho só... tenho algo para você.

Ela saiu do quarto e retornou logo depois trazendo um prato nas mãos, onde boiavam alguns legumes numa sopa fumegante. Ele não conseguiu comer muito, mas ainda assim comeu mais do que julgara de início, e ela pareceu ficar satisfeita. Enquanto lhe dava a sopa, ela ia contando o que havia acontecido e ele foi se lembrando de tudo à medida que ela falava. Afinal, era bom ficar sabendo como você aparece com as duas pernas quebradas, embora a maneira como você ficasse sabendo de um fato como esse fosse bastante perturbadora — era como se ele fosse personagem de um livro ou de uma peça, um personagem cuja biografia não fosse recontada como uma história e, sim, fosse sendo criada como uma história de ficção.

Ela havia ido a Sidewinder em seu jipe de tração nas quatro rodas; pretendia fazer algumas compras na mercearia e se abastecer com ração para seus animais... ah, sim, também queria ver os livros novos que haviam chegado no Wilson's. Isso fora há quase duas semanas, numa quarta-feira, pois os livros novos sempre chegavam às terças.

— Eu ia pelo caminho pensando mesmo em você! — recomeçou ela, enquanto lhe dava outra colherada e, muito profissionalmente, enxugava com um guardanapo uma gota que ficara no canto da boca. — E isso é que torna essa coincidência mais incrível ainda, você não percebe? Eu ia pensando que O filho de Misery tivesse finalmente saído, mas, para azar meu, não tinha chegado ainda.

Segundo ela, uma tempestade estava a caminho, mas até o meio-dia o serviço de meteorologia garantia que ela seguiria para o sul, em direção ao Novo México e Sangre de Cristo.

— Foi isso mesmo — recordou-se ele. — Eles disseram que ela mudaria de direção. À princípio, foi por isso que resolvi sair.

Ao tentar mexer as pernas, sentiu uma dor dilacerante e Paul soltou um gemido.

— Não faça isso, advertiu ela. — Se permitir que suas pernas abram a boca, elas não vão mais parar de falar. . . e eu não posso lhe dar o remédio durante as próximas duas horas. Eu até já estou lhe dando cápsulas demais. . .

Porque não estou num hospital? Essa era a pergunta a ser feita, mas ele não estava certo que tanto ele quanto ela quisessem tal pergunta sendo formulada. Pelo menos, não por enquanto.

— Quando cheguei à mercearia, Tony Roberts me aconselhou a entrar e esperar que a tempestade passasse, antes de começar a voltar para cá e eu lhe disse que. . .

— Qual é a distância daqui até a cidade? — interrompeu ele.

— Uma boa distância — respondeu ela, vagamente, olhando pela janela.

Houve uma pausa desagradável e Paul ficou aterrorizado pelo que viu no rosto dela, porque nele só havia o vazio; o negro vazio de uma fenda que se abre nos campos de uma colina; o negro vazio onde flores não crescem e onde uma queda poderia não mais ter fim. Aquele era o rosto de uma mulher que se desligara momentaneamente de suas opiniões, de suas referências, de toda a sua vida. Era o rosto de uma mulher que perdera não só o fio da história que contava, mas que perdera também toda a memória. Ele visitara um hospício certa vez (há alguns anos atrás, quando estava colhendo material para o livro Misery, o primeiro dos quatro da série que acabou sendo sua principal fonte de renda nos últimos oito anos) e já havia visto aquele olhar, ou, melhor dizendo, aquele não-olhar. Essa expressão vazia no olhar era chamada de catatonia, mas para o que deixara Paul aterrorizado, ainda não havia uma expressão definida. Talvez fosse melhor explicá-la com uma vaga comparação: naquele momento, era como se os pensamentos dela houvessem se transformado na mesma consistência de seu corpo: pensamentos sólidos, fibrosos, sem orifícios, sem espaços vazios ou hiatos.

Pouco a pouco, o rosto dela foi se iluminando. Seus pensamentos pareceram voltar, flutuando, vindos de algum lugar. Flutuando, pensou ele, não era bem a palavra certa. Ela não estava se enchendo de pensamentos, como uma piscina vai se enchendo de água; ela estava se aquecendo. . . É, era isso mesmo. . . ela estava se aquecendo, como um eletrodoméstico qualquer, uma torradeira ou um saco d'água elétrico.

