Newton: Poema

José Agostinho de Macedo · Capítulo 3 de 5

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Newton: Poema

Newton, Poema. Canto II.

A seu profundo, e vasto pensamento,

Co'a tócha acceza da Razão diante,

Abre, piza, franqueia ignóta estrada,

Que mais, e mais se aplaina, e mais s'estende

C'o porfiado estudo, e os homens leva

Ao Templo augusto da immortal Verdade,

Que escondido não he qual foi primeiro.

Ella pôde encantar Genios sublimes

Cujas imagens em perennes bronzes

Em si conserva o magestoso Alcaçar:

Oh! mui feliz Entendimento humano:

Se em taes indagações, se em taes estudos

Aprende a conhecer, e amar o Eterno

Só de bens larga fonte, immenso Oceano!

Fim do I. Canto.

 

NEWTON,

POEMA.

 

CANTO II.

 

Da Sapiencia antigos amadores,

Os Sacerdotes do celeste Nume,

Ao sacrosanto Templo alto ornamento,

Com seus bustos em porfido formavão

Do magestoso altar decóro illustre;

Puro, innocente altar, onde a profana

Mão despiedada dos mortaes infrenes

Nunca pozera victimas de sangue,

De que tanto se apraz da guerra o Nume,

Que o cego Fanatismo, ah! tão frequente!

Nas torpes aras da Ambição degolla.

São incensos aqui puros affectos,

E o remontado pensamento os votos;

São offerendas extases sublimes,

Vôos da mente, que s'eleva aos astros,

E corre o immenso espaço. Aquella Deosa,

Que o berço tem nos Ceos, qu'he dom dos Numes,

Que he mãi das Artes, e inventora dellas,

De magestade, e de belleza cheia,

Taes holocaustos no seu seio acolhe.

Vi, (qu'assombro!) de luz cercado o vulto

Do primeiro mortal, puro, innocente,

Qual já das mãos do Creador dos Mundos

Sahio primeiro, e dominou na Terra.

Do Divíno saber nasce ensinado,

Das cousas conhecia a essencia propria,

Impoz o proprio nome aos seres todos.

E junto delle fulgurando estavão

Em menos viva luz seus tardos netos,

Que delle, como herança, alta doutrina

N'huma idade de seculos colherão:

De labio em labio aos pósteros a mandão

Té qu'horroroso, universal Diluvio

Fez que de todo agonizasse o Mundo.

Via logo a Noé, que intacto surge

Do lenho guardador da especie humana:

Aos filhos seus dos fulgurantes astros

O aspecto, o moto, as posições ensina.

Sublime Sapiencia, e douto estudo,

Que tão illustres fez, depois da obscura

Confusão de Babel, nações diversas,

O innocente Caldeo, o Arabe experto,

Do Nilo o morador mysterios todo,

E o Persa audaz idólatra do fogo.

Descubro a Prometheo, e o velho Atlante

Em que a verdade a Fabula reveste

Da Poesia co'as brilhantes côres.

Hum, com fogo dos Ceos, anima o barro;

Outro o pezo sustem do excelso Olympo.

Vejo o profundo Trimegisto, e vejo.

O sublime Cantor harmonioso,

Que de Troia a catastrofe nos pinta,

Que, em brando verso, imagens lizongeiras,

Da Sapiencia os pennetraes nos abre;

A idéa em si contém das artes todas.

Pelas margens do Indo, e turvo Ganges

Meditadores Brâmenes diviso,

Que em sombra muito espessa a luz envolvem,

E a verdade entre symbolos nos dizem.

A Confucio Chinez descubro, admiro,

Que a voz escuta á sabia Natureza,

E firma o summo bem só na virtude.

Tres Zoroastros, que nas sombras plantão

Luminoso fanal, que á Persia, e Egypto

Das Artes para o Templo a estrada aplaina.

Logo dois immortaes cantores vejo,

He Lino, e o doce Orfeo, que a Lyra d'ouro

Com tanta fez soar maga harmonia,

Que doceis se tornou troncos, e penhas,

Que do cáhos no escuro horrendo centro,

Principio do Universo, Amor plantarão.

Pensativo Beroso alli contemplo,

A quem de Athenas a famosa escóla

Estatua alevantou d'ouro mais puro.

A par delle he Chilon, que o dia extremo

Sem pena, sem temor contente encára.

Do tyrannico sangue alli manchado

Pittaco á morte sobranceiro existe.

Legislador Solon de brando aspeito,

Que com vasto saber enlaça Astréa,

E ás leis soube juntar Filosofia;

Dos bons Monarchas o modello he este!

Depois Zaleuco vi, depois Carondas,

Ambos com justas leis Sicilia exaltão.

