O Círculo
O Círculo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.
DAVE EGGERS
Romance
Tradução
Rubens Figueiredo
Não havia nenhum limite, absolutamente nenhuma fronteira para o futuro. E logo o homem não teria espaço suficiente para guardar sua felicidade.
John Steinbeck, A leste do Éden
Meu Deus, pensou Mae. É o paraíso.
O campus era vasto e disperso. Frenético em sua coloração do Pacífico e no
entanto os mínimos detalhes tinham sido cuidadosamente calculados, modelados
pelas mãos mais eloquentes. Num terreno que no passado fora um estaleiro,
depois um cinema drive-in, depois um mercado de pulgas, depois um terreno
baldio, havia agora colinas verdes e uma fonte de Calatrava. E uma área de
piquenique com mesas dispostas em círculos concêntricos. E quadras de tênis, de
saibro e grama. E uma quadra de vôlei, onde crianças muito pequenas da creche
da empresa estavam correndo, berrando, ziguezagueando como água. Em meio a
tudo isso havia também um lugar de trabalho, quatrocentos acres de aço
escovado e vidro na sede da empresa mais influente no mundo. No alto, o céu
era azul e imaculado.
Mae seguia seu caminho no meio de tudo aquilo, caminhava do
estacionamento para o salão principal, tentando aparentar que fazia parte do
lugar. A calçada serpenteava entre as laranjeiras e os limoeiros. Suas silenciosas
pedras vermelhas haviam sido substituídas, em certos trechos, por ladrilhos com
suplicantes mensagens inspiradoras. “Sonhe”, dizia uma delas, a palavra cortada
a laser nas pedras vermelhas. “Participe”, dizia outra. Havia dúzias: “Descubra a
comunidade”. “Inove.” “Imagine.” Por muito pouco Mae não pisou na mão de
um jovem de macacão cinzento; ele estava fixando uma pedra nova, que dizia:
“Respire”.
Numa segunda-feira ensolarada de junho, Mae parou na frente da porta
principal, embaixo do logo gravado no alto do vidro. Embora a empresa tivesse
menos de seis anos de existência, seu nome e seu logo — um círculo em torno
de uma grade entrelaçada, com um pequeno “c” no centro — já figuravam entre
os mais conhecidos mundialmente. Ali, no campus principal, havia mais de dez
mil empregados, mas o Círculo tinha escritórios em todo o mundo e toda semana
contratava centenas de mentes jovens e talentosas. Por quatro anos seguidos,
fora eleita a empresa mais admirada do mundo.
Mae não imaginaria ter chance de trabalhar num lugar como aquele, se não
fosse por Annie. Annie era dois anos mais velha. As duas moraram juntas no
mesmo alojamento na faculdade durante três semestres, em um prédio feio que
se tornara habitável graças ao extraordinário vínculo entre elas, em parte amigas,
em parte irmãs, ou primas que gostariam de ter sido irmãs, e que tinham motivos
para nunca se separar. No primeiro mês em que moraram juntas, Mae quebrou o
maxilar ao escurecer, depois de ter sofrido um desmaio, dominada pela gripe e
mal alimentada, na época das provas finais. Annie dissera para ela ficar na cama,
mas Mae fora ao 7-Eleven atrás de cafeína e acordou na calçada, embaixo de
uma árvore. Annie levou-a para o hospital e esperou enquanto costuravam seu
maxilar, e depois ficou ao lado de Mae, dormindo perto dela a noite toda numa
cadeira de madeira, e depois em casa, durante dias, alimentou Mae por um
canudo. Era um nível ardoroso de compromisso e competência que Mae nunca
tinha visto em ninguém da sua idade ou da sua faixa de idade e, daí em diante,
Mae dedicou-se à amiga de uma forma que ela nunca havia imaginado ser capaz.
Enquanto Mae ainda estava em Carleton, saltando de um curso para outro, de
história da arte para marketing e para psicologia — diplomou-se em psicologia,
sem ter nenhum plano de seguir carreira naquele ramo —, Annie se formou, fez
o MBA em Stanford e foi chamada para trabalhar em toda parte, mas em
especial no Círculo, e conseguiu a vaga ali dias depois da formatura. Agora
Annie tinha um título pomposo — diretora de Garantia do Futuro, brincava ela
— e insistiu para que Mae se candidatasse a uma vaga. Mae fez isso e, embora
Annie tenha garantido que não havia mexido os pauzinhos lá dentro, Mae tinha
certeza de que mexera, e se sentia em dívida com ela, para além de todas as
medidas. Um milhão de pessoas, um bilhão, queriam estar onde Mae estava
naquele momento, entrando naquele átrio de dez metros de altura, atravessado
pela luz da Califórnia, em seu primeiro dia de trabalho na única empresa que
interessava de verdade.
Ela empurrou e abriu a porta pesada. O hall de entrada era comprido como
uma pista para desfiles, e alto como uma catedral. Acima dele, havia escritórios
em toda parte, quatro andares de altura dos dois lados, todas as paredes feitas de
vidro. Ligeiramente tonta, Mae olhou para baixo e, no imaculado piso lustroso,
viu o próprio rosto refletido, com ar preocupado. Ela moldou na boca um sorriso,
sentindo uma presença atrás de si.
“Você deve ser a Mae.”
Mae voltou-se para uma linda cabeça jovem que flutuava acima de uma
echarpe vermelha viva e de uma blusa de seda branca.
“Sou Renata”, disse ela.
“Oi, Renata. Estou procurando…”
“Annie. Eu sei. Ela já está vindo.” Um som — uma gotinha digital — emanou
da orelha de Renata. “Na verdade, ela está...” Renata olhava para Mae, mas via
outra coisa. Interface retiniana, supôs Mae. Mais uma inovação nascida ali.
“Ela está no Velho Oeste”, disse Renata, focalizando Mae outra vez. “Mas
estará aqui em breve.”
Mae sorriu. “Espero que ela tenha levado bolachas de água e sal e um cavalo
robusto.”
