O Centenario de José Estevão
O socialista
O sentimento de então transformou-se, porém, n'uma realidade positiva, moral e humana que hoje assoberba o mundo e ameaça abalar a sociedade pelos alicerces, tendo invadido até as espheras governamentaes.
Lloyd George, um digno continuador de Lincoln, o rachador de lenha, que, pelos proprios meritos, chegou á presidencia da Republica dos Estados Unidos da America, ao apresentar o seu orçamento á Camara dos Communs, exclamou: «Que ninguem se illuda! O meu orçamento é um orçamento de guerra, de guerra contra o pauperismo que todo o governo tem obrigação de attenuar, senão de extinguir.» N'um meeting, em Londres, onde me foi dado ouvil-o, confirmou esta phrase e accrescentou: «É uma guerra entre os que possuem e os que não possuem, entre o rico e o pobre, uma guerra entre a democracia socialista e a oligarchia financeira, entre o pacifismo e o imperialismo, entre o proteccionismo e o livre cambismo, entre a Inglaterra do passado, com todos os seus vicios, e a revolução no sentido governamental da palavra. É preciso fazer desapparecer, em nome da civilisação, os contrastes que envergonham uma cidade como Londres. Ao passo que, no primeiro hotel da cidade, no Cecil Hotel, se banqueteiam todas as noites, em festins romanos, os lords, os fidalgos, os burguezes, fazendo espumar o Champagne como as aguas da cataracta do Niagara, na trazeira do mesmo edificio que confina com o Tamisa centenares de vagabundos, de miseraveis, sem pão e sem trabalho, o que equivale a dizer sem patria, achegados uns aos outros, para receberem dos seus semelhantes o calor que o proprio sangue lhes não dá, cobrem o corpo com folhas de jornaes, para não morrerem inteiramente gelados. Qualquer lord, que é a expressão da ociosidade e do parasitarismo, não vale uma unica das minhas medidas!»
Quando cheguei a Londres, Kropotkine disse-me: «A Inglaterra é o paiz mais supersticioso do mundo. Estando em Brighton, e chovendo ligeiramente, abri o meu chapeu de chuva. Das janellas de uma casa para a qual eu me dirigia, duas meninas gritaram angustiosamente: Feche o chapeu, sr. Kropotkine! Obedeci automaticamente. Mas, perguntando depois o motivo de tal afflicção, ellas responderam-me: Ora essa! Pois não sabe? Entrar n'uma casa com o guarda-chuva aberto é morte certa.»
No fundo de cada inglez ha um pastor protestante, como no fundo de cada francez ha um pequeno Napoleão, como no fundo de cada hespanhol ha um D. Quixote, como no fundo de cada portuguez ha um frade. A Inglaterra é um mixto de tradicção medieval e de progresso moderno. O socialismo quer e procura emancipal-a dos vicios do passado. E são o partido do trabalho, o syndicalismo operario, as sociedades eticas, por sobre as quaes paira o espirito de Herbert Spencer, que se impõem pela sua grandeza moral. É o quarto estado que surge com as suas legiões de trabalhadores, para, á semelhança do Mazzanielo napolitano, reclamar os seus direitos, isto é, o logar que lhe compete n'uma sociedade organisada. É um velho mundo que desaba e uma aurora que se ergue, radiosa, sobre as ruinas do passado!
«Não ha nações morgadas nem familias morgadas—disse José Estevão.—A humanidade não cabe no mundo com o seu numero e com as suas aspirações. E esta verdade, que se tornou experimental, tornou impossivel a existencia da propriedade territorial, inculta e abandonada, quer pelas mãos dos individuos, quer pelas mãos dos povos. O trabalho é o principio e o complemento de todo o direito de possuir.»
E era de vêr o ardor com que elle combatia os impostos indirectos: «Detesto, acho repugnante, altamente injusto, radicalmente antidemocratico e desigual, o imposto indirecto.»
Com respeito ás leis da usura: «Se ellas estão revogadas pelos poderes da terra, ainda estão vigentes para as almas nobres, e eu hei de ser sempre anachronico nos sentimentos de indignação que voto á classe que trafica com a miseria e o suor dos seus semelhantes.»
O socialismo era para José Estevão um progresso. O seu apparecimento tornava-se urgente. Utopia só podia ser o estacionamento!—exclamou.