No meio bem do taciturno alvergue

De Pythagoras sabio o vulto admiro,

No rosto, e ar mysterioso em tudo,

Que da Unidade, ou centro aos seres todos,

A origem fez sahir, principio, e causa.

Cleóbulo descubro, elle a formosa,

Sabia filha gentil conserva ao lado,

Que da engraçada boca em aureo rio:

Eloquente entornou Filosofia:

Ah! nunca aos homens se mostrou tão bella!

Admiro mais além Biante o sabio,

Que digna só julgou de humano estudo

Moral, que na virtude a alma levanta,

Em sua mesma magestade occulta,

Deixando a Natureza, enigma escuro,

Indecifravel aos mortaes mesquinhos

Em quanto em fragil barro a alma se prende.

Periandro alli vejo, e vejo o Scyta

Anacharsis, Filosofo profundo,

Cujo nome immortal materia, e fama

Deo neste ferreo tempo ao douto escrito,

Que a Grecia em si contém, co'a Grecia tudo.

Vejo a Misson, que symbolo o destingue?

O nobre, e nobre só proficuo arado,

Que o seio rasga á terra agradecida:

Delle se peja a estólida vaidade;

Do Filosofo á vista he mais que hum Ceptro:

Na cultura do campo o sabio he grande;

Nem pode o estudo ter mais digno objecto;

E nunca outro mister, nunca outras artes,

Com mais afan buscasse o engenho humano!

Celeste Agricultura, oh digno emprego

Té do mortal primeiro inda innocente!

Eu distinguo Epiménides, que deixa

A escondida caverna em que medita,

Aos homens vem mostrar da luz os raios

Ferécides, Bericio, e aquelle observo,

Que a Frygia vio nascer sublime, e douto,

Que em lizongeiras fabulas esconde

Quantas depois lições do justo, e honesto

O Pórtico sublime, a Estóa derão.

Thales descubro então, brazão da Jonia,

Que he da primeira escóla excelso mestre,

Que á Grecia deo lições, deo luz, deo tudo

Quanto soube alcançar de Astronomia

Do protentoso vidro o olho despido.

Elle primeiro do Solsticio o ponto

Sobre a Terra observou, e elle primeiro

Predisse aos homens pavoroso eclypse,

Que rouba a luz á Terra, e a paz ao peito,

Deste mysterio assustador ignáro.

Elle o principio assignalou do Todo,

O humor aquoso que circunda o globo.

Vejo Archeláo, Anaximandro admiro;

Este infinita julga a Natureza;

(Ó Portuguez Hebreo, tal foi teu erro!)

Aquelle julga que as primeiras causas

Só são da geração calor, e frio.

Anaximenes do Orador Romano

Sempre admirado, alli contemplo, admiro,

No móto eterno da substancia eterna

A essencia poz de hum Árbitro supremo,

E deo ao Mundo por principio immenso,

A substancia do ar, vasto, infinito.

O profundo Anaxágoras diviso,

De fundos olhos, de enrugado aspeito

Prolixa barba, atenuado corpo,

Que ardente pedra incombustivel julga

O luminoso Sol. Vai branco, e curvo,

Calva a rugosa frente, a tez sombria,

O protentoso Sócrates, o justo,

(Quanto o ser pode a Natureza impura)

Attento sempre ao movimento interno

Do humano coração, regeita, e mófa

Dos vãos systemas fysicos do Mundo,

Que á mente dos mortaes ignotos deixa,

E s'apraz de deixar Motor Superno.

Só da austera moral segue as pizadas,

E avezado o mortal ás vans idéas

Da vacillante Fysica o procura

A estudo reduzir da essencia propria.

Só quando o homem se conhece he sabio!

Vejo Aristippo, Antísthenes descubro;

Hum busca o summo bem no inerte, e baixo

Prazer que encanta os corporaes sentidos:

(Ó lisongeiro do soberbo Augusto,

Teu systema tal foi, teus aureos versos

Aristippo sómente, e Amor respirão!)

Porém, mais sabio Antísthenes encontra

Só d'alma no prazer, ventura extrema;

Este o primeiro da assisada turba

Do Cynico mordaz. Crates contemplo,

Que julga inutil pezo a vã riqueza,

E no abysmo do mar com ella esconde

O inquieto temor, voraz cuidado.

Alli Monîmo admiro, e Zeno, e Hiparco,

Vejo a vagante habitação do Sabio

Diógenes pasmoso, e alli defronte

Em pé contemplo o assolador do Mundo;

Da esquerda parte inclina hum pouco a frente,

E a fluctuante clámyde lhe arrastra;

Pende-lhe ao lado o ferro, e delle em torno

Calisthenes contemplo, e mudo, e quedo

O grande Efestião. Elle alça o braço

De quem Persia se teme, e teme o Ganges,

E ao pobre habitador da cuba off'rece

Seus thesouros, seus dons; tranquillo, e grande,

Só lhe pede que ao Sol não véde as luzes,

Nem lhe tolha o calor que ao frio, inerte

Corpo negado tem Frugalidade.