Renata sorriu educadamente, mas não riu. Mae conhecia a prática da empresa
de batizar cada parte do campus com o nome de uma época histórica; era uma
forma de tornar aquele enorme lugar menos impessoal, menos corporativo. Era
bem melhor que o Edifício 3B-Leste, onde Mae havia trabalhado em seu
emprego anterior. O último dia na empresa de serviço público em sua cidade
natal tinha sido apenas três semanas antes — ficaram estupefatos quando ela deu
a notícia —, mas já parecia impossível que Mae tivesse desperdiçado tanto
tempo de sua vida lá. Já vai tarde, pensou ela sobre aquele gulag e tudo o que ele
representava.
Renata continuava a receber sinais de seu fone. “Ah, espere”, disse ela.
“Agora Annie está dizendo que ainda vai ficar presa por lá.” Renata olhou para
Mae com um sorriso radiante. “Por que não vamos para sua mesa? Ela diz que
encontra você lá daqui a mais ou menos uma hora.”
Mae sentiu um pequeno tremor de emoção ao ouvir aquelas palavras, sua
mesa, e imediatamente pensou no pai. Ele estava orgulhoso. Muito orgulhoso,
dissera no correio de voz de Mae; ele deve ter deixado o recado às quatro da
manhã. Mae ouviu a mensagem quando acordou. Muito orgulhoso mesmo,
dissera ele, perdendo a fala. Fazia dois anos que Mae terminara a faculdade e lá
estava ela, em um emprego remunerado no Círculo, com seguro-saúde,
apartamento na cidade, sem ser um fardo para os pais, que já tinham muitas
outras preocupações.
Mae seguiu Renata e saiu do átrio. No gramado, sob a luz matizada, um par de
jovens estava sentado numa colina artificial, segurando uma espécie de
prancheta transparente e falando com muita veemência.
“Você vai ficar no Renascimento, logo ali”, disse Renata, apontando para o
outro lado do gramado, para um prédio de vidro e cobre oxidado. “Ali é onde
fica todo o pessoal de Experiência do Cliente. Você já esteve lá?”
Mae fez que sim com a cabeça. “Já. Algumas vezes, mas não nesse prédio.”
“Então você viu a piscina, a área de esportes.” Renata apontou na direção de
um paralelogramo azul e de um prédio anguloso, o ginásio, que se erguia por
trás. “Lá daquele lado tem um estúdio de ioga, crossfit, pilates, massagens,
spinning. Ouvi falar que você faz spinning, não é? E atrás disso tudo ficam as quadras de bocha e a nova quadra de espirobol. A lanchonete do outro lado do
gramado...” Renata apontou para os exuberantes morros verdes, com um
punhado de jovens vestidos de maneira formal e jogados no gramado, como se
estivessem tomando banho de sol. “E aqui estamos.”
Pararam diante da Renascimento, outro prédio com um átrio de doze metros
de altura. Um móbile de Calder rodava suavemente no alto.
“Ah, eu adoro o Calder”, disse Mae.
Renata sorriu. “Sei que adora.” Ergueram os olhos para o móbile outra vez.
“Esse aí ficava no Parlamento francês. Ou algo assim.”
O vento que as seguira até ali agora fez o móbile girar dando a impressão de
que um braço apontava para Mae e dava boas-vindas a ela pessoalmente. Renata
segurou-a pelo cotovelo. “Está pronta? Por aqui.”
Entraram num elevador de vidro, com um leve matiz de laranja. Luzes
piscaram e Mae viu seu nome aparecer nas paredes, junto com uma fotografia
sua publicada no livro do ano do colégio onde cursara o ensino médio. BEM-
VINDA, MAE HOLLAND. Um som, algo como um arquejo, escapou da
garganta de Mae. Fazia anos que não via aquela fotografia e estivera feliz com
sua ausência. Aquilo devia ser coisa de Annie, atacá-la de novo com a fotografia.
A imagem era de fato de Mae — a boca larga, os lábios finos, a pele morena, o
cabelo preto, mas na fotografia, ainda mais do que na vida real, as maçãs do
rosto lhe davam um ar de severidade, os olhos castanhos não eram sorridentes,
apenas pequenos e frios, prontos para a guerra. Desde que a foto fora tirada —
ela tinha dezoito anos na época, era raivosa e insegura —, Mae tinha ganhado o
peso necessário, o rosto se suavizara e as curvas apareceram, curvas que atraíam
a atenção de homens de diferentes idades e motivações. Desde o tempo do
colégio, ela havia tentado ser mais aberta, mais receptiva, mas ver ali aquele
documento de uma era remota, quando ela esperava o pior do mundo, deixou-a
abalada. No instante em que Mae já não conseguia mais suportar a fotografia, a
imagem desapareceu.
“Sim, tudo está nos sensores”, disse Renata. “O elevador lê sua identificação e
então dá boas-vindas. Annie nos forneceu essa fotografia. Vocês duas devem ser
muito ligadas para ela ter fotos suas do colégio. De todo modo, espero que não
se importe. Fazemos isso sobretudo para os visitantes. Normalmente, eles ficam
impressionados.”
Enquanto o elevador subia, as atividades programadas do dia apareciam em
todas as suas paredes. As imagens e o texto viajavam de uma parede para a
outra. Para cada anúncio, havia um vídeo, fotografias, animação, música. Eles
teriam uma projeção de Koyaanisqatsi ao meio-dia, uma demonstração de
automassagem à uma hora, fortalecimento do core às três. Um congressista grisalho mas jovem, de quem Mae nunca tinha ouvido falar, ia participar de um
debate aberto ao público às seis e meia. Na porta do elevador, ele falava em cima
de um palanque, em outro lugar, bandeiras ondulavam acima dele, as mangas da
camisa arregaçadas e as mãos fechadas em punhos fervorosos.
As portas abriram, partindo o congressista ao meio.
“Aqui estamos”, disse Renata, seguindo para uma estreita passarela de grade
de aço. Mae olhou para o chão e sentiu um aperto no estômago. Dava para ver o
térreo, quatro andares abaixo.
Ela tentou se mostrar descontraída: “Aposto que não trazem para cá ninguém
que sofra de vertigem”.