— ... eu disse a Tony: "Essa tempestade vai para o sul" — disse ela num balbucio, vagarosamente, até que as palavras retomassem sua cadência normal e ela pudesse conversar outra vez com a mesma desenvoltura anterior. Mas agora ele estava atento. Qualquer coisa que ela dizia soava um tanto estranha, fora do comum. Ouvir Annie Wilkes falando era como ouvir uma música fora de rotação — . . .mas ele me alertou: "Ela mudou de idéia!' "Que nada!", eu lhe respondi. "É melhor eu ir para casa."

"— Se eu fosse a senhora, ficaria aqui na cidade. Estão dizendo no rádio que ninguém está preparado para enfrentar uma tempestade dessas."

— Mas eu precisava voltar, é claro, não há mais ninguém para dar comida aos animais, a não ser eu. Os vizinhos mais próximos, os Royd-mans, moram a muitos quilômetros daqui, e, além do mais, eles não gostam de mim.

Ela lançou-lhe um olhar cortante ao dizer isso e, como ele nada respondesse, passou a colher na borda do prato, numa maneira muito autoritária, e perguntou:

— Satisfeito?

— Sim, já estou satisfeito. Obrigado. Estava muito gostosa. Você tem muitos animais por aqui?

Por que se tiver, pensou ele, você deve ter alguém para lhe ajudar; pelo menos um empregado. "Ajuda" era palavra-chave, ou parecia ser, já que ela não usava aliança de casamento.

— Não muitos — respondeu — Meia dúzia de galinhas chocadeiras, duas vacas e Misery.

Ele arregalou os olhos, e ela sorriu.

— Você não deve achar muito gentil eu dar à minha porca o mesmo nome da mulher linda e corajosa que você inventou, mas é esse o nome que dei a ela e minha intenção não foi desrespeitá-lo. — Ela fez uma pausa e prosseguiu: — Ela é bem mansinha.

E dizendo isso, franziu o nariz e, pelo menos por um instante, se transformou numa porca, eriçando até mesmo os pêlos que lhe cresciam no queixo.

— Oinc! Oinc! U-u! OINC! — fez ela, imitando o animal. Paul olhava para ela com os olhos ainda mais arregalados.

Ela não percebeu; desligara-se outra vez seu olhar estava vago e perdido, sem brilho. Mesmo a luz refletida pelo pequeno abajur não se demorava muito naquele olhar.

Finalmente, ela deu um suspiro e retomou seu estado.

— Andei cerca de cinco quilômetros e começou a nevar forte; aqui é assim: quando começa, a neve vem sempre com força. Eu vinha bem devagar, com os faróis acesos e a certa altura avistei o seu carro, capotado e fora da estrada.

Annie virou-se para ele com um olhar de reprovação:

— Você não estava com os faróis ligados.

— A tempestade me pegou de surpresa — justificou-se ele, lembrando-se só naquele momento o quanto havia sido pego de surpresa, embora ainda não conseguisse se lembrar do quanto estava bêbado.???

— Eu poderia não ter parado o jipe, se você estivesse no meio de uma ladeira. Sei que não é muito cristão dizer isso mas já havia uma boa camada de neve na pista e, mesmo num jipe com tração nas quatro rodas nunca se pode ter certeza que ele seguirá adiante se perder a velocidade. Seria mais fácil dizer a mim mesma: Ah, eles conseguiram escapar, pegaram uma carona e pronto. Mas eu estava numa reta, bem no alto do terceiro morro depois da casa dos Roydmans. Parei o carro, desci escutei alguém gemendo — e esse alguém era você, Paul.

Annie lhe dirigiu um sorriso forçado, meio estranho e maternal. Pela primeira vez, um pensamento inteiramente claro lhe surgiu na cabeça: Estou numa encrenca: essa mulher não é boa da cabeça.

6

Nos vinte minutos seguintes, os dois ficaram conversando, ele deitado e ela sentada ao lado da cama, naquele quarto aparentemente sem uso. Mas à medida que seu corpo foi absorvendo a sopa, a dor nas pernas recomeçou. Ele fez o possível para prestar atenção no que ela dizia, mas não teve muito êxito. Sua mente estava dividida. Por um lado, escutava Annie contando como o retirara dos destroços de seu Camaro ano 74 e esse seu lado doía e latejava, como um par de velhas estacas de madeira carcomida, que começa a despontar, cintilante, por entre as ondas da maré que vai baixando. Por outro lado, via a si mesmo no Hotel Boulderaro, onde terminara seu último romance — obrigado, Senhor, pelas coisas pequenas! —, em que Misery Chastain não era a protagonista.