Se houve grande Filosofo, he só este!

Com taes lições, já Menedemo he grande,

Que hum só bem conheceo, e he só virtude.

Euclides vejo, e Pontico, avezado

Á contumaz contradição de tudo.

Vejo Estilpon magnanimo, que a intonsa

Cabeça traz, e descoberta sempre:

Pobre o vestido tem, e os pés descalços,

Com elles piza a vaidade, o fausto,

E quanto pede o coração lhe nega.

Ó grande Preceptor do ingrato Nero,

Se isto não foi teu animo sublime,

Ah! são por certo teus escritos, isto!!

Diofantes, Apolonio, eu bem destinguo,

Tem nas mãos o compasso, e tem na terra

Immoveis sempre os encovados olhos;

Alli descreve as trabalhosas curvas,

E além disto não mais surge esta idade;

Não foi mais Galileo, nem mais Des-Cartes!

De Estoico rigor seguindo a trilha

Eu vejo envolto em seus possiveis Zeno.

De veneravel rosto accezos olhos

Eu descubro a Platão, Platão que o Nume

Nos objectos que vê, contempla, adora;

Que a novo Amor dá luz, e alegre espera

Que a seu astro natal sua alma torne.

Ó sublime doutrina, ah tu podeste,

Dentro da Escóla de Florença outr'ora,

O eloquente escutar Policiano;

Se as letras tem na Europa apreço, estima,

Se em seu amor se me embranquece a frente,

A tão sabio mortal, tão grande o devo!

Este o tributo, que meus versos pagão:

Que mais te posso dar? Teu nome he tudo.

Vejo Espeuzipo imitador da grande

Virtude illustre de Platão sublime:

Teve commum com elle, o estudo, o sangue;

E a baze eterna lança á Academia,

A quem deo nome o milagroso Tullio.

Da belleza inimigo, e da ternura

Xenocrates descubro austero, e triste,

Vergonhoso baldão da especie humana,

Que, nem ao mago scintilar d'huns olhos

Nem ao surrizo de purpureos labios

E ás aureas ondas de madeiras d'ouro,

Sente no peito a Natureza toda,

Q'até do fundo abysmo aos monstros feios,

E sanguinario Tigre, amar ensina.

O pertinaz Arcesiláo na escola

O segue, duvidando, a alma suspensa

Entre a diversa opinião conserva.

A imagem de Carnéades descubro,

Da nova Academia he timbre, he gloria

Cuja alma excelsa da verdade indaga,

Entre o provavel sempre, a estrada incerta.

Pythéas vejo que do antigo Sabio,

A quem Samo talvez já déra o berço,

Vai seguindo as pizadas, e se julga

Continuo habitador de corpos varios.

Este aos ceos porporção, este a medida

Primeiro assignalou; dos aureos astros

Para hum centro commum conhece o móto

Naquelle antigo symbolo mostrado

Da septicórde auri-sonante Lyra,

Que Febo tem nas mãos, q'o Vate inveja;

E se lhe antolha, que escutava ao perto

Sempiterna, multiplice harmonia,

Da Esfera portentosa alto-brilhante;

Talvez nelle encontrasse o germe, a fonte

De seu systema de attracção, sublime,

Infatigado explorador Britano....

Meditador Empédocles já vejo,

Que julga (ó fraco dos mortaes discurso!)

Suor do terreo globo o vasto Oceano;

Se este, se este não foi, Buffon facundo,

Esse teu vapor humido, que a Terra,

Destacada do Sol, e ardendo em fogo

Ao mais subido d'atmosfera exhala,

E cahindo de lá se fórma em mares!

Do Italico saber brazões sublimes

Tidas, e Architas fulgurando admiro;

Ambos julgavão cada estrella hum Mundo.

Suspenso pelo ar alto infinito,

Onde hum astro central preside a muitos

Rotantes globos, q'em si mesmo opácos

Reverberante luz delle recebem:

E no globo gentil da argentea Lua

Mares, selvas, montanhas supozerão,

E de ser pensador fecundo alvergue.

Este nas margens do revolto Sena,

Que hoje escravos só vís, só ferros banha,

Teu pensamento foi, sublime engenho,

Quando d'hum Mundo n'outro Mundo ignóto

Levaste a passear matrona ímbelle,

Do prazer filosofico em ligeiras

Azas de accezo enthuziasmo ouzado.

