Não Fuja!
Capítulo 18
— Nina, acorde. Precisamos partir — Richard anunciava enquanto estalava o pescoço e alongava as costas. Uma fraca claridade penetrava na gruta, agora já sem a camuflagem na sua entrada. Estava amanhecendo. — Conseguiu descansar?
A sensação era de que havia acabado de fechar os olhos. A tristeza que me impregnava a alma havia consumido boa parte da minha energia. Ainda assim, menti, assentindo com a cabeça.
— E você?
Ele me lançou uma piscadela rápida, mas não me convenceu. Eu o entendia cada dia mais e sabia que também estava mentindo. Richard não havia dormido. Na certa, o coitado havia passado a noite em claro e me vigiando.
— O dia será curto e teremos de correr. — E, sem rodeios, perguntou com urgência: — Você ainda quer ir para Marmon? Mesmo depois de tudo que lhe contei?
Eu me fiz aquela mesma pergunta um milhão de vezes antes de adormecer em seus braços. Estaria disposta a ir fundo e exigir toda a verdade de minha mãe assim que a encontrasse? Se eu a encontrasse... Invariavelmente a conclusão era sempre a mesma: sim! Eu tinha de conhecer a minha história, o meu passado. Eu precisava de respostas. E a única pessoa que poderia fornecê-las era a minha mãe.
— Quero.
Richard piscou mais uma vez e, sorrindo, pareceu orgulhoso com a minha escolha. Sua postura autêntica e amistosa mexia fundo comigo. Sem a sua armadura de terrível resgatador de Thron, ele parecia até mais novo e ainda mais lindo. Estava adorando conhecer esse seu outro lado, aquele que a Sra. Brit jurou existir. Uma pontada de felicidade salpicou em meu peito e rechaçou a semente do temor que insistia em germinar em minha mente toda vez que me recordava da advertência da bondosa bruxa, alertando-me de que Richard havia feito algo errado. Flashes do que ele vinha fazendo para me manter viva apagavam qualquer dúvida. Ele mal tocou em mim de tão preocupado em me causar algum mal, ele se importava comigo mais do que podia imaginar. Eu queria chegar a Marmon e, ao mesmo tempo, estava adorando ficar algum tempo a sós com Richard.
— Ah! Dei uma saidinha e olhe o que consegui. Não é grande coisa, mas...
— Pão! — Meu estômago vibrou mais alto do que minha voz.
— E tâmaras — acrescentou satisfeito ao me ver abocanhar um enorme pedaço de pão sem a menor cerimônia. — O mercado das minas daqui vive às moscas.
— Está ótimo! — respondi com a boca cheia. Ele riu, sentou-se ao meu lado e pegou um punhado de tâmaras para si. — Como conseguiu passar despercebido?
— Tenho meus truques — disse ele com um repuxar de lábios, fazendo-me recordar imediatamente da gruta em que me escondeu assim que entramos em Zyrk.
— Claro — murmurei e me calei.
Não queria tocar naquele assunto e destruir o clima de paz entre nós. O Richard de agora era outro e em nada se parecia com aquele. Muita coisa havia passado desde então, muitas situações-limite nos afastaram para nos fundir com força triplicada, indiscutíveis provas de amor e de vida mudaram meu conceito sobre ele. Richard era um diamante bruto que começava a ser lapidado. Um ser complexo, repleto de camadas distintas, e por vezes antagônicas, não significava dizer que se tratava de alguém de índole ruim. Ele era apenas um novato nas questões do coração, atordoado pelas impossíveis emoções que pairavam em sua pele e espírito até então anestesiados. Um zirquiniano com boas intenções escondido atrás da couraça da agressividade e do temperamento hostil, perdido em meio a tênue linha divisória que separa o bem do mal. Desde o início e, ainda contra a sua vontade, seus atos duvidosos camuflavam ações verdadeiramente generosas. Ele mesmo não havia se dado conta de seus gestos de altruísmo e, embora eu ainda não tivesse recuperado completamente minha confiança, sabia que o amava com todas as minhas forças. Não suportava imaginar minha vida sem ele e não conseguia acreditar que poderia existir sentimento maior do que aquele que carregava no peito. Senti um calafrio dolorido percorrer minha pele e chacoalhei o pensamento nefasto que ganhava espaço em minha mente. Se nós realmente nos amávamos, então por que não conseguimos ter um contato maior? Por que quase morri quando Richard me tocou de um jeito mais íntimo?
