No País dos Yankees
Capítulo XII
É, com effeito, encantador o aspecto das Cuevas.
A athmosphera é quasi insupportavel, apezar da humidade que se reflecte das paredes da gruta: um calor medonho de fornalha acceza!
É expressamente prohibido tocar nos crystaes. Um guarda, empunhando um archote, acompanha o visitante, recommendando-lhe de espaço a espaço, todo cuidado, toda cautela para que não dê alguma cabeçada...
Desta vez tinhamos sabido preencher o tempo utilmente, compensando as horas perdidas em Havana.
N'esse mesmo dia o Barroso fez-se de marcha para o paiz dos yankees, para Nova-York, a bella e maravilhosa cidade que o consenso universal alcunhou de Londres americana.
E... foi um dia a ilha de Cuba...
XII
...Manhã de inverno, fria e nebulosa, sem uma restea de luz confortavel. Estava interdicta a nossa curiosidade, pois que amanhecemos defronte da bahia de Hampton Road, a essa hora coberta de cerração, cheia de nevoeiro, impenetravel. Não podiamos, que pena! ver Nova-York de fóra, do mar, abrangel-a toda com um golpe de vista, stereotypal-a na imaginação para todo o resto da nossa vida. A grande cidade cosmopolita dos trens elevados e das pontes colossaes dormia o somno beatifico da madrugada, envolvida n'um largo capuz de neve atravéz do qual apenas se podia ouvir a sineta de invisiveis embarcações que bordejavam demandando o porto. Adivinhavamos que muitos vapores transatlanticos aguardavam, como nós, o momento azado para fazerem sua entrada.
Felizmente não durou muito esse estado quasi afflictivo. Por traz do nevoeiro compacto e lugubre os primeiros clarões da manhã surgiram como uma apparição bemdita, rompendo a monotonia branca da atmosphera, e pouco a pouco, á proporção que a neve ia se rarefazendo, o Barroso tomava chegada muito lento, e Nova-York destoucava-se n'um fundo luminoso, batida pelas primeiras irradiações do sol, ruidosa e alviçareira, toda cheia de brilhos, como um quadro de malacacheta.
Onze horas. Céo limpo e mar chão—como se diz nos diarios nauticos. Nem mais um floco de neve, tudo luz agora, e já podemos ver cheios da mais intima satisfação, com uma surpreza ingenua no olhar, o aspecto risonho da bahia cortada de embarcações á vela e á vapor, com os seus longes de verdura matizando perfis de montanhas indistinctas, muito descoberta, sem o sombrio magestoso das paisagens americanas do sul, bella na sua simplicidade natural, e, sobretudo, muito clara áquella hora.
Á direita destacava, á bocca do Hudson, a grande, a enorme, a colossal ponte que liga Brooklin á Nova-York lembrando-nos que realmente tinhamos chegado outra vez á terra feliz dos yankees, e d'outro lado erguia-se, illuminando o mundo, a estatua da liberdade, bello symbolo de bronze, cujo pedestal occupa toda a ilha de Bedloe.
Era um dia de domingo, um desses dias de expansão popular, em que, no mar como em terra, ha quasi sempre uma alegria nova entre os que passaram a semana a trabalhar, a lutar pela vida incansavelmente com a consciencia tranquilla de quem vive honestamente á custa do proprio esforço. A bahia de Nova-York tinha o festivo aspecto de um dia de regatas. Esquadrilhas de hiates, com suas velas quadrangulares, muito elegantes e asseiados, cruzavam na barra, aproveitando a fresca do mar. Passavam barcas de recreio, embandeiradas, conduzindo bandas de musica, que tocavam alegremente o Yankee doodle. Á cerração matinal succedera um sol frio d'inverno, que dava vontade a gente improvisar pic-nics á beira-mar, fóra da cidade, longe dos botequins e das brasseries, nalgum verde recanto onde houvesse bastante quietação e muita agua, n'um logarejo calmo de suburbio d'onde se podesse ver ao longe, mas muito ao longe, a miniatura da cidade soturna e cansada...
O Barroso tinha fundeado em frente á Battery Square e com pouco recebia a visita official do Consul brazileiro e d'outras autoridades do paiz, sendo para notar que uma das primeiras pessoas que pizaram a bordo foi o reporter do New-York Herald, a importante folha americana tradicionalmente conhecida no mundo jornalistico. Um cavalheiro irreprochable, de cartola e sobrecasaca de panno, bem apessoado, bigode louro e olhos azues, verdadeiro typo de yankee, amavel e expansivo. É escusado dizer, n'um parenthesis, que no dia seguinte a kilometrica folha descrevia, com uma precisão photographica, o cruzador brazileiro, sem esquecer mesmo um carneiro de estima que traziamos e que o espirituoso noticiarista incluia na lotação do navio, emprestando-lhe qualidades invejaveis. Creio até que o pobre lanigero figurou na folha yankee entre os heróes de Humaytá!
