O Centenario de José Estevão

S. de Magalhães Lima · Capítulo 1 de 9

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O Centenario de José Estevão

Aveiro, pátria de José Estevão

Bem se póde dizer, senhoras e senhores, que fômos criados e embalados no mesmo berço; que respirámos, juntos, o mesmo ar sadio da liberdade que nos trouxe a brisa do mar; que partilhámos das mesmas alegrias; que pranteámos nos mesmos pesares e que bebemos pela taça da mesma amisade effusiva. Em Aveiro, tenho a minha familia natural e a minha familia espiritual—que sois todos vós! Perante a minha razão, ambas são egualmente legitimas. Fomos companheiros e somos irmãos. Por isso podeis bem imaginar, podeis bem aquilatar, com que intimo alvoroço, com que profundo recolhimento, venho hoje aqui, n'este dia solemnissimo (sursum corda!) em que o corpo se me curva, ao mesmo tempo pelos annos e pela commoção, semelhantemente a uma arvore amada, tronco bemdito, tronco sagrado! que afagámos em criança e que vimos crescer; sim, repito, podeis bem imaginar e aquilatar com que entranhada devoção, venho hoje aqui recordar antigos camaradas queridos que cairam na estacada, ao sôpro de ventos inclementes, porventura impiedosos. E entre outros, apraz-me citar Mendes Leite, Bento e Bernardo Magalhães, Agostinho Pinheiro, Francisco Rezende, Manuel Firmino de Almeida e Maia, Almeida Vilhena, Julio Pereira de Carvalho e Costa, Manuel de Mello Freitas, Chrispiniano da Fonseca, Manuel Gonçalves de Figueiredo, e tantos outros que alentaram a minha mocidade e foram para mim como que arco-iris luminosos na primavera da vida.

Não procuro inquirir das suas ideias politicas, nem isso importa, n'um momento em que todos os aveirenses, ousarei mesmo dizer, em que todos os portuguezes estão ligados, unidos, estreitados e vinculados pelo mesmo pensamento, pelo mesmo sentimento e pela mesma vontade. A hora é para a conciliação: não é para a repulsão. A hora é para o amor e para a concordia: não é para o odio e para a vindicta. É uma hora de jubileu nacional que não comporta nem sectarismos nem exclusivismos.

Um mixto de melancholia pungente e de alegria intensa me domina e avassala: de tristeza pelos que desappareceram, sombras queridas atraz das quaes corremos em vão, numa ancia febril, quasi infantil; de alegria, pelos que, escapados ao naufragio, eu vim hoje aqui celebrar, glorificar e acclamar, com o desvanecimento com que os antigos romanos exclamavam, orgulhosos: civis romanus sum, sou cidadão romano; com o orgulho com que Miguel Angelo bradava nos ultimos annos da sua vida: Anch'io sono pittore, ainda sou pintor. Com esse mesmo desvanecimento poderei exclamar: sou cidadão aveirense. Com esse mesmo orgulho, o orgulho de Pericles, depois da segunda derrota do Peleponeso, poderei bradar: eu de mim sou o que era e estou onde sempre estive!

Como poderia occultar, com effeito, o enternecimento que me enche o coração, n'uma onda de amor, n'uma emoção intraduzivel, ao encontrar-me de novo n'esta pittoresca cidade de Aveiro, onde, através um delicioso kaleidoscopio, entrevejo, em doce visão, o cysne do Vouga, na sua alvura immaculada, como o cysne do Lohengrin; em Aveiro, a minha patria adoptiva, terra mater, onde jazem os restos mortaes de uma mãe adorada; onde deixei o exemplo sugestivo de um pae honrado e forte; onde tenho um irmão, exemplar raro de elevação moral e intellectual; onde recebi, pela primeira vez, a palavra de ordem, para os rudes combates da existencia; onde, semelhantemente ao peregrino, ao romeiro que, depois de ter percorrido longinquas paragens, regressa ao lar, não para topar com a desillusão cruel, como o Frei Luiz de Sousa, mas como o Fausto da lenda, para reviver na sua Margarida fiel, isto é, no coração fiel—venho encontrar alguns d'aquelles que tanto amei, como eu, pendidos para o crepusculo. Como poderia occultar-vos o immenso jubilo de que estou possuido, ao vêr n'esta sala alguns dos legitimos representantes dos que, pela liberdade viveram e por ella soffreram e se sacrificaram, legando-nos o difficil mas grato Strasburgo com a imprensa; o telephone,—acerescentarei—o telegrapho sem fios, o automobilismo, o balão dirigivel, o aeroplano —que representa tudo isso senão a Ideia illuminando o mundo, como a collossal estatua da Liberdade que se encontra á entrada do porto de Nova-York?

Nada mais consolador e fortificante do que recordar nomes queridos e saudosissimos e relembrar sitios, onde, na despreoccupação dos annos, na suavidade bucolica de Virgilio, vivi as minhas primeiras illusões, povoadas pelas abelhas do Himeto, como o philosopho que da sua torre de marfim vê o mundo côr de rosa, através uma atmosphera diaphana e transparente.