Havia inúmeras razões pelas quais não queria escrever mais sobre Misery, mas uma delas se sobrepunha a todas as outras de maneira inabalável e irreversível: Misery — obrigado, Senhor, pelas coisas grandes! — estava finalmente morta. Morrera cinco páginas antes do final de O filho de Misery. Ninguém deixaria de derramar uma lágrima quando lesse o trecho do livro, nem mesmo Paul foi capaz. Só que as lágrimas que lhe escorriam dos olhos eram o resultado de histéricas gargalhadas.

Ao terminar o último livro, um romance moderno protagonizado por um ladrão de carros, lembrara-se do momento exato em que datilografara a última frase de O filho de Misery: ''E então, Ian e Geoffrey deixaram o cemitério ao lado da igreja de Little Dunthorpe, confortando um ao outro, determinados a recomeçarem uma nova vida". Enquanto escrevia esta última linha, Paul gargalhara tão ruidosamente que mal conseguia acertar as teclas da máquina, tendo que voltar e apagar certas letras várias vezes. Obrigado, Senhor, pela fita corretora de sua boa amiga IBM! Ele escrevera FIM logo abaixo do texto e saíra aos pulos pelo quarto — no mesmo quarto do Hotel Boulderaro — gritando sem parar: Livre! finalmente Livre! Graças ao bom Deus, estou finalmente livre! Aquela cadela finalmente morreu!

O livro novo chamava-se Carros velozes e ele não teve motivos para gargalhar histericamente ao terminá-lo. Ficara sentado de frente para a máquina de escrever, pensando: Você pode ter acabado de ganhar o Prêmio de Melhor Livro Americano do próximo ano, meu caro. Ele tirou o. . .

—". . . pequeno machucado na sua testa direita, mas não parecia ser nada sério. Mas as suas pernas. . . mesmo já tendo começado a escurecer, pude logo perceber que suas pernas não. . . "

. . .fone do gancho e discou para o serviço de quarto, pedindo uma garrafa de Dom Pérignon. Lembrou-se de ficar andando de um lado para o outro do quarto — o mesmo quarto em que terminara todos os seus livros desde 1974 — enquanto esperava o champanhe; lembrou-se de dar uma nota de cinqüenta dólares ao garçom como gorjeta, e de ter perguntado a ele sobre a previsão do tempo; lembrou-se do garçom, muito satisfeito e embaraçado, lhe dizer, entre muitos sorrisos, que a tempestade desviara para o sul, em direção ao Novo México, e que não vinha mais para aqueles lados; lembrou-se de pegar na garrafa gelada, de ouvir o suave estampido da rolha e do gosto seco, meio ácido-meio amargo, do primeiro copo de champanhe; lembrou-se de ter aberto a mala e de ter dado uma olhada na passagem de avião para Nova Iorque; lembrou-se de ter decidido subitamente, assim sem mais nem menos de. . .

— ... era melhor eu trazer para minha casa imediatamente! Foi uma dificuldade leva-lo até o jipe, mas eu sou uma mulher bem avantajada — como você já deve ter reparado. Eu tinha uma pilha de lençóis comigo e, assim, embrulhei você num deles e mesmo com a pouca luz do entardecer, percebi que você me parecia muito familiar! Pensei que talvez. . .

. . .pegar o Camaro no estacionamento do hotel e seguir para oeste de carro, em vez de pegar o avião. Afinal de contas, o que havia para ele em Nova Iorque? Apenas uma casa, vazia, fria, nada acolhedora e, possivelmente, arrombada. Que se dane! pensou ele, bebendo mais champanhe. Siga para o oeste meu jovem, para oeste! A idéia era maluca demais para fazer sentido. Pegue apenas uma muda de roupa e o. . .

— ... encontrei sua mala e a peguei também. Já não enxergava quase nada e estava amedrontada com a idéia de que você morresse sob os meus cuidados, ou qualquer coisa assim. Então liguei logo o carro e peguei sua. ...

