O Círculo
Livro II
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
Era uma criatura bizarra, fantasmagórica, vagamente ameaçadora, que não
parava nunca, mas ninguém que se visse diante dela conseguiria desviar os
olhos. Mae estava hipnotizada por ela, por sua forma cortante, suas barbatanas
semelhantes a lâminas, sua pele leitosa e seus olhos de lã cinzenta. Sem dúvida
era um tubarão, tinha seu formato característico, seu olhar malévolo, mas era de
uma espécie nova, onívoro e cego. Stenton o havia trazido de sua viagem à Fossa
das Marianas, no submersível do Círculo. O tubarão não era a única descoberta
— Stenton havia trazido águas-vivas, cavalos-marinhos, arraias-jamantas, todos
até então desconhecidos, todos quase translúcidos, etéreos em seus movimentos,
todos expostos numa série de aquários enormes que ele havia construído, quase
que do dia para a noite, para abrigá-los.
As tarefas de Mae eram mostrar os animais aos visitantes, explicar quando
necessário e ser, por meio da lente que trazia pendurada no pescoço, uma janela
para aquele mundo novo e para o mundo do Círculo em geral. Toda manhã, Mae
punha um colar, muito parecido com o de Stewart, só que mais leve, menor, e
com a lente em cima do seu coração. Ali, ela apresentava a imagem mais clara e
mais ampla. A câmera via tudo o que Mae via e até mais. A qualidade do vídeo
era tamanha que o público podia dar um zoom ou uma panorâmica, congelar ou
realçar a imagem. O áudio havia sido cuidadosamente projetado para focar nas
conversas mais próximas, registrando qualquer som ambiente ou quaisquer
vozes de fundo, porém mantendo-os em segundo plano. Em essência, significava
que todo ambiente em que Mae estivesse podia ser escaneado por qualquer um
que estivesse assistindo; os espectadores podiam concentrar o foco em qualquer
ponto e, com algum esforço, isolar e ouvir qualquer outra conversa.
Era possível obter informações sobre todas as descobertas de Stenton a
qualquer minuto, porém o animal pelo qual ela e seu público mais se
interessavam era o tubarão. Mae ainda não tinha visto o tubarão comer, mas
diziam que era insaciável e muito rápido. Embora cego, localizava
imediatamente seu alimento, fosse grande ou pequeno, fosse vivo ou morto, e o digeria com uma velocidade alarmante. Num instante, um arenque ou uma lula
eram jogados no tanque do tubarão e poucos momentos depois o tubarão
depositava no fundo do aquário tudo o que havia restado do animal — uma
minúscula substância acinzentada, semelhante a um punhado de cinzas. Esse ato
se tornava ainda mais fascinante em função da pele translúcida do tubarão, que
permitia uma visão desimpedida de seu processo digestivo.
Mae ouviu um aviso em seu fone de ouvido. “Horário da alimentação do
tubarão adiado para 1h02”, disse uma voz. Agora eram 12h51.
Mae olhou para o corredor escuro, para os outros três aquários, cada um
ligeiramente menor do que o anterior. O salão era mantido inteiramente às
escuras, sem iluminação, a fim de ressaltar melhor os aquários de um azul muito
vivo e as criaturas brancas e nebulosas em seu interior.
“Agora vamos passar para o polvo”, disse a voz.
O principal feed de áudio, do Guia Adicional para Mae, provinha de um fone
minúsculo e permitia que a equipe do Guia Adicional lhe fornecesse orientações
eventuais — sugerir que parasse a Máquina do Tempo, por exemplo, e mostrasse
a seu público um novo drone, movido a energia solar, capaz de percorrer
distâncias ilimitadas, atravessar continentes e oceanos, contanto que ficasse
devidamente exposto ao sol; Mae já fizera a mesma visita antes, naquele dia.
Uma boa parte de seu dia era tomada por aquilo, o tour por diversos
departamentos, a apresentação de produtos novos, feitos no Círculo ou
patrocinados pelo Círculo. Aquilo assegurava que cada dia fosse diferente do
outro. Nas seis semanas em que estava transparente, Mae tinha sido exposta a
quase todos os recantos do campus — desde a Era das Grandes Navegações até o
Antigo Reino, onde estavam trabalhando, mais por diversão do que qualquer
outra coisa, num projeto para prender uma câmera em todos os ursos-polares
remanescentes.
“Vamos ver o polvo”, disse Mae aos espectadores que a seguiam.
Mae passou para uma estrutura circular de vidro com quatro metros e oitenta
centímetros de altura e três metros e meio de diâmetro. Dentro, uma criatura
pálida e sem espinha, cor de nuvem, mas dotada de veias azuis e verdes, sondava
o ambiente, tateando e agitando os braços, como um homem quase cego que
procura seus óculos às apalpadelas.
“Esse é um parente do polvo telescópio”, disse Mae, “mas nunca tinham
capturado um exemplar vivo.”
Seu formato parecia se modificar continuamente, ora semelhante a um balão
ou bulbo, como se inflasse a si mesmo, confiante e aumentado, ora se encolhia,
se alongava, se esticava, se espraiava, incerto de sua forma verdadeira.
“Como podem ver, é muito difícil definir seu tamanho real. Uma hora parece que dá para a gente colocá-lo na palma mão. No minuto seguinte, ele ocupa
quase todo o espaço do tanque.”
Os tentáculos da criatura pareciam querer conhecer tudo: a forma do vidro, a
topografia do coral que estava embaixo dela, a sensação da água à sua volta.
“Ele é quase afetuoso”, disse Mae, vendo o polvo se esticar de uma parede à
outra, se alastrando como uma rede. Algo na sua curiosidade lhe conferia uma
presença sensível, repleta de dúvida e de carência.
“Stenton achou esse aqui primeiro”, disse Mae sobre o polvo, que agora se
elevava do chão, devagar, com ostentação. “Veio de trás do submersível e
disparou na sua frente, como se pedisse para ser seguido. Vocês podem ver
como ele deve ter se movido depressa.” O polvo agora estava se inclinando
dentro do aquário, impelindo o próprio corpo em movimentos semelhantes a um
guarda-chuva que abre e fecha.
Mae viu que horas eram. 12h54. Tinha alguns minutos para matar o tempo.
Manteve a lente voltada para o polvo.