Satisfeitas as formalidades officiaes da chegada, trocadas as salvas do estylo, nada mais nos restava senão ver de perto a bella cidade.
Nova-York estava quieta, muitissimo quieta, com as suas praças dezertas, com os seus parques silenciosos, fechado o commercio a ponto de não se encontrar aberta uma só tabacaria, siquer um botequim. Isso, porém, não nos causou estranheza. Sabiamos que o domingo nos Estados-Unidos é um dia completamente inutil, um dia triste para os centros populosos. Toda a gente dezerta para os arrabaldes em seus trajes domingueiros. As ruas, muito largas e compridas, permanecem ermas e cheias de silencio, entregues á vigilancia dos policimen. Todas as casas commerciaes, todos os armazens, todas as fabricas, todos os estabelecimentos publicos conservam-se fechados e taciturnos, como n'uma cidade abandonada.
Nova-York, a opulenta e alegre cidade cosmopolíta, tinha esguichado para New-Jersey, para Brooklin e para Conney-Island. Toda aquella multidão laboriosa e ourisedenta, que nos dias de trabalho se atropella na Broadway, bebia e cantava nos arrabaldes, expandia-se largamente nos hoteis ambulantes e nas cervejarias suburbanas, folgava e ria com desespero, sem pensar na segunda-feira, sem se inquietar com o futuro.
Por isso é que não se deparava ninguem nas ruas, por isso não se ouvia o barulho infernal das carroças e das carruagens.
O domingo no paiz dos yankees é para se divertir, para se descansar, para se jogar o criket, para se passeiar a cavallo, para se apostar regatas, de modo que o protestantismo americano nada tem de commum com o protestantismo britannico.
Emquanto nos domingos (a dar credito na chronica) o inglez reza a Biblia no interior de seu home, em companhia de sua mulher e de seus filhos, o americano, ou melhor o yankee exercita os musculos e bebe cerveja fóra da cidade.
Não admira semelhante discordancia, quando é sabido que a religião protestante subdivide-se em milhares de seitas. A este respeito leiam-se os bellos capitulos em que Mr. Laboulaye (Ed. Lefèvre), estuda, com uma graça especial e encantadora, cheia de humorismo e de senso critico, as instituições religiosas na America do Norte. Paris en Amérique é um dos livros mais curiosos e originaes que eu tenho lido sobre os Estados-Unidos.
Em taes condições, extrangeiros no meio de uma cidade dezerta, imagine-se o nosso embaraço, a triste situação em que nos collocava a curiosidade.
Os rarissimos transeuntes que porventura encontravamos, marinheiros ou vagabundos que desciam para o caes da Battery, olhavam-nos com um ar de surpreza, embasbacados, medindo-nos d'alto a baixo, com si fossemos uns verdadeiros botocudos de tanga e cocar.
Entretanto, não perdemos a precisa calma, e, sem mais tirte nem guarte, saltámos dentro do primeiro vehiculo que passava, uma velha carruagem de aluguel, cujo boleeiro custou devéras a comprehender que desejavamos fazer um passeio ao redor da cidade.
—Oh! yess! Yess!...
E disparou a trote largo por aquellas ruas fóra.
De modo que n'esse dia vimos Nova-York à vol d'oiseau e por um prisma de tristeza e monotonia.
Em compensação a nossa demora n'aquella cidade ia ser mais longa que em qualquer dos outros portos do intinerario.
No dia immediato, uma segunda-feira, recomeçámos, sem perda de tempo, a nossa tarefa de extrangeiros em paiz desconhecido.
Eu, por mim, confesso que Nova-York produzia-me vertigens. O desejo immoderado de tudo vêr, de tudo observar, de tudo saber, trazia-me n'uma inquietação continua, tirava-me o somno, arrebatava-me á todas as commodidades, torturava-me o espirito de analyse. Uma cousa, porem, devo dizer: raro é o official de marinha, mormente da marinha brazileira, que sabe aproveitar o tempo n'essas viagens ao extrangeiro. Aproveitar o tempo, entendamo-nos, as horas de folga. Preferiamos a convivencia dos cafés-cantantes aos passeios uteis e ao mesmo tempo agradaveis. Um extrangeiro já teve a coragem de dizer que os officiaes de marinha brazíleiros levavam o tempo, na Europa, a frequentar os conventilhos e os cafés-cantantes. Até certo ponto isso é verdade. Em geral elles pouco conhecem dos paizes que têm visitado, a não ser em assumptos de sua profissão, e as suas narrativas entre amigos limitam-se quasi sempre a recordações de aventuras amorosas.
Tambem são tão curtas e tão raras essas viagens...