. . .manuscrito de Carros velozes e ganhe a estrada em direção a Las Vegas, Reno ou até mesmo Los Angeles. Lembrou-se que a idéia também lhe parecera muito tola a princípio — aquela era uma viagem para ter sido feita pelo jovem de vinte e quatro anos que fora um dia, ao ter vendido seu primeiro romance, mas não para o homem de quarenta e dois anos de idade que ele era no momento. Algumas taças de champanhe mais tarde, e a idéia não lhe pareceu nem um pouco tola. Na verdade, parecia-lhe esplêndida, uma espécie de Grande Odisséia para Algum Lugar; uma maneira de se familiarizar de novo com a realidade depois de ter se embrenhado nos meandros fictícios do livro. E, assim, ele. . .

—. . .me veio como uma luz! Tinha certeza de que você estava morrendo. . . quero dizer, eu estava certa que sim! Aí peguei sua carteira dentro da mala, tirei a carteira de motorista e vi o nome; Paul Sheldon. Deve ser mera coincidência, pensei. Mas a foto da carteira também se parecia com você. Fiquei tão assustada, que precisei me sentar na cadeira da cozinha. Pensei até que ia desmaiar. Depois de algum tempo, comecei a achar que talvez as foto fosse uma coincidência também, afinal essas fotografias não se parecem muito com ninguém. . . mas quando encontrei sua carteira da Associação dos Escritores e uma outra, do PEN, soube logo que você. . .

. . .acabou se metendo em apuros quando a neve começou a cair. Muito antes disso, porém, ele havia parado no bar do hotel e dado a George uma gorjeta de vinte dólares para que ele lhe conseguisse outra garrafa de Don Pérignon. Sob um céu cinza-chumbo, ele esvaziou a garrafa enquanto dirigia em direção às montanhas Rochosas e, em algum lugar ao leste do túnel Eisenhower, ele saiu da auto-estrada porque as pistas estavam secas e vazias e a tempestade seguia para o sul. E afinal de contas, o túnel o deixava nervoso. Escutava uma fita antiga de Bo Diddley no toca-fitas instalado no painel e só ligou o rádio depois que o Camaro começou a derrapar e a deslizar de verdade. Foi só então que percebeu que aquilo não seria uma nevasca passageira, comum no interior, e sim uma tempestade bem real; a tempestade talvez não tivesse seguido para o sul, afinal; ela talvez estivesse vindo bem na sua direção e ele talvez estivesse se metendo em apuros (assim como esse em que você está agora). . .

. . .embora se encontrasse bêbado o bastante para achar que conseguiria escapar. Dessa forma, ao invés de parar em Cana e procurar um hotel, ele resolveu seguir em frente. Lembrou-se então da tarde ter se transformado em noite; lembrou-se que o efeito do champanhe começava a se dissipar; lembrou-se de ter se inclinado para um cigarro no porta-luvas e foi neste instante que a última derrapada aconteceu. Ele tentou parar o carro; mas o resultado foi ainda pior; lembrou-se de uma forte pancada abafada e o mundo virou de cabeça para baixo. Ele havia. . .

— ... gritado! E quando eu o ouvi gritando, percebi que ia sobreviver. Pessoas moribundas raramente conseguem gritar, elas não têm forças para isso, eu entendo muito bem dessas coisas. Decidi então ajudar você a viver. Dei-lhe um dos meus analgésicos e você dormiu; ao acordar, começou a gritar outra vez e lhe dei outra dose. Depois você teve febre, mas consegui combatê-la com Keflex. Por uma ou duas vezes, você quase morreu, mas agora isso já passou. Prometo a você que sim.

Ela se levantou e lhe disse:

— Agora você precisa descansar e recuperar suas forças, Paul.

— Minhas pernas estão doendo.

— Tenho certeza que estão. Dentro de uma hora eu lhe trarei seu remédio.

— Agora, por favor.

Sentia-se humilhado em pedir tal coisa, mas não podia evitar. A rnaré baixara e as duas estacas resistiam de pé, imponentes e reais, e isso era algo que não podia ser evitado nem mediado.

— Daqui a uma hora — proferiu ela com firmeza, já se dirigindo para a porta, levando a colher numa das mãos e a tigela de sopa na outra.

— Espere!

Ela voltou-se e lhe dirigiu um olhar amoroso e implacável. Paul não gostou daquele olhar. Não gostou nem um pouco.