Mae não tinha a menor dúvida de que todos os minutos de todos os dias eram
igualmente deslumbrantes para seus espectadores. Nas semanas em que Ela
estava transparente, houve tempo ocioso, um bocado de tempo ocioso, mas sua
tarefa, em primeiro lugar, era proporcionar uma janela aberta para a vida no
Círculo, para o sublime e o banal. “Aqui estamos na academia de ginástica”, ela
podia dizer, enquanto a mostrava pela primeira vez aos espectadores. “As
pessoas correm e suam e inventam maneiras de dar uma escapadinha sem ser
apanhadas.” Depois, uma hora mais tarde, ela podia estar almoçando,
descontraidamente e sem fazer nenhum comentário, na frente de outros membros
do Círculo, enquanto todos se comportavam, ou tentavam se comportar, como se
ninguém estivesse observando. A maior parte de seus colegas do Círculo sentia-
se feliz de estar sob a lente da câmera. Depois de alguns dias, todos os membros
do Círculo sabiam que aquilo era uma parte de seu trabalho e uma peça
elementar do Círculo, ponto final. Se eles deviam de fato ser uma empresa que
abraçava a transparência e as vantagens globais e infinitas do acesso aberto,
precisavam viver aquele ideal, sempre e em toda parte, e sobretudo no campus.
Felizmente havia coisas de sobra para iluminar e comemorar dentro dos muros
do Círculo. O outono e o inverno trouxeram o inevitável, tudo com a velocidade
de um ataque-relâmpago. Em todo o campus havia sinais que sugeriam a
Completude iminente. As mensagens eram cifradas, destinadas a atiçar a
curiosidade e a discussão. O que significa Completude? Pediam aos funcionários
que refletissem sobre aquilo, que mandassem respostas e escrevessem nos
murais de ideias. Todo mundo na Terra tem uma conta no Círculo!, dizia uma
mensagem bem popular. O Círculo resolve o problema da fome no mundo, afirmava outra. O Círculo me ajuda a descobrir meus ancestrais, declarava mais
uma. Nenhum dado, histórico, numérico ou emocional jamais irá se perder. Essa
foi escrita e assinada pelo próprio Bailey. A mais popular era O Círculo me
ajuda a me encontrar.
Muitos daqueles projetos estavam havia tempos nos estágios de planejamento
no Círculo, mas a oportunidade nunca tinha sido tão apropriada e o ímpeto foi
forte demais para que pudessem resistir. Agora, com noventa por cento de
Washington transparentes e os restantes dez por cento definhando sob a suspeita
de seus colegas e dos eleitores, a pergunta batia na cabeça deles com a força de
um sol inclemente: o que vocês estão escondendo? O plano era que a maioria
dos membros do Círculo ficasse transparente até o final do ano, mas por ora,
para resolver os problemas de programação e dar um tempo para que todo
mundo se habituasse à ideia, só Mae e Stewart estavam transparentes. A
experiência de Stewart, no entanto, acabou amplamente ofuscada pelo caso de
Mae. Ela era jovem e se movia muito mais depressa do que Stewart e sua voz —
os espectadores adoravam sua voz, a comparavam à música, diziam parece um
instrumento de sopro e um maravilhoso dedilhar de cordas —, e Mae também
estava adorando sentir a afeição de milhões fluindo através dela diariamente.
Mas também havia a questão de se acostumar com o funcionamento básico do
equipamento. A câmera era leve e, depois de alguns dias, Mae mal conseguia
sentir o peso da lente, mais leve do que um medalhão, sobre o osso esterno.
Tentaram várias maneiras de manter a lente sobre seu peito, inclusive com um
velcro preso à roupa, mas nada se mostrou tão eficiente, e tão simples, quanto
apenas pendurá-la em seu pescoço. O segundo ajuste, que ela achava sempre
fascinante e de vez em quando chocante, era ver — através de uma moldura
pequena em seu pulso direito — o que a câmera estava vendo. Ela havia quase
esquecido seu bracelete monitor de saúde no pulso esquerdo, mas a câmera
tornara essencial o uso daquilo, um segundo bracelete, no pulso direito. Era do
mesmo tamanho e do mesmo material que o do pulso esquerdo, só que com uma
tela maior a fim de acomodar a imagem de vídeo e um resumo de todos os seus
dados em suas telas de costume. Com um bracelete em cada pulso, ambos
confortáveis e com acabamento de metal escovado, Mae sentia-se como a
Mulher Maravilha e tinha algum conhecimento de seu poder — embora essa
ideia fosse ridícula demais para ser dividida com quem quer que fosse.
No pulso esquerdo, Mae via as batidas do coração; no direito, podia
acompanhar o que os espectadores estavam vendo — uma imagem em tempo
real captada pela sua lente, que permitia a Mae fazer qualquer ajuste necessário
para uma visão melhor. Também o número atual de seus espectadores, seus
índices e sua posição na classificação geral de audiência, e destacava os comentários mais recentes e os mais populares dos espectadores. Naquele
momento, parada na frente do polvo, Mae tinha 441 762 espectadores, o que
estava um pouco acima da sua média, mas ainda era menos do que ela esperava
alcançar enquanto apresentava as descobertas de Stenton no mar profundo. Os
outros números apresentados não eram surpresa. Ela estava alcançando a média
de 845 029 visitantes individuais de suas cenas ao vivo por dia e tinha 2,1
milhões de seguidores para o seu feed de zings. Mae não precisava mais se
preocupar em se manter no T2K; sua visibilidade e o imenso poder de sua plateia
garantiam Índices de Conversão e de Varejo Bruto estratosféricos e a mantinham
sempre entre os dez mais.
“Vamos ver os cavalos-marinhos”, disse Mae, e passou para o aquário
seguinte. Lá, entre um buquê pastel de corais e folhagens ondulantes de algas
azuis, ela viu centenas, talvez milhares, de pequeninas criaturas, menores do que
o dedo de uma criança, ocultando-se em esconderijos, galgando nas folhagens.
“Esses caras não são peixes lá muito amigáveis. Espere, será que chegam mesmo
a ser peixes?”, perguntou Mae, e olhou para o pulso, onde um espectador já
havia mandado a resposta. Sem dúvida, são peixes! Classe Actinopterygii. Da
família do bacalhau e do atum.
