Newton: Poema

José Agostinho de Macedo · Capítulo 4 de 5

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Newton: Poema

Newton, Poema. Canto III.

NEWTON,

 

POEMA.

 

CANTO III.

 

Tinha ficado em extase profundo

Do protentoso Mausoléo co'a vista:

Mas da pasmosa suspensão me chama

A Fadiga outra vez; eis abro os olhos,

Junto ao sepulcro vejo em lédo aspecto

Matronas duas de belleza estranha:

Humanos hombros veste argenteas azas,

Na dextra mão sustenta argentea tuba;

Vi que era a Fama, que immortaes escritos

De Newton celebrou; era outra a Gloria,

Que os sustenta nas mãos, defende, e guarda.

Da Fama, e Gloria he obra, he maravilha

O immortal Cenotafio: aos pés sentada

A Verdade admirei simplice, e núa:

Ella serve de baze ao grande, illustre

Monumento immortal onde a pressága

Mente me diz, que saberão no Mundo,

Que eu no Mundo existi, tardios netos.

Do seio extractos da materia prima

Dois pedestaes estão, que no encendrado

Ouro conservão symbolos diversos,

E as bazes são de lúcidas columnas.

No meio huma Pyramide que mostra

No mui subtil triangular remáte

Do fogo, e clara luz o throno; e assento,

Qual entre os Gregos o mais douto o mostra,

Crendo que deste fogo era alma chêa,

Que qual laço entre si sustenta, e prende

Intelligivel Mundo ao Mundo inerte,

Incorporea substancia á sensitiva:

(Methafysico abysmo, ou sombra he isto,

Que eu débil, que eu mortal romper não posso).

Daquelle fogo interminavel fonte

Vi d'átomos sahir, que o Sol brilhante

Desde o seu seio luminoso espalha,

Donde o Immenso esplendor dalvez se forma.

Além do alcance do saber humano

He sua rapidez, correm velozes

Dos Ceos o immenso espaço, em toda a parte

Se difundem no ar; destas pequenas

Particulas tem luz, tem lume os corpos;

Sempre impellido vai, vibrado sempre

(Continua undulação) primeiro raio

D'outro, que delle apóz o Sol despede.

Diante da Pyramide sublime

Entre as columnas se elevava ingente,

Firme, segura baze; ordem Toscana

Com magestade seus adornos fórma;

Nella esculpido teu grão nome eu leio,

Immortal Galileo, tu preço, e gloria

Da Etrusca Sapiencia, e timbre illustre

D'alma Cidade qu'em seu gremio ouvira

Os magos sons da Cythara suave,

Que a Laura celebrou, qu'ouvira outr'ora

Da boca de Ficino auri-eloquente

Do excelso Platonismo expor mysterios;

Que dera o berço ao que descobre hum Mundo,

Que o nome seu tomou; qu'inda hoje o guarda.

Immortal Galileo, devem-te os sabios,

Da Terra aos astros o caminho aberto;

Qual deve a Magalhães o nauta a estrada,

Que cerca todo o globo em mar profundo:

He teu brazão sômente, he gloria tua

Desta mesquinha, inerte escura Terra

Avizinhar as lucidas estrellas;

E, se o Toscano ceo d'astros he rico,

Que ao throno Medicêo docel formárão,

A ti se deve, a ti!... Memoria triste!

O throno Medicêo, he sombra, he cinzas,

Depois que o Tygre, ou Vandalo do Sena

Despreza a Sapiencia, avilta os thronos!

O teu engenho inaccessivel abre

Nova estrada ao saber: Britanno illustre,

Com ella architectou obra estupenda,

Que, consagrada á lucida verdade,

Da proterva ignorancia o orgulho opprime.

Immortal Galileo, ao dia, ás luzes

Que ao Mundo trouxe teu saber profundo,

Se oppôz a cega audaz insipiencia

E inda agora se oppõe; que hum véo sombrio

Tentou no Sena despregar-te em cima.

Ah! não se lembrão que se a Italia culta

Não dera o berço a Galileo, não forão

Tão ufanas de si Gallia, e Britannia,

Hum Newton dando á luz, e á luz Des-Cartes!

