No País dos Yankees
Capítulo II
—Qual foi o seu crime? perguntámos.
O velhinho todo tremulo, a cabeça muito branca; uma nevoa humida no olhar, sem forças quasi para dar um passo, murmurou tristemente:
—Nenhum, meus caros senhores... Supponho que houve engano da justiça...
—E si lhe dessem liberdade agora?...
—De que me servia? Mal me tenho em pé e já não sei de minha mulher e de meus filhos, Estou muito velho, preciso morrer descansado aqui mesmo na prisão.
O edificio da Penitenciaria tem, logo á entrada, a seguinte inscripção em marmore:
N 23 1885
I . S . C D . J B C.
F
J
M A P .
Contava, portanto, trinta e cinco annos.
Foi a mais interessante de todas as nossas visitas em Pernambuco.
II
No dia 27 deixámos o Recife em direcção ás Antilhas.
Como até ahi, a viagem continuou a vapor,—uma verdadeira viagem de recreio si não fosse a exiguidade dos commodos a bordo do cruzador.
O commandante levava ordem para chegar a Nova Orleans em tempo de assistirmos a abertura da exposição internacional americana, onde o Almirante Barroso devia figurar como legitimo e admiravel producto da industria naval brazileira tão pouco conhecida no extrangeiro.
Adoptavamos, sempre que o vento permittia, a navegação mixta, e deste modo, á vela e a vapor, arrastados pelas correntes maritimas que puxam para o norte, alcançámos, a 2 de Março, a linha equatorial, onde apanhámos alguns chuviscos debaixo d'uma athmosphera ardentissima.
Reinava «calmaria pôdre». Ferraram-se as velas á mingua da mais leve aragem, armaram-se os toldos para que podessemos supportar o calor na tólda, e os banhos salgados de ducha foram recebidos com especialissimo agrado. Suava-se a valer. Imagine-se: embaixo, no porão, as fornalhas accesas, e em cima o sol ardente, o medonho sol do equador, cahindo como um caustico sobre o navio.
Á tardinha incendiavam-se os horisontes de um colorido rubro, ensanguentado, de magica, reflectindo-se no espelho do mar tranquillo como num grande lago de crystal...
Demos graças a Deus quando nos vimos fóra de tão desagradaveis regiões.
No dia 11 avistámos terra de Barbados, uma das mais prosperas colonias inglezas das Antilhas. Era o primeiro porto extrangeiro do intinerario.
O Capitão do Porto foi o primeiro personagem que pisou a bordo: um inglez de aspecto duro como em geral o de todo inglez, olhando atravéz de uns grandes oculos azues e ostentando fleugmaticamente um par de soiças ruivas. Trajava dolman branco, muito justo ao corpo, calças de panno preto e chapéo de cortiça branco, de grandes abas, tombado para a nuca.
Fez a visita sacramental e poz-se ao fresco em menos de dois minutos, depois de um fortissimo shake-hand.
A ilha de Barbados vista de bordo é de uma nudez quasi completa: nenhuma vegetação cobre as vastas planicies que primeiro ferem a retina do observador. Ao approximar-se-lhe, porém, novas paisagens de effeitos cambiantes vão-se desenrolando á maneira de cosmorama. Moinhos rodam ao sopro do vento que ordinariamente é fresco ahi, casas de campo confortaveis, arvores, chaminés fumegantes, tudo isso vai apparecendo á medida que nos approximamos, até que, com verdadeira surpresa, surge-nos toda a cidade de Bridgetown e então basta um golpe de vista largo para abrangel-a.
Á distancia Bridgetown semelha uma pobre cidade deshabitada, sem indicio de civilisação. A surpreza que experimenta o viajante é completa depois. Alguem que ahi esteve annos antes admirou-se da enorme quantidade de embarcações inglezas surtas no porto. Entre estas contavam-se quatro encouraçados, bonitos vasos que honram a Inglaterra affirmando o grande poder maritimo desse paiz, cuja esquadra ainda hoje não tem rival no mundo.
