O Círculo

Dave Eggers · Capítulo 2 de 2

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O Círculo

Livro III

 

Ter chegado tão perto do apocalipse ainda a fazia ranger os dentes. Sim, Mae

tinha evitado aquilo, tinha sido mais corajosa do que ela achava possível, mas

seus nervos, tantos meses depois, ainda estavam abalados. E se Kalden não

tivesse pedido sua ajuda como fez? E se não tivesse confiado nela? E se ele

tivesse resolvido cuidar do caso sozinho, ou pior, se tivesse confiado seu segredo

a outra pessoa? Alguém sem a integridade dela? Sem sua força, sua

determinação, sua lealdade?

No silêncio da clínica, sentada ao lado de Annie, a mente de Mae vagava sem

rumo. Ali havia serenidade, com o zumbido ritmado do respirador artificial, o

som ocasional da porta abrindo ou fechando, o rumor dos equipamentos que

mantinham Annie viva. Ela havia sofrido um ataque em sua mesa, foi encontrada

no chão, catatônica, e foi levada às pressas para lá, onde os cuidados médicos

ultrapassavam os que ela poderia receber em qualquer outro lugar. Desde então,

o estado de Annie havia estabilizado e o prognóstico era bom. A causa do coma

ainda era objeto de algum debate, disse a dra. Villalobos, mas o motivo mais

provável era estresse, ou choque, ou mera exaustão. Os médicos do Círculo

estavam confiantes de que Annie ia sair do coma, assim como mil outros

médicos em todo o mundo, que tinham acompanhado seus sinais vitais,

encorajados pelo frequente tremor de suas pestanas, o ocasional movimento de

um dedo. Ao lado de seu eletrocardiograma, havia um mural com uma fila

sempre crescente de votos de saúde, vindos de companheiros humanos de todo o

mundo, nos quais a maioria, ou mesmo todos eles, Mae pensava com melancolia,

Annie jamais iria conhecer.

Mae olhou para sua amiga, para seu rosto imutável, sua pele luzidia, o tubo

sanfonado que emergia de sua boca. Ela parecia maravilhosamente em paz,

dormindo um sono repousante. Por um breve momento, Mae sentiu uma ponta

de inveja. Imaginou o que Annie podia estar pensando. Os médicos disseram que

provavelmente Annie estava sonhando; eles tinham medido a atividade cerebral

estável durante o coma, mas o que exatamente estava acontecendo dentro de sua mente era algo desconhecido de todos, e Mae não podia deixar de sentir certa

perturbação com aquilo. Havia um monitor visível do lugar onde Mae estava,

uma imagem em tempo real da mente de Annie, explosões de cor aconteciam

periodicamente, indicando que coisas extraordinárias estavam ocorrendo lá

dentro. Mas no que ela estava pensando?

Uma batida a surpreendeu. Ela olhou para além da forma inclinada de Annie e

viu Francis do outro lado do vidro, na área de visitantes. Ele ergueu a mão

hesitante e Mae acenou. Ela o veria mais tarde, num evento de todo o campus

para celebrar o mais recente marco da Clarificação. Dez milhões de pessoas

agora estavam transparentes no mundo inteiro, o movimento irreversível.

O papel de Annie para que aquilo fosse possível não podia ser superestimado,

e Mae gostaria que ela pudesse presenciar aquilo. Havia tantas coisas que Mae

queria dizer para Annie. Com o sentimento de um dever que julgava sagrado,

Mae contara ao mundo que Kalden era Ty, contara suas reivindicações bizarras e

seus esforços obtusos para barrar a completude do Círculo. Recordando aquilo

agora, parecia uma espécie de pesadelo, estar tão fundo no subsolo com aquele

maluco, desligada de seus espectadores e do resto do mundo. Mas Mae fingiu

que ia cooperar e fugiu, e imediatamente contou tudo aquilo para Bailey e

Stenton. Com sua habitual compaixão e lucidez, eles permitiram que Ty

permanecesse no campus, numa função de consultoria, com um escritório

isolado e sem nenhuma tarefa específica. Mae não o vira mais depois de seu

encontro subterrâneo e nem queria ver.

Agora já fazia meses que Mae não falava com os pais, mas era só uma questão

de tempo. Eles se encontrariam, mais cedo ou mais tarde, num mundo onde

todos poderiam se conhecer de verdade e integralmente, sem segredos, sem

vergonha e sem a necessidade de permissão para ver ou conhecer, sem o

egoísmo do armazenamento secreto da vida — qualquer recanto dela, qualquer

momento dela. Tudo aquilo, muito em breve, seria substituído por uma nova e

gloriosa abertura, um mundo de luz perpétua. A completude era iminente e traria

paz, traria unidade, e toda a confusão da humanidade até agora, todas aquelas

incertezas que acompanhavam o mundo antes do Círculo, seriam apenas uma

lembrança.

Outra explosão de cor surgiu na tela que monitorava os movimentos na mente

de Annie. Mae estendeu a mão para tocar a testa de Annie, encantada com a

distância que aquela carne punha entre elas. O que estaria acontecendo dentro

daquela cabeça? De fato, era exasperante não saber, pensou Mae. Era uma

afronta, uma privação, para ela mesma e para o mundo. Ela ia falar do assunto

com Stenton e com Bailey, com a Gangue dos 40, assim que tivesse

oportunidade. Eles precisavam conversar a respeito de Annie, dos pensamentos que estavam em sua cabeça. Por que não deviam conhecê-los? O mundo não

merecia menos do que isso e não ia esperar.

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