Dos lados sobre a baze alta, e segura

Eu vi dois globos da pezada, e dura

Magnete, que he mysterio ao sabio, a todos:

Virtude de attracção nella reside,

Se a mente a não conhece, a vista a sente:

Pegando, unindo a si (profundo arcano!)

Esse metal cruel, sagrado a Marte,

Que hoje a misera Europa em sangue inunda,

E he dos mortaes na mão rival do raio.

Esta ao sabio, esta ao vulgo ignóta força,

Como em triunfo se descobre, e mostra.

De teu contínuo meditar foi obra,

Ó Genio do Tamiza, este prodigio;

Mostra a tendencia qu'entre si conservão

Alternativamente os corpos todos,

Que a hum centro que he commum gravîtão sempre.

Ignóto nome aos seculos antigos,

Foi attracção reciproca, e foi sempre,

Centrífuga, e centrípeta ignorada,

Com que estranhos fenomenos s'explicão.

Em seu lugar as gárrulas escolas

Sonhárão Nume occulto, occulta força,

D'odio, e d'amor combate, ou guerra eterna,

Horror do vácuo, e qualidade ignóta.

N'hum dos globos está gravada em ouro

Por mãos de Ptolomeo etherea esfera,

Á qual d'ambito immenso a Terra he centro:

Acima della brilha argentea Lua,

Que o nocturno clarão do Sol recebe.

O mensageiro dos celestes Numes

Muito acima fulgura; e essa, que teve,

Alma belleza, no Oceano o berço,

No que he terceiro Ceo, resplende, e brilha;

Precede o dia; quando nasce, e surge

Quando o disco do Sol se encobre, ou morre!

D'aurea luz coroado, e ardentes raios

O Sol succede: e se descobre Marte

Sanguineo, e triste n'outro Ceo rodando.

De Jupiter o globo immenso, e claro,

Em mui remoto circulo se agita.

Inda além delle, vagaroso, e frio,

Vai do antigo Saturno o debil raio.

Immoveis pontos, lucidas estrellas

Brilhão no immobil crystallino assento.

Obra do grão Copérnico descubro

N'outro globo esculpida, immensa esfera,

Della, o Sol luminoso he centro, he fóco,

Que mui proximo a si Mercurio observa;

Vai n'hum carro apoz elle a Cypria Deosa

Roseos freios batendo ás alvas Pombas,

(Dos astros todos o mais bello, he este);

E n'outro ceo mais alto a escura Terra,

Tornada astro rotante, o gyro absolve;

Da Lua seu satéllite seguida,

Da qual ao vario movimento he centro.

Das feras armas lugubres o Nume

(A quem tanto tributo, incenso tanto,

Em lagrimas, em luto a Europa off'rece!)

Segue-se apoz da terra; e apoz de Marte

O vivo, o claro, o desmedido Jove,

De brilhantes satellites cercado

Que tu, grão Galileo, primeiro achaste!

E do tardo Saturno a immensa, e vasta

Mole apparece, de Clientes muitos,

E variante annel cercado avança.

Hum longo estudo architetou tão bella,

Tão engenhosa machina prestante,

Entre os gelos Sarmaticos levada

Á maior perfeição, pois já n'antiga

Idade a vio sahir absorto o Mundo

Das mãos do escravo do eloquente Tullio,2

A quem, deposta a consular soberba,

Se dignou de escrever, chamar-lhe amigo.

Sobre os dois globos se sustenta, e firma

A illustre, sepulcral Urna estupenda;

Architetada, e repellida brilha

De Prisma em fórma, e de materia ignóta;

Se o brilho he do diamante, inda mais brilha,

Se he solido o rubim, mais dura existe.

Nas folhagens de Acanto, ou de Cypreste

Alli pôz Escultura: em vez de adorno,

Em vez dos negros symbolos da morte,

Só gravou Mathematico Instrumento,

Com que medir dos Ceos a immensa estrada

Usa idéa Astronomica segura.

Do negro Paragon moldura observo,

Que em si contém de Izác a illustre imagem;

He relevada em solida Esmeralda,

Parece q' inda volve, e q' inda espalha

Filosofica vista em torno aos astros,

Que respirando está Filosofia.