Um dia e meio—eis todo o tempo de nossa demora em Barbados, tempo sufficiente para conhecermos a ilha a vol d'oiseau.
A população, na maior parte negra, é composta de gente de baixa classe e geralmente intratavel.
Abundam os ciceroni, especie curiosissima de especuladores, que perseguem os viajantes de uma maneira barbara. Querem, á fina força, ensinar-lhes as ruas, os hoteis, e não os largam emquanto não satisfazem a sua ambição, cobrando, no fim de contas, certo numero de shillings.
Falam um patois detestavel; ninguem os entende com facilidade. Imagine-se um pobre diabo acompanhado d'uma multidão que grita e fala idioma desconhecido a repetir-lhe alto aos ouvidos:—Came hear! came hear! discutindo, altercando-se de cacete em punho. O misero julga-se por um momento transportado, como por encanto, ás costas d'Africa, fecha ouvidos á grita dos importunos ciceroni, brada mil vezes no, no, no..., e não tem remedio senão deitar a correr como um possesso, perseguido sempre pela turba multa de vadios, até que, depois de uma lucta incrivel, esguedelhado, offegante, pallido, embarafusta pela porta d'um hotel escorrendo suor, esfalfado, morto de cansaço!
E ainda por cima vociféra a legião faminta dos negros!
Nao exagéro. Parece realmente um paiz semi-barbaro aquelle, e ai! de nós si não fossem os policemen, a, activos e energicos guardas da vigilancia publica, que a um simples franzir de sobr'olhos fazem desapparecer a medonha horda de capadocios, ou que melhor nome tenham esses turbulentos demonios.
É espantosa a ambição do povo por dinheiro.
Ao tilintar do money surgem de repente vinte, trinta cabeças negras, cada qual mais negra, disputando a posse do precioso metal.
Basta dizer que ainda não tinhamos fundeado e já grande numero de pequenas embarcações á vela e a remos,—fly boats,— approximavam-se do navio, cortando-lhe a prôa com risco de serem espedaçadas. Ouvia-se, então, de todos os lados vozes que gritavam:—I am pilot! I am pilot!
Embalde procuravamos persuadir áquelles esfaimados de dinheiro que não precisavamos de pratico, pois a bahia de Bridgetown é bastante espaçosa e offerece entrada franca.
Davamos com o lenço, mandando-os embóra—que não! mas os gritos repetiam-se:—I am pilot! I am pilot!
Todos queriam, a troco de dinheiro, conduzir o navio extrangeiro ao ancoradouro e para isso exigiam um preço fabuloso.
Formidaveis importunos os taes negros de Barbados!
A edificação de Bridgetown, puramente ingleza, é curiosa, pittoresca mesmo, si bem que uniforme.
As casas, baixas quasi todas, geometricamente dispostas, alpendradas na frente, simples e elegantes na sua architectura, são confortaveis e convidam ao far-niente.
As ruas, porém, estreitas e mal calçadas, são, por assim dizer, intransitaveis, em consequencia do poeiral que sobe, como fumaça, ao rosto dos transeuntes.
No que respeita a estabelecimentos importantes, vimos a—St. Leonard's School e uma igreja-cemiterio.
A estatua de Nelson, o heroe de Trafalgar, ergue-se, em bronze massiço, n'uma das melhores praças do logar—Nelson's square, si me não engano.
Os poucos hoteis que existem na ilha são vastos e offerecem o necessario conforto ao viajante: boa mesa, bons petiscos, magnifico vinho, deliciosos sorvetes—ice-cream—e, finalmente, boas camas e muito aceio.
O brazileiro que viaja, com raras excepções, tem necessidade imprescindivel de duas cousas que elle julga essenciaes ao seu bem estar: café e cigarros.
Spleen e charutos—são cousas inseparaveis de um inglez da Inglaterra; café e cigarros—eis o que um brazileiro não dispensa.