Era essa a dúvida que pairava no ar. Se a lenda era verdadeira, qual de nós não amava o outro o suficiente para quebrar a maldição? Eu? Ele? O que sentíamos um pelo outro nada mais seria do que uma forte atração?
— Uma vez você disse que invejava os garotos da minha dimensão — quebrei o silêncio. — Se nada tivesse acontecido, quero dizer, se você não estivesse condenado ao Vértice, se as coisas entre nós fossem possíveis... — continuei encarando minhas próprias mãos na tentativa de esconder o rubor em minhas bochechas. — Se você tivesse a chance de escolher, Rick, você realmente preferiria viver na minha dimensão e longe de Zyrk? Abriria mão da sua importante função de resgatador principal e futuro líder de...
— Sim — ele não me deixou concluir a frase, fulgurando-me com intensidade. Sua reposta sem a mínima hesitação mexeu ainda mais com as minhas estruturas. Ele não tinha dúvidas.
— Lembre-se de que lá você seria igual a todos os humanos, sem poderes, sem nada.
— Eu não seria igual aos outros, Nina — rebateu e tornou a me nocautear com sua resposta inesperada. — Eu teria você e eles não.
Meus lábios se afastaram involuntariamente e um sorriso gigantesco irrompeu em minha face. Ele sorriu de volta e o ar em meus pulmões foi sugado, não mais pela beleza estonteante de seu rosto perfeito, mas pelos encantos escondidos dentro dele que a cada segundo conseguiam me surpreender ainda mais.
Colocando o pão de lado, aproximei-me dele e acariciei seu rosto.
— Nina, não podemos...
— Eu sei. — E, sem demora ou hesitação, afundei meus lábios nos dele. Richard enrijeceu e não retribuiu de início, atordoado, mas também não recusou meus carinhos. — Shhh — sussurrei em meio ao beijo. — Eu acredito, Rick. Eu sinto que não é errado o que existe entre nós, que um dia nós vamos conseguir.
Instantaneamente sua armadura caiu e, deixando o cuidado de lado, ele aceitou meu beijo apaixonado com uma vontade arrasadora. Suas mãos grandes e ágeis fazendo caminhos perfeitos pelo meu corpo, sua língua vasculhando desesperadamente cada canto da minha boca. Havia urgência no ar. A aflição dele espelhava-se na minha. Ardor. Desejo. Chamas.
Não tínhamos tempo a perder.
Não sabíamos quanto tempo nos restava.
Não suportávamos a ideia de perder um único momento juntos.
— Precisamos ir! Teremos que correr se quisermos chegar a Marmon ainda hoje — com a fisionomia perturbada, ele se afastou num rompante. A ruptura inesperada daquele contato chegou a doer na minha alma, mas, determinada, assenti e sufoquei meus hormônios à força.
Ele tinha razão.
Era a hora de enfrentar meu futuro e compreender meu passado.
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Caminhamos por horas a passos rápidos pelas planícies áridas de Zyrk em direção a Marmon. Fazíamos caminhos alternativos, subindo e descendo colinas escarpadas para não nos depararmos com zirquinianos pelo caminho. Richard era cuidadoso, mantendo-se atento aos meus mínimos sinais de fome, sede ou cansaço. O ânimo de Richard parecia refletir-se no do sol zirquiniano e ia piorando à medida que a tarde avançava.
— Não acredito! A noite está chegando mais cedo — bradou nervoso checando a posição do sol a cada poucos minutos.
Após o assustador vulcão adormecido que constituía Thron, o vale estrategicamente protegido por um lago como era o caso de Storm, e a fortaleza de pedras de Windston, eu estava esperando algo grandioso, épico, mas, pelo que havia entendido das explicações de Rick, Marmon nada mais era que um reino subterrâneo construído a partir dos escombros de um gigantesco terremoto no passado.
