Mysterio do Natal
| Receio
FINO RAIO DE SOL INSINUANDO-SE NA CAVERNA POUSOU NA PALHA ABRINDO UM ARO DE ouro em torno da cabeça do Infante adormecido.
Todas as aves chilreavam, garrulas moças passavam na estrada; ás vezes eram récuas de dromedarios desfilando em ruidoso atropello.
Maria prestava attenção ao rumor, receiando pelo Filho. Tomou-o muito ao seio e, quasi de rastos, aprofundou-se na sombra escondendo o seu thesouro com amorosa avareza.
Tão lindo! quem o não desejaria! E se um d'aquelles homens, descobrindo-o, investisse para arrebatal-o, quem o defenderia?
Na treva ficava a coberto de todos os olhares.
No fundo da caverna lentejava tristemente uma mina e a cada gotta do estellicidio respondia um som lacrimoso.
O ar era frio e humido, as paredes luziam lutulentas e, fóra, o sol brilhava, alegre e tepido, em fitas, em nimbos de ouro, lampejando nas arestas agudas da abobada escabrosa.
Quando José reappareceu
— a herva da entrada subitamente esmarriu
— vendo deserta a palha, estacou, olhando espantado, com apprehensões de desgraça.
Que seria feito delles? Caminhou alguns passos. O coração batia-lhe, tremia-lhe a urna ao hombro. Maria, reconhecendo-o, falou do seu esconderijo:
— Aqui, meu senhor. O patriarcha adiantou-se e, sentindo a friagem do sitio, ouvindo o triste gottejar na lage, perguntou:
— Porque buscaste tão obscura jazida onde o ar regela e a luz não chega? Lá fóra ha um calor macio e sente-se o aroma das hervas vivas, ouvem-se as vozes alegres. Aqui ha o silencio e a melancolica espessidão dos tumulos.
— Eu estava só, meu senhor e o coração, dantes tão animoso, é agora tão timido que eu viveria, de boa mente, num subterraneo só para que olhos maus não fitassem meu filho nem o invejassem adoentando-o.
Não sei que voz me fala dentro do coração pedindo-me que o defenda. Ouço-a a todo instante.
Dizem-me os anjos que Elle é Deus... Não me passaram despercebidos os prodigios da noite: tudo vi, tudo ouvi, mas minh'alma ordena-me que o resguarde, que o não perca de vista, que sempre o traga acautelado, talvez porque é pequenino e fraco.
Não sei se pecco com a presumpção de defender quem é omnipotente, mas como hei de lutar contra mim?
— Mas se o ceu nos diz e prova que Elle é o Filho de Deus porque has de receiar os homens?
— É o coração que receia.
— E entre o que diz o coração e o que affirmam os anjos hesitas, Maria?
— Senhor, os anjos falam pelo Ceu, o coração fala pelo meu amor. Se Deus acha-me rebelde, curvo-me ao seu castigo.
E, humildemente, ajoelhou-se ante o berço.
Jesus, abrindo os olhos claros, profundos, fitou-os nella e, como se lhe quizesse responder, sorriu.