Tal foi a idéa de profundos sabios

Que tão soberba opinião vestírão

Das côres da razão, qual tu fizeste

Nessa pasmosa extatica viagem

Com q', ó profundo Képler, te lançaste

Por entre os astros aos confins do Todo.

Na escura tez Prothagoras conheço,

Que entre sophismas envelhece, e nega,

Oh! sacrilega audacia! hum Deos ao Mundo.

Nem vê na grande architetada mole

De hum Ser eterno a mão reguladora!

Cheio de assombro, e maravilha fito

Na imagem de Demócrito meus olhos;

Abdera o vio nascer, e a mente excelsa

Na grande esfera da sciencia entranha.

Vejo a par delle Heraclito, que chora

Ao triste aspecto da miseria humana,

Em quanto aquelle no incessante rizo

Com soberba indiscreta o Mundo insulta:

Ambos no excesso opposto hum erro abrange.

Vejo a Pirron que pertinaz duvîda

Do que tem da verdade o cunho impresso;

Muda sempre de côr, muda de aspecto,

He duvidoso, e vacillante sempre;

Filosofico orgulho, e quanto, e quanto

Se fecundou teu germe em peito humano!

Teu scepticismo do erudito Baile

Os escritos manchou, q'espalhão sombras

N'hum ponto unindo o verdadeiro, o falso!

Entre guerreiras machinas envolto,

Entre abrazadas náos vejo Archimedes:

Cheio de palmas, de laureis lhe chora

De Siracuza o vencedor, a morte;

Foi esta a vez primeira, ó grão Marcello,

Que sobre a Terra fez Heroes o pranto!

Illustre pranto, que aligeira ao Mundo

O ferreo jugo do Latino Imperio!

Eis descubro Epicuro, o vulgo insano

Nelle descobre hum ímpio, eu vejo hum sabio

Frugal, modesto, taciturno, humilde,

Que d'alma no prazer, puro, e sincero

Suprema quiz constituir ventura.

Entre viçosas arvores se assenta

De hum ameno jardim; medita, ou finge

Os infinitos átomos no vácuo,

D'hum laço casual produz os Mundos.

D'alma foi erro, e da vontade engano

Não passa ao coração; tranquillo, e puro

Ama a virtude. Ó Seneca, foi este

Teu pensamento quando instrues Lucilio.

Mas erraste; he chimerica a virtude

Em quem della não vê n'hum Deos a fonte:

Quem no acaso conhece o author do Mundo,

Se não erra, e blasfema, então delira!

Eis d'Estagira o Genio, eis o prodigio

Talvez, talvez maior q' a Grecia vira.

Do Mundo he mestre, a Natureza he sua,

Não se confunde o Peripáto, e elle:

Elle foi luz, o Peripáto he sombra.

Não he seu mór brazão ter visto o Mundo

Do Mundo o vencedor posto a seu lado,

Pois de Alexandre, que conquista a Terra

Só devia Aristoteles ser mestre.

He seu tymbre maior ter da sciencia

Quasi o infinito circulo corrido.

Inda em seus livros q' a ignorancia altera

(Ignorancia dos Arabes soberba)

Saber encyclopedico descubro.

Se hoje tudo he Buffon, se Plinio he muito

Senão fora Aristoteles, não forão.

Bem como hum Nume ao Mundo as bazes lança

Quando no instante productivo o manda

Sahir do centro do confuso cahos;

Assim das artes, das sciencias todas,

Quasi no cahos da ignorancia envoltas,

Lança o grande Aristoteles as bazes.

Quando deixou de perseguir o Mundo

A Sapiencia, o merito, a virtude?

Tristes aves da noite a luz odêão:

D'Athenas Aristoteles se esconde,

Em voluntaria morte azylo encontra.

Na sublime cadeira então se assenta

(E alli brilhando estava) o douto, o grave

Da Natureza interpetre Theofrasto;

Desgraçado Calísthenes lhe escuta

As sublimes lições, e o grande Endemo,

E a respeitavel multidão dos Sabios

Affeitos sempre a passear pensando.

Do Tybre a escravidão, do Tybre os ferros

Tornão de Athenas, e Corintho o fasto

Em pobre aldêa, ou lastimosas cinzas:

Eis se transplanta a Sapiencia a Roma;

E, se da Gloria o Templo as armas abrem

A seus grandes Heroes, tambem seus Sabios

No eterno Templo da sciencia eu vejo.

Entre todos mais luz, talvez mais clara,

Que a que se espalha dos Argivos bustos,

O protentoso Cicero derrama!

Nenhum Sabio formou do Eterno Nume,

Entre as sombras Pagans, mais alta idéa!

Elle incorporeo, immenso o considera

De eterna Providencia, Amor eterno.