— Já faz duas semanas que estou aqui?

Ela pareceu ficar confusa outra vez, além de aborrecida. E ele percebeu que a noção que ela tinha do tempo não era das melhores.

— Mais ou menos isso.

— E eu estava inconsciente?

— A maior parte do tempo.

— E como eu me alimentava?

— Ela o olhou, pensativa, e respondeu laconicamente:

— I V

— IV?

Ela interpretou seu atordoamento como se fosse uma simples ignorância do assunto.

— Eu o alimentei por via intravenosa. Através de tubos. É por isso que seus braços estão cheios de marcas — explicou ela, dirigindo-lhe um olhar vago mas pensativo. — Você me deve a vida, Paul. Espero que se lembre disso. Espero que se lembre sempre disso.

E dizendo isso, saiu.

7

A hora passara. De alguma maneira e finalmente, aquela hora passara.

Deitado na cama, ele suava frio e tremia ao mesmo tempo. De outro cômodo da casa vinham os sons de Hawkeye e Hot Lips e as vozes dos disc-jóqueis da WKRP, uma rádio barulhenta e extravagante de Cincinnati. A voz de um locutor exaltava as qualidades das facas Ginsu, colocava um telefone à disposição dos ouvintes do Colorado que estivessem ansiosos para ganhar um conjunto de facas e avisava que as telefonistas já estavam esperando.

Paul Sheldon também estava esperando.

Assim que o relógio do outro cômodo bateu oito horas, ela reapareceu prontamente, trazendo as duas cápsulas e um copo de água.

Ele levantou o corpo apoiando-se nos cotovelos, ávido pelo remédio, e ela sentou-se na cama.

— Finalmente consegui comprar seu último livro, há dois dias apenas — ela informou.

O barulho dos cubos de gelo batendo nas paredes do copo quase o enloqueceu.

— . . .O filho de Misery . . . Adorei! É tão bom quanto os anteriores. E melhor que eles! É o melhor de todos!

— Obrigado — balbuciou ele, sentindo o suor lhe escorrer pelo rosto. — Agora, por favor. . . as minhas pernas. . . muito doloridas. . .

— Eu sabia que ela acabaria se casando com Ian — disse ela, com um sorriso nos lábios — e aposto como Ian e Geoffrey vão voltar a ser amigos novamente, não vão? Não, não me conte! — arrependeu-se ela, subitamente — Deixe que eu mesma descubra. Estou lendo este aos poucos, para não acabar logo. Demora tanto até sair outro livro da série. . .

Sua pernas latejavam e ele sentia uma profunda pressão na altura da virilha. Havia tateado seu corpo naquela região, e julgava que sua bacia estivesse intacta, embora parecesse estranha e retorcida. Do joelho para baixo, nada parecia estar intacto. Ele não queria nem olhar. Via o contorno retorcido e encaroçado de suas pernas por baixo do lençol e isso já era o bastante.

— Miss Wilkes, por favor. . . eu estou com dores. . .

— Me chame de Annie. Todos os meus amigos me chamam assim. Ela lhe entregou o copo gelado e embaciado pela umidade, mas não lhe deu o remédio. Annie era a lua, as cápsulas em sua mão eram a maré. E era a lua quem comandava a maré, que viria subindo, até cobrir as estacas. Ela levantou a mão e Paul abriu imediatamente a boca, mas, subitamente, ela afastou a mão, recolhendo o remédio.

— Tomei a liberdade de olhar o que tinha dentro da sua bolsa. Você não se importa, não é mesmo?

— Não, é claro que não. O remédio. . .

Pela testa lhe escorria um suor frio e quente ao mesmo tempo. Estaria prestes a gritar? Achava que sim.

— Havia um manuscrito lá dentro — insinuou Annie, ao mesmo tempo em que passava as cápsulas da mão direita para a esquerda, vagarosamente. Paul acompanhava o movimento com os olhos.

— O nome do livro é Carros velozes, não é um dos livros Misery — retomou ela, dirigindo-lhe um olhar de reprovação que, como todos os seus olhares, confundia-se também com uma expressão amorosa e maternal. — No século dezenove não existiam carros, fossem eles velozes ou não!

Annie riu de seu próprio comentário e prosseguiu:

— Tomei também a liberdade de dar uma olhada no manuscrito. . . Você não se importa, não é?