“Obrigado, Susanna Win, de Greensboro!”, disse Mae, e rezingou a
informação para seus seguidores. “Agora vejamos se conseguimos descobrir o
pai de todos esses cavalos-marinhos. Como vocês talvez saibam, o cavalo-
marinho macho é que gesta as crias no próprio corpo. As centenas de bebês que
vocês estão vendo vieram à luz logo depois que o pai chegou aqui. Agora, onde
ele está?” Mae caminhou em redor do aquário e logo o descobriu, mais ou
menos do tamanho de sua mão, deitado no fundo do tanque, encostado no vidro.
“Acho que está se escondendo”, disse Mae, “mas ele não parece saber que
estamos aqui do outro lado do vidro e que podemos ver tudo.”
Ela verificou o bracelete em seu pulso e ajustou um pouco o ângulo da lente, a
fim de obter a melhor visão do frágil animal. Estava todo encolhido, de costas
para ela, com ar exausto e tímido. Mae aproximou o rosto e a lente do vidro, tão
perto do cavalo-marinho que ela podia ver as nuvens minúsculas em seus olhos
inteligentes, as inconcebíveis sardas em seu focinho delicado. Era uma criatura
improvável, um péssimo nadador, mas semelhante a uma lanterna chinesa e
totalmente indefeso. O pulso dela destacou um zing com índices
excepcionalmente elevados. O croissant do reino animal, dizia o texto, e Mae o
repetiu em voz alta. Porém, a despeito de sua fragilidade, de algum jeito tinha
conseguido se reproduzir, dera vida a mais uma centena de criaturas como ele,
no tempo em que o polvo e o tubarão faziam uma ronda em seus tanques e
comiam. Não que o cavalo-marinho parecesse dar importância àquilo. Ele se mantinha à parte de sua prole, como se não tivesse a menor ideia de sua
proveniência e nenhum interesse pelo que acontecia com os filhotes.
Mae verificou que horas eram. 1h02. O Guia Adicional falou através de seu
fone de ouvido: “Alimentação do tubarão pronta”.
“Certo”, respondeu Mae, olhando para seu pulso. “Estou vendo uma porção de
pedidos para voltarmos ao tubarão e já passa de uma hora, portanto acho que vou
fazer isso mesmo.” Deixou o cavalo-marinho, que se virou para ela por um
momento, como se não quisesse que ela fosse embora.
Mae voltou para o primeiro e maior aquário, que continha o tubarão de
Stenton. Acima do aquário, viu uma jovem de cabelo preto crespo e jeans branco
de bainha dobrada, de pé, no alto de uma escada vermelha lustrosa.
“Oi”, disse para ela. “Sou Mae.”
A mulher parecia estar pronta para dizer: “Já sei”, mas então, como se
lembrasse que estavam sendo filmadas, adotou um tom estudado, encenado. “Oi,
Mae. Sou Georgia e vou alimentar o tubarão do sr. Stenton.”
E então, embora fosse cego e ainda não houvesse nenhum alimento no tanque,
o tubarão pareceu sentir que um banquete estava próximo. Começou a rodopiar
como um ciclone, subindo cada vez mais próximo da superfície. O número de
espectadores de Mae já tinha subido para mais quarenta e dois mil.
“Alguém está com fome”, disse Mae.
O tubarão, que até então parecera apenas ligeiramente ameaçador, agora
parecia cruel e totalmente consciente, a própria encarnação do instinto
predatório. Georgia tentava se mostrar confiante, competente, mas Mae viu
medo na trepidação de seus olhos. “Tudo pronto aí embaixo?”, perguntou ela,
sem tirar os olhos do tubarão, que rodava em direção a ela.
“Estamos prontos”, respondeu Mae.
“Muito bem, hoje vou alimentar o tubarão com uma coisa nova. Como você
sabe, ele tem sido alimentado com todo tipo de comida, desde salmão até
arenque e águas-vivas. Devorou tudo com igual entusiasmo. Ontem, tentamos
uma arraia-jamanta, que não achávamos que ele fosse apreciar, mas ele nem
hesitou, comeu com gosto. Portanto hoje vamos experimentar de novo uma coisa
diferente. Como podem ver”, disse ela, e Mae percebeu que o balde que ela
trazia era feito de acrílico transparente e dentro se via algo azul e marrom, com
pernas demais. Mae ouviu as pernas da criatura batendo nas paredes do balde:
uma lagosta. Mae nunca imaginou que tubarões comessem lagostas, mas não via
motivo para que não comessem.
“Temos aqui uma lagosta do Maine comum, que não sabemos se esse tubarão
é capaz de comer.”
Georgia talvez estivesse tentando causar uma boa impressão, mas até Mae ficou nervosa imaginando quanto tempo ela ainda ia segurar a lagosta suspensa
acima da água. Solte, pensava Mae. Por favor, solte logo.
Mas Georgia continuava segurando a lagosta acima da água, supostamente em
benefício de Mae e de seus espectadores. Enquanto isso, o tubarão tinha
percebido a lagosta, sem dúvida havia mapeado sua forma com os sensores que
possuía, quaisquer que fossem, e rodopiava cada vez mais depressa, ainda
obediente, mas já no fim de sua paciência.
“Alguns tubarões são capazes de processar as cascas de crustáceos como este,
outros não”, disse Georgia, que agora suspendia a lagosta de tal modo que sua
tenaz tocava preguiçosamente a superfície. Solte, por favor, pensou Mae. Por
favor, solte agora.
“Portanto eu vou jogar este carinha aqui no...”
Mas antes que pudesse terminar a frase, o tubarão se ergueu e abocanhou a
lagosta, tomando-a da mão da cuidadora. Na hora em que ela soltou um berro e
agarrou os dedos como se quisesse contá-los, o tubarão já voltara para o meio do
tanque, a lagosta tragada entre suas mandíbulas, enquanto a carne branca do
crustáceo espirrava pela boca larga do tubarão.
“Ele te mordeu?”, perguntou Mae.
Georgia balançou a cabeça, contendo as lágrimas. “Quase.” E esfregou a mão
como se tivesse sido queimada.
A lagosta tinha sido devorada e Mae viu algo horripilante e maravilhoso: a
lagosta estava sendo processada dentro do tubarão, na frente dela, numa
velocidade-relâmpago e com incrível nitidez. Mae viu a lagosta partir-se em
dúzias de pedaços, depois em centenas, dentro da boca do tubarão, depois ela viu
aqueles pedaços percorrerem o esôfago do tubarão, até seu estômago, e depois
até os intestinos. Em minutos, a lagosta tinha sido reduzida a uma substância
granular e particulada. Os dejetos saíram do tubarão e se depositaram no fundo
do aquário como se fosse neve.
