Não Fuja!
Capítulo 21
Subitamente determinado, Shakur jogou o corpo sem resistência de Richard por sobre os ombros. Ele conseguiu a proeza de levantar a montanha de músculos de Richard com incrível facilidade, carregando-o com destreza enquanto descia os degraus suspensos à beira do abismo.
— Como está a humana? — Shakur tentou disfarçar, mas sua voz saiu cheia de expectativa quando chegamos à entrada da cela onde mamãe se encontrava. Pelo visto, ele não imaginava que eu já sabia que ele era Ismael, o meu pai adotivo de um passado bem distante.
— Não consegue falar, mas acho que entende o que se passa ao seu redor. Tenho medo de que não esteja apenas dopada, mas que lhe tenham causado algum dano irreversível e... — Não consegui continuar ao ver a hemiface do líder de negro perdendo a cor gradualmente. Depois de tantos anos, ele ainda se importava com ela? E qual seria a reação de Stela ao se deparar com ele?
— Preciso colocá-lo no chão antes que me acerte um chute — Shakur esboçou um sorriso ao ver que Richard começava a mexer as pernas e o posicionou do lado de fora da entrada.
— Não é perigoso deixá-lo aqui? — indaguei.
— Qualquer lugar dentro de Marmon é perigoso. Ao menos aqui ele pode nos dar o alerta da chegada de algum intruso. Não que isso seja de grande serventia com ele nesse estado, mas... — deu de ombros. — Temos que pegar sua mãe e sair o mais rápido possível. Vou fazer duas viagens até a base. Primeiro eu a levo. Depois carrego Richard.
— Tudo bem.
— Rick, fique de olho e berre se alguém se aproximar, ouviu? — comandou Shakur.
— Pode deixar — assentiu, mas o coitado mais parecia um sonâmbulo que falava durante o sono.
Shakur segurou minhas mãos ainda amarradas e, sem que eu esperasse, desceu um lance de degraus conduzindo-me ao nível logo abaixo do nosso.
— Para onde está me levando?
— Feche os olhos, Nina, e não os abra em hipótese alguma.
— Fechar os olhos?
Não gostei daquela ordem inesperada. O mortal abismo piscava abaixo de mim.
— Vou cortar a corda.
— E por que eu preciso fechar os olhos?
— Porque vou remover a minha máscara. — Havia uma advertência velada em seu tom de voz sombrio. — A parte de trás da minha máscara possui um bordo afiado como uma lâmina. Uma arma secreta...
— Ah! — Isso explicava o porquê dele se afastar de Richard. Não queria que seu pupilo, ainda que fora de suas faculdades completas, presenciasse o triste segredo que guardava a sete chaves.
— Dê-me a sua palavra que não abrirá os olhos em hipótese alguma.
— Eu prometo.
Sem hesitar, estendi os braços, satisfeita em saber que me veria livre daquelas malditas amarras, e cerrei os olhos com força. Escutei a respiração de Shakur ficar diferente, menos forçada, e, em seguida, ele segurar delicadamente minhas mãos. A agradável sensação de bem-estar que ele costumava me gerar estava novamente presente. Deixei o ar escapar dos meus pulmões, mas meu momento de tranquilidade foi interrompido por um novo berro.
— Ninnnaaa! — A voz de mamãe, bem mais forte e lúcida do que antes, rasgava o ar e me enchia de aflição e felicidade. — Ninnn!
— Não! — Shakur alertou, nervoso.
— Não vou abrir os olhos — rebati, mal contendo a agitação em minhas pernas.
— Maldição! Os ecos vão acabar nos denunciando — resmungou ele, terminando o serviço de forma acelerada.
— Ninnnannn! — Os berros dela aumentavam de intensidade.
Os grunhidos altos de mamãe vibravam em meus tímpanos. Manter os olhos fechados parecia uma tarefa hercúlea. De repente ela soltou um gritinho fino, como se acabasse de levar um susto, e se calou. O silêncio repentino conseguia ser ainda mais aterrorizante que seus berros. Ah, não! O que havia acontecido agora? Shakur acelerava o serviço e a respiração entrecortada evidenciava sua tensão. Finalmente senti a pressão em meus pulsos aliviar e uma pequena ardência tomar o seu lugar.
— Pode abrir os olhos. Assim que sairmos daqui, darei um jeito nisso — prometeu acelerado, referindo-se às feridas abertas na palma da minha mão direita. — Venha! — ordenou, guiando minhas passadas enquanto subíamos os degraus que nos separavam da cela onde mamãe estava.