E dizendo isso, Annie inclinou a mão esquerda lentamente e fez cair as cápsulas na mão direita outra vez, e elas fizeram um delicado ruído ao tocarem uma na outra.

— Por favor. . . — murmurou ele — Não, não me importo, mas por favor. . .

— E se eu o lesse? Você não se incomodaria que eu o lesse?

— Não. . . — Seus ossos estavam quebrados, suas pernas pareciam um amontoado de cacos de vidro inflamados, mas ele tentou esboçar um sorriso. — Não, é claro que não me importo. . .

— Por que eu jamais seria capaz de fazer uma coisa dessas sem a sua permissão — afirmou ela, com toda a seriedade — Tenho o maior respeito por você. Para dizer a verdade, Paul, amo você.

Annie enrubesceu, súbita e alarmantemente. Uma das cápsulas caiu de suas mãos e foi parar em cima da colcha. Paul tentou pegá-la, mas Annie foi mais rápida e ignorou seu gemido. Annie tornou a assumir aquele ar vago e seus olhos perderam-se pela janela.

— São suas idéias, sua criatividade — foi isso o que quis dizer. Desesperado, só lhe restou pensar numa resposta:

— Sim, eu sei o que quis dizer, Annie, você é minha fã número um. . .

Dessa vez, Annie não pareceu se esquentar. Ela se incendiou:

— É isso mesmo! — exclamou — É exatamente isso! E como tal, você não se incomodaria que eu lesse o manuscrito, não é? Eu o lerei como uma. . . fã ardorosa, mesmo que não goste de seus outros livros da mesma maneira que gosto dos livros Misery.

— Não, não me importo — disse ele, fechando os olhos.

Não, eu não me importo se você pegar todas as páginas do livro e fizer delas barquinhos de papel, se quiser. . . Mas, por favor, eu estou morrendo. . .

— Você é uma pessoa muito boa — disse ela, ternamente —, sabia que agiria assim. Só de ler os seus livros, sabia como você reagiria. Eu não poderia esperar outra coisa do homem que imaginou alguém como Misery Chastain. . . Não só imaginar, mas em dar vida a ela!. . .

Subitamente, os dedos de Annie estavam em sua boca — dedos revoltantemente íntimos; sujos, porém, bem-vindos. Paul sorveu as cápsulas trazidas por aqueles dedos e as engoliu antes mesmo que suas mãos trêmulas lhe trouxessem o copo até a boca, não sem entornar um pouco da água.

— É como uma criança, uma boa criança — declarou ela.

Paul não podia vê-la. Seus olhos permaneciam fechados, e enchiam-se de lágrimas.

— Quero perguntar tantas coisas a você. . .quero saber tantas coisas, Paul.

Lágrimas escorriam-lhe pelos olhos.

— Vamos ser muito felizes aqui — disse ela, levantando-se.

Uma onda de horror lhe invadiu o coração, mas ainda assim Paul permaneceu com os olhos fechados.

8

A maré subiu e Paul se deixou levar. No outro cômodo, a televisão ficou ligada por algum tempo. O relógio tocava de vez em quando, e Paul tentava contar as badaladas, mas sempre perdia a conta.

I.V. Através de tubos. É por isso que seus braços estão cheios de marcas.

Apoiando-se num dos cotovelos, ele tateou em busca do interruptor e finalmente conseguiu acender o abajur. Examinou seus braços e reparou nos furos marcados por um ponto de sangue escurecido, envoltos num círculo arroxeado.

Paul recostou-se na cama e olhou para o teto, ouvindo o barulho do vento. Ali estava ele, entre a vida e a morte, em pleno inverno, com uma mulher que não era boa da cabeça, que o alimentara por meio de tubos quando ele estava inconsciente, que aparentemente possuía um estoque imenso de medicamentos e que não comunicara a ninguém que ele estava ali.

Todas essas coisas tinham a sua importância, mas ele começou logo a perceber que havia uma outra coisa ainda mais importante: a maré estava baixando. Ele ficou esperando que o despertador dela tocasse, lá no andar de cima. Ainda era cedo, mas já era hora de Paul começar a esperar que o alarme disparasse.

Ela era maluca, mas ele dependia dela.

