Mysterio do Natal

Henrique Coelho Neto · Capítulo 4 de 29

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Mysterio do Natal

| A refeição

 

S UAVE SOM DE FRAUTA PASTORIL DEU A MARIA O ENCANTO DE UMA EGLOGA. V OLTOU A cabeça dourada e viu o rebanho que se aproximava em vagaroso passo.

Trazia-o um menino, guiando-o por entre as hervas de aroma. Um lindo menino, tão alvo que não despedia sombra, como as neves que os raios do sol atravessam; tão louro que a sua cabeça alumiava.

Vinha a frauta soando em suaves accentos e attrahidas, enlevadas na musica, abelhas voavam em volta do pastorinho, que assim apascentava dois rebanhos: um pela terra verde, outro pelos ares claros.

Ergueu-se Maria e, sem dizer palavra, olhando os ubres apojados das ovelhas, deu a sentir o seu desejo.

Como devia saber aquelle leite que era a metamorphose das flores dos silvados! Como devia rescender na boca e aquecer e fartar!

Calou-se a frauta e o menino, fitando os olhos meigos no casal errante, como se de muito o conhecesse e amasse, deteve-se, e os animaes pararam.

Ficou o rebanho unido, tão junto que não fazia mais que um vello e as abelhas, zumbindo, puzeram-se a esvoaçar em torno dos lirios alvos.

José adiantou-se e, offerecendo um obulo ao menino, pediu-lhe um pouco de leite. Sorrindo, o pastorinho tomou o tarro que trazia ao flanco.

Logo, entre as ovelhas, houve um movimento ancioso. Balavam todas offerecendo as tetas refertas, atropelavam-se, saltavam querendo, cada qual, ser a escolhida e o pastorinho brandamente as afastava.

Foi á primeira, ordenhou-a. O leite esguichou em fio; outra chegou, depois outra e a todas elle attendia para que nenhuma ficasse preterida.

Já a espuma fervia crescendo em flor, transbordando do vaso e as ovelhas festejavam-se contentes.

Sorrindo, aceitou Maria a offerta do zagal; bebeu a lentos goles, saboreando. E foi a vez de José.

Refeito, o patriarcha insistiu na dádiva da moeda, mas o menino negou-se a recebel-a:

— Que era um pouco de leite? Qualquer pastor faria o mesmo.

Saudou-os, e, pondo-se á frente das ovelhas, levou a frauta aos labios.

Os sons vibraram. Lento e manso o rebanho proseguiu. Foi então que Maria viu que as abelhas, tantas que occultavam os lirios, deixavam as flores voando á musica da frauta.

— Lindo pastor! Lindo rebanho! disse, enlevada, a Virgem. Mas logo, referindo-se ás abelhas que fugiam, perguntou a José: Que terão ellas buscado nas flores d'agua?

— O arôma e o néctar, explicou o patriarcha.

Chegaram-se os dois ás flores e viram, maravilhados, que estavam cheias de mel crystallino e louro como o ambar precioso e tão perfumado como se contivesse toda a essencia das flores.

Tomou José um dos lirios e deu-o a Maria; a Virgem offereceu-lhe o outro. Depois, deliciados, contemplaram-se felizes.

— A frauta já não sôa, vai muito longe o pastor, disse Maria.

— Vai muito longe! repetiu José contricto, levantando os olhos para o ceu, como se procurasse nas nuvens o pastorinho louro e as ovelhinhas brancas.