— A catástrofe aconteceu há muito tempo e arruinou a montanha sobre a qual Marmon ficava. Meu povo estava em uma acelerada espiral de maldade e cobiça e o terremoto foi outro castigo imposto por Tyron para nos fazer acordar. Dizem que o cataclisma foi tão violento que teve repercussão até mesmo na sua dimensão e se tornou o estopim para o surgimento do Grande Conselho. A tragédia quase dizimou a população de Marmon. A queda não ocorreu apenas no número de habitantes, mas, em especial, no exército de Marmon. O reino arruinado teve que permanecer durante dezenas de anos sob a proteção do Grande Conselho para que não fosse alvo de ataques oportunistas — Rick explicava de maneira acelerada.
— Foi por causa disso que eles preferiram construir uma fortaleza subterrânea?
— Isso aconteceu muitos anos depois. Lembre-se de que meu povo não constrói quase nada, Nina. Somos eminentemente destruidores — ele repuxou os lábios, impaciente. — Os sobreviventes daqui se tornaram mercenários ou quase nada fizeram para o fortalecimento de Marmon. Sem contar que o controle de natalidade do Grande Conselho dificultou sobremaneira que eles tivessem um número de homens com qualidades razoáveis para montar um novo exército.
— Então Marmon não tem exército?
— Tem. Seu novo exército foi estabelecido após a chegada de Von der Hess por aqui, há aproximadamente duas décadas.
— Von der Hess?!
— Não sei detalhes da história, mas o que se conta é que o médium fez um acordo com o rei de Marmon, Leônidas. Em troca do cargo de autoridade máxima abaixo do líder, Von der Hess lhe ofereceria ajuda “mágica” para fortalecer seu reino e criar um exército. Assim Marmon se reergueria, conseguiria se livrar dos comandos do Grande Conselho, voltaria a ter poder próprio e deixaria de ser visto como o filho leproso, o reino amaldiçoado de Zyrk — arqueou as grossas sobrancelhas. — E, para reconstruir Marmon, Von der Hess se aproveitou das novas condições do terreno após o grande terremoto.
— As fendas devem ser muito grandes para caber tanta gente.
— Dizem que são gigantescas, como grandes cânions subterrâneos, mas não acredito que exista tanta gente para povoá-las. O número de resgatadores por aqui é reduzido se comparado aos demais reinos e os boatos contam que Von der Hess também não mantém um grande contingente de sombras.
— Ele as mata?
— Acho que sim, Nina — respondeu secamente. — Dizem que ele elimina boa parte delas. Talvez tenha sido a forma que encontrou para mantê-las sob controle — explicou. — Enfim, o que ouvi dizer é que o mago prefere trabalhar com o ataque surpresa e com a ajuda dos seus insetos amaldiçoados, os Escaravelhos de Hao.
— Ainda assim, Marmon não estaria protegida de um ataque de outro reino — concluí. — Como conquistam territórios e se defendem se não têm um grande exército lhes protegendo?
— O povo de Marmon não tem interesse em conquistas e também pouco precisa se proteger.
— Por quê? Não entendo...
Richard diminuiu o ritmo.
— Olhe ao redor, Nina. O que vê?
— Além desse deserto horroroso? — fiz conforme me pediu e vasculhei com atenção todo o entorno. — Nada.
— Zyrk é quase toda assim: árida. Nenhum clã luta pelas minas ou campos neutros porque são locais estéreis, mortos. Os poucos lugares que têm algo de bom se transformaram nas sedes dos clãs. O mais rico deles é Storm. Seu grande lago é fonte de sobrevivência nesses tempos de secas ininterruptas, além de ficar sobre uma grande jazida de ouro. Windston, por sua vez, tem o melhor clima, o solo mais fértil de Zyrk, e é de onde vem boa parte dos nossos escassos alimentos. Thron, apesar de parecer um lugar muito sombrio, tem pequenas reservas de água e jazidas de minério de onde extraímos o ferro para a fabricação das nossas armas. Teve também a sorte de ter sido governada por grandes líderes militares. Nossos homens tiram prazer da luta e do álcool como recompensa, o que nos faz ainda mais fortes — ele abriu os braços e girou o rosto em direção ao horizonte. — Torne a olhar ao seu redor. Essa paisagem será a mesma que verá quando, em poucos minutos, cruzarmos aquela colina e chegarmos a Marmon.
