No País dos Yankees

Adolfo Caminha · Capítulo 6 de 20

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No País dos Yankees

Capítulo IV

Todos anceavamos pela chegada ao paiz maravilhoso dos yankees, ao berço da electricidade, todos queriamos conhecer de visu o celebrado paiz das descobertas engenhosas. Desde logo entrámos, de combinação, em «serios» estudos do idioma inglez praticando uns com os outros, compulsando manuaes de conversação, decorando significados, preparando-nos, emfim, da melhor forma, para retribuir gentilezas, captar amizades, responder a todas as perguntas que nos fossem feitas á queima roupa. Sim, porque tudo quanto haviamos aprendido theorica e praticamente na Escola, não era bastante. Faltava-nos a facilidade, o traquejo da palavra extrangeira, que haviamos de adquirir á força de vontade e applicação assidua.

Alguns officiaes, entre os quaes o commandante, riam-se do nosso apuro, e, de vez em quando, atiravam-nos de surpreza uma pergunta em inglez. Quanto disparate, quanta tolice a principio! O certo é que depois, com o tempo, já nos entendiamos soffrivelmente. Noblesse oblige...

 

IV

 

A hospitaleira sociedade de Jamaica havia-nos conquistado a sympathia. Todos sentimos deixar tão cedo aquella encantadora ilha, cujos habitantes nos tinham prodigalisado tão generoso acolhimento. Lenços ascenavam para bordo ao deixarmos o ancoradouro ás 5 horas da tarde de 21, despedindo-nos talvez para sempre d'essa boa gente.

Durante os dias 22 e 23, mar e vento rebellaram-se contra o navio.

Navegavamos á bolina, sempre á vela e a vapor, amurados por bombordo.

Grandes rajadas frias sopravam do norte, cantando nos cabos da mastreação, sacudindo-os com violencia.

O thermometro baixara sensivelmente, e a columna barometrica punha-nos calefrios...

O mar quebrava-se de encontro ás bochechas do cruzador desafiando-lhe a resistencia colossal.

Sabiamos que a latitude em que navegavamos, nas Antilhas, era muito frequentada pelos cyclones, esses terriveis inimigos dos navegantes, que arrastam em sua cauda milhares de vidas. Receiavamos esses phenomenos tanto mais porque os seus effeitos fazem-se sentir a grandes distancias.

Os symptomas visiveis, si não eram evidentes, approximavam-se das descripções de navegantes experimentados. O céo estendia-se limpo, como um largo pallio azul esbranquiçado; apenas no horisonte fluctuavam pequenos stratus em fórma de rabo de gallo e algumas estrias avermelhadas, escarlates, despertavam-nos a attenção.

Ao meio-dia o sol tinha uma côr baça, com um disco azulado ao redor.

E crescia o mar em vagalhões medonhos e esfusiava o vento no cordame.

O navio caturrava e arfava morosamente; ouvia-se o barulho do helice trabalhando fóra d'agua.

Pela madrugada de 24 lobrigámos por boréste o pharol da ilha de Cuba, de luz muito branca, e no dia seguinte sulcavamos o golfo do Mexico.

Poucos dias restavam para alcançarmos Nova-Orleans.

E nada do supposto cyclone!

Por via de duvidas, como o tempo continuasse borrascoso, ferrámos a maior parte do panno, conservando apenas as gaveas risadas nos terceiros e a mezena de capa.

Capeámos tres dias consecutivos, sem que apparecesse o medonho visitante.

No quinto dia o vento amainou rondando para nordeste e o mar, por força das circumstancias, tambem acalmou-se. Ferrámos o resto do panno, navegando só a vapor.

A idéa da chegada preoccupava todos os espiritos. Os Estados-Unidos eram o assumpto de todas as conversações.

Cedo tratou-se da limpeza do navio.

Cada qual tratou de si, de sua roupa, de seus objectos que o mar sacudira de um lado a outro dos camarotes. Os alojamentos apresentavam o curioso aspecto de um campo de batalha; malas confundiam-se umas sobre outras formando empilhamentos, a roupa branca usada andava de mixtura com os fatos novos de panno; livros, papeis—tudo quanto era de uso quotidiano estava espalhado no convéz, como si andasse por ali alguma creança traquinas.

Guerra ao môfo! Roupas ao sol! Ninguem se fez esperar. Começaram as arrumações, uma faina açodada, durante a qual soaram boas gargalhadas filhas de inalteravel bom humor.