Shakur estancou o passo repentinamente e meu coração deu um salto quando não avistei Richard na entrada da cela. Ao entrar, deparei-me com uma cena esdrúxula, quiçá, cômica. Richard, com sua postura altiva quase recuperada e surpreendentemente bem menos sonolento, tentava acalmar minha mãe fazendo barulhinhos baixos e cadenciados, desses que a gente utiliza para chamar gatos. Mamãe, por sua vez, encontrava-se de costas para a porta, mas permanecia sentada no lugar onde eu a havia deixado. Ao me aproximar, vi que ela tinha o semblante de surpresa estampado no rosto, os olhos arregalados ao máximo e a boca esboçava um sorriso estranho.
— Mãe?! Rick?!
— Juro que não fiz nada para assustá-la. Eu só entrei o mais rápido que pude e pedi para que se acalmasse. Então ela ficou assim desde o momento em que pôs os olhos em mim — explicou ele com as mãos na nuca, a fala ainda lenta.
Não tive como não sorrir. Sob o efeito dos danos causados pelos Escaravelhos de Hao e sem a sua armadura de cavalheiro indestrutível, Richard era quase um rapaz como outro qualquer. Quase.
— Está tudo bem, Rick — soltei duplamente aliviada por detectar que ambos estavam em condições melhores. — Ela não está no seu normal e...
— Eleee é...? Filhhh de...? — Mamãe murmurava em estado de êxtase. Sua expressão atordoada não era de alguém que via uma assombração, mas uma miragem. — Mais claross. Seus olhossss...
— Calma, mãe. Está tudo bem — adiantei-me ao ver seu estado perturbado. — Esse é Richard de Thron.
— Naummm! — ela berrou nervosa, jogando os braços frouxos no ar ao perceber que Richard, após piscar para mim, afastava-se de nós, indo para o outro lado da cela. Pelo canto do olho vi que ele obedecia a algum comando do seu líder.
— Mãe, temos que sair daqui.
— Naunnn consiggo, filha... — Stela piscou várias vezes e, oscilando entre momentos de lucidez e insanidade, sorriu levemente para mim. Então ela fechou os olhos e tombou a cabeça sobre o corpo. Ela havia me compreendido, mas suas forças não eram suficientes.
— Está tudo bem. Trouxe alguém que vai nos ajudar — apontei para a porta onde, com os olhos fixos no chão, encontrava-se a altiva figura de negro. Senti um arrepio percorrer minha pele e um nó de saliva prender em minha garganta com a sua reação.
— Ohhhh! — Mamãe tornou a levantar a cabeça e, ao visualizar a aproximação de Shakur, seus olhos triplicaram de tamanho e ela começou a berrar.
— Está tudo bem, mãe! — tentei acalmá-la em meio ao pânico. Não sabia se ela delirava, se havia pressentido alguma coisa, se o havia reconhecido ou se seria somente o pavor de se deparar com a sinistra figura de negro. Seus berros assustadores ecoavam no ambiente, assombrando-o ainda mais.
Como se isso não fosse o suficiente e para deixar a mim e Shakur ainda mais aturdidos, ela segurou o rosto dele e desatou a chorar copiosamente.
— Isssmael!!!
Céus! Ela o havia reconhecido!
— Desculpppp...
Minha boca secou e, mesmo ardendo em brasas, todo meu corpo foi acometido por um suor frio e paralisante. Desculpas? Stela estava pedindo desculpas a ele? A surpreendente constatação: se mamãe não estava delirando, ela havia ocultado muito mais coisas de mim do que eu podia imaginar. Por quê? Para me proteger? Por medo? Mas... Se fosse realmente isso, por que eu podia jurar que havia muito mais escondido naquele pranto sofrido? Algo que minha mente, ainda rodando dentro daquele furacão de emoções, não conseguia captar, mas que deixava minha intuição em estado de alerta máximo e afirmava que seu choro desesperado nada mais era do que uma confissão de culpa e arrependimento.
— Stela, não chore! Está tudo bem! — Shakur respondeu com a cabeça entre as mãos dela e começou a arfar alto em sua tentativa de esconder a emoção que o tomava. — Por favor, não chore!
Novo golpe. A inesperada reação de Shakur concluiu o serviço, congelando-me dos pés à cabeça e me comovendo profundamente. Em sua ânsia por confortar minha mãe, Ismael, até então o temido Shakur, deixou à mostra aquilo que tentava ocultar por detrás da sua máscara e atitudes amedrontadoras: amor em seu estado mais puro!
