O Centenario de José Estevão

S. de Magalhães Lima · Capítulo 4 de 9

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O Centenario de José Estevão

A psychologia de José Estevão

Não nos precipitemos, porém.

Para bem penetrar a psychologia de um homem celebre, torna-se mister averiguar, inquirir, investigar o meio em que se desenvolveram as suas faculdades, em que se expandiu a sua acção moral e social.

José Estevão nasceu em Aveiro.

Quantas vezes, na sua predilecta Costa Nova do Prado, o mar, na sua immensidade, na sua grandeza, na sua magestade, o mar gigante e indomavel, provocando a nostalgia de mundos infinitos, lhe não teria suggestionado alguns dos mais bellos pensamentos dos seus discursos emocionantes? Quantas vezes não teria comparado o oceano com as grandes revoluções da historia, pelo seu correr impetuoso, pelo seu rugir leonino? E, quantas vezes, o não teria cotejado com a humanidade, quer nas horas de bonança, quer nas horas terriveis em que a onda galga o rochedo e invade, alterosa, a praia, como protesto contra a intrusão dos homens, e que é a perfeita imagem das horas tragicas da insurreição, que para os povos calcados, pisados e escravisados representa um direito, muitas vezes um dever, e, algumas vezes tambem, uma necessidade.

José Estevão nasceu em Aveiro.

E, assim como a população dos centros industriaes é naturalmente propensa ás ideias socialistas, a população das terras maritimas é naturalmente propensa ás ideias republicanas, talvez pela independencia que só a natureza póde dar.

Sempre me hei de lembrar que encontrei nos pescadores de Aveiro os meus primeiros adeptos e nunca esquecerei a galhardia, o garbo, a intrepidez com que os vi marchar, através as ruas de Lisboa, no cortejo civico do tri-centenario de Camões, ladeando o carro do Commercio e Industria.

Foi um passeio triumphal que lhes preparei que redundou n'uma immensa apotheose, apotheose romana, a Aveiro e aos aveirenses.

O pescador e o mineiro são para mim as duas entidades mais sympathicas e que mais me enternecem.

É preciso ter descido a uma mina, como eu desci, na Belgica, para se avaliar o que representa em esforço, em sacrificio, em abnegação, em heroismo, a vida do mineiro.

N'uma especie de ascensor, improvisado com taboas e cordas, desci trezentos metros abaixo do solo—a altura da Torre Eiffel, de Paris. As galerias são percorridas pelos wagonetes que assentam em rails n'uma extensão de muitos kilometros. O mineiro, mascando o carvão para illudir a propria fome, está ordinariamente de costas, com a lanterna cingida á testa ou ao ventre, de picareta em punho, para melhor poder extrahir o minerio. Os trabalhadores formam dois turnos: um que desce ás 6 da manhã e sóbe ás 6 da tarde, e outro que desce ás 6 da tarde e sóbe ás 6 da manhã.

E tal é o terror que os domina, ao descerem aos poços, que a muitos vi eu, com espanto, persignarem-se e benzerem-se, como quem se despede da luz e não tenciona mais regressar.

São escolhidos de preferencia os celibatarios. Até as alegrias da familia lhes são defesas! E quantos não vão encontrar a cegueira, e quantos não vão encontrar a mais affrontosa das mortes n'aquellas catacumbas immensas!

E, ao passo que as companhias mineiras dão aos seus accionistas 20, 30, 40 e 50 por cento de dividendo, o mineiro ganha o indispensavel para não morrer de fome. Alli, constatei, como tinha egualmente constatado na Bolsa de Berlim, vasta menagerie de feras ambiciosas, quanto o socialismo tem uma razão logica de ser. Permitti, senhores, que exclame, com Paulo Luiz Courier: Ó grandes da terra, olhae para o que se passa e tende juizo se podeis!

Do pescador, nada vos direi, porque todos vós conheceis a sua temeridade e o seu arrojo, expondo a vida com a serenidade dos grandes heroes, para alimentarem os seus semelhantes.

Ainda por occasião do cortejo civico do tri-centenario de Camões, Ramalho Ortigão, na occasião em que se organisava a procissão, no Terreiro do Paço, tomando-me do braço, levou-me a vêr o que elle chamava os seus pescadores, os povoeiros, os pescadores da Povoa de Varzim, e indicando-me um, disse-me: este salvou seis vidas. Tinha o peito coberto de medalhas, como os generaes famosos. Por meu turno, tomando-o tambem pelo braço, fui mostrar-lhe aquelles a que eu chamava os meus pescadores, os pescadores de Aveiro, e indicando-lhe um, accrescentei: este salvou 12 vidas. Não tinha uma unica medalha ao peito. Bem se via que era da patria de José Estevão!

José Estevão bebeu no berço o leite da liberdade, se assim me posso exprimir; e, chegado á edade da razão, acompanhou em espirito a mais cosmopolita de todas as revoluções—a revolução de 1848.

Um seu e meu dilecto amigo, José Elias Garcia, alludindo ao facto, disse-me um dia: «Quando esse movimento, que tantas esperanças havia alimentado, fracassou em França, houve alguem que chorou em Portugal. Esse alguem fui eu.»

Nenhuma revolução logrou, com effeito, como esta, apaixonar e commover os espiritos, pelo seu sentimentalismo idealista e humanitario.