E tanto ao vivo está, tal arte o fórma,

Que, se meus olhos acredito, ainda

Cuido que solta a voz, que os labios move.

Este relevo portentoso, e raro

He sustido nas mãos d'hum Genio illustre,

A quem deo berço d'Adria a grão Rainha,

(Hoje escrava tambem d'escravos feros)

Genio que objectos da terrena estima

Aos pés soube pizar, e além subindo

Onde o fragil mortal mui raro chega,

Teve ao lado Virtude, e teve o gosto,

Que o bello sabe achar nas artes bellas,

Rival sublime, ou vencedor de Horacio,

Na mente sempre á Poezia dada

Seguro alvergue achou Filosofia;

Pelas varedas da sciencia segue

De Newton o farol brilhante e puro.

Caro ao Monarcha, que juntou n'hum laço

De Minerva, e Bellona o genio, e as artes,

Minerva n'alma tem, nas mãos tem Marte,

E a pacifica Oliva ao louro ajunta:

Monarca invicto, que estendeo vivendo

A mão benigna ás Musas desvalidas,

E ao lado como amigo os vates senta,

E no Reino, onde agora a Guerra existe,

De Augusto, fez raiar dourados dias:

Foi-lhe caro Algarotti; oh fausto nome,

Tão doce e grato ao lisongeiro sexo,

Que une mil vezes formosura, e letras!

Da nivea mão travando-lhe o dirige

Pelas agras do calculo varedas,

E lhe ensina a não vêr com medo, e pena

Os labyrinthos das traçadas linhas

Nos cubos, nos triangulos de Newton;

Este nas mãos sustem o Oval relevo,

Que ao vivo representa, ao vivo exprime

Do grande explorador da Natureza

O magestoso, e respirante vulto.

D'Optica o Genio na moldura estende,

Moldura sup'rior, brilhantes azas:

Com septemplice luz se expandem bellas,

Que as côres todas primitivas guarda:

O corpo todo he nú, cercado apenas

D'hum sendal claro azul que estrellas bordão;

Na dextra mão sustenta, huma grinalda,

E acena de cingir com ella a frente,

De pedraria Oriental composta;

Na esquerda mão conserva os luminosos

Crystaes, em lentes que affeiçoa e pule

Co'as doutas mãos Filosofo tranquillo

O Portuguez Hebreo na Hollanda escura,3

Que, a vil lisonja despresando altivo,

Banha o pão com suor, trabalha, e vive.

D' aurea madeixa o Genio hum raio expande,

Que, composto de mil, fulgura ao longe.

Resulta delle a côr candida aos olhos:

Da Urna sepulcral no seio o raio

Se refrange instantaneo, em parte opposta

Quadrilongo se vê, posto que fosse

Esferico ao partir da origem sua.

Diversos gráos, e proporção distincta

As côres entre si guardão, conservão;

O brilhante escarlate occupa o fundo,

O laranjado o meio, e, qual no Goivo

O amarello se mostra, alli campêa;

O verde então se vê, que enroupa as plantas;

Vegetação Rainha assim se veste,

Ópa com que se adorna, e o Mundo enfeita:

Do azul, que forra os Ceos, o Indico he perto,

E da saudade o symbolo tristonho,

Matiz da violeta; eis brilha o rôxo.

Escala harmoniosa! Eis della em torno

D'huma composta côr listões s'estendem,

Que outros compostos gradativos formão,

Que adornos são do Mausoléo soberbo:

E, n'hum Rubim profundamente expressas,

Estas palavras portentosas erão:

"Com suas Leis a vasta Natureza

Immersa estava em tenebrosa noite;

Surge, ó Newton, bradava a voz do Eterno;

Nasceo Newton no Mundo, e nasce o dia."

Eis tres figuras mais, do grão Sepulcro

Ornamento, diviso em torno postas;

Primeiro a de Ancião curvo, e rugoso,

Fontenelle se diz, meditabundo,

Aos Ceos aponta, e contemplando os astros,

Diz que habitados são, que a argentea Lua

He do pensante, e do mortal morada;

Qu'existem Mundos mais no éther immenso.