Seu amor por Stela era tão grande que ele havia jogado nossa segurança de lado e acabara de nos colocar em risco real. O timbre grave e alto da sua voz podia ser escutado de longe e, se houvesse alguém nas redondezas, nossas chances de fuga haviam sido aniquiladas. Mamãe não parava de soluçar. Agoniado ao extremo, ele a aninhava em seu peito e implorava para que ela ficasse calma, mas a cena em andamento estraçalhava meus nervos e chacoalhava minha razão com violência. A atitude inesperada de Shakur me fez vacilar. Ele realmente se importava com minha mãe! E agora nós tínhamos algo em comum. Respirei fundo e deixei todas as dúvidas que nutria em relação ao líder de Thron se desintegrarem e, instantaneamente, senti-me conectada a ele de uma forma agradável e definitiva. Pouco importava agora o que eles escondiam de mim. Talvez não houvesse outro momento e ele precisava saber.
— Shakur, eu me lembrei, e-eu... — Com medo de perder a coragem, adiantei-me aflita, sendo imediatamente atropelada por outro pranto enfurecido de minha mãe. Stela soluçava ainda mais alto do que antes e dificultava as coisas para o meu lado. Intoxicada pela emoção que me consumia, perdi a linha do raciocínio e tinha certeza de que ia sufocar a qualquer instante.
— Por favor, Stela. Fique calma! — Shakur implorava e parecia mais desorientado do que eu. O corpo de mamãe tremia em meio aos espasmos. Seu choro de agonia ecoava livremente pelo sombrio abismo. Aquela situação era, no mínimo, apavorante. Nós dois sabíamos que minha mãe era uma pessoa que não chorava. Em toda a minha vida eu só tinha visto Stela chorar duas vezes. Duas únicas vezes em dezessete anos... — Eu sinto que ela está mais consciente, então por que ela não para de chorar? Eu não entendo...
“Consciente”? Meu Deus! Aquela crise de choro era porque mamãe sabia o que eu ia dizer? Seria sua capacidade de percepção tão forte assim?
— Ela pressente... — soltei um sussurro aflito, a respiração entrecortada.
— Por Tyron! — ele bradou exasperado. — Ela pressente o quê?!
— O-O que preciso tanto lhe dizer. — Tinha a sensação de que duas mãos estrangulavam meu pescoço. — Que eu...
— O que precisa me dizer, Nina? — Sua voz trovejante perdeu a força e, de repente, suas palavras chegaram baixas e cadenciadas, como se elas começassem finalmente a fazer sentido para ele.
Era chegado o momento. Não podia voltar atrás. Faltava-me a coragem de ir adiante, de quebrar a barreira do orgulho, do rancor, da incompreensão por ter sido esquecida por aquele que mais deveria ter me amado. Por que ele havia nos abandonado? O que havia lhe acontecido? Vê-lo em seu atual estado, o corpo terrivelmente deformado por cicatrizes de queimaduras, silenciava-me de alguma forma. Mais do que isso, fazia-me querer desculpá-lo por sua ausência em nossas vidas e dava-me a sensação de que ele já havia quitado seus pecados com juros altíssimos. E, apesar do momento inoportuno, era a hora (não sabia se teria outra!) de colocar um ponto final no drama do meu curto histórico de vida, de aceitar os amores com que fui presenteada. Imperfeitos sim, mas meus. Uma inexplicável jornada de sentimentos dilacerados, personagens feridos, destinos atormentados. Um caminho talhado nas pedras da perda e da mágoa, mas, assim como afirmava uma voz interior, asfaltado com o sangue da resignação dos fortes, daqueles que deram a sua carne para que eu pudesse continuar e ir além. Faltava-me a coragem de pronunciar a palavra que faria a diferença, que dissolveria parte da muralha que haviam construído à minha volta, dos muros que deveriam me proteger, mas que agora apenas me sufocavam. Pude senti-la em minha boca, dançando de um lado para o outro em minha língua, embalada por minha hesitante determinação.
A palavra.
Eu precisava liberá-la. Algo me dizia que ela poderia ser capaz de romper todas as barreiras mágicas, a nossa única possibilidade de fugir dali e sobreviver. Segurei o ar com firmeza, uma vez que não eram apenas as minhas mãos e pernas que tremiam. Meu nervosismo atingira patamares tão altos que era possível sentir meu coração golpeando brutalmente meus pulmões. Se era quase impossível respirar, concentrar-me havia se tornado uma tarefa sobre-humana. Mas eu era uma híbrida! E deveria agir como tal! Fechei os olhos, recuperei o fôlego e segurei a emoção que me paralisava.