— Mas não há nada.
— Exatamente. E ninguém luta por nada — explicou de forma enfática, fazendo-me acelerar ainda mais o passo. — Os clãs não têm interesse em ter baixa de soldados por um lugar que não lhes dê nada em troca. Aqui não há água, ouro, minérios, clima ou solo que possam atrair os demais líderes. Sem contar que Von der Hess conseguiu camuflar muito bem as entradas para Marmon. Comenta-se que ele as modifica de tempos em tempos para que nenhum exército as descubra e, caso isso viesse a ocorrer, ele faria uso dos insetos malditos. — Sua voz saiu arrastada. — São criaturas de vida limitada, mas perfeitos para o caso.
— Os escaravelhos são capazes de matar?
— Não. Apenas deixam a pessoa em estado de alucinação enquanto leem seus pensamentos. Mas, uma vez os soldados inimigos se contorcendo no chão, eliminá-los torna-se tarefa fácil, mesmo para um número reduzido de homens — bufou. — Bem-vinda a Marmon, Nina — soltou com descaso ao cruzarmos a tal colina que havia mencionado, divisa para o mais abandonado de todos os territórios de Zyrk.
— Meu Deus! O que Von der Hess viu aqui que pudesse ter lhe gerado tamanho interesse?
— Poder, Nina. Os zirquinianos, assim como os humanos, adoram a sensação do poder — abriu um sorriso frio. — Sem contar que os boatos também dizem que...
— Quê?
— Que o lugar é realmente amaldiçoado. Que existe energia ruim por aqui. Não se sabe se ela já existia e Von der Hess apenas se aproveitou do fato ou se foi ele quem trouxe os poderes malignos para cá.
— Então você nunca esteve em Marmon?
— Nunca entrei pra valer. Meu líder jamais teve interesse no lugar.
— Como encontraremos uma entrada então?
— Com você a tiracolo algo me diz que não será uma tarefa difícil. Eles virão até nós — confessou.
— Eu direi como — uma voz grave e rascante ecoava na planície desértica e nos atropelava sem permissão. Shakur!
— O que você está fazendo aqui? — Os olhos azuis de Richard dobraram de tamanho, suas pupilas vibraram num misto de espanto e incompreensão e ele se jogou comigo para trás.
— Vim dar cobertura para vocês.
— Cobertura para entrarmos em Marmon? — Subitamente Richard perdeu a voz e seu corpo enrijeceu. Ele fechou a cara e a sombra da fúria deformou rapidamente seus traços perfeitos. — Afinal, qual é o seu interesse nela? Qual a jogada agora? Que outros segredos você esconde além da bruxaria?
— Richard, eu sei que tudo parece sem sentido, mas não temos tempo para explicações. — Havia aflição na voz constantemente autoritária do líder de Thron. — O elemento surpresa é a nossa única chance. O perigo está à espreita. Eu sinto.
— “Perigo”?! Você “sente”? Por que não sentiu isso antes, hein? — Richard cuspia as palavras com o maxilar trincado.
— Veja como fala comigo, rapaz. — Shakur fechou os punhos enluvados.
— Eu falo como quiser, droga! Eu sinto o cheiro de mentira de longe e, se não me falha a memória, foi você quem adestrou o meu olfato.
— Richard, eu não...
— Chega! — Veias arroxeadas saltavam pelo pescoço de Richard e sobressaíam em sua pele alva. Ele parecia mais do que transtornado. A admiração que nutria pelo líder era tanta que a dor da decepção se fazia insuportável. — Que tipo de armadilha é essa?
— Rick, por favor, fique calmo — pediu Shakur ao presenciar Richard balançar a cabeça de um lado para o outro, transtornado. — Você tem dúvidas e medo. Por causa dela... Está descontrolado, mas eu não o culpo. Acredite. Eu entendo.