Quando se tem a felicidade relativa de viajar sob o commando de um official illustrado e curioso como o Sr. Saldanha da Gama, cujos conhecimentos não se restringem á navegação e á artilharia, o aproveitamento é certo. Elle não é sómente um superior hierarchico —faz-se mestre e sabe proporcionar aos seus subalternos a maior somma possivel de excursões uteis e proveitosas.
Uma das nossas primeiras visitas foi á estatua da Liberdade, na ilha de Bedloe.
O importante monumento ainda não estava completamente prompto, mas já se podia fazer uma idéa do que seria elle depois de concluido. O pedestal, de granito, occupa quasi toda a ilhota e mede, approximadamente, 15 a 20 metros de altura, 154 pés, desde
o nivel do mar, formando uma especie de casamata cuja utilidade não souberam nos dizer. Sobre o pedestal ergue-se a estatua, em bronze, armada por meio de vigamentos de ferro, pois que não é inteiriça.
Conta-se que dentro d'ella realisara-se, em Pariz, um magnifico banquete de 12 talheres, presidido por V. Hugo.
Como se sabe, a estatua foi offerecida aos Estados-Unidos pela França em agradecimento dos serviços prestados por esta nação á sua amiga na guerra franco-prussiana.
O pedestal foi mandado construir á custa de subscripções populares, que em pouco tempo attingiram a uma somma elevadissima.
Não ha por ahi quem não tenha ouvido falar na famosa ponte de Brooklin (Brooklin Bridge), uma das maravilhas da engenharia moderna, que liga a ilha de Brooklin á Nova York.
Esta cidade, incontestavelmente o primeiro emporio commercial da America e uma das mais populosas do mundo, fica situada n'uma grande ilha formada por dois braços do rio Hudson. De um lado, á direita de quem olha para o mar, um dos deltas, o North River, separa-a de New-Jersey, e á esquerda o East River separa-a de Brooklin. A travessia para qualquer desses pontos faz-se rapidamente, em barcas que a todo instante largam de Nova-York, e por preço assaz diminuto.
A principio, quando se projectou levantar a grande ponte, surgiram mil difficuldades.
Parecia impossivel que se podesse levar a effeito obra tão arriscada e dispendiosa. Como assentar as bases do colosso n'uma profundidade de mil e seiscentos pés, que é esta a altura do rio na sua parte mais estreita?
Demais era preciso não prejudicar a navegação, construindo a ponte muito acima do nivel do mar de modo a dar passagem livre ás embarcações de commercio.
Com tudo isso os americanos metteram mãos á obra e dentro de alguns annos de trabalho assiduo os Estados-Unidos contavam mais uma gloria.
O comprimento total d'essa magnifica ponte é de uma milha pouco mais ou menos. As torres onde ella está suspensa erguem-se a 268 pés acima da prêa-mar, de forma que as maiores embarcações de commercio têm passagem facil por baixo.
O Barroso, cuja guinda era uma das mais altas que se tem visto em navio de guerra, apenas foi obrigado a «acachapar» os mastaréos de joanetes.
Atravessa-se a ponte em vagons movidos á electricidade, em carros de praça ou mesmo a pé. Paga-se um centimo para atravessal-a a pé!
O movimento é espantoso. Cruzam-se diariamente as duas populações de Nova-York e de Brooklin, em carros em wagons e a pé, sem risco de se atropellar, por que a cada especie de vehiculos corresponde uma passagem independente e adequada. Os que transitam á pé têm tambem o seu caminho livre e, por consequencia, não correm o perigo de ser pisados pelos carros.
Á noite o aspecto da ponte é feerico. Logo ás seis horas da tarde começa a illuminação em toda ella, de um lado e d'outro, destacando-se em alguns pontos fócos de luz electrica, enormes botões de brilhante que encandeiam a vista.
Vista do mar, então, o effeito é deslumbrante! Lembra as lendarias pontes de Veneza cortando canaes, projectando n'agua seus reflexos luminosos.
Um dos meus divertimentos predilectos era contemplar Nova-York do alto. Muitas vezes punha-me lá de cima da ponte de Brooklin, braços cruzados, n'um extase de fetiche, a olhar para um e outro lado, acompanhando com a vista a vela das embarcações que singravam no rio, pequeninos, microscopicas.
E punha-me, nessa embriaguez do grandioso a pensar no progresso dos Estados-Unidos, d'esse paiz modelo, onde tudo move-se por meio de electricidade e vapor, onde tudo é feito ás carreiras, n'um abrir e fechar d'olhos, sem a menor perda de tempo; vinham-me a imaginação escandecida as descobertas de Franklin, de Fulton e de Edison, as maravilhosas experiencias sobre o telegrapho, sobre o telephone e sobre o phonographo, e eu repetia com os meus botões, mergulhando o olhar na distancia, abarcando a cidade inteira:—Grande paiz! Grande povo, gente feliz, que sabe comprehender a vida e amar a patria!