“Parece que ele continua com fome”, disse Georgia. Estava de novo no alto da
escada, mas agora com um recipiente de acrílico diferente. Enquanto Mae
observava a digestão da lagosta, Georgia tinha apanhado uma segunda refeição.
“Isso aí é o que eu estou pensando?”, perguntou Mae.
“É uma tartaruga do Pacífico”, disse Georgia, suspendendo o recipiente que
continha o réptil. A tartaruga era quase do tamanho do tronco de Mae,
estampada com retalhos de azul, verde e marrom, um lindo animal, incapaz de se
mexer naquele espaço apertado. Georgia abriu a porta na ponta do recipiente,
como se convidasse a tartaruga a sair, se assim preferisse. Ela preferiu ficar onde
estava.
“Há pouca probabilidade do nosso tubarão já ter encontrado um animal como este, em razão da diferença de seus hábitats”, disse Georgia. “Esta tartaruga não
teria nenhum motivo para andar nas regiões onde habita o tubarão de Stenton e o
tubarão, por sua vez, certamente nunca viu as regiões matizadas de luz onde
vivem as tartarugas.”
Mae queria perguntar se Georgia ia mesmo dar aquela tartaruga para o tubarão
comer. Os olhos da tartaruga tinham avistado o predador mais abaixo e agora,
com a lenta energia que conseguia reunir, a tartaruga estava se espremendo no
fundo do recipiente. Dar aquela criatura gentil para o tubarão comer, a despeito
de qualquer necessidade científica, era uma coisa que ia desagradar a muitos
espectadores de Mae. Já estavam chegando zings no seu pulso. Por favor, não
mate essa tartaruga. Parece com meu avô! Porém havia uma segunda tendência,
que chamava atenção para o fato de que o tubarão era apenas um pouco maior do
que a tartaruga e não conseguiria engolir ou digerir o réptil, com seu casco
impenetrável. Mas exatamente na hora em que Mae ia questionar a iminente
alimentação do tubarão, uma voz no Guia Adicional soou no fone de ouvido de
Mae. “Espere. Stenton quer ver isso.”
No tanque, o tubarão estava rodopiando outra vez, parecia exatamente tão
voraz e esfomeado quanto antes. A lagosta não era nada para ele, um mero
petisco. Agora ele chegou mais perto de Georgia, ciente de que o prato principal
ia ser servido.
“Lá vamos nós”, disse Georgia, e inclinou o recipiente até que a tartaruga
começou a escorregar, lentamente, rumo à água cor de luz neon, que rodopiava
embaixo dela — os giros do tubarão tinham criado um redemoinho. Quando o
recipiente estava na vertical e a cabeça da tartaruga tinha surgido no limiar da
porta de acrílico, o tubarão não conseguiu mais esperar. Projetou-se para cima,
agarrou a cabeça da tartaruga em suas mandíbulas e puxou para baixo. E, a
exemplo da lagosta, a tartaruga foi consumida em segundos, mas dessa vez
exigiu uma mudança de formato que o crustáceo não havia demandado. O
tubarão pareceu desenganchar a mandíbula, duplicando o tamanho da boca,
permitindo que ela subjugasse facilmente a tartaruga inteira numa só bocada.
Georgia narrava os acontecimentos, dizia algo sobre como muitos tubarões,
quando devoravam tartarugas, viravam seu estômago pelo avesso e vomitavam o
casco depois de digerir as partes carnudas do réptil. Mas o tubarão de Stenton
tinha outros métodos. O casco pareceu se dissolver dentro da boca e do
estômago do tubarão, como uma bolacha encharcada de saliva. E, em menos de
um minuto, a tartaruga, toda ela, tinha virado cinzas. Saiu do tubarão da mesma
forma que a lagosta, em flocos que tombaram pesados no fundo do aquário,
unindo-se aos que tinham caído antes e indistinguíveis deles.
Mae estava observando aquilo, quando viu uma figura, quase uma silhueta, do outro lado do vidro, além da parede oposta do aquário.
Seu corpo era apenas uma sombra, o rosto era invisível, mas então, por um
momento, a luz que vinha de cima se refletiu na pele do tubarão que nadava em
círculos e incidiu no rosto da figura.
Era Kalden.
Fazia um mês que Mae não o via e, desde que ficara transparente, não havia
recebido nenhuma notícia dele. Annie tinha ido a Amsterdam, depois à China,
depois ao Japão, depois voltou para Genebra, e assim não tivera tempo para se
concentrar em Kalden, mas as duas haviam trocado mensagens esparsas a
respeito dele. Até que ponto deviam se preocupar com aquele homem
desconhecido?
Mas durante aquele tempo ele andou sumido.
Agora estava de pé do outro lado, olhava para ela, imóvel.
Mae quis chamá-lo, mas então ficou preocupada. Quem era ele? Será que
chamá-lo, captá-lo em sua câmera criaria uma cena? Será que ele ia fugir? Ela
ainda estava em choque com a digestão da tartaruga pelo tubarão, com a
ferocidade de olhos opacos do animal, e descobriu que estava sem voz, sem
forças para pronunciar o nome de Kalden. Então olhou fixamente para ele, que
olhou para ela, e Mae teve a ideia de que, se conseguisse captá-lo na câmera,
talvez pudesse mostrar a imagem para Annie e aquilo talvez levasse a algum
esclarecimento, alguma identificação. Porém, quando Mae olhou para o pulso,
viu apenas uma forma muito escura, o rosto dele obscurecido. Talvez a lente de
Mae não conseguisse alcançar Kalden, estivesse focalizando de um ângulo
diferente. Quando Mae procurou a forma de Kalden em seu pulso, ele recuou e
se afastou para as sombras.
Nesse meio-tempo, Georgia tagarelava sobre o tubarão e sobre aquilo que
tinham acabado de presenciar e Mae não tinha ouvido nada. Mas agora Georgia
estava no alto da escada, acenando, torcendo para que Mae tivesse terminado,
porque ela já não tinha mais nada para alimentar o animal. O espetáculo tinha
acabado.
“Então está bem”, disse Mae, agradecida pela oportunidade de ir embora e
seguir Kalden. Despediu-se, agradeceu a Georgia e caminhou depressa através
do corredor escuro.