Estou mesmo numa enrascada, pensou ele, olhando distraidamente para o teto, enquanto gotas de suor começavam a brotar de novo em sua testa.

9

Na manhã seguinte, ela lhe trouxe um pouco mais de sopa. Disse a ele que já havia lido quarenta páginas de seu "livro-manuscrito'', como chamava ao seu novo romance, e adiantou que este não era tão bom quanto os anteriores.

— É difícil da gente entender: fica indo e voltando no tempo.

— É só uma técnica, nada mais — respondeu ele — É o assunto quem determina a forma.

Como estivesse no meio do estágio entre a dor e o alívio, ele conseguia pensar um pouco melhor sobre o que ela dizia. E de alguma forma tinha a ligeira impressão que os segredos de sua profissão pudessem interessá-la, ou mesmo fasciná-la. Pelo menos, este era um assunto que sempre fascinava as pessoas nos seminários de literatura para os quais ele às vezes discursava, quando era mais novo.

— O rapaz tem a cabeça um pouco confusa — retomou ele —, você deve ter reparado, e então. . .

— É isso mesmo! Ele é muito confuso! — interrompeu ela. — Isso o torna pouco interessante. . . Eu não diria desinteressante — afinal de contas, você seria incapaz de criar um personagem desinteressante — e, sim, menos interessante. E como é vulgar! Volta e meia solta um palavrão! Ele não tem. . .

Annie fez uma pausa, como se estivesse pensando, mas continuou dando-lhe a sopa, automaticamente, e limpando o canto de sua boca sem ao menos olhar o que fazia, como uma datilografa muito experiente, que não precisa ficar olhando para o teclado da máquina. Foi muito fácil, para ele, chegar à conclusão de que Annie devia ter sido uma enfermeira; não, não uma médica. . . Médicos não saberiam quando uma gota de sopa escorreria da boca de um paciente com tamanha exatidão. . .

Se o meteorologista de plantão no dia da tempestade fosse tão eficiente no seu serviço como Annie é no dela, eu não estaria metido nessa maldita confusão, pensou ele, amargamente.

— Ele não tem classe! — proferiu Annie, de súbito, dando um pulo e quase derramando sopa de carne em seu rosto pálido.

— Entendo o que quer dizer, Annie — retrucou ele, pacientemente. É verdade, Tony Bonasaro não tem classe. Ele é apenas um garoto criado num bairro pobre e que luta para se livrar daquele ambiente nocivo. . . quanto aos palavrões, bem. . .todas as pessoas em. . .

— Não, elas não falam assim! — interrompeu Annie, dirigindo-lhe um olhar de reprovação. — Como é que você acha que eu falo quando vou até a cidade comprar comida? ''Ei, Tony, me dê um saco dessa maldita ração para porcos, outro dessa droga de ração para gado e um pouquinho daquela porcaria de remédio!" E como você acha que ele me responde? "Você foi danadinha, Annie, em vir direto a esta droga de armazém!"

O rosto de Annie escureceu como o céu antes de um furacão. Paul permaneceu deitado, completamente aterrorizado. A tigela de sopa balançava nas mãos de Annie e uma ou duas gotas caíram no lençol.

— E então eu desço a rua, vou até o banco e falo assim para a senhora Bollinger: "Desconte este maldito cheque e me passe esses malditos cinqüenta dólares o mais rápido possível!" Você acha que quando eles me levaram ao tribunal lá em Den. . .

O caldo escuro da sopa de carne virou em cima do lençol. Annie olhou para ele e tornou a olhar para o lençol. Seu rosto estava transtornado.

— Olhe só o que você me obrigou a fazer!

— Eu sinto muito.

— Sente, sim! Sente muito! — gritou Annie, atirando a tigela de encontro à parede.

A tigela se espatifou e o restante da sopa se esparramou pela parede. Paul engoliu em seco.

Annie se desligou. Permaneceu sentada por uns trinta segundos e nem o coração de Paul ousava bater.

Levantando a cabeça pouco a pouco, Annie, subitamente, soltou uma gargalhada.

— Eu tenho um gênio. . .

— Eu sinto muito — desculpou-se ele, engolindo em seco outra vez.

— É bom que sinta mesmo!

O rosto dela pareceu esvaziar-se novamente e Annie ficou olhando, indiferente, para a parede. Paul achou que ela havia se desligado como das outras vezes, mas ela se levantou pesadamente e soltou um longo suspiro.