Renata parou e virou-se para Mae, com ar de séria preocupação. “Claro que
não. Mas seu perfil diz...”
“Não, não”, disse Mae. “Está tudo bem.”
“Sério. Podemos instalar você num andar mais baixo se...”
“Não, não. De verdade. Está ótimo. Desculpe, eu estava fazendo uma
brincadeira.”
Renata ficou visivelmente abalada. “Tudo bem. Mas me diga se alguma coisa
estiver errada.”
“Pode deixar.”
“Você me avisa mesmo? Porque a Annie quer que eu tenha certeza.”
“Aviso. Prometo”, respondeu Mae, e sorriu para Renata, que se recompôs e
seguiu em frente.
A passarela levava ao piso principal, largo, com janelas, cortado por um
corredor comprido. De ambos os lados, os escritórios defrontavam-se com
vidraças que iam do chão ao teto, os ocupantes visíveis lá dentro. Todos tinham
decorado seu espaço rebuscadamente, mas com bom gosto — um escritório
estava repleto de objetos náuticos, a maior parte deles parecia pairar no ar,
suspensos nas vigas expostas; outro era todo ornamentado com bonsais. As duas
passaram por uma pequena cozinha, as prateleiras e os armários feitos de vidro,
os talheres magnéticos, presos à geladeira numa grade bem-arrumada, tudo
iluminado por um vasto lustre de vidro soprado feito à mão, radiante, com
lâmpadas coloridas, seus braços abertos em laranja, pêssego e rosa.
“Pronto, aqui está.”
Pararam num cubículo cinzento, pequeno, revestido de um tecido semelhante
a um linho sintético. O coração de Mae fraquejou. Era quase exatamente igual ao
cubículo onde ela havia trabalhado nos últimos dezoito meses. Era a primeira
coisa que via no Círculo que não tinha sido repensada, que guardava alguma
semelhança com o passado. O tecido que revestia as paredes do cubículo era —
ela não conseguia acreditar, não parecia possível — aniagem.
Mae sabia que Renata estava olhando para ela e sabia que seu rosto revelava
algo como o horror. Sorria, pensou. Sorria.
“Está bom?”, perguntou Renata, enquanto seus olhos percorriam todo o rosto
de Mae.
Mae obrigou a boca a exprimir algum grau de satisfação. “Ótimo. Muito
bonito.”
Não era o que ela esperava.
“Então, está certo. Vou deixar você sozinha para se familiarizar com seu lugar
de trabalho. Daqui a pouco Denise e Josiah virão orientar e instalar você.”
Mae torceu a boca de novo num sorriso. Renata deu meia-volta e foi embora.
Mae sentou, notou que o espaldar da cadeira estava meio quebrado, que a
cadeira não se mexia, as rodinhas pareciam travadas, todas elas. Um computador
tinha sido colocado sobre a mesa, mas era um modelo muito antigo, que ela não
tinha visto em lugar nenhum daquele prédio. Mae estava perplexa e via seu
estado de ânimo afundar no mesmo tipo de abismo em que ela havia passado os
últimos anos.
Alguém ainda trabalhava de fato numa empresa de serviço público? Como
Mae tinha ido parar lá? Como tinha conseguido suportar? Quando as pessoas
perguntavam onde ela trabalhava, Mae se sentia mais inclinada a mentir e dizer
que estava desempregada. Teria sido melhor se Mae não estivesse em sua cidade
natal?
Depois de mais ou menos seis anos de aversão por sua cidade, amaldiçoando
os pais por terem se mudado para lá e sujeitá-la àquele lugar, a suas limitações e
à escassez de tudo — diversão, restaurantes, mentes esclarecidas —, Mae havia
se lembrado recentemente de Longfield com algo similar à ternura. Era uma
cidade pequena entre Fresno e Tranquillity, constituída e batizada por um
fazendeiro de pouca imaginação, em 1866. Cento e cinquenta anos depois, sua
população tinha alcançado pouco menos de duas mil almas, a maioria
trabalhando em Fresno, a trinta e dois quilômetros de distância. Longfield era
um lugar barato para morar. Os pais dos amigos de Mae eram seguranças,
professores, caminhoneiros que gostavam de caçar. Dos oitenta e um alunos na
turma da formatura de Mae, ela foi um dos doze que entraram numa faculdade
para um curso de quatro anos, e a única que foi para além do leste do Colorado.
O fato de ter ido tão longe, e ter feito uma dívida tão grande, só para voltar e
trabalhar na empresa de serviço público local deixava Mae arrasada, e também
seus pais, embora exteriormente dissessem que ela estava fazendo o que era
correto, aproveitando uma oportunidade sólida para começar a saldar suas
dívidas.
O prédio da empresa, 3B-Leste, era um lamentável bloco de cimento com
estreitas fendas verticais como janelas. Por dentro, a maioria dos escritórios
tinha paredes feitas de blocos de concreto, tudo pintado de um verde enjoativo.
Era como trabalhar num vestiário. Mae era a pessoa mais jovem em todo o
edifício, com cerca de uma década de diferença, e mesmo aqueles que estavam
na casa dos trinta anos eram de outro século. Eles ficavam maravilhados com os
conhecimentos dela em computação, que eram básicos e elementares entre todas
as pessoas que ela conhecia. Mas seus colegas de trabalho ficavam assombrados.
Chamavam Mae de Relâmpago Negro, uma referência indireta a seu cabelo, e
lhe diziam que ela tinha um futuro brilhante na empresa, se soubesse aproveitar
as oportunidades. Em quatro ou cinco anos, diziam-lhe, ela poderia ser a chefe
do setor de TI de toda a subestação! A irritação de Mae não tinha limites. Ela
não havia terminado a faculdade e pagado duzentos e trinta e quatro mil dólares
por uma educação de elite para no final acabar num emprego como aquele. Mas
era um emprego e ela necessitava de dinheiro. Seus empréstimos para estudar
eram vorazes e precisavam ser alimentados mensalmente, portanto ela aceitou o
emprego e o salário, mas ficava de olhos bem abertos para pastagens mais
verdejantes.