Mae vislumbrou a silhueta dele através de uma porta distante e acelerou o
passo, tomando cuidado para não sacudir a lente nem chamar seu nome. A porta
por onde ele havia se esgueirado levava para uma sala de redação, um local
bastante lógico para Mae visitar em seguida. “Vamos ver o que está acontecendo
na redação”, disse ela, ciente de que todos lá dentro estariam conscientes de sua
aproximação ao longo dos vinte passos que a separavam da sala. Sabia também que as câmeras SeeChange no corredor, acima da porta, teriam captado a
imagem de Kalden e, mais cedo ou mais tarde, ela saberia se de fato era ele.
Todos os movimentos no interior do Círculo eram captados por alguma câmera,
em geral por três, e reconstituir os movimentos de qualquer pessoa, após o fato,
era uma questão de apenas alguns minutos de trabalho.
Enquanto se aproximava da porta da redação, Mae pensava nas mãos de
Kalden sobre seu corpo. As mãos a segurando por baixo, puxando-a para si,
pressionando o corpo dele para dentro dela. Mae ouvia o rumor baixo da voz de
Kalden. Sentia o sabor dele como um fruto fresco e molhado. E se ela o
encontrasse? Não poderia levá-lo para o banheiro. Ou poderia? Ela ia descobrir
um jeito.
Abriu a porta da redação, um espaço amplo que Bailey tinha projetado se
inspirando nas antigas redações de jornal, dotado de cem cubículos de paredes
baixas, máquinas de teletipo e relógios em toda parte; havia um telefone
analógico de estilo antigo em todas as escrivaninhas, com uma fileira de botões
brancos embaixo dos números, piscando sem ritmo. Havia impressoras antigas,
faxes, aparelhos de telex, máquinas de tipografia. A decoração, é claro, era só
um cenário. Todas as máquinas em estilo retrô não funcionavam. Os repórteres,
cujos rostos estavam agora voltados para Mae, sorrindo e dando bom-dia para
ela e para os espectadores, podiam fazer a maioria das reportagens usando as
SeeChange. Agora havia mais de cem milhões de câmeras em operação e
acessíveis em todo o mundo, tornando desnecessárias as coberturas pessoais e
feitas no local, sempre dispendiosas e perigosas, sem falar do gasto de carbono.
Enquanto Mae caminhava pela redação, a equipe acenava para ela, sem saber
se aquilo era uma visita oficial. Mae acenava em resposta, enquanto observava a
sala com atenção, ciente de que parecia distraída. Onde estava Kalden? Só havia
uma saída além daquela, portanto Mae atravessou a sala depressa, assentindo e
saudando, até alcançar a porta que ficava no fundo da sala. Ela a abriu, piscou os
olhos diante da luz clara do dia e viu Kalden. Estava atravessando o gramado
verde e vasto, passando pela escultura nova feita por aquele dissidente chinês —
Mae lembrou-se de que devia dar destaque à escultura em breve, talvez naquele
mesmo dia — e, naquele instante, Kalden se virou por um momento, como se
quisesse verificar se ela ainda o seguia. Os olhos de Mae encontraram os dele,
provocando um pequeno sorriso, antes de Kalden virar-se outra vez e caminhar
depressa em torno do Período das Cinco Dinastias.
“Aonde você está indo?”, perguntou a voz em seu fone de ouvido.
“Desculpe. Lugar nenhum. Estava só andando. Não importa.”
Mae tinha permissão para ir aonde quisesse, é claro — seus caminhos
sinuosos eram o que muitos espectadores mais apreciavam —, porém o escritório do Guia Adicional, mesmo assim, de vez em quando gostava de
verificar o que estava acontecendo. Enquanto estava sob o sol, com membros do
Círculo à sua volta, Mae ouviu seu celular tocar. Verificou seu pulso; não havia
nenhuma chamada identificada. Mae sabia que só podia ser Kalden.
“Alô?”, disse ela.
“Temos de nos encontrar”, disse ele.
“O quê?”, perguntou ela.
“Seus espectadores não podem me ouvir. Só ouvem você. Neste momento,
seus engenheiros estão se perguntando por que o áudio de entrada não está
funcionando. Vão consertar em poucos minutos.” Sua voz estava tensa, trêmula.
“Então, preste atenção. A maior parte do que está acontecendo precisa parar.
Estou falando sério. O Círculo está quase completo e, Mae, você tem de
acreditar em mim, isso vai ser ruim para você, para mim, para a humanidade.
Quando podemos nos encontrar? Se tiver de ser no banheiro, para mim está tudo
bem...”
Mae desligou.
“Desculpe”, disse o Guia Adicional em seu fone de ouvido. “Por algum
motivo, o áudio de entrada não funcionou. Estamos tentando consertar. Quem
era?”
Mae sabia que não podia mentir. Não tinha certeza de que alguém não tinha
ouvido Kalden. “Algum maluco”, improvisou Mae, orgulhosa de si mesma.
“Tagarelando sobre o fim do mundo.”
Mae verificou seu pulso. Já havia gente imaginando o que poderia ter
acontecido e como. O zing mais popular de todos: Problemas técnicos na sede
do Círculo? Próximo capítulo: Papai Noel se esquece do Natal?
“Diga a verdade para eles, como sempre”, disse o Guia Adicional.
“Está certo. Não tenho a menor ideia do que aconteceu”, disse Mae em voz
alta. “Quando souber, explico a todos vocês.”
Mas Mae estava abalada. Continuava parada, sob o sol, acenando de vez em
quando para membros do Círculo que percebiam sua presença. Sabia que seus
espectadores talvez estivessem imaginando o que poderia acontecer em seguida,
para onde ela estava indo. Mae não queria olhar seu pulso, pois sabia que os
comentários seriam de perplexidade e até de preocupação. Ao longe, viu algo
que parecia um jogo de croquet e, tendo uma ideia, seguiu naquela direção.
“Como todos vocês sabem”, disse ela quando estava perto o bastante para ver
e cumprimentar os quatro jogadores, que ela descobriu serem dois membros do
Círculo e um par de visitantes da Rússia, “nem sempre brincamos aqui no
Círculo. Às vezes temos de trabalhar, o que esse grupo está demonstrando. Não
quero incomodá-los, mas garanto a vocês que o que eles estão fazendo envolve resolução de problemas e algoritmos complexos e vai resultar no aprimoramento
dos produtos e serviços que podemos oferecer a vocês. Vamos prestar atenção.”
