Mysterio do Natal

Henrique Coelho Neto · Capítulo 8 de 29

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Mysterio do Natal

| O milagre das lagrimas

 

A ESTRADA, A DUAS HORAS DE S ICHEM, PELOS MONTES, LARGA E SUAVE, COM acceitosas sombras de sycomoros e de amendoeiras, era toda orlada de anemonas vermelhas e de margaridas brancas e amarellas.

Os khans succediam-se sempre abrigados em hortos frondosos, com a cisterna ao lado ou perto de alguma fonte, com a alpendrada reverdecida pela vinha, debaixo da qual os mercadores, que desciam de Tyro ou do Libano ou subiam de Joppé, comiam uma febra de anho regando-a com o vinho fresco de Engaddi, emquanto os dromedarios soltos iam e vinham vagarosamente ou deitados, ruminando, cerravam os olhos nostalgicos á vivida fulguração do sol.

Casas miserrimas, de muros de lodo, cobertas de palha, confundiam-se com a ramagem dos eloendros, perdiam-se nos olivaes.

Caravanas desfilavam

— os homens a cavallo, com as lanças altas, o albornoz ao vento; as mulheres em jumentos ou em carros, entre fardos e alcofas, agasalhando crianças sob as pontas dos mantos.

Por vezes um canto suave rompia da turba, rufavam tamboris, kinnareths vibravam, frautas desferiam e os cavalleiros alegres faziam caracolar os ginetes, as mulheres punham-se de pé nos carros olhando as muralhas que se aprumavam ao longe, fechando cidades, cujas casas, em cubos brancos, semelhavam tumulos.

José evitava os pousos, fugia aos rumorosos aduares, mettendo por atalhos para evitar a chacota da gente nomade.

Justamente atravessavam uma trilha deserta quando ouviram um choro triste e deram de rosto com uma moça morena que trazia nos braços uma criança inerte.

Pós ella uma pequenita, já com abundancia de flores, ainda varejava os mattos procurando anemonas.

Vendo-os, a misera susteve o pranto e, fitando em José os olhos rasos d'agua, perguntou:

«Se ainda distava muito Endor, onde vivia Baruc, o nazir, que conhecia a virtude das hervas e realisava curas maravilhosas. Vendera as suas ovelhas e levava oito cyclos de prata e um collar de ouro comprado em Jerusalem e, se tanto não bastasse, dar-se-ia como escrava pela saude do filho.»

José estendeu o braço na direcção do Levante:

— Era além, muito longe, atravez da montanha, num valle sombrio, a horas do Jordão.

Maria, commovida, quiz vêr o infante.

A mãi descobriu-lhe o rosto.

Era lindo!

Os cabellos rolavam-lhe em cachos louros, os olhos jaziam como dois mortos sob as cupulas tumbaes das palpebras, com os longos cilios repontando como a herva que viça no abandono.

A boca, de labios cerrados, livida, era como o leito secco de uma torrente que o sol exhauriu e estalou.

Não se movia e, tão rigido, tão frio estava que só a illusão do amor podia ainda emprestar-lhe vida.

A pequenita continuava a rebuscar anemonas cantando.

— Ides debalde a Endor com o vosso filho, disse commiserado o patriarcha, accrescentando: Baruc póde sarar enfermos, mas só Elias resuscitava os mortos.

— Quereis dizer que elle está morto!? exclamou a mulher tremendo. Se, ainda hontem, embalei-o nos braços... Se ainda estou com os peitos cheios de leite, manando copiosamente como as ribeiras das collinas.

Ai! de mim... Bem que eu não queria cantar a cantiga tristonha! Foi o canto triste que o fez fugir dos meus braços. Ai de mim!

Adormeci-o para sempre.

E agora? quem terá piedade da minha solidão? Era elle só...

Nasceu em noite de luar, finou-se em manhan de nevoa. E hei-de o deixar na terra justamente agora quando o inverno chega! Ai! de mim... A saudade mudará o leite dos meus peitos em lagrimas para os meus olhos. Pobre de mim! Coitada de mim!

E a moça deixou-se cahir á beira do caminho apertando nos braços o corpo do filho morto.

A pequenita continuava a rebuscar anemonas.

Maria inclinou-se compadecida sobre o cadaver e duas lagrimas da sua piedade rolaram na fronte gelida do defunto.

Logo abriram-se os olhos da criança. Eram azues, côr do ceu; renasceram-lhe as rosas das faces, os bracinhos inertes estenderam-se e, lindo, com o esplendor da vida, o pequeno sorria afogando a cabeça no collo materno.

O espanto emmudecera, immobilisara a moça.

 

Subito, ergueu-se com um grito d'alma, poz-se a rasgar a tunica na pressa sofrega de amamentar o filho.

Os peitos saltaram tumidos. O pequeno abocou avidamente e a mãi, sentindo-o sugar, contente e com lagrimas, ajoelhou-se e, d'olhos no ceu, ficou como petrificada.

Maria chorava por vêl-a chorar venturosa e, como as suas lagrimas cahissem na terra, a pequenita não teve mãos para colher as flores que nasciam, brotando como acima d'agua borbulham, ás mil, as bolhas de ar.