Seu supervisor imediato era um homem chamado Kevin, que exercia a função
ostensiva de encarregado de tecnologia na empresa, mas que, numa estranha
distorção, nada sabia de tecnologia. Conhecia cabos, separadores de saída; ele
devia estar operando um radioamador no porão de sua casa e não
supervisionando Mae. Todo dia, todo mês, ele vestia as mesmas camisas de
manga curta e colarinho abotoado, as mesmas gravatas cor de ferrugem. Ele era
uma tremenda agressão aos sentidos, seu bafo tinha cheiro de presunto e seu
bigode, eriçado e torto, era como duas pequeninas patas que emergiam, uma para
o sudoeste, outra para o sudeste, de suas narinas sempre dilatadas.
Tudo aquilo estaria muito bem, suas numerosas ofensas, se não fosse o fato de
ele realmente acreditar que Mae levava aquele trabalho a sério. Ele achava que
Mae, formada em Carleton, com seus sonhos raros e dourados, dava importância
àquele emprego na companhia de gás e eletricidade. Que ela ficaria preocupada
se algum dia Kevin julgasse que seu desempenho estava abaixo da média.
Aquilo a deixava louca.
As vezes em que Kevin pedia para Mae entrar em seu gabinete, fechando a
porta e sentando na ponta de sua mesa, eram momentos torturantes. Você sabe
por que está aqui?, ele perguntava, como se fosse um policial rodoviário que
mandara Mae parar o carro no acostamento. Outras vezes, quando estava
satisfeito com algum trabalho que ela fizera naquele dia, Kevin fazia algo pior: a
elogiava. Chamava-a de sua protégée. Ele adorava a palavra. Apresentava Mae aos visitantes assim: “Esta é minha protégée, Mae. É muito sabida, quase
sempre” — e então piscava o olho para ela, como se fosse um capitão e ela seu
imediato, ambos veteranos de muitas aventuras turbulentas e sempre dedicados
um ao outro. “Se ela não se atrapalhar, tem um grande futuro à sua frente por
aqui.”
Mae não conseguia suportar. Todos os dias naquele emprego, durante os
dezoito meses em que tinha trabalhado ali, ela se perguntava se podia de fato
pedir um favor para Annie. Nunca fora o tipo de pessoa capaz de pedir algo
assim, ser salva, ser içada. Era uma espécie de exigência, de insistência, de
impetuosidade — seu pai chamara assim —, algo que não fazia parte de sua
natureza. Seus pais eram pessoas sossegadas, que não gostavam de ficar no
caminho de ninguém, pessoas sossegadas e orgulhosas que não pediam nada a
qualquer um.
E Mae era do mesmo jeito, mas aquele emprego a forçava a ser outra coisa, a
ser alguém que faria tudo para ir embora dali. Era de dar enjoo tudo aquilo. Os
blocos de concreto verdes. Um bebedouro de água gelada de verdade. Cartões
perfurados de verdade. Certificados de mérito de verdade, quando alguém fazia
alguma coisa considerada especial. E as horas! Das nove às cinco, de verdade!
Tudo aquilo dava a sensação de uma coisa de outro tempo, de um tempo
merecidamente esquecido, e fazia Mae sentir não apenas que ela estava
desperdiçando sua vida, mas que aquela empresa toda era um desperdício de
vida, um desperdício de potencial humano, e que retardava o movimento
giratório da Terra. O cubículo naquele lugar, seu cubículo, era a destilação de
tudo aquilo. As paredes baixas à sua volta, feitas para facilitar sua concentração
total no trabalho, estavam revestidas de aniagem, como se qualquer outro
material pudesse distraí-la, pudesse conter alusões a maneiras mais exóticas de
passar seus dias. E assim ela havia vivido dezoito meses num escritório onde
eles achavam que, entre todos os materiais que o homem e a natureza ofereciam,
aquele que seus funcionários deveriam ver, o dia todo e todos os dias, era a
aniagem. Ah, meu Deus, pensou Mae, pois quando deixou aquele lugar jurou
nunca mais ver, tocar ou tomar conhecimento da existência daquele pano.
E ela não esperava ver aquilo outra vez. Com que frequência, fora do século
XIX, fora de um armazém do século XIX, alguém poderia deparar com
aniagem? Mae supôs que nunca mais veria aquilo, porém lá estava ela, à sua
volta, em todos os lados, em seu novo espaço de trabalho no Círculo, olhando
para aquilo, sentindo seu cheiro de mofo; os olhos de Mae se encheram de água.
“Merda de aniagem”, resmungou para si mesma.
Atrás, Mae ouviu um suspiro e depois uma voz: “Agora estou achando que
essa ideia não foi lá muito boa”.
Mae virou-se e viu Annie, as mãos fechadas e apoiadas nos quadris, numa
pose de criança birrenta. “Merda de aniagem”, disse Annie, imitando o beicinho
de Mae, e depois soltou uma gargalhada. Quando terminou de rir, ela conseguiu
dizer: “Isso foi incrível. Muito obrigada por isso, Mae. Eu sabia que você ia
detestar, mas eu queria ver até que ponto. Desculpe por ter feito você quase
chorar. Nossa!”.
Agora Mae olhou para Renata, cujas mãos estavam erguidas num gesto de
rendição. “Não foi ideia minha!”, disse ela. “Annie me colocou nessa! Não me
odeie!”
Annie suspirou de satisfação. “Na verdade eu tive de comprar este cubículo
no Walmart. E o computador! Levei um século para encontrar na internet. Achei
que a gente podia simplesmente trazer um troço assim lá do porão ou de algum
depósito, mas honestamente não tínhamos nada em todo o campus que fosse tão
feio ou tão velho assim. Ah, meu Deus, você precisava ter visto a sua cara.”
O coração de Mae estava batendo com força. “Você é muito maluca mesmo.”
Annie se fez de desentendida. “Eu? Não sou maluca. Sou incrível.”
“Não consigo acreditar que se deu a esse trabalho só para me perturbar.”
