Não Fuja!

FML Pepper · Capítulo 7 de 37

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Não Fuja!

Capítulo 7

 

Os minutos passam e, de repente, sinto seu cheiro impregnar minhas narinas. Ela está de saída! Não há ninguém por perto de onde estou e então posso entrar no modo invisível. Ela olha ao redor, certificando-se do ambiente à sua volta, enrola a echarpe no pescoço e começa sua caminhada acelerada pela cidade deserta. Vou acompanhando seus passos e gosto de ver que ela é rápida para uma humana de estatura tão pequena. Ela continua sua caminhada veloz e me pego andando quase ao seu lado, admirando-a sofregamente. Vejo-a enrugar a testa e fechar os olhos em alguns momentos e sua energia ficar inconstante. O que está havendo? Ela aperta o passo. Há algo errado no ar. Posso captar. A madrugada ainda está escura. Não há ruídos de motores de carros nem de conversas entre humanos. O silêncio é tão forte que é possível escutar o ruído dos semáforos enquanto fazem as trocas das cores do verde para o vermelho. Ela atravessa mais dois quarteirões e sua energia piora, vira uma esquina e então tudo acontece muito rapidamente.

Vejo quando ela leva as mãos à barriga e força a respiração. Sua pele morena fica repentinamente pálida como cera. Estremeço. Quero ajudá-la e sei que não posso me materializar agora. Sinto duas novas forças crescendo em meu cérebro, que as processa rapidamente e confirma: perigo! Identifico ao longe a silhueta de duas pessoas que, pelo porte e odor, sei que se trata de humanos, e com propósitos mais que hostis, pressinto intenções típicas da minha espécie. Há maldade no ar. Meu pulso dá novo salto quando capto a presença de um resgatador por perto.

Céus! Ela foi descoberta!

Quero alertá-la, quero agarrá-la e levá-la para longe dali, mas também não posso. A máxima que separa nossos povos: não tenho permissão para interferir no livre-arbítrio dos humanos e, se o fizer, pagarei com a minha própria vida. Os homens a avistam e se aproximam a passos rápidos, mas ela não percebe porque está curvada sobre o próprio corpo. Observo os movimentos cada vez mais fortes de subir e descer do seu abdome, mas não sai líquido algum de sua boca. Mas que droga! Ela parou para vomitar em uma hora como essa? Sinto uma aflição enlouquecedora esquentar minhas veias. Tenho raiva de mim mesmo por ter me permitido entrar em uma situação como essa e, ao mesmo tempo, ódio avassalador por não poder retirá-la dali. Os homens se aproximam ainda mais. Ela finalmente percebe e levanta a cabeça.

— Olá, princesa! Sozinha nessas bandas uma hora dessas? — começa um deles. O outro a contorna lentamente. Estão fechando o cerco.

Identifico a energia assassina que os move, meus pulsos se fecham instintivamente e enrijeço no lugar. Conheço-a de cor e salteado. Ela corre em minhas veias... Os homens pretendem matá-la. Não eles, pobres marionetes com suas horas contadas, mas sim o zirquiniano por detrás daquela ação em andamento. Covarde! Uma morte indireta para aniquilar uma humana daquele tamanho? Gargalharia se minha ira não atingisse proporções assustadoras. Nunca senti isso antes, mas poderia jurar que seria capaz de matar uma besta com meus próprios dentes.

A humana não responde e vejo quando seus olhos vivos fazem uma rápida varredura do lugar e estudam as possibilidades. Ela avista o portão semiaberto de um prédio situado alguns metros à sua frente. Sua energia dá um pico. Ela é corajosa e ainda pretende lutar contra os dois. Pela sua vida. Pelo milagre da existência abençoada que os humanos dão tão pouco valor. Admirei-a profundamente naquela fração de segundo.

O sujeito que avança por trás a segura com violência. Sei que devo me manter alheio ao que se desenrola à minha frente senão serei considerado cúmplice da ação. Não posso interferir. Sou proibido de me materializar na frente dos humanos. Se desobedecer, sei que não passarei incólume à varredura que o Grande Conselho fará no cérebro dos humanos envolvidos. Pena de morte dolorosa e imediata. Pior: meu nome será gravado na pedra da desgraça e humilhação. Não vou me envolver, murmuro repetidamente esse mantra que não é bem aceito pelo meu cérebro desgovernado. Tenho ciência de que preciso sair dali e ir em busca do resgatador que está por detrás daquela covardia em andamento, mas, se eu o fizer, terei que deixá-la a sós com esses humanos em transe de morte, e quando voltar será tarde demais. Para ela. Para a emoção que ela gera em mim. Não suportarei ver a cor viva de sua face ser substituída pelo opaco esquálido, a assinatura cruel da minha espécie.