Existente por si, e author do Todo.

Por certo entre os mortaes nenhum té agora.

Tão profundo saber juntou co'a rica

D'aurea eloquencia exuberante vêa!

Do Epicurêo Lucrecio então descubro

O pensativo, e descarnado aspeito:

O centro tira do Universo, e Mundos

Infinitos julgou no immenso espaço.

Alli vejo Epitéto humilde escravo,

Mas entre os sabios soberano, e livre;

Cuja fragil alampada hum thesouro

Entre as joias valeo da antiga Roma.

Vejo o vulto de Seneca, seus olhos,

De huma luz ardentissima, levanta

Meditabundo ao luminoso assento;

Piza as salas fataes d'ebano, e d'ouro,

Onde o sangue materno hum Nero entorna,

Onde jaz de Germanico o cadaver

Seneca o monstro louva, e s'entristece:

Dependencia d'hum throno a quanto obrigas

Pequeno em obras he, grande em sciencia

Elle a vida antepoz ao justo, ao pejo

Por ella perde de viver as causas:

Mas em seu gremio o tem Filosofia,

Só porque disse q' ás acções internas

He presente hum juiz, presente hum Nume.

Roma nelle acabou. Na foz do Nilo

Imperial Alexandria surge;

Ella produz o Eclético Potámon

No Templo veio fulgurar seu rosto.

Da bella Hipacia a formozura brilha;

Eloquencia, e saber da boca entorna

Entre suaves halitos de rozas,

Que transportado Origenes lhe escuta.

Em sua escola Próculo se exalta,

Amónio, Celso, Jamblico, e Porfirio,

Que mal sabido Platonismo illude.

Vejo n'hum throno, sobranceiro a muitos,

O magestoso vulto auri-esplendente

Do novo Tullio, o fluido Lactancio,

Talvez maior, que o Consular de Arpino.

Não era longe delle, em sombra envolto

Da prizão melancolica, Boecio;

Vai banhando os grilhões d'amargo pranto

Té que raiando vio Filosofia,

Que as sombras rompe, as lagrimas lhe enchuga.

Profunda escuridão, profundo luto

No vasto Imperio das sciencias pousa;

Onde apparecem Vandalos, acabão.

Quaes vemos entre nós do Sena os monstros,

Que vem das artes derrubando os Templos;

Vem do gelado, tenebroso Arcturo

Bando, de morte, e de ignorancia armado,

Apenas ficão gárrulas escólas,

Que hum só busto não tem no eterno Templo,

Té que dos gelos de Sarmacia surge

Copérnico immortal, este o primeiro

Que alli se manifesta, alli fulgura

Entre os astros envolto, entre as esferas:

Vio Sol immobil, vio rodar a Terra,

E apenas o immortal pasmoso escrito,

Ao respeito dos seculos entrega,

O templo augusto da sciencia todo

De protentosos sabios se povôa.

Eis se me amostra Galileo, dos astros

O novo Cidadão, tem curva a frente,

E descarnadas mãos co'as vís cadêas.

Cinge-lhe Jove na enrugada testa

As q' elle achára incognitas estrellas.

D'antiga Resia veio o alto ornamento,

He Bernúlli immortal. Na margem fria

Do discordante Baltico diviso

O grande author das Mónadas, q' encontra

No composto mortal mága harmonia

Entre a composta, e simplice substancia.

Nascido a meditar, modesto, e mudo,

Da nebulosa Hollanda em canto escuso,

Do grão Des-Cartes magestoso vulto

Entre as sombras, e a luz plantado admiro.

Hum globo tinha aos pés nas mãos hum facho

Q' ao globo espanca a tréva da ignorancia.

Legislador sublime além brilhava,

Verulamio infeliz, primeiro as portas

Da recatada Natureza abria.

O desprezado á cinte, e ignoto a muitos,

O frugal Espinosa aqui surgia.1

Errou que he homem, mas errou com elle

Toda a escóla Eleática, e tu mesmo,

Ó Seneca immortal, com elle erraste:

E Campanéla, e Bruno, e a nós mais perto

Contradictorio Mirabund, deliras.

Mas quem, profundo Hebreo, te nega engenho?

Em força d'alma hes unico entre todos

Dos que além penetrar julgão que he dado

Do que foi dado a pensamento humano.

Eu te posso impugnar, e outros te insultão.

Talvez eu sorte igual no Téjo alcanço

Não penetrando da Sciencia o Templo,

Porém no ingénuo dom d'ingenuos versos,

Que a si por premio tem, por méta a Patria:

Béja te deo teus pais, teu berço o Douro:

Alguma cousa tens commum comigo.