“Bem, fiz isso mesmo. Foi assim que cheguei onde estou. É tudo uma questão
de planejamento e execução.” Piscou o olho para Mae, como se fosse uma
vendedora. Mae não pôde deixar de rir. Annie era mesmo uma pirada. “Agora
vamos. Vou fazer um tour completo com você.”
Enquanto a acompanhava, Mae teve de lembrar a si mesma que Annie nem
sempre tinha sido uma alta executiva numa empresa como o Círculo. Houve um
tempo, apenas quatro anos antes, em que Annie era uma estudante universitária
que usava calças de flanela masculinas para ir à aula, a um jantar ou sair com
alguém. Annie era aquilo que um de seus namorados, e houve muitos — sempre
monogâmicos, sempre corretos —, chamava de lesada. Mas ela podia se dar a
esse luxo. Annie nasceu montada em dinheiro, em gerações de dinheiro, e era
muito charmosa, com covinhas no rosto e cílios longos, o cabelo tão louro que
nem parecia de verdade. Era conhecida por todos como efervescente, parecendo
incapaz de deixar que qualquer coisa a incomodasse por mais de alguns
instantes. Mas também era lesada. Era alta, magra e desengonçada e, quando
falava, usava as mãos de forma frenética, perigosa. Era dada a fazer bizarras
digressões em uma conversa e a ter obsessões estranhas — cavernas, perfumaria
amadora, música doo-wop. Era simpática com todos seus ex-namorados, com
todos seus casos passageiros, com todos os professores (ela conhecia todos
pessoalmente e lhes mandava presentes). Ela havia competido ou participado de
todos os clubes e de todas as causas da faculdade e, no entanto, ainda arranjava tempo para se dedicar aos estudos — a tudo, na verdade —, ao mesmo tempo em
que, em todas as festas, era quem mais fazia papel de boba só para deixar todo
mundo à vontade, e a última a sair. A única explicação racional para tudo isso
seria dizer que ela não dormia, mas não era o caso. Annie dormia de modo
imoral, de oito a dez horas por dia, era capaz de pegar no sono em qualquer lugar
— numa viagem de carro de três minutos, na mesa sórdida de uma lanchonete
fora do campus, no sofá de qualquer pessoa —, a qualquer hora.
Mae sabia disso por experiência própria, pois tinha sido uma espécie de
motorista para Annie em longas viagens por Minnesota, Wisconsin e Iowa para
incontáveis e insignificantes competições em trilhas pelo interior do país. Mae
tinha obtido uma bolsa de estudos parcial em Carleton. Foi lá que conheceu
Annie, que era boa sem fazer força, dois anos mais velha, mas que só de forma
intermitente se preocupava com a possibilidade de ela mesma ou sua equipe
ganhar ou perder. Numa hora Annie parecia mergulhar de cabeça na disputa,
espinafrando os oponentes, avacalhando seus uniformes ou suas notas na prova
de admissão para a universidade. Noutra, ela se mostrava totalmente
desinteressada do resultado, mas feliz por estar participando da viagem. Era nas
viagens mais longas, no carro de Annie — que ela preferia que Mae dirigisse —,
que ela punha os pés descalços para fora da janela e fazia comentários jocosos
sobre o cenário que passava, e especulava durante horas sobre o que acontecia
no dormitório de seus treinadores, que eram casados e usavam ambos um corte
de cabelo igual, quase no estilo militar. Mae ria de tudo que Annie dizia,
mantendo seu pensamento longe das competições, nas quais ela, diferente de
Annie, tinha de vencer, ou pelo menos se sair bem, para justificar o subsídio que
a faculdade havia lhe concedido. Elas sempre chegavam poucos minutos antes
da competição, e Annie sempre esquecia de qual corrida ela tinha de participar,
ou até se queria de fato correr.
Portanto como era possível que aquela pessoa atrapalhada e ridícula, que
ainda levava no bolso um pedaço do seu cobertorzinho de infância, tivesse
subido tão alto e tão depressa no Círculo? Agora ela fazia parte das quarenta
mentes mais importantes da empresa — a Gangue dos 40 —, ficando a par dos
planos e dos dados mais secretos. Como havia conseguido cavar a contratação de
Mae sem precisar suar? Como havia conseguido arranjar tudo em poucas
semanas, depois que Mae engoliu seu orgulho e atendeu ao pedido dela? Era
uma prova da vontade interior de Annie, algum misterioso e íntimo sentido de
destino. Exteriormente, Annie não demonstrava nenhum sinal de ambição
gritante, mas Mae tinha certeza de que havia alguma coisa nela que exigia que
ela estivesse lá, naquela posição, não importando de onde tivesse vindo. Se
Annie tivesse crescido na tundra siberiana, nascido cega no meio de pastores, ainda assim, agora, teria chegado ali.
“Obrigada, Annie”, Mae ouviu a própria voz dizer.
Tinham passado por algumas salas de reunião e salas de estar e estavam
percorrendo a nova galeria de arte da empresa, onde estavam pendurados meia
dúzia de Basquiats, recém-adquiridos de um museu à beira da falência, em
Miami.
“Ah tá”, respondeu Annie. “E lamento que você tenha ficado em Experiência
do Cliente. Sei que parece uma merda, mas devo lhe informar que metade dos
altos executivos da empresa começou lá. Você acredita em mim?”
“Acredito.”
“Ótimo, porque é verdade.”
Saíram da galeria de arte e entraram na cafeteria do segundo andar —
“Lanchonete de Vidro, sei que é um nome terrível”, disse Annie —, projetada de
modo que os frequentadores comessem em nove níveis diferentes, todos com
paredes e chão de vidro. À primeira vista, parecia que cem pessoas comiam
flutuando no ar.
Atravessaram a Sala do Empréstimo, onde tudo, de bicicletas a telescópios e
asas-deltas, podia ser emprestado de graça para qualquer pessoa da empresa, e
entraram no aquário, um projeto promovido por um dos fundadores. As duas
pararam na frente de um painel, da mesma altura que elas, onde águas-vivas,
fantasmagóricas e vagarosas, subiam e caíam sem nenhum padrão ou motivo
aparente.