Dane-se! Eu vou ajudá-la! Tenho que arrumar um meio!

Minha força cai absurdamente em modo invisível, mas, ainda assim, manejo acertar um golpe no braço do sujeito que a imobilizou. Ele leva um susto, puxa o braço para si e a solta por um momento. Quando uso minha energia para defendê-la e o ataco, sei que quebro momentaneamente a corrente magnética que o une ao seu orientador. Acabo de acionar o resgatador causador. Ele agora tem ciência da minha presença. Maldição!

— O portão — sussurro em seu delicado ouvido e sou bombardeado pelo seu perfume em minhas narinas e mente. Perco o equilíbrio. — Corra para o portão — reitero, mas no fundo sei que não precisava repetir, pois já era isso o que ela tinha em mente.

Minha pequena humana não hesita e, mais rápida do que eu poderia imaginar, se esquiva do algoz e está correndo em direção ao prédio. Ele fica para trás por um segundo, mas, no instante seguinte, a sombra mortal dos dois cresce sobre ela. As pernas compridas deles conferindo-lhes passadas muito maiores que as dela. Um deles joga seus braços no ar e tenta agarrá-la, mas, ainda invisível, coloco um pé no seu caminho e ele se espatifa no chão. Escuto quando pragueja alto, mas mal lhe dou atenção, estou focado no queixo do outro homem, tentando unir todas as minhas débeis forças invisíveis para acertar-lhe um soco em cheio. Consigo meu objetivo e intercepto seu avanço selvagem sobre ela. O estado de transe do infeliz é tão forte que tenho a impressão de que seu corpo está possuído por um alucinógeno potente. Mas sei que não está. Farejo sangue límpido correndo em seu organismo. Ainda estou zonzo com a situação. O ataque deles é tão imediato, tão sem meio-termo, que chego a me assustar. Em geral as mortes indiretas costumam ser lentas, para deleite, puro divertimento do zirquiniano que a produz. Mas não é o caso aqui. O resgatador que os enviou não pensa em perder tempo com diversões, a quer morta e ponto final. Pergunto-me por que ele mesmo não veio eliminá-la? Seria tão fácil...

Fico tão desorientado com o que acontece bem diante dos meus olhos que perco um instante crucial da luta. Quando dou por mim, escuto um berro e vejo a humana se contorcer pela grade do portão de ferro vazado. Foi tudo rápido demais. Ela conseguiu chegar ao prédio, mas um dos homens alcançou sua echarpe e, por entre as grades de ferro do portão, começou a sufocá-la, espremendo seu delicado pescoço com força absurda. Os berros da coitada se transformam em gemidos de dor. Ela engasga, mas ainda luta, tentando rasgar o pano com as próprias unhas, procurando se livrar dele de todas as formas. Sua energia está em rápido declínio. Atordoado, coloco-me atrás do sujeito, socando-o repetidamente, mas pouca diferença faz. O homem está tão concentrado que meus fracos golpes invisíveis não lhe causam qualquer desconforto. Entro em pânico quando o comparsa vem em seu auxílio e agora os dois estão unindo forças, retorcendo a echarpe e a estrangulando sem compaixão. Vejo as pequeninas mãos da humana perdendo a luta. Vejo-a perdendo o ar e noto quando seu delicado rosto adquire um aspecto arroxeado e seus lábios se ressecam. Sua energia começa a falhar. Se eu não agir agora, vou perdê-la para sempre. Sei que ela não vai suportar muito mais.

Meu cérebro está a mil por hora. Em uma fração de segundo vejo o meu mundo, as minhas crenças e a minha existência desmoronarem como um castelo de areia lambido por uma onda do mar. Frágeis. Falsos. Aperto os olhos e os dias de glória como resgatador e os sete anos de aprofundamento espiritual desintegram bem à minha frente. Tudo sem propósito. Pela primeira vez em minha existência, tenho vergonha de ser o que sou e de estar invisível. Acho-me verdadeiramente um espectro assombrado e questiono minhas verdades. Minhas certezas nada mais são do que grandes farsas maquiadas.

— NÃO! — trovejo e, em seguida, quebro a última regra: materializo-me na frente dos três. Sem perder tempo, seguro a cabeça de um deles e a bato com violência contra a grade de ferro. Assusto-me com a minha ira desmedida. O golpe é tão forte que o sujeito desmaia instantaneamente. O segundo homem hesita. Parece decidir entre continuar o assassinato ou defender a própria vida. Abro um sorriso mortal quando noto que ele opta por continuar sua ação. O resgatador que o comanda está realmente desesperado em aniquilar aquela humana. Parto como um animal selvagem para cima dele e o atinjo com uma sequência de socos. Escuto o corpo da humana cair do outro lado das grades. Escuto sua respiração asmática e sinto sua energia tornar a crescer. Sou tomado por uma sensação de alívio que nunca antes tive a oportunidade de experimentar. Graças a Tyron! Ela está bem! Torno a olhar para o infeliz à minha frente, mas estou cego e não enxergo nada a não ser ira. Continuo esmurrando o humano sem parar. Vejo seu sangue escorrendo entre meus dedos e seu rosto começar a deformar sob a ação dos meus golpes.