Shakur pousou o olhar em mim. Estremeci com aquele contato visual e fui tomada por um sentimento diferente, obstrutivo e ao mesmo tempo protetor, como se uma mão envolvesse meu coração. Só não sabia se aquela mão desejava esmagá-lo ou embalá-lo e, apesar de entender que podia estar sendo alvo de algum tipo de magia, uma ideia inesperada se expandia e começou a latejar em minha mente. Uma voz dentro de mim afirmava que havia algo importante atrás dos olhos azuis daquele líder sombrio. Havia ódio, frustração, desespero e mágoa neles, mas o que meus sentidos insistiam em sinalizar era a presença de um misto de preocupação e esperança entremeadas a um sentimento que eu não conseguia decifrar, mas que meu âmago afirmava que eu precisava descobrir.
— Você não entende nada! — Richard rugiu levando as mãos à cabeça. Ele parecia querer arrancar à força algum pensamento que o massacrava. Então, de rompante, segurou meu braço e determinou acelerado: — Eu não estou gostando nada disso. Vamos embora daqui, Nina.
— Vocês não têm onde se refugiar. Vai anoitecer muito antes de chegarem às minas! Toda Zyrk já sabe da sua fuga e do prêmio que o Grande Conselho colocou na sua cabeça, Richard! — Shakur advertiu e pude detectar apreensão exalando de sua voz grave. — E na dela também!
— Não! — Richard ainda lutava.
— Temos que entrar em Marmon. É nossa única saída — insistia Shakur.
— Rick, eu vou ficar — determinei decidida, desvencilhando-me da pegada dele e colocando um fim àquela discussão interminável. Richard travou, visivelmente perdido, enquanto os traços da hemiface visível do líder de negro se suavizaram. — Se minha mãe está viva em algum lugar por aqui, eu não posso simplesmente fugir e deixá-la para trás. Foi para isso que eu vim. Para salvá-la.
Richard fechou os olhos e, depois de estudar Shakur por um momento, assentiu sem vontade.
— Ok — soltei aliviada. — Como faremos isso, Shakur?
— As entradas do lugar são camufladas por bruxaria, mas existe uma falha no feitiço de Von der Hess. Há um determinado momento, quando o sol está se pondo, em que a angulação dos seus raios consegue evidenciar as margens das fendas no solo. São as entradas.
— Quando você soube disso? — questionou Rick com as sobrancelhas mega-arqueadas.
— Eu sempre soube, rapaz — Shakur abriu um sorriso mordaz.
— Sempre soube? Que ótimo! — Richard franziu o cenho e, bufando, afastou-se de nós enquanto chutava pequenas pedras soltas pelo chão. Devia estar arrumando uma maneira de abrandar seu gênio forte.
— O pôr do sol começou há algum tempo. E se esse momento já passou? — perguntei.
— Nina! Cuidado! São os... Argh! — O berro de Richard parecia um aviso distante. CAPÍTULO 19
— Rick?! Ai! — Senti uma fisgada lancinante no ouvido. Minha orelha direita ardia. O mundo zunia.
— Nina! — escutei o bramido de Shakur. Novas rajadas de zumbidos passaram ferozes por cima da minha cabeça, como se um enxame de abelhas fosse lançado violentamente em minha direção. O líder de negro arregalou os enormes olhos azuis e saltou sobre mim, fazendo nossos corpos se espatifarem pelo terreno áspero. O escudo com a insígnia de Thron foi arrancado com violência de sua mão, levando a luva negra consigo. Shakur desequilibrou e caiu com o rosto no chão. Parte da máscara negra se quebrou e ele urrou alto num berro que mais parecia de raiva do que de dor. — Você está bem? — indagou ofegante ainda caído sobre mim. A pressão aumentava em meus ouvidos. Os sons vinham estranhos, abafados, como se eu estivesse fazendo mergulho no fundo de uma piscina. Meu raciocínio começou a processar as informações ao redor com dificuldade, captando os berros distantes de Richard e o desespero na hemiface do líder de negro de forma lenta e retardada.
Mas minha visão estava intacta.
E eu vi.