“Vou ficar de olho em você”, disse Annie, “e toda vez que fizer uma coisa
bacana vou cuidar para que todo mundo saiba e assim você não tenha de ficar lá
por muito tempo. Aqui as pessoas sobem de maneira muito honesta e, como
você sabe, nós contratamos quase exclusivamente o pessoal de dentro da
empresa. Portanto, faça sua parte bem, não tente aparecer demais e você vai ficar
espantada com a rapidez com que vai sair de Experiência do Cliente e passar
para alguma coisa mais interessante.”
Mae mirou no fundo dos olhos de Annie, que brilhavam à luz do aquário.
“Não se preocupe. Estou feliz de estar aqui, em qualquer lugar.”
“É melhor estar no primeiro degrau de uma escada que a gente quer subir do
que no meio de uma escada que não interessa, certo? Uma escadinha de cagões
feita de merda.”
Mae riu. Foi o choque de ouvir tamanha indecência vindo de um rosto tão
doce. “Você sempre falou tanto palavrão assim? Não me lembro desse seu lado.”
“Falo assim quando estou cansada, o que acontece o tempo todo.”
“Antigamente você era uma menina tão delicada.”
“Desculpe. Porra, me desculpe, Mae! Caralho, Mae! Tudo bem, vamos ver mais uma coisa. O canil!”
“Mas não vamos trabalhar hoje?”, perguntou Mae.
“Trabalhar? Isto é trabalho. Esta é a tarefa que cabe a você cumprir em seu
primeiro dia: conhecer tudo, as pessoas, se aclimatar. Sabe, é como quando a
gente instala um piso novo de madeira em casa...”
“Não, eu nunca fiz isso.”
“Bem, quando você fizer, vai ver que primeiro terá de deixar o piso descansar
por dez dias para a madeira se aclimatar. Só depois você faz a instalação.”
“Portanto, nessa analogia, eu sou a madeira?”
“Você é a madeira.”
“E depois vou ser instalada.”
“Sim, depois vamos instalar você. Vamos pregar você com dez mil
preguinhos. Você vai adorar.”
Visitaram o canil, uma criação de Annie, cujo cachorro, Dr. Kinsmann, tinha
falecido havia pouco tempo, mas que passara alguns anos muito felizes ali,
sempre perto da dona. Por que milhares de empregados tinham de deixar seus
cães em casa, quando os animais podiam ser levados para lá e ficarem próximos
das pessoas e de outros cães, receberem cuidados e não ficarem sozinhos? Essa
havia sido a lógica de Annie, rapidamente abraçada e agora considerada como
algo visionário. Depois, elas viram a boate — muitas vezes usada durante o dia
para algo denominado dança extática, um grande exercício físico, disse Annie —
e viram o grande anfiteatro ao ar livre e o pequeno teatro coberto — “temos aqui
uns dez grupos de comédia de improviso” — e depois de terem visto tudo isso,
foram almoçar na cafeteria do primeiro andar, mais ampla, onde, num canto,
sobre um pequeno palco, havia um homem tocando violão, que parecia um
antigo cantor e compositor que os pais de Mae ouviam.
“Não é o...?”
“É sim”, disse Annie, sem interromper o passo. “Tem uma pessoa diferente
todo dia. Músicos, comediantes, escritores. Esse projeto é a menina dos olhos de
Bailey: trazer essas pessoas para cá para que ganhem alguma exposição,
sobretudo tendo em vista as dificuldades que elas enfrentam lá fora.”
“Eu sabia que elas vinham algumas vezes, mas você está dizendo que é todo
dia?”
“Programamos tudo com um ano de antecedência. Temos de nos esquivar da
pressão que elas fazem.”
O cantor e compositor cantava com fervor, a cabeça inclinada, o cabelo
cobrindo os olhos, os dedos correndo nas cordas de modo febril, mas a grande
maioria da cafeteria prestava pouca ou nenhuma atenção.
“Não consigo imaginar o cachê que ele ganha por isso”, disse Mae.
“Ah, meu Deus, a gente não paga para eles. Ah, espere, você precisa conhecer
esse cara.”
Annie deteve um homem chamado Vipul, que em breve, segundo Annie, ia
reinventar a televisão, uma mídia, mais do que qualquer outra, presa no século
XX.
“Tente XIX”, disse ele, com um leve sotaque indiano, em seu inglês preciso e
pomposo. “É o último lugar onde os clientes jamais conseguem obter aquilo que
desejam. O último vestígio dos acordos feudais entre o produtor e o espectador.
Não somos mais vassalos!”, disse ele, e em seguida pediu licença para se retirar.
“Esse cara está num outro nível”, disse Annie, enquanto atravessavam a
cafeteria. Pararam cinco ou seis mesas adiante, onde encontraram pessoas
fascinantes. Todas trabalhavam em algo que Annie considerava capaz de abalar
o mundo ou de transformar a vida ou de estar cinquenta anos à frente de todo o
resto. A abrangência do trabalho feito ali era espantosa. Encontraram uma dupla
de mulheres que trabalhava num veículo de exploração submersa que tornaria a
Fossa das Marianas um lugar sem mais nenhum mistério. “Elas vão mapeá-la
como se fossem as ruas de Manhattan”, disse Annie, e as duas mulheres não
contestaram aquela hipérbole. Detiveram-se junto a uma mesa onde um trio de
homens jovens olhavam para uma tela, embutida no tampo da mesa, que exibia
desenhos tridimensionais de um novo tipo de habitação de baixo custo que podia
ser facilmente adotada por países em desenvolvimento.
Annie segurou a mão de Mae e puxou-a para a saída. “Agora estamos vendo a
Biblioteca Ocre. Já tinha ouvido falar dela?”
Mae não tinha, mas não queria dar essa resposta.
Annie lhe dirigiu um olhar cúmplice. “Você não deveria ver, mas eu decidi
que vamos lá.”
Entraram num elevador de acrílico e de luz neon e subiram pelo átrio, todos os
pisos e escritórios eram visíveis, enquanto elas ascendiam os quatro andares.
“Não consigo entender como coisas assim entram no resultado financeiro da
empresa”, disse Mae.