— Por que nos abandonou? — indaguei, surpreendida com o inesperado desejo do meu coração.
Céus! Aquela não era a pergunta!
— Hã? — a voz dele falhou e, após um instante de perceptível incompreensão, rebateu feroz: — Eu nunca abandonei vocês! Eu jamais as abandonaria!
— Não?
— Nunca — disse taxativo e a certeza daquela palavra vibrou no meu peito. Nunca.
Mamãe soluçou mais alto. Estremeci.
— Eu me lembro — murmurei. — De você, de nós... — Enxuguei a lágrima que ardia em minha face. Não conseguia acreditar que aquilo ia mesmo acontecer, naquele terrível momento de tensão. A penumbra do ambiente em nada ajudava. Como seria a reação dele por detrás da máscara? Ficaria feliz? Debocharia da minha desgraça?
— V-Você se lembra, Pequenina? — Sua voz saiu com dificuldade, a emoção no ar, palpável. Ele abriu um sorriso indeciso.
Uma força maior havia se compadecido de mim e me presenteara com o dom da recordação. Meus sonhos apagados foram redesenhados na atmosfera zirquiniana e minha memória se comprazia com a enxurrada de lembranças. Em minha tenra infância, em todas elas Ismael estava presente. E não era uma presença casual, mas sim repleta de carinho e atenção. Ninguém havia lutado tanto pela nossa família quanto ele. Não havia Dale ou qualquer pessoa em nenhuma das quatro dimensões que poderia ocupar o seu lugar.
— Sim, pai, eu me recordo agora — finalmente soltei a palavra que estava presa em minha alma e queimava minha garganta. Pai.
Um silêncio interminável e, por um triz, todos os meus nervos não foram desintegrados. Então o gemido de Shakur preencheu o sombrio lugar, deixando-o ainda mais triste, dilacerante. Meu coração comprimiu no peito, num misto de dor e felicidade. Perdida em meu drama particular, escutei um arfar forte e vi um Richard de olhos arregalados e passos cambaleantes desaparecer atrás de mim.
Shakur colocou carinhosamente minha mãe no chão e veio em minha direção, abraçou-me com arrebatador carinho paternal, e, emocionado, encheu minha testa de beijos. Tomei novo fôlego e segurando a perturbação que ameaçava aniquilar completamente com o que restara da minha voz, acrescentei:
— Eu me lembro da gente brincado no Central Park e de você buscando uma flor para colocar no meu castelo de areia. Recordo-me da mamãe dando bronca e a gente gargalhando, de você me girando no ar e me chamando de...
— Pequenina — rouco, ele concluiu a frase para, em seguida, deixar escapar seu pranto seco e cheio de estrondo, como vários trovões estourando dentro dos meus tímpanos. O choro de Stela, por sua vez, silenciou. Meus joelhos bambearam e as lágrimas me cegavam. — Eu sinto muito, filha.
“Filha”.
Sonhei com aquele momento por anos a fio em minha atribulada e solitária adolescência. Imaginei os mais lindos lugares para aquela aguardada declaração e os mais diversos rostos masculinos por detrás dela. Nada havia saído como eu esperava: o ambiente era hostil, encontrava-me encurralada à beira de um precipício e corria risco de morte, sem contar que não havia conseguido ver a face do meu tão sonhado pai, ocultada por suas terríveis cicatrizes e uma máscara amedrontadora. Mas, ainda assim, não trocaria aquele momento por nenhum outro. Ele não podia ter sido melhor ou mais verdadeiro. Ri da minha desgraça. Assim como a face do líder de negro, minha vida sempre fora um grande caos. O meu caos. O mais incrível é que eu me sentia muito bem dentro dele, perfeita para ele, e só agora eu conseguia enxergar essa verdade atordoante.
Então tudo fez sentido.
Shakur havia me chamado de filha e, mesmo nas terríveis condições, eu compreendi que era autêntico, que ele realmente sentia isso. Meu espírito regozijou dentro de mim e uma força pulsante vibrou em minhas células. Mesmo sem saber seus motivos, tudo em mim o perdoava por ter desaparecido de nossas vidas. Eu o perdoava.
— Precisamos ir, Nina — disse ele acelerado, acariciando meus cabelos e se afastando de mim. Assenti, mas, naquele instante, tudo que eu mais desejava era manter meu rosto afundado em seus braços protetores, voltar no tempo e tornar a sentir o bem-estar e a segurança que só ele era capaz de me fazer experimentar.