Nas outras vezes em que nos deparamos, a penumbra ou a distância se encarregaram de ocultar pormenores com mais perfeição que a amedrontadora máscara e roupas negras que vestia. Mas agora, munida da claridade oriunda dos raios solares, da proximidade e de parte da máscara quebrada, consegui vislumbrar detalhes até então camuflados em seu rosto, como o maxilar deformado, a pele arroxeada, fina e repuxada e, principalmente, o buraco no lugar onde devia estar seu nariz, causado pela ausência da cartilagem e que deixava suas narinas assombrosamente expostas. Seria o momento exato para repulsa ou medo, mas meu coração esquentou dentro do peito quando se deparou com a verdade estampada em seus expressivos olhos azuis. Havia o brilho de uma emoção neles que não havia identificado antes, mas que agora era mais que cristalina: Shakur se importava comigo!
E, de alguma forma, eu sentia que meu corpo retribuía aquele sentimento inesperado de forma pungente e decidida. Você se importa com ele?! Você gosta dele?! Mas que droga! Que insanidade é essa agora, Nina?, berrava o resquício de razão a um cérebro letárgico. Tentei me afastar, nervosa e agitada, diante da estranha avalanche de sentimentos que ameaçava me paralisar.
— Rick! — Meu berro ecoou no nada. A ausência de resposta comprovava que a situação era grave.
Congelei sob a nova descarga de adrenalina que percorria minhas veias. Virei o rosto, desvencilhando-me com dificuldade do peso do corpo de Shakur. E então entrei em choque com o que meus olhos presenciavam: Richard se contorcia violentamente no chão, as órbitas brancas em meio a uma crise convulsiva. Tentei me afastar do líder de negro, mas, de olhos fechados, ele me envolvia com força, murmurando furiosamente palavras sem sentido. Céus! Shakur havia nos submetido a algum feitiço? O que estava acontecendo? Sons de homens berrando e se aproximando rapidamente. O zunido aumentava e minha mente girava num furacão de atordoamento.
— Me solta! — bradei apavorada. Zonza, eu não sabia o que estava acontecendo, mas precisava me livrar de Shakur e ajudar Richard. Então lancei minhas mãos em direção ao líder de Thron, que se defendeu do meu ataque, segurando meu pulso com a mão desenluvada.
— Nina, pare! — esbravejou com a voz rouca e congelei.
Não por medo, muito menos pela sua autoridade. Havia uma intimidade que chegava a doer em seu tom de voz. Meu coração começou a bombardear o peito. Fiz força para me soltar, mas, mesmo deformados pelo fogo, seus dedos eram fortes e mantinham meu pulso aprisionado. Desesperada em me livrar de sua pegada, levei os dentes à área exposta, no local onde a cicatriz da queimadura havia deixado sua pele fina e deformada e recebi o golpe fatal. Paralisei no meio do caminho. Meus olhos arderam e minha memória entrou em combustão ao avistar a tatuagem no único ponto ileso na pele da sua mão.
O botão de rosa.
A rosa do meu sonho.
Único registro de uma infância feliz.
Não podia ser! Nada disso fazia sentido. Oh, Deus! Eu estava enlouquecendo!
— Pequenina, por favor, não chore — implorou ele quando lágrimas romperam as barreiras da minha alma e comecei a chorar copiosamente.
“Pequenina”?! Então ele era...?
De repente, o corpo de Shakur se enrijeceu, suas pupilas assumiram a posição vertical e ele me soltou.
— Concentre-se na cor branca — ordenou nervoso, assustando-me ao começar a balançar a cabeça de maneira descontrolada. No instante seguinte, contorcia-se no chão exatamente da mesma forma como havia acontecido com Richard. E, da mesma forma que seu pupilo, Shakur desacordou próximo aos meus pés.
O mundo girava em um tornado de imagens distorcidas e perguntas sem respostas. O zumbido ensurdecedor tomou conta dos meus ouvidos e mente.
— A híbrida é minha. — A voz afeminada de Von der Hess me apunhalava pelas costas e me fez desmoronar de vez. — Acabou, Ismael!
Ismael?!
Shakur era... Ismael?!
Meu Deus! Ismael era o homem que eu chamava de pai nos meus sonhos!