“Ah, meu Deus, eu também não sei. Mas aqui a questão não é só dinheiro, e
eu acho que você sabe disso. Há receita suficiente para bancar as paixões da
comunidade. Aqueles caras trabalhando na habitação sustentável eram
programadores, mas alguns deles estudaram arquitetura. Então eles redigiram
uma proposta e os Sábios ficaram malucos com a ideia. Sobretudo o Bailey. Ele
adora apoiar a curiosidade de mentes jovens e talentosas. E sua biblioteca
desvairada. Este é o andar.”
Saíram do elevador e entraram num corredor comprido, todo paramentado em
vermelho-cereja e nogueira; uma série de pequenos lustres emitia uma luz calma, cor de âmbar.
“Das antigas”, observou Mae.
“Você sabe a respeito do Bailey, né? Ele adora essas merdas velhas. Mogno,
bronze, vitrais. Essa é a estética dele. Bailey não manda no resto dos prédios,
mas aqui ele faz as coisas do seu jeito. Olhe só isso.”
Annie parou diante de uma pintura grande, um retrato dos Três Homens
Sábios. “Medonho, né?”, disse ela.
A pintura era canhestra, o tipo de coisa que um artista do ensino médio podia
produzir. Nela, os três homens, os fundadores da empresa, estavam dispostos
numa pirâmide, cada um vestido em suas roupas mais conhecidas, com
expressões que revelavam, de modo caricato, suas personalidades. Ty
Gospodinov, o visionário menino-prodígio do Círculo, usava óculos comuns e
um enorme agasalho de moletom com capuz, olhava para a esquerda e sorria;
parecia estar desfrutando algum momento sozinho, sintonizado numa frequência
distante. Diziam que beirava a Síndrome de Asperger e o retrato parecia querer
sublinhar esse aspecto. Com seu cabelo escuro e desalinhado, o rosto sem rugas,
aparentava não ter mais de vinte e cinco anos.
“Ty parece que não está nem aí, né?”, disse Annie. “Mas não pode ser.
Nenhum de nós estaria aqui se ele não fosse também um puta mestre na gestão.
É melhor eu explicar logo a dinâmica do troço. Você vai subir depressa, portanto
vou pintar logo o quadro para você.”
Ty, nome de nascimento Tyler Alexander Gospodinov, foi o primeiro Sábio,
explicou Annie, e todo mundo sempre o chamou apenas de Ty.
“Sei disso”, respondeu Mae.
“Agora não me interrompa. Estou fazendo para você o mesmo discurso que
faço para chefes de Estado que vêm aqui.”
“Está bem.”
Annie prosseguiu.
Ty se deu conta de que era, na melhor hipótese, socialmente desajeitado e, na
pior, um completo desastre no plano interpessoal. Portanto, apenas seis meses
antes do IPO, a oferta pública inicial das ações da empresa na Bolsa de Valores,
ele tomou uma decisão muito sábia e lucrativa: contratou os outros dois Sábios,
Eamon Bailey e Tom Stenton. O gesto aplacou os temores de todos os
investidores e, no final das contas, triplicou o valor da empresa. O IPO captou
três bilhões de dólares, uma cifra sem precedentes mas não inesperada, e com
todas as preocupações monetárias de lado e com Stenton e Bailey no mesmo
barco, Ty passou a ser visto cada vez menos no campus e na mídia. Tornou-se
mais recluso e a aura à sua volta, intencionalmente ou não, apenas cresceu.
Observadores do Círculo se perguntavam: Onde está Ty e o que ele anda planejando? Aqueles planos eram desconhecidos, até que foram revelados e, a
cada sucessiva inovação lançada pelo Círculo, tornava-se menos claro qual tinha
nascido do próprio Ty e qual era produto do grupo cada vez maior de inventores,
os melhores do mundo, que agora se encontravam no âmbito da empresa.
A maioria dos observadores supunha que ele continuava envolvido no
trabalho e alguns até insistiam que suas impressões digitais — seu jeito para
soluções globais, elegantes e infinitamente escaláveis — se encontravam em
todas as inovações importantes do Círculo. Ele havia fundado a empresa depois
de cursar um ano de faculdade, sem nenhum discernimento especial para os
negócios ou objetivos mensuráveis. “A gente o chamava de Niágara”, disse seu
colega de dormitório numa das primeiras reportagens sobre Ty. “As ideias
simplesmente vinham do nada, um milhão de ideias jorravam de sua cabeça,
todos os segundos de todos os dias, de modo interminável e avassalador.”
Ty havia concebido o sistema inicial, o Sistema Operacional Unificado, que
combinava on-line tudo aquilo que antes estava separado e bagunçado — perfis
dos usuários das redes sociais, seus sistemas de pagamento, suas várias senhas,
suas contas de e-mail, seus nomes de usuário, preferências, todas as ferramentas
e manifestações de seus interesses. A maneira antiga — uma nova transação, um
novo sistema para cada site, para cada compra — era como entrar num carro
diferente cada vez que quisesse dar uma voltinha por aí. “A gente não devia ser
obrigado a ter oitenta e sete carros”, disse ele, mais tarde, depois que seu sistema
havia dominado a internet e o mundo.
Em vez disso, ele pôs tudo, todas as necessidades e ferramentas dos usuários,
num mesmo saco e inventou o TruYou — uma conta, uma identidade, uma
senha, um sistema de pagamento por pessoa. Não havia mais senhas, múltiplas
identidades. Seus dispositivos sabiam quem você era e que sua única identidade
— o TruYou, inviolável e sem máscaras — era a pessoa pagando, assinando,
respondendo, vendo e revendo, olhando e sendo olhada. Era preciso usar seu
nome verdadeiro, que estava vinculado a seus cartões de crédito, seu banco, e
assim era simples pagar qualquer coisa. Um botão para o resto de sua vida on-
line.