De vórtices cingido, outro apparece,

Em cujo seio envolve o Sol brilhante;

Em seu gyro assignala o móto aos astros.

Tem sobre o Cenotáfio os olhos fitos,

O simulacro observa, e mudo o adora.

Entre elles ambos Maupertúis descubro,

E sobre hum globo estende aureo compasso,

E sem temer as cerrações do pólo,

Geómetra sublime, os gráos lhe mede.

Eternidade sobre tudo existe,

De insupportavel luz clarão diffunde,

Onde se perde, e se deslumbra a vista,

S' ousa fitar-se ao seu seio immenso.

Mal contemplava o monumento augusto,

De homem tão grande consagrado á gloria;

De tão sublimes extasis me arranca

A Fadiga outra vez: "He tempo, ó filho.

Que o transportado espirito se torne

Á habitação mortal, que desça á Terra:

Vai: quanto viste, aos homens anuncîa;

Vai declarar insólitos protentos

Sobre esta móle sepulcral gravados.

O Mundo vivirá: Newton sublime

Em quanto exista, existirá com elle.

Sobre as ruinas do acabado Mundo

A gloria existirá fastosa, inteira,

Seu throno erguendo sobre immensa, e clara

Luz, que só Newton dividio na Terra."

Disse; eis foge a visão, eis foge o Templo.

Eu, não diff'rente d'hum mortal que vôa,

Desço do cume do fadado monte.

O mesmo monte s'escondeo: vapores

Levantados em torno á vista enferma

Sobre mim denso véo de nuvens formão,

Roubão-me ao claro Olympo: a planta apenas

Se me antolhava que na Terra firmo,

Do novo dia sou chamado ao duro

Lagrimoso trabalho, herança minha,

N'huma absoluta escuridade, inglorio,

Sómente a mim deixado, e á Natureza,

Sem murmurar do Ceo que assim lhe aprouve,

Tranquillamente o tumulo esperando

(Pouco dista de mim!) repouso eterno.

Mas sem que a vil lisonja hum pão mendigue;

Nem aos soberbos porticos dos grandes

A dependencia guiará meus passos,

Nem vergonhosa súpplica, aos ouvidos

D' hum homem meu igual levei té agora.

Falte em que ponha os pés mesquinha terra,

Injusta collisão d'almas obtusas,

Menos que vermes na sciencia, em tudo,

Só grandes na ignorancia, e na impostura,

Me procure azedar cadentes dias;

Nem duro, e negro pão banhado em pranto,

E obtido com suor me escóre a vida;

Nem tenha onde evitar (paredes nuas)

Das estações a dura alternativa;

Nunca abatido o peito em males tantos,

Nem triste o rosto me verão no Mundo;

N'alma assentado o presupposto tenho

De huma voz Filosofica, que brada:

"Dos males todos, o menor he morte."

Se he preciso morrer, sou grande, e livre,

Sou nobre, independente, e sou ditoso;

Do estudo, e da sciencia o fructo he este.

Não he caduca vida hum bem q' valha

De hum vicio só, de huma vileza o preço,

Mas em quanto não finda este intervallo,

Breve entre o berço, e tumulo, desejo

Ó Patria minha, engrandecer teu nome,

Dar-te, qual hes, a conhecer ao Mundo.

Isto busco, isto quero, isto medito,

Neste seculo infausto á paz negado,

Em que tudo se esquece, excepto o sangue;

Em que he sciencia o calculo da morte;

Em que hum Tigre feroz se chama hum grande;

Em que amor do retiro, amor do estudo

Como fraqueza, e pedantismo he tido,

E a sciencia maior lembrar-se o nome

Da terra em que os mortaes seu sangue entornem.

Menos barbaro foi por certo o tempo

Em que do polo aquilonar marchando

Fero Ataúlio, ou Genserico veio

He Theodorico barbaro, mas teve

Ministro ao lado seu Cassiodoro:

Deo-se apreço ao saber, respeito ás Musas.

Filosofo he Boecio; aurea eloquencia

Apolinar, e Símacho sustentão,

E do Grego saber riqueza, e brilho

Nas escolas Ecléticas conserva

Á foz do Nilo transplantada Athenas.