— Apareça, covarde! — grito para o ar gelado da madrugada. Minha voz ecoa na rua deserta. Quero que o resgatador responsável por aquilo mostre a cara, mas é covarde demais para tanto. Ele sabe que eu me ferrei, que logo o Grande Conselho vai ler a mente dos humanos envolvidos e descobrir o que eu fiz. A não ser que...

— Acabe logo com eles! É só questão de tempo! — ouço a voz dela. Está rouca e assustada.

Ela diz em voz alta o que eu já havia cogitado, mas que não quis admitir para mim mesmo: ambos têm a marca negra em sua aura, a confirmação de que seus dias estão contados e que morrerão em breve. Assim como ela...

— Rápido! Antes que apareça alguém — torna ela a comandar e, apesar de saber que é o mais lógico a fazer no momento, hesito. Há sete anos não mato nenhum humano. Se quero permanecer vivo, não tenho outra opção. Inspiro profundamente e então eu o faço com maestria: elimino os dois com um simples quebrar de pescoço. Tento refrear o prazer que sinto na ação, como se fosse um viciado que acredita estar curado até o momento em que coloca a droga novamente em suas mãos.

— Como você...? — começo a perguntar, mas não tenho tempo de ir adiante. Ela segura meu braço e me puxa para uma corrida. Eu a acompanho ainda mais satisfeito e encantado. Ela é uma receptiva! E das boas!

Corremos mais três quarteirões de mãos dadas e, mesmo sem dizer uma palavra sequer, nunca me senti tão vivo, tão em sincronia com o universo, como se já a conhecesse há anos, como se tudo aquilo fizesse parte de um plano perfeito, irretocável. Ela para em frente a um prédio antigo e olha para mim.

— Foi ele quem te enviou para me proteger? — e antes que eu pudesse perguntar a quem se referia, ela se adiantou: — Você se materializou para me salvar?

— E-eu, eu... — a voz custa a sair e, quando o faz, novamente está estranha e fraca. Céus! Por que fico tão atordoado perto dela?

Ela balança a cabeça positivamente e, em seguida, expõe um sorriso repleto de malícia.

— Vem cá — ela gesticula com o indicador e comanda com candura. Não contesto. Sou um metro e noventa de puro atordoamento e emoção. Sinto-me patético, mas absurdamente satisfeito com aquele pedido. Não sei que sentimento é esse, mas estou pegando fogo, mais acordado do que quando massageiam a minha vaidade. Aproximo-me lentamente. Deveria ter medo dela? Ela está planejando algum golpe?, indaga minha consciência sempre atenta e, por via das dúvidas, deixo minhas mãos em estado de alerta ao lado do corpo. — Mais perto — pede ela com voz melosa. Então nossos rostos ficam frente a frente e seus olhos negros e impenetráveis estudam os meus receosos olhos azuis.

— O que você quer? — pergunto finalmente e minha voz sai mais abafada e rouca do que de costume. Sinto o perigo à espreita. Estou ficando agoniado demais e sei que cada segundo olhando para ela me afasta do meu caminho de volta. Estou irremediavelmente perdido.

— Agradecer — responde e, antes que eu diga qualquer coisa, ela joga seus braços ao redor do meu pescoço e encosta sua boca na minha. Paro de respirar e arregalo os olhos. Um beijo! Eu estava recebendo um beijo humano! Minha reação inicial é jogar meu corpo para trás, mas é tarde demais. Quando sua língua afasta meus lábios sem resistência e encontra a minha, sinto meu corpo estremecer no lugar. A velocidade com que a minha língua a aceita e o prazer com aquele toque é tão arrebatador que acho que vou explodir ali mesmo. Sinto meu coração dar socos violentos na caixa torácica e outras partes do meu corpo acordar. Perco todo o oxigênio dos pulmões. Vou sufocar de uma sensação maravilhosa, mas não quero que acabe. Ela se afasta e ri de meu estado catatônico antes de desaparecer, fechando o portão do seu prédio e me deixando em estado de torpor do lado de fora. Percebo que é a segunda vez que ela faz isso comigo em uma mesma noite. Checo ao redor e não capto a essência do resgatador. O covarde deve ter se mandado. Aliviado, afasto-me dali. Preciso pensar, mas no lugar dos meus neurônios encontro apenas pó.

Só sei de uma coisa: estou ferrado.