Alli d'Obergio, Mallebranche, e Locke

Os aureos bustos luminosos via,

Que em transcendente fluido brilhante

Para hum Mundo ideal seus passos guião,

E, as sombras methafisicas rompendo,

Sem fallar ao sentido as almas fallão,

Abrindo o geometrico compasso

Quantos talentos assombrosos vejo!

Entre o Germano agudo, e ameno Franco

Do Italico saber vejo os milagres.

O que Diofante, o que Apolonio excede,

Do grão Toscano a par, brilha Viviani.

Sexo, sexo gentil, na Italia hes grande;

Nos Labyrinthos do profundo Euclides

A formosa Ardighelli, e Agnezzi entrarão

Outra Laura maior, q' essa, que outr'ora

Do vate, todo amor, deo força á Lyra,

Nos penetraes da Natureza entrando,

A Spalanzani explica altos mysterios.

Com ella Boscovich subiste aos astros.

Não te vence hum Maraldi, e nem Cassini:

Talvez, talvez, que a formosura as graças

Me pareça que dão luz ás sciencias.

Algaroti, teu vulto alli contemplo,

Tão grato foste ao Salomão do Norte;

Porém mais grato a mim, e ás artes foste;

Entre o fulgor da purpura mais brilha

Do grande Passionei a excelsa imagem;

Issocrates te cede, inda que venha

Do grão pezo dos seculos seguido;

Não tem que oppôr-te, ou q' igualar-te o Sena,

E menos tem q' equiparar-te o Mundo

Encanto omniscio, universal Roberti:

Não me cega a paixão, q' ao Tibre eu guardo,

Nem o clarão de Italica sciencia

Tanto me cega, e me deslumbra tanto,

Que não veja raiar no Templo augusto

D'Anglia, e Germania os protentosos sabios.

Alli d'Hobbes descubro a imagem triste;

Alli vejo Stanley das Artes Livio;

E o que nasceo para illustrar o Mundo

Desde o frio Danubio, o grão Bruckéro;

E Kant, a si clarão, e enigma a todos.

Alli brilhava Degerando illustre,

Que em mui douto suor banha os escritos,

Que eterno fazem nos umbraes da Gloria

De ti, Filosofia, ávido amante.

Meigos olhos lançou tambem no Téjo

(Quando ha de, ó Téjo, conhecer-te o Mundo?)

E, entre inda sombras Arabes descobre

O profundo Vernei, o ameno, o rico:

E, que dissera se encontrára hum Nunes;

Astros, astros do Ceo, prendeo-vos elle

E, o subtil instrumento ao nauta entrega,

Ao nauta Portuguez, senhor dos mares:

Sem elle Cook o globo ah! não cortára!

Mas lá foi Magalhães sem elle, e cerca,

Porque a si se levava, o mar, e o Mundo!

Tu nos meus versos mofarás do Lethes,

E a gloria que te nega a Patria ingrata

Em suaves canções te outorga hum vate.

Ah! permittira o Ceo, q' o preço humano

Á morte não pagára alma tão grande!

Eu não deprimo o merito, o talento;

Naquelle alcáçar resplendente estava

(Deposto hum pouco o Tragico cothurno,)

O florido Voltaire, Sceptico illustre,

Emilia tinha ao lado, Emilia o tymbre

Talvez maior do feminil engenho;

Com ella corre a passear nos astros.

Eu lá vejo Nollet, Brisson descubro.

Salpicado Bailly de fresco sangue,

Indagador Sonnini a quem Fortuna

Se honras na vida deo, na morte as néga;

Vive em sciencias, na pobreza expira.

Além dos mares a Franklîn descubro,

Que o raio foi prender nas mãos de Jove.

De Prussos vejo o busto; o nome ignoro,

Ou barbaro talvez não cabe em versos;

Aurea lingoa do Téjo em vão procura,

Em seus cadentes numeros suaves,

E na Lira ajustar, que a Grega imita,

Os acres sons dos Hyperboreos nomes:

Mas não faz dura a metrica harmonia

O teu nome ó Linneo, tu sacerdote

Do Sanctuario d'alma Natureza;

Alli vejo teu busto, alli cercada

A frente tens de peregrinas plantas,

E tu, qual novo Adão, dás nome a todas.

Hum ramalhete de purpureas flores

A Europa, a Lybia, a America t'off'rece;

A Asia de tantas maravilhas chêa

Das margens do Mecón, do Ganges, do Indo

Grinaldas te prepara, e lá tas manda,

Tão bellas quaes as pinta o China astuto:

Ceilão entre seus balsamos as tece.

E o suave vapor, q' a Aurora exhala,

Lá no berço onde nasce, e espalha rozas,

Em dourados túribulos te invia.

Não tiverão os Reis, tributos destes!

Ao poder se negou, dá-se á sciencia.