— Você não precisa usar essas palavras sujas nos livros Misery, porque naquele tempo eles não usavam essa linguagem. Naquele tempo, essas palavras não haviam nem sido inventadas. Nestes tempos brutais, exigem-se palavras brutais, eu suponho, mas aqueles tempos antigos é que eram bons. Você deveria escrever apenas os livros Misery, Paul. Como sua fã número um, essa é a minha opinião sincera.

Annie foi até a porta e voltou-se:

— Vou colocar o livro-manuscrito de volta na sua bolsa e terminar de ler O filho de Misery. Pode ser que eu o leia mais tarde.

— Se isso a deixa irritada, então não leia — retrucou Paul, arriscando um sorriso. — Prefiro que você não fique irritada, você sabe, de certo modo, eu dependo de você. . .

Annie não retribuiu o sorriso, mas respondeu:

— É, você depende de mim. Depende mesmo, não é, Paul? E dizendo isso, saiu.

10

A maré baixou e as estacas reapareceram. Paul ficou à espera das badaladas do relógio. Duas badaladas. As badaladas soaram. Paul apoiou-se nos cotovelos, com os olhos fixos na porta. Annie entrou, vestida com o casaco de malha e uma de suas muitas saias; ela usava ainda um avental e trazia um balde numa das mãos.

— Suponho que você queira tomar essa porcaria de remédio.

— Sim, por favor — respondeu ele, tentando sorrir gentilmente. Paul sentiu vergonha de agir assim. Parecia uma criatura grotesca a si mesmo, um estranho.

— Aqui está, mas antes vou ter que limpar a sujeira que você fez. E você terá que esperar até que eu termine.

Deitado onde estava, Paul contemplava o contorno de suas pernas por baixo do lençol. Pareciam galhos quebrados de uma árvore. De sua testa começaram a escorrer as primeiras gotas de suor frio. Paul ficou observando Annie a colocar o balde no chão e a catar os cacos do prato. Ela saiu do quarto, voltou, ajoelhou-se no chão e tirou do balde um pano encharcado de sabão. Depois de torcê-lo, Annie começou a limpar a parede. Paul ficou a observá-la e, por fim, seu corpo começou a tremer e a dor, a piorar. A certa altura, Annie virou-se e reparou que ele tremia e que as roupas de cama já estavam encharcadas de suor. Ela deu um sorriso irônico e Paul julgou que pudesse matá-la por isso.

— A sopa ressecou — disse ela, retomando a limpeza — Acho que isso ainda vai demorar um pouco, Paul.

A mancha de sopa foi desaparecendo da parede, mas Annie continuou a esfregar. Tornava a colocar o pano no balde, torcia-o e recomeçava a esfregar, interminavelmente. Paul não podia ver o rosto dela, mas tinha quase certeza que Annie se desligara outra vez e a simples idéia de que ela poderia continuar esfregando a parede por horas a fio o atormentava.

Pouco antes do relógio bater uma badalada, marcando as duas horas e trinta minutos, Annie finalmente se levantou. Sem uma palavra, jogou o pano dentro do balde, pegou-o pela alça e saiu do quarto. Deitado onde estava, Paul podia ouvir o assoalho estalar a cada passo, marcando a passagem sólida e imperturbável de Annie. Ouviu-a jogando fora a água do balde e — inacreditavelmente — ouviu-a abrir de novo a torneira, enchendo-o uma vez mais. Paul começou a chorar silenciosamente. A maré nunca estivera tão baixa, e ele não divisava nada além de duas estacas carcomidas lançando duas sombras intermináveis e desfeitas na areia úmida.

Parada no meio da porta, Annie o observava. Paul tinha o rosto molhado de suor, mas Annie limitou-se a lhe dirigir o mesmo olhar severo e maternal.

— Agora é preciso enxaguar — anunciou ela, olhando para a parede, onde já não se via a menor mancha de sopa. — Caso contrário, o sabão deixará marca na parede. Eu preciso fazer isso, preciso fazer tudo direitinho. O fato de morar sozinha não é desculpa para não fazer as coisas direito. Minha mãe tinha um lema e eu vivo de acordo com ele. Ela costumava dizer: "Uma vez que se faça algo malfeito, nunca mais se fará bem-feito!'

Continuar: parte 2 de 4