O peitoral de Shakur subia e descia acelerado, prova real da sua emoção, mas ele não perdeu tempo e envolveu Stela em seus braços. Mamãe, por sua vez, continuava a encarar Shakur de forma catatônica, como quem vira uma assombração. Então, quando o líder de Thron inspirou com força e, altivo, deu o comando, fui eu quem perdeu o chão ao presenciar aquela cena inesperada. Ele não percebeu em sua preocupação e pressa urgentes, mas eu vi.
Eu realmente vi.
O rosto de mamãe se acendeu, suas pupilas dilataram e as bochechas ganharam cor, mas algo único e incontestável, aconteceu. Algo pelo qual esperei a vida inteira e nunca tive a oportunidade de presenciar, mas que acabava de se materializar bem na minha frente. Meu peito inflou de felicidade repentina e o mundo, mesmo com suas trapaças e surpresas, acabava de entrar em órbita e me brindar com um momento ímpar. Um instante apenas, mas lá estava ele: o fulgurar dos seus olhos negros! O mesmo cintilar que eu me recordava de ter visto nos meus sonhos, o mesmo brilho que vislumbrei na fotografia.
O brilho do amor!
Mamãe ainda o amava. E dentro de mim algo afirmava que aquilo era real e não um momento de loucura. Céus! Nada daquilo fazia sentido! Se ela o amava com aquela intensidade, por que fugira dele durante todas as nossas vidas?
— Shakur, há movimentação lá embaixo. — Richard entrou de rompante na cela e vibrei de felicidade ao perceber que ele se encontrava em estado de alerta máximo.
Teria ele recuperado o ânimo tão rapidamente por ter presenciado o que acabara de ocorrer ali?
— Von der Hess já sabe — sibilou Shakur após contrair a testa.
— Mas que droga! — praguejou Rick com a cara amarrada. Apesar de olhar em todas as direções, era para o colossal abismo que ele encarava com um misto de ódio e frustração. — Como vamos protegê-las nessas condições?
— Você se preocupa mesmo com ela... — Shakur estreitou os olhos em minha direção e nos estudou por um instante. Abaixei o rosto, ruborizada, e Rick se empertigou no lugar. Hesitante, ele caminhou para perto de mim, segurou minha mão e puxou meu corpo para junto do seu.
— Claro que sim! Mas isso não vem ao caso agora. Temos que arrumar um meio de salvá-las — respondeu e senti meu peito estufar. Shakur ameaçou um sorriso, satisfeito. — E se o maldito bruxo liberar mais daqueles insetos?
Silêncio.
A pergunta pragmática de Richard dissera tudo. Não havia saída. Como eles nos protegeriam durante o combate? Ali não havia o meu dom para me defender ou a magia de Shakur para nos mandar para outro lugar. Mesmo que Rick e seu líder sobrevivessem ao confronto contra uma multidão de soldados, sempre haveria o risco do ataque daqueles escaravelhos malditos. Dessa vez, Von der Hess não arriscaria novamente. Shakur, Richard e minha mãe seriam eliminados de imediato. Eu não. Estremeci com esse pensamento, mas o rechacei momentaneamente.
— Vamos subirrr! — opinou Stela, pegando-nos de surpresa. Sua insanidade vinha a calhar e me gerava certo alento: ela não sofreria com o que estava por acontecer.
— Não! Não! Não! — bramia Shakur.
Rick abriu um sorriso desanimado e começou a balançar a cabeça de um lado para o outro. Shakur fechou os olhos e deixou sua cabeça tombar. Então, sem que nenhum de nós pudesse esperar, mamãe levantou delicadamente a cabeça do líder de preto e acariciou sua hemiface descoberta.
— Ismael! — liberou com a voz embargada de emoção. E, antes de perder completamente os sentidos, olhou para cima e murmurou: — Luz.
Shakur soltou um gemido e afundou o rosto no corpo desacordado de mamãe. Rick engoliu em seco, seus olhos arregalados comprovavam outra surpresa: seu adorado líder era Ismael, um famoso mago tido como morto há muitos anos.
— Ela tem razão! Nós vamos subir! — Shakur levantou a cabeça repentinamente e olhou para mamãe com admiração.
— Subir?! Não há saída naquela direção! — Richard protestou com a cara mais fechada ainda, uma veia tremia em sua mandíbula.
— Marmon é um reino subterrâneo, Rick. Que estupidez a minha! — rebateu o líder acelerado. — Eu havia reparado, mas não prestei a devida atenção. Os feixes de luz são pontos de saída!