Aquilo lhe daria alguns minutos para pensar. Periodicamente, ela focalizava
sua lente em algo como aquilo, um jogo ou uma demonstração ou um discurso, e
isso permitia que a mente de Mae divagasse, enquanto os espectadores olhavam.
Mae conferiu a imagem em seu pulso e viu que seus espectadores, 432 028,
estavam dentro da média e que não havia nenhum comentário urgente, portanto
ela se concedeu três minutos, antes de ter que retomar o controle do feed. Com
um largo sorriso — pois certamente estava visível em três ou quatro câmeras
SeeChange instaladas ao ar livre —, Mae respirou fundo. Era uma nova
capacidade que ela havia adquirido, a capacidade de olhar para o mundo exterior
com um ar absolutamente sereno e até alegre, enquanto, dentro do crânio, tudo
era um caos. Ela queria ligar para Annie. Mas não podia ligar para Annie. Queria
Kalden. Queria estar a sós com Kalden. Queria estar de volta àquele banheiro,
sentada em cima dele, sentindo a cabeça de seu pênis pressionar e entrar. Mas
ele não era normal. Era uma espécie de espião ali. Uma espécie de anarquista, de
apocalíptico. O que ele queria dizer quando a advertiu do perigo da completude
do Círculo? Mae nem sequer sabia o que significava Completude. Ninguém
sabia. No entanto, ultimamente, os Sábios tinham começado a dar dicas sobre
aquilo. Num dia, em ladrilhos novos pregados por todo o campus, mensagens
cifradas surgiram: PENSE COMPLETUDE e COMPLETEM O CÍRCULO e O
CÍRCULO DEVE SER UM TODO, e tais slogans haviam despertado a desejada
curiosidade. Mas ninguém sabia o que aquilo significava e os Sábios não o
revelavam.
Mae viu que horas eram. Tinha observado o jogo de croquet por noventa
segundos. Só poderia manter aquela atitude de forma razoável por mais um ou
dois minutos. Portanto, qual era sua responsabilidade de informar aquele
telefonema? Será que alguém tinha de fato ouvido o que Kalden disse? E se
tivessem ouvido? E se aquilo fosse uma espécie de teste para ver se ela
denunciava uma ligação desonesta? Talvez aquilo fizesse parte da Completude
— um teste para medir sua lealdade, a fim de barrar o caminho de qualquer
pessoa ou qualquer coisa que impedisse a Completude. Ah, merda, pensou Mae.
Ela queria falar com Annie, mas sabia que não podia. Pensou em seus pais, que
lhe dariam bons conselhos, mas a casa deles estava transparente também, repleta
de câmeras do SeeChange — uma condição para o tratamento de seu pai. Talvez
ela pudesse ir até lá, encontrá-los no banheiro, quem sabe? Não. Na verdade,
fazia alguns dias que não entrava em contato com os pais. Tinham advertido
Mae de que estavam tendo certas dificuldades técnicas, voltariam a fazer contato
em breve, que a amavam, e depois disso não responderam nenhuma das mensagens dela nas últimas quarenta e oito horas. E naquele período ela não
havia verificado as imagens das câmeras na casa deles. Mae tinha de fazer
aquilo. Tomou nota disso mentalmente. Quem sabe podia ligar para os pais? Ver
se estavam bem e depois sugerir, de algum modo, que queria falar com eles
sobre algo muito pessoal e perturbador?
Não, não. Tudo isso era loucura. Tinha recebido um telefonema casual de um
homem que ela sabia ser doido. Ah, merda, pensou Mae, na esperança de que
ninguém conseguiria adivinhar o caos que vigorava em sua mente. Apreciava
estar onde estava, visível daquele jeito, apreciava ser um canal daquele jeito, um
guia para seus espectadores, mas aquela responsabilidade, aquela intriga
desnecessária, aquilo a deixava incapacitada. E quando experimentava aquela
paralisia, tolhida no meio de possibilidades e incógnitas absolutamente
excessivas, só havia um lugar em que ela se sentia bem.
À 1h44, Mae entrou no Renascimento, sentiu acima de si a saudação do
Calder que girava lentamente e pegou o elevador para o quarto andar. Subir pelo
prédio a acalmava. Caminhar pela passarela, com o átrio visível lá embaixo, lhe
proporcionava uma grande paz. Aquilo, a Experiência do Cliente, era seu lar,
onde não havia desconhecidos.
De início, Mae tinha ficado surpresa quando pediram que continuasse a
trabalhar em EC, pelo menos algumas horas por dia. Ela havia curtido seu tempo
ali, sim, mas supunha que a transparência acarretasse deixar tudo aquilo para
trás. “É exatamente essa a questão”, explicou Bailey. “Eu penso que, Número
Um, isso vai manter você ligada ao trabalho de nível básico que você fazia aqui.
Número Dois, acho que seus seguidores e espectadores vão gostar que você
continue a fazer esse trabalho de base. Vai representar um gesto de humildade
muito comovente, não acha?”
No mesmo instante, Mae ficou consciente do poder que exercia —
instantaneamente, ela se tornou um dos membros do Círculo mais visíveis — e
sentiu-se decidida a usar esse poder de maneira branda. Portanto Mae encontrara
tempo em todas as semanas para voltar à sua antiga equipe de trabalho, voltar
para sua mesa, que havia deixado vaga. Tinha havido algumas mudanças —
agora havia nove telas e os funcionários de Experiência do Cliente eram
incentivados a trocar muitos mais dados com seus clientes, a praticar uma
reciprocidade mais profunda, de formas muito mais abrangentes —, mas o
trabalho continuava essencialmente o mesmo e Mae descobriu que apreciava o
ritmo daquele trabalho, o teor quase meditativo de fazer algo que conhecia na
pele, ela se via tragada para EC em momentos de estresse ou de calamidade.
