Newton: Poema
Proemio.
NEWTON,
POEMA
POR
JOSÉ AGOSTINHO DE MACEDO.
Selo da Imprensa Regia
LISBOA,
N I R . Anno 1813.
Com licença.
Sciscitanti cælestium causas, domesticus
Interpres.
Seneca, Cons. ad Marcian.
PROEMIO.
O Mundo deve aos Conquistadores desgraças, lagrimas, e lutos; o Mundo deve a Newton verdades, sciencia, e luzes. Se inquietar os homens tem merecido tantas Epopéas, porque não merecerá hum Poema quem illustra, e quem ensina os homens? Ah! se chegará o tempo de se conhecer, que huma penna he mais util que huma espada! Canta-se com enfasi quem conquistou huma Provincia, e porque não ha de ser cantado aquelle de quem se póde dizer, que conquistára a Natureza, obrigando-a, á força de estudo, e engenho, a revelar seus mais reconditos arcanos? He preciso que conheçamos que o Imperio da Poesia tem limites muito mais extensos do que até agora se julgava; e eu creio que o seu melhor emprego he a contemplação, e a exposição deste sempre antigo, e sempre novo quadro, que se chama a Natureza. A simples intuição de seus prodigios, e o estudo destes mesmos prodigios, dilata, e accende mais a imaginação do verdadeiro Poeta, que todas as chamadas grandes acções dos Conquistadores, ou perturbadores da Terra. Se o homem só se deve chamar grande, quando he verdadeiramente util aos outros homens, quem poderá pôr em dúvida que os descobrimentos, e as mesmas hypotheses de Newton sejão mais uteis aos mortaes do que as expedições da Cruzada, que derão a materia ao Poema de Tasso? Quem illustra a humanidade he maior que quem a diminúe. Newton merecia hum Poema, as Musas lho devião, eu satisfiz esta divida; se a satisfiz bem, a critica o dirá; em quanto aos miseraveis reparos da escura Inveja, prepare-se esta, porque a mesma chamma, que se me desprendeo n'alma para cantar Newton, me obriga a consagrar igual tributo de louvor a Buffon.