O Centenario de José Estevão
A Maçonaria Portugueza
E, aqui, permitta-nos a assembleia que o Grão-Mestre da Maçonaria Portugueza preste uma homenagem calorosa, ardente e enternecida a quem tão alevantadamente a representou, a quem tão alevantadamente manteve o seu prestigio e o seu renome. E que ninguem se assuste! Muitas vezes vos terão dito, Senhoras, que a Maçonaria é uma sociedade de malfeitores.
Se ser malfeitor é amar a humanidade, ouvir a voz da natureza que nos brada: Todos os homens são irmãos, todos constituem uma unica familia; se ser malfeitor é fazer o bem pelo amor do proprio bem e escutar a voz da consciencia; se ser malfeitor é amar a verdade, praticar a justiça, e proceder com rectidão; se ser malfeitor é obedecer á razão, esclarecida pela sciencia; se ser malfeitor é amar os bons, fugir dos maus, mas não odiar ninguem; se ser malfeitor é ser progressivo; se ser malfeitor é ser tolerante, regosijarmo-nos com a justiça e insurgirmo-nos contra a violencia e a iniquidade; se ser malfeitor é accender essa immensa fogueira a que se chama a escola; se ser malfeitor é arrancar uma faisca de cada syllaba soletrada; se ser malfeitor é desenvolver o cerebro da creança pela instrucção; se ser malfeitor é formar o caracter pela educação; se ser malfeitor é combater o prejuizo, o preconceito, o fanatismo, a superstição, o erro e a mentira; se ser malfeitor é viver para os nossos semelhantes; se ser malfeitor é moralisar pelo exemplo; nós, os maçons, reivindicamos, com orgulho, esse titulo de honra.
José Estevão que, na Flecha dos mortos, como Baudin na barricada de Paris, affrontou as balas inimigas com bravura epica, José Estevão, soldado e tribuno, foi Grão-Mestre da Maçonaria portugueza, como o foi o general Gomes Freire de Andrade, enforcado na explanada da Torre de S. Julião da Barra, por ter commettido o enorme crime de ser portuguez n'um momento em que muitos eram inglezes. Umas modestas flores solitarias, cultivadas por mão amiga, á maneira das cruzes de madeira que o viandante encontra nas estradas desertas, attestam que n'aquelle logar se matou um homem. José Estevão foi Grão-Mestre, como o foi o duque de Loulé, como o foi José da Silva Mendes Leal, como o foram o conde de Paraty, o conde Valbom, o visconde de Ouguella, Bernardino Machado, o coronel Ferreira de Castro e o Conde das Antas; como o foi o illustre professor Antonio Augusto de Aguiar; como o foi o mallogrado chefe republicano José Elias Garcia, cujo enterro representou a apotheose de todos os que aspiram a uma patria livre; como foi Grão Mestre o rei Eduardo, de Inglaterra, e, como o é actualmente, o duque de Connaught, seu irmão; como foi Grão-Mestre o rei Oscar, da Suecia; como o foram José da Silva Carvalho e Passos Manuel; como o foram os imperadores Guilherme I e Frederico, da Allemanha, e, como o é ainda hoje, por intermedio do seu representante, o imperador Guilherme II; como foram maçons os patriotas de 1820.
Um professor da Universidade Livre de Bruxellas, n'um livro recente sobre Politica internacional, affirma que a grande revolução de 89 não teria tido logar se não fosse a Maçonaria. Mirabeau, S. t Just, Sieyès, Camillo Desmoulins, Lafayette, Danton, Boissy d'Anglas foram maçons. Diderot pertenceu á Loja dos Nove Irmãos, de onde sahiu a Declaração dos direitos do homem. Foi maçon o sabio Littré, que, sendo iniciado na loja da Clemente Amité, tomou como divisa: «O principal dever do homem para comsigo mesmo é instruir-se; o principal dever do homem para com os seus semelhantes é instruil-os.»
Por toda a parte se accentua uma tendencia para um fim determinado: a unidade espiritual da humanidade. Apparentemente separados, os espiritos criam e desenvolvem a consciencia da sua unidade. Apesar de não dependerem uns dos outros, encontram-se todavia, ligados por afinidades espirituaes, descendentes de uma mesma raça ou cidadãos de um mesmo Estado.
Para os que conhecem os signaes do tempo, não são os Estados nacionaes que representam as unidades economicas predominantes, nem são tambem os systemas religiosos que levam os homens a fraternisar uns com os outros: é a vida mundial á qual está cada vez mais subordinado o trabalho de cada individuo e de cada Estado; é a ideia de uma humanidade harmonica; é o internacionalismo que se revela como o culto do futuro. E a unica instituição que, através todas as perseguições e todas as vicissitudes, se tem mantido com caracter universal, é a Maçonaria.