E assim, em sua terceira semana de transparência, numa quarta-feira ensolarada, Mae planejou ficar noventa minutos na Experiência do Cliente, antes
que o resto do dia a atropelasse. Às três, ela teve de fazer um tour na Era
Napoleônica, onde estavam projetando a eliminação do dinheiro físico — a
rastreabilidade da moeda da internet acabaria com vastas camadas de
criminalidade da noite para o dia — e às quatro ela deveria mostrar as
residências de novos músicos no campus — vinte e dois apartamentos
inteiramente equipados, onde músicos, especialmente aqueles que não
conseguiam ganhar a vida com a venda de sua música, podiam viver de graça e
tocar regularmente para os membros do Círculo. Aquilo preencheria a tarde de
Mae. Às cinco, ela devia comparecer ao anúncio do político mais recente a se
tornar transparente. Por que continuavam a fazer aquelas proclamações com
tantas fanfarras — agora chamavam aquilo de Clarificações — era um mistério
para ela e para muitos de seus espectadores. Havia dezenas de milhares de
políticos eleitos transparentes em todo o país e em todo o mundo, e o movimento
era menos uma novidade do que uma inevitabilidade; a maior parte dos
observadores previa a plena transparência governamental, pelo menos nas
democracias — e com as câmeras SeeChange, em breve, não haveria outra
forma de governo —, no prazo de dezoito meses. Depois da Clarificação, ia
haver uma batalha de comédia de improviso no campus, um levantamento de
fundos em benefício de uma escola rural no Paquistão, uma degustação de
vinhos e, por fim, um churrasco para o campus inteiro, com música de um coral
trance peruano.
Mae entrou na sala de sua antiga equipe de trabalho, onde suas próprias
palavras — SEGREDOS SÃO MENTIRAS; COMPARTILHAR É CUIDAR;
PRIVACIDADE É ROUBO — tinham sido fundidas em aço e dominavam a
parede inteira. O lugar fervilhava de novatos e todos eles ergueram os olhos,
alarmados e felizes de vê-la entre eles. Mae cumprimentou-os com um aceno,
saudou-os com uma reverência de brincadeira, viu Jared de pé na porta de seu
escritório e acenou para ele também. Em seguida, resolvida a fazer seu trabalho
sem espalhafato, ela sentou, fez o login e abriu as comportas. Respondeu três
questionários em rápida sucessão, obtendo uma avaliação média de 99. Seu
quarto cliente foi o primeiro a perceber que era Mae, a Mae Transparente, que
estava respondendo suas perguntas.
Estou vendo você!, escreveu a cliente, uma compradora de mídia para
importadores de produtos esportivos em Nova Jersey. Seu nome era Janice e ela
não conseguia se recuperar do choque de descobrir que podia ver Mae digitando
a resposta para suas perguntas em tempo real, na sua tela, bem do lado de onde
estava recebendo a resposta digitada de Mae. Sala de espelhos!!, escreveu ela.
Depois de Janice, Mae teve uma série de clientes que não sabiam que era ela quem respondia suas perguntas e Mae percebeu que aquilo a incomodava. Um
dos clientes, uma distribuidora de camisetas de malha em Orlando, chamada
Nanci, pediu a ela que entrasse na sua rede profissional e Mae prontamente
concordou. Jared havia falado com Mae a respeito de um novo patamar de
reciprocidade incentivada entre os membros da equipe de EC. Se você mandar
um questionário, esteja preparada para responder um também. E assim, depois
de ter se filiado à rede profissional da distribuidora de camisetas de malha de
Orlando, Mae recebeu outra mensagem de Nanci. Pedia a ela que respondesse
um breve questionário sobre suas preferências em roupas informais e Mae
concordou. Abriu o questionário, que percebeu que não era curto: abrangia ao
todo cento e vinte perguntas. Mas Mae sentiu-se feliz de responder todos os
itens, teve a sensação de que sua opinião era relevante, de que ela estava sendo
ouvida e que esse tipo de reciprocidade engendraria uma lealdade em Nanci e
em todos aqueles com quem Nanci entrasse em contato. Uma vez respondidas as
perguntas do questionário, Nanci lhe enviou um generoso muito obrigado e disse
que ela podia escolher uma camiseta a seu gosto e direcionou Mae para seu site
do consumidor. Mae disse que ia escolher uma camiseta mais tarde, porém
Nanci respondeu que mal podia esperar para saber que camiseta ela ia escolher.
Mae viu que horas eram no seu relógio; tinha perdido oito minutos no
questionário de Orlando, ultrapassando em muito o novo prazo para um
questionário, que era de dois minutos e meio.
Mae sabia que teria de acelerar o trabalho nos próximos dez questionários,
mais ou menos, para retornar ao tempo médio aceitável. Foi ao site de Nanci,
escolheu uma camiseta que mostrava a caricatura de um cachorro com roupa de
super-herói e Nanci lhe disse que aquela era uma excelente opção. Então Mae
passou para o questionário seguinte e estava no processo de uma fácil adaptação
de respostas prontas, quando chegou outra mensagem de Nanci. Desculpe
bancar a Senhorita Magoada, mas convidei você para entrar na minha rede
profissional, só que você não me convidou para entrar na sua e, embora eu
saiba que eu sou apenas uma fulana qualquer em Orlando, tive a impressão de
que eu tinha de lhe dizer que me senti desvalorizada. Mae disse a Nanci que não
tinha nenhuma intenção de fazê-la sentir-se desvalorizada, que ela andava muito
atarefada no Círculo, que havia esquecido aquela reciprocidade essencial, o que
ela rapidamente remediou. Mae terminou seu questionário seguinte, obteve uma
nota 98, e começou outro, quando recebeu mais uma mensagem de Nanci. Viu
minha mensagem na rede profissional? Mae viu todos seus feeds e não localizou
nenhuma mensagem de Nanci. Postei no quadro de mensagens da sua rede
profissional!, disse ela. E assim Mae foi àquela página, que não visitava com
frequência, e viu que Nanci tinha escrito: Oi, desconhecida! Mae digitou: Oi, você mesma! Mas você não é uma desconhecida!!, e pensou por um momento
que aquilo ia significar o fim de sua troca de mensagens, mas fez uma pausa
breve na página, com a sensação de que Nanci ainda não havia terminado. E não
havia mesmo. Que bom que você voltou! Achei que podia ter ficado ofendida
por eu chamar você de “desconhecida”. Jura que não ficou irritada? Mae jurou
que não estava irritada, respondeu com abraços e beijos, mandou dez sorrisos e
voltou a seus questionários, na esperança de que Nanci ficasse satisfeita e que as
duas estivessem numa boa. Preencheu mais três questionários, enviou pesquisas
de satisfação e viu que sua avaliação média estava em 99. Aquilo suscitou uma
enxurrada de zings de congratulações, os espectadores estavam felizes de ver a
dedicação de Mae com as tarefas do dia a dia do Círculo, essenciais para o
funcionamento normal do mundo. Muitos de seus espectadores, e eles mesmos
fizeram questão de dizer a ela, estavam trabalhando também em mesas de
escritório e, como ela continuava a fazer seu trabalho, voluntariamente e com
evidente satisfação, eles a encaravam como um exemplo e uma fonte de
inspiração. E aquilo dava uma sensação boa em Mae. Dava a sensação de que ela
era importante de verdade. Os clientes a tornavam melhor. E servi-los sendo
transparente tornava Mae muito melhor. Era o que ela esperava. Tinha sido
avisada por Stewart de que, quando milhares ou até milhões estivessem
acompanhando as imagens de sua câmera, ela daria o melhor de si mesma. Ia
ficar mais alegre, mais positiva, mais educada, mais generosa, mais inquisitiva.