Mas agora!... ah com lagrimas augmento

Do patrio rio a turbida corrente!...

Porém eu torno a mim, que a mim me rouba:

Melancolico véo que alma me enluta.

Trago do Templo excelso inda gravadas

Na fantazia férvida as imagens,

Que eu alli descobrira, inda me lembro

De quanto ao grão Britanno as Artes devem.

Cultas nações extaticas o louvão,

Nunca a lingua mortal cança em louvallo:

Unico Genio, cujo estudo, e fama,

Sómente ha de acabar quando se solte

A chamma voracissima do fogo,

Que a Terra, os astros lucidos consuma,

Com que do Mundo a machina vacille;

Como tu prometeste, e tu cantaste,

Ó dulcissimo Vate, a quem por louros

Deo do Tybre o Tyranno a Scitia, e morte.

Newton; foste mortal; mas quasi eu creio,

(Qual he crença de extatico Poeta)

Que d'hum astro natal vieste ao Mundo

Mostrar prodigios aos mortaes ignótos.

Tu, c'o Prisma na mão mostraste a fonte

Da septiforme côr, que a luz encerra,

Qual seja a essencia sua, e qual a vida.

A superficie dos terrenos corpos,

Em parte absorve os luminosos raios,

E, reflectidos n'outra parte, os manda

Aos olhos nossos com diversas côres.

Opáco eis apparece o corpo, quando

A luz não tópa com directos póros;

Na obliquidade a escuridão consiste,

Pois menor transparencia a luz encontra:

Tu decifraste as primitivas côres,

Ó grande Genio escrutador do Mundo!

Tu das mixtas nos dás brilhante idéa,

Que effeitos são dos reflectidos raios,

E qual seja o poder donde dimane

Á refracção, e reflexão principio.

Nem são de teu engenho obras supremas

As qu'em suave metro expuz té agora.

Não so da luz as vibrações potentes

Refrangiveis mostrou nos corpos densos,

Que no incessante, moto encontrão sempre;

Mas a mais progredindo, a mente excelsa,

Não se perdeo no calculo infinito:

Abysmos onde hum novo ignóto brilho

Aos mortaes pode abrir; sahindo ovante

Do labyrintho de infinitas curvas,

Quando a recta propoz, porque he finita;

Se hum pouco só diverge, então se fórma

Sempre em curva infinita. Ó sombra, as Musas

De ti se espantão, se intimidão, fogem:

Só lhe apraz terra donde brotem flores;

Só manejão pinceis, calculo odêão;

Ou he pequeno emprego á fantazia,

Que se escalda, se expande, e se remonta,

Juntar com sequidão cifras a cifras;

Outro quadro maior minha alma occupa.

Bastava, ó Newton immortal; bastava

A dar-te hum nome eterno, a luz, e as côres;

Mas tu, da clara luz transpondo o Imperio,

Foste os astros seguir no eterno móto.

A pestilente Inveja em vão contrasta

A teu nome immortal memoria, e honra.

Da Geometria nas valentes azas

Nunca tentado despregaste hum vôo,

E d'huma esfera n'outra esfera foste

Viver entre mil soes sem deslumbtar-te;

Lá tu foste encontrar, de lá revélas

Lei q' a hum centro commum chama os Planetas;

E a lei com que do centro os astros fogem.

O móto desigual da argentea Lua

A teus profundos calculos sugeitas.

Tu no móto annual, tu no diurno,

Vais passo a passo acompanhando a Terra.

Tu do grande fenomeno espantoso,

Exposto á nossa vista, e sempre ignóto,

Com que ora sobem na arenosa praia,

Ora descem na praia as turvas ondas,

A verosimil causa, ou certa apontas.

E teu profundo espirito em repouso,

Assombroso mortal, jámais deixaste.

Se, os tubos astronomicos depondo,

Deixas de ir vêr os Ceos, correndo os astros,

Não satisfeito de rasgar o obscuro,

Denso véo que encobria a Natureza,

Pelos sombrios pennetraes entrando

Com luminoso facho, e nunca extincto,

Tu, nascido a dar luz, rasgas as sombras

Talvez mais densas, que no seio envolvem

Marcado já periodo dos tempos,

Vai correndo teu fio, e apenas paras

No momento em q' á voz do Eterno o Mundo

Surge do cáhos, se organiza, e brilha.