Maior gloria me chama, hum novo busto

Que entre todos maior, mais luz derrama.

Este he Buffon, que não mortal parece.

He seu louvor, universal silencio:

Nem lingoa humana diz, nem mente abrange

Tudo o que foi Buffon; contemplo, e calo.

Se he mais q' a Poezia, he mais que humano

Rafael co'os pinceis, Buffon co'a lingoa....

Só Natureza he mais, porq' elles morrem,

Morre, não ella, taes rivaes supplanta.

Só Newton he maior; que entrego a palma.

Não ao que pinta, ao que conhece as causas;

Se este he só venturoso, este he só grande.

Com tanta luz atonito, e suspenso

Volvo os olhos de hum lado, e bem no meio

Do magestoso Templo o altar estava.

Por argenteos degráos se avança e sobe,

Mas com trabalho, á baze alabastrina.

Alli sentada—Experiencia—estava.

Eu prompto a conheci no rosto antigo

Na longa veste, e diamantina tarja,

Em q' esta li gravada, aurea sentença:

"Das cousas mestra eu sou, dos homens mestra"

N'hum quadrado Geometrico se assenta

O sacrosanto altar, e em cima posto

Vi como hum vaso de alabastro puro,

Que não de Fídias o cinzel abrira;

Teve artífices dois, Estudo, e Tempo.

Do seio lhe rompia etherea chamma,

Q' ante o Nume brilhando aos Ceos subia

Inextinguivel lampada, que os annos

Vão augmentando progressivamente.

Formão á Deosa os seculos hum throno

Mais que os rubins precioso, e mais segura

Materia tem, que o sólido diamante.

Tem cheio o rosto de Viveza, e graça,

Que amor no humano coração desperta,

Que encadêa a vontade, a alma levanta.

D'estatura commum se me antolhava;

Mas logo a vi subida até co'a frente

Ir topetar na abóbada do Templo.

De fios subtilissimos tecidas,

Mas de materia indissoluvel, erão

As vestes q' ella traja, e que formadas

Forão por ella mesma, obra pasmosa,

Que do candido pé, ao collo eburneo

Forma diversos gráos: hum véo sombrio

(Por mão proterva lacerado em parte)

De negra antiguidade a envolve toda

Nas mãos tem livros de diversas lingoas,

Onde eleva tambem dourado sceptro.

Pasmado, á quasi omnipotente Deosa

Todo me inclino, a magestade acato.

Titubeante, e tremulo dest'arte,

Soltando a voz hum pouco, á Deosa fallo:

"Ó tu do estudo emprego, ó Madre excelsa

Da intelligencia dos arcanos todos

De que he fecundo o Ceo, fecunda a Terra;

Tu da verdade indagadora, e facho

Luminoso da vida. Ó tu do vicio,

Tu da ignorancia rispido flagello,

Tu, q' hes tudo ao mortal, q' hes luz, q' hes vida,

Ante os teus olhos me conduz Fadiga:

Misero Vate eu sou, no peito acôlho

Desejo de saber: sempre afanoso

Apoz a imagem da verdade eu corro;

Mas a alma envolta em sombra, em sombra os olhos,

Enigmas vejo só, eu palpo enigmas:

Sentir, gozar, não perceber, he esta

Da existencia mortal partilha, e obra....

Mas qual te vejo, ó Deosa, e q' orgulhosos

Amadores te cercão! Que ignorantes

Do acatamento q' a teu lume immenso,

Deveo sempre guardar o engenho humano!

Deve, qual pobre, pequenino rio,

A quem agua não deo caudal torrente,

Correr tranquillo, e murmurar nas pedras,

Ao Pastor innocente, á Ninfa ingenua

Objectos de prazer offerecendo.

Mas o desejo audaz, e o louco orgulho

O torna rio impetuoso, e bravo

Soberbo, ufano vai d'agua não sua.

Eis se despenha, qual torrente Alpina,

E os campos cobre furioso, e turvo;

Leva comsigo os troncos, leva os gados,

Leva o Pastor, e a misera choupana,

Té que cesse do ar fecunda chuva:

E, serenado o ceo primeiro orgulho

Então depõe deixando a marge enchuta."

Mais quizera dizer eis q' o grão Nume,

Fitos em cuja frente eu tinha os olhos,

Soltou dos labios divinal surriso,

E, doce voz alevantando, exclama:

"Podem, meu filho, eternizar no Mundo

O mesquinho mortal meus dons sublimes,

E as idéas altissimas, e claras,

Q' eu co' mão destra na sua alma imprimo;

Comigo, e o sentes tu, do pezo humano

Se livra, se desfaz o entendimento;

Ao alto sóbe, e se remonta, e chega

Comigo aos claros Ceos, comigo entende

Mysterios profundissimos, e entra

Da Natureza nos occultos seios.