Mas ele não falara sobre as diminutas alterações de seu comportamento que
aqueles aprimoramentos acarretariam.
A primeira vez que a câmera redirecionou suas ações foi quando Mae entrou
na cozinha para preparar alguma coisa para comer. A imagem em seu pulso
mostrou o interior de uma geladeira, enquanto ela procurava algo para beliscar.
Normalmente, Mae teria apanhado um brownie gelado, mas ao ver a imagem de
sua mão se dirigindo para o brownie, e se dando conta de que todo mundo estaria
vendo aquilo, Mae recuou. Fechou a porta da geladeira, pegou um punhado de
amêndoas na tigela que estava na bancada da pia e saiu da cozinha. Mais tarde,
naquele dia, teve uma dor de cabeça — causada, pensou ela, por comer menos
chocolate do que o habitual. Enfiou a mão na bolsa, onde tinha sempre uns
pacotes individuais de aspirina, porém, mais uma vez, na sua tela, Mae viu o que
todo mundo estava vendo. Viu a mão entrando na bolsa, vasculhando e, no
mesmo instante, ela se sentiu péssima e desprezível, como se fosse uma
dependente de pílulas.
Não tomou a aspirina. Todo dia Mae deixava de fazer coisas que ela não
queria querer. Coisas de que não precisava. Tinha parado de tomar refrigerante,
bebidas energéticas, comidas industrializadas. Em eventos sociais do Círculo, ela se limitava a tomar um drinque só e tentava sempre deixar um pouco no copo.
Qualquer coisa imoderada provocava uma saraivada de zings preocupados, por
isso ela se mantinha dentro dos limites da moderação. E achava aquilo
libertador. Estava livre do mau comportamento. Estava livre de fazer coisas que
não queria fazer, livre de comer e de beber coisas que não lhe faziam bem.
Desde que ficara transparente, tinha se tornado mais nobre. As pessoas a
chamavam de um modelo. As mães diziam para as filhas seguirem seu exemplo
e aquilo dava a Mae uma sensação de responsabilidade, e tal sentimento — com
os membros do Círculo, seus clientes e parceiros, com a juventude que via nela
uma fonte de inspiração — a mantinha centrada e fornecia o combustível de seus
dias.
Lembraram-na das perguntas das pesquisas do próprio Círculo e Mae ajustou
seus fones de ouvido e começou. Para seus espectadores, ela expressava suas
opiniões o tempo todo, sim, e sentia-se muito mais influente do que antes, mas
algo no ritmo mecânico e na natureza chamada-e-resposta daquelas pesquisas
dava uma sensação de carência. Passou para outra pergunta da pesquisa de
cliente e depois fez que sim com a cabeça. Soou a campainha distante. Ela fez
que sim com a cabeça.
“Obrigada. Está satisfeita com as condições de segurança dos aeroportos?”
“Sorriso”, respondeu Mae.
“Obrigada. Você aprovaria mudanças nas condições de segurança dos
aeroportos?”
“Sim.”
“Obrigada.”
“As condições de segurança dos aeroportos dissuadem você de viajar de avião
com mais frequência?”
“Sim.”
“Obrigada.”
As perguntas continuaram, e ela conseguiu superar noventa e quatro perguntas
antes de lhe darem um descanso. Logo a voz voltou, inalterada.
“Mae.”
Ela ignorou de propósito.
“Mae.”
Seu nome, pronunciado por sua voz, continuava a exercer poder sobre ela. E
Mae não tinha descoberto por quê.
“Mae.”
Daquela vez, soou como uma versão mais pura de si mesma.
“Mae.”
Baixou os olhos para seu bracelete, viu uma porção de zings perguntando se ela estava bem. Mae sabia que tinha de responder para que seus espectadores não
pensassem que havia perdido a cabeça. Aquele era um dos pequeninos ajustes a
que teve de se acostumar — agora havia milhares de pessoas vendo o que ela
via, tendo acesso aos dados de seu estado de saúde, ouvindo sua voz, vendo seu
rosto —, ela estava sempre visível por meio de alguma câmera SeeChange
instalada no campus, além daquela em seu monitor — e assim, quando qualquer
coisa a desviava de sua alegria normal, as pessoas notavam.
“Mae.”
Ela queria ouvir a voz de novo, por isso não falou nada.
“Mae.”
Era a voz de uma jovem, a voz de uma jovem que soava disposta, firme e
capaz de qualquer coisa.
“Mae.”
Era uma versão melhor e mais indômita dela mesma.
“Mae.”
Ela se sentia mais forte cada vez que a ouvia.
Ela ficou na Experiência do Cliente até as cinco horas, quando mostrou a seus
espectadores a mais recente Clarificação, o governador do Arizona, e desfrutou a
surpresa da transparência de toda a equipe do governador — algo que muitos
membros do Executivo estavam fazendo, visando garantir a seus eleitores que
ninguém andava fazendo acordos às escondidas, fora da luz do líder
transparente. No evento de Clarificação, Mae encontrou Renata, Denise e Josiah
— membros do Círculo que haviam exercido algum poder sobre ela e que agora
eram seus assistentes — e depois foram todos jantar na Lanchonete de Vidro.
Havia pouca razão para sair do campus só para fazer as refeições, pois, no intuito
de suscitar mais discussões, compartilhamento de ideias e socialização entre os
membros do Círculo, Bailey havia instituído uma nova estratégia, na qual toda
comida era não apenas gratuita, como sempre tinha sido, mas também era
preparada por um chef famoso, diferente a cada dia. Os chefs ficavam contentes
com aquela divulgação de seu trabalho — milhares de membros do Círculo
sorrindo, mandando zings, postando fotos —, o projeto no mesmo instante se
tornou amplamente popular e as cafeterias transbordavam de gente e,
supostamente, de ideias.