Tu, da impostura oriental mofando,

E do fallaz mysterioso Egypto,

Só da verdade oraculos respeitas.

Petavio, Usserio te contemplão mudos

Quando outras luzes contemplando mostras

Da Natureza na observada marcha

Tão remoto não ser da Terra o berço.

A baze, as progressões, a gloria, a quéda

De Imperios vastos que ambição formára,

Interpetre das leis dos Ceos, dos astros,

Quizeste ser Legislador dos tempos.

Quem póde a gloria recuzar-te, ó Newton,

De dar ao Mundo a luz que elle não tinha?

A transcendente Geometria elevas

Ao ponto além do qual finda o perfeito.

Da Natureza sacerdote, acclaras

Mysterios que ignorára a Grecia, o Lacio.

Pelas sombras da Historia a luz derramas

Quando a baze maior, Chronologia,

Tu deixas em teus calculos segura.

Se o profundo Varennio a terra, os mares

Co'a régoa Filosofica medindo,

Este, ai! tão triste! domicilio humano

Em quadro multiforme off'rece á mente;

Tu te dignas polir, dar brilho, e preço

Talvez ao mór Geógrafo que exista;

A Newton por interpetre merece!

Nelle a luz he brazão, que tu lhe emprestas;

Em ti timbre maior, sendo tu Newton,

Confessar, conhecer merito estranho.

Da Natureza expositor, quizeste

As azas despregar n'hum ceo mais alto,

As cortinas fatídicas rasgando,

Com que a mão do Immortal cobre o futuro,

Foi teu maior estudo esse volume;

Onde as visões de extatico Profeta

Em sombra impenetravel se sepultão,

Não vadeaveis, não, que os aureos sellos

Só lhos deve romper momento extremo,

Quando de espanto agonizante o Mundo,

Vir das nuvens baixar do Eterno o filho.

Não foste grande aqui; mas são pequenos

Quantos ousão rasgar comtigo as sombras,

Em que Deus quiz guardar mysterios tantos.

No Templo Filosofico dest'arte

Tu mereceste hum tumulo sublime,

Que he seu mais nobre altar; não pompa infausta,

Qual ser dos Reis o mausoleo costuma;

Neste a gloria se acaba, o nome expira;

O teu dalli começa, e dalli manda

Raios de luz a esclarecer o Mundo.

Se tens a mente de sciencia cheia,

Tens de virtude, o coração cercado:

He mais arduo ser bom, que douto, e sabio;

E huma Virtude só tem mais valia

Que o teu compasso d'ouro, as linhas tuas,

E as leis que dás, ou que suppões nos astros.

Entre o fausto incivil entre a grandeza,

Podeste ser Filosofo modesto.

Ah! sem virtude, a sapiencia he nada!

A Inveja te assaltou, (e a quem perdoa

Este monstro o maior do escuro Inferno?)

Mas tu, qual no Oceano altivo escolho

Das negras ondas, que rebentão, zombas.

E, se hum novo Palacio á Sapiencia

Levantárão mortaes no Tybre, e Sena,

Os enfeites são seus, e as bazes tuas,

Ó feliz Albion, berço de tantos,

Magnanimos Heroes, que o Mundo illustrão,

Da honra e da virtude asylo, e Patria,

Vê que ha no Tejo quem conheça o grande

Alumno teo que legislou nos astros;

Quem seu saber adore, e seu profundo

Systema vá seguindo em todo, em parte;

Quem possa ser maior, e igual ao menos.

Este dos versos meus, tributo acceita

Que eu consagro a teu nome, á gloria tua:

Pendura-os em seu tumulo, e se tanto

Nem desejar, nem merecer eu devo,

Junto da pedra, que os despojos fecha

De Tompson teu Pintor, meus dons conserva:

Se elle traçou da Natureza o quadro,

Dos seculos té alli co'a Lyra intacta,

Eu do Interpetre seu pinto em meus versos

O grande Genio, e lhe eternizo a Fama.

Fim do III. Canto.