A mensagem de José Estevão, dirigida em 1862 ao povo maçonico, é de uma actualidade palpitante e dir-se-hia escripta ha poucos dias e ha poucas horas—tal era a sua previsão!
«O que é a reacção que invadiu o nosso paiz senão um d'esses trabalhos insidiosos e solapados contra todos os grandes principios, porque a Maçonaria tem sempre combatido com tanta coragem e perseverança?
«Esta fórma de combater não é a que elles preferem. Adoptam-n'a por necessidade. Se lhe fôra possivel n'um momento derrubar a obra da razão e da philosophia, não demoravam esta almejada catastrophe. Mas transigem com as circumstancias e adoptam o arbitrio de temporisar.
«Os inimigos, porém, são os mesmos. Os gritos de peleja são os que eram bradados em tempo de mais poder. Agora segredam-nos, mas exprimem as mesmas paixões, os mesmos intuitos. Ao som d'elles, foram ganhas execraveis batalhas contra os fóros da humanidade. Agora, com as mesmas evocações, são praguejados os seus progressos e embaraçada a sua marcha no caminho da perfeição.
«A Maçonaria deve acordar do seu lethargo, levantar a sua bandeira, inspirar-se das suas recordações, tomar o seu posto tradicional. Se assim não fizermos, trahimos o juramento que prestámos, injuriamos a memoria dos irmãos, nossos passados, e usurpamos o titulo de maçons, porque o não é, porque não merece tal nome aquelle que é tardo em acudir pela defeza dos principios da sua ordem, aquelle que se cança na lucta e deixa as armas no campo.
«Cumpre á Maçonaria vigiar as praias da civilisação e ter bem policiados todos os signaes e precauções, para evitar aquelles enganos, desassustar a navegação, e tornar a viagem dos homens e das nações n'este mundo, mais certa, mais livre, mais virtuosa e mais honestamente aprazivel.»
Meus senhores: Escreveu Maximo Gorki que ha duas maneiras de viver: a putrefacção que é propria das almas egoistas e vis e a combustão que representa o calor, a vida e o movimento.
José Estevão viveu em plena combustão, e foi, em Portugal, não só o precursor do pacifismo, do socialismo, do movimento democratico, do anarchismo scientifico e philosophico, do anti-clericalismo, senão tambem a mais alta encarnação do genio latino, ao qual a humanidade deve o nascimento e o renascimento da civilisação; d'esse genio que irradia sobre o mundo e que todos os dias, no dizer de Anatole France, nos dá mais sciencia, mais liberdade, mais belleza, uma justiça mais justa e leis melhores; d'esse genio que não morreu ainda, nem morrerá nunca, como alguns erradamente suppõem, porque tem na America a sua continuação e a sua immortalidade pela sua raça, pela sua historia, pela sua tradicção, pela sua lingua, a verdadeira patria espiritual.
«Para o futuro—dizia—pertencerei decerto ao partido que começa a formar-se, que já está crescido, que vive entre nós sem termos dado por tal, que nos inspira sem nós o sentirmos e que mesmo do berço dirige as coisas publicas e domina até os homens de mais forte vontade... Se este partido fosse obra dos homens ou a sua creação pudesse ser contrariada por elles, talvez se não fizesse; mas esta ordem de coisas surge, rebenta da situação.»
Muitos lhe chamaram Demosthenes, outros Cicero, outros Mirabeau. Nada mais absurdo do que estas comparações que attestam uma mentalidade inferior. Cada orador obedece ao seu temperamento e é filho das circumstancias em que a sua palavra tem de actuar. José Estevão foi, principalmente, um grande tribuno, porque sentia estuar-lhe nas veias o sangue quente do revoltado, sem o que não ha sabios, nem philosophos, nem poetas, nem artistas. É com esta materia prima que se fabricam os heroes do nosso tempo. In hoc signo vinces...
Se os paizes se caracterisam, em geral, pelos nomes dos seus homens celebres, dos seus immortaes:—a França, por Racine, por Corneille, por Moliére, por Lamartine, por Gambetta; a Inglaterra, por Byron, Shakespeare e Gladstone; a Allemanha, por Schiller, Goethe, Mozart, Beethoven; a Italia, por Dante, Petrarcha, Mazzini, Garibaldi; a Grecia, por Homero e Demosthenes; Roma, por Virgilio e Cicero; a Hungria, por Kossuth; a Hespanha, por Velasquez, Cervantes e Castelar, nós, proclamando Portugal, como a patria de José Estevão, teremos prestado á sua memoria a maior das consagrações, tornando-o um symbolo—um symbolo da patria livre e redimida, da liberdade victoriosa e da emancipação da consciencia portugueza.
E é, solidario n'esta aspiração, que eu, em nome do Grande Oriente Lusitano Unido, não só felicito e louvo os promotores d'este centenario, como tambem convido a assistencia a não esquecer esta data que se tornará uma data historica nos annaes das celebrações nacionaes.