Essa Eterna Razão por mim conhece,

Que se difunde n'Universo inteiro,

A, que mora no germe, occulta força,

A que a tudo dá forma, e dá figura.

Por mim, por mim conhece a origem d'alma,

Qual tenha em corpo humano assento, e throno;

A que fim s'encaminhe, e quaes s'encontrem

Ou desgraças, ou bens, na vida, e morte.

Eu torno bello o Mundo, os homens sabios

Se ingenuos querem vir seguir meus passos,

E contemplão por mim o alto principio

Das cousas em si mesmo, os gráos, e os tempos,

Que a tudo tem prescripto a mão do Eterno.

Eu os levanto a conhecer hum Nume,

Obedecer-lhe, e venerallo sempre:

Delle, só delle a pressentirem tudo

A lei, e ordenação; eu só lhe ensino

A dar justo valor, dar justo apreço,

Ao que se mostra ou verdadeiro, ou falso.

Se o prazer, a que he misto o pranto, a magoa,

E o pungente pezar, que he tardo sempre,

Os homens sabem condemnar, eu mesma

Seu peito aclaro, o coração lhe inflammo;

He meu proprio este dom. Por mim descobrem

Que he só feliz na Terra, he só potente

Quem se domina a si: Guia incorrupta

São minhas luzes ao mortal na vida.

Eu primeiro lhe aceno, eu lhe preparo,

(Depois Religião, que he só, que he tudo)

Séde no Ceo, qu'eternamente he bella.

Do Christianismo hũ mestre, hũ sabio, hũ grande,

De Alexandria nas escolas doutas,

D'alta verdade, que dos Ceos foi dada,

Pedagoga me chama, eu sou por certo

Quem da luz da Razão, da Natureza

Leva os mortaes a accreditar mysterios

Qu'á razão não se oppõe, mas são mais altos.

Mas eu desço comtigo ao Templo augusto;

Q' inda que erguido o vêz, não he distante

Da terrea habitação do engano, e minha.

Olha, admira, contempla a excelsa móle

Premio d'hum Grande que he brazão do Mundo:

Este he d'honra immortal o alto ornamento,

Que eu mesma á Gloria consagrei, com elle

De hum Pontifice meu premeio as obras,

Elle as minhas expoz, dou premio ás suas."

A Deosa emudeceo, á dextra eu volvo

(Nunca confuso assim) trementes olhos;

E no meio da luz brilhante, e pura

Soberbo alçar-se Mausoléo descubro.

De Newton vi gravado o nome excelso

N'hum pórfido immortal, que nem d'Augusto;

Ou no Tybre cobrio geladas cinzas,

Ou do Grande Pompeo fechou no Nilo

Restos chorados do implacavel Julio.

Depois que vezes mil no estranho, e grande,

Monumento fitei pasmados olhos,

Por longo tempo contemplando absorto

Aquella d'alto engenho obra estupenda,

Ao Britanno immortal sagrei com votos

Inteiro o coração, minha alma inteira;

D'estima este o tributo, o feudo he este,

Que eu primeiro paguei, Nação pasmosa

De quem o mar he todo, a Terra he quasi.

Mas eu sou Portuguez, e armas não podem

Alhêas deslumbrar-me; eu vejo as Lusas,

Cuja gloria tu vêz no vasto Oriente,

E, onde levantas triplice bandeira,

Primeiro o nome Portuguez encontras.

Eu não te invejo a gloria, nem thesouros;

Se de Safyras atulhados cofres,

Fios de brancas Pérolas, se finos

Luminosos Rubins d'Asia recebes;

Já d'Asia hum Portuguez trouxe mais qu'isso:

Do Indo, Hydaspe, e Gange as aguas trouxe

Dentro em barro Chinez; e era Atayde.

Será maior teu Rodney, ou teu Nelson?

Nem teu Monk he maior, se o Sceptro engeita,

Em Regia frente o Diadema pondo.

Hes grande para mim porque em teu seio

Bolingbrocke apparece, Adisson, Pope;

Apparece Bacon, Milton tactêa

Arpa tocada só d'Hebreo Monarcha;

Em ti tiverão berço, e Locke, e Tompson,

E o que os povos do Mundo inda baralha,

E a Gallia fez tremer, Pitt, he teu filho.

Hes grande para mim, porque hum Senado

De Reis, mais que o de Roma em ti conservas,

Onde tantos Demosthenes, e tantos

Tullios sabem surgir, salvar a Patria.

He esta a fonte do respeito, e estima;

Que eu Vate, que eu Filosofo consagro

A ti grande Nação, da Europa asylo.

Fim do II. Canto.