Para usar qualquer uma das ferramentas do Círculo, e eram as melhores
ferramentas, as mais onipresentes, livres e dominantes, a pessoa tinha de usá-las
como ela mesma, como sua pessoa real, como seu TruYou. A era das identidades
falsas, do ladrão de identidades, do usuário de múltiplos nomes, das senhas e
formas de pagamento complicadas tinha chegado ao fim. A qualquer momento
que a pessoa quisesse ver qualquer coisa, usar qualquer coisa, comentar qualquer
coisa ou comprar qualquer coisa, era um botão, uma conta, tudo vinculado e
unido, rastreável e simples, tudo operável por meio de celular ou laptop, tablet ou retina. Após criada, a conta única transportava o usuário a todos os rincões da
internet, a todos os portais, a todos os sites de pagamento, a tudo o que se
quisesse fazer.
Em um ano, o TruYou havia mudado completamente a internet. Embora
alguns sites tenham se mostrado resistentes a princípio e os defensores da
internet livre tenham protestado em defesa do direito de se manter anônimo on-
line, a onda do TruYou cresceu e esmagou todas as oposições relevantes.
Começou nos sites de comércio. Por que um site que não fosse de pornografia
precisava ter usuários anônimos, quando podiam saber exatamente quem tinha
entrado pela porta? Do dia para a noite, todos os fóruns de comentários se
tornaram educados, todas as postagens se mostraram responsáveis. Os trolls, que
haviam mais ou menos dominado a internet, foram levados de volta para as
trevas.
E aqueles que desejavam ou precisavam rastrear os movimentos dos
consumidores on-line tinham encontrado seu Valhala: os hábitos de compra reais
de pessoas reais agora se encontravam cristalinamente mapeáveis e mensuráveis,
e o marketing para essas pessoas reais podia ser feito com uma precisão
cirúrgica. A maioria dos usuários do TruYou, a maioria dos usuários da internet
que desejava apenas simplicidade, eficiência, uma experiência clara e ágil, se
mostrou empolgada com os resultados. Não precisariam mais memorizar vinte
identidades e senhas diferentes; não precisariam mais tolerar a loucura e a ira de
hordas de anônimos; não precisariam mais ter de lidar com marketing de
chumbo grosso que mirava, na melhor hipótese, a um quilômetro de seus
desejos. Agora as mensagens que recebiam eram direcionadas e precisas e, na
maior parte do tempo, até bem-vindas.
E Ty descobrira tudo aquilo mais ou menos por acidente. Ele estava farto de
ter que se lembrar de suas identidades, de suas senhas e de ter que fornecer os
dados de seu cartão de crédito, portanto concebeu um código para simplificar
tudo aquilo. Será que foi de propósito que usou as letras iniciais de seu nome em
TruYou? Ele disse que só depois se deu conta da relação. Será que tinha alguma
ideia das implicações comerciais do TruYou? Disse que não, e a maior parte das
pessoas acreditou que era verdade, que a monetização das inovações de Ty
proveio dos outros dois Sábios, que tinham a experiência e a perspicácia nos
negócios para fazer aquilo acontecer. Foram eles que monetizaram o TruYou,
que descobriram meios para colher receitas de todas as inovações de Ty, que
expandiram a empresa e a transformaram na potência que subjugou o Facebook,
o Twitter, o Google e, por fim, o Alacrity, o Zoopa, o Jefe e o Quan.
“O Tom não está muito bem aqui”, comentou Annie. “Ele não é tão agressivo
assim. Mas ouvi dizer que adora esse quadro.”
No lado esquerdo inferior de Ty estava Tom Stenton, o CEO que percorria o
mundo e que se autodefinia como Supremo Capitalista — ele adorava os
Transformers —, usando um terno italiano e sorrindo como o lobo que comeu a
vovozinha da Chapeuzinho Vermelho. Tinha cabelo escuro, ligeiramente
grisalho nas têmporas, olhos opacos, impenetráveis. Tinha bem aquele jeito dos
negociantes de Wall Street dos anos 1980, que não se constrangiam com o fato
de serem riquíssimos, com o fato de serem solteiros, agressivos e possivelmente
perigosos. Ele era um titã global esbanjador, na casa dos cinquenta e poucos, que
parecia ficar mais forte a cada ano, que espalhava seu dinheiro e sua influência
por todo lado, sem temor. Não tinha medo de presidentes. Não se assustava com
processos judiciais movidos pela União Europeia ou com ameaças de hackers
patrocinados pelo governo chinês. Nada era motivo de preocupação, nada era
inatingível, nada estava acima de sua escala de remuneração. Era dono de uma
equipe da Nascar, um ou dois iates de corrida, pilotava seu próprio avião. Ele era
um anacronismo no Círculo, o CEO fulgurante, e gerava sentimentos
conflituosos entre muitos dos jovens utopistas da empresa.
Seu consumo ostensivo era algo notavelmente ausente na vida dos outros dois
Sábios. Ty alugava um apartamento de dois quartos, caindo aos pedaços, a
alguns quilômetros de distância, porém, mais uma vez, ninguém nunca o tinha
visto chegar ou sair do campus; o pressuposto era de que ele morava lá. E todo
mundo sabia onde Eamon Bailey morava — uma casa de três quartos, bem
visível, totalmente despretensiosa, numa rua bastante acessível, a dez minutos do
campus. Mas Stenton tinha casas em toda parte — Nova York, Dubai, Jackson
Hole. Um andar inteiro no alto da Millennium Tower, em San Francisco. Uma
ilha na Martinica.
Eamon Bailey, de pé a seu lado na pintura, parecia absolutamente em paz, até
alegre, na presença daqueles homens, ambos, pelo menos em termos superficiais,
diametralmente opostos a seus valores. Seu retrato, embaixo e à direita de Ty,
mostrava-o tal como era — cabelo grisalho, cara vermelha, olhos risonhos, feliz
e sério. Era o rosto público da empresa, a personalidade que todos associavam ao
Círculo. Quando sorria, o que acontecia quase sempre, sua boca sorria, seus
olhos sorriam, até seus ombros pareciam sorrir. Ele era esquivo. Era engraçado.
Tinha um jeito de falar lírico e ao mesmo tempo sensato, oferecendo a seus
ouvintes, num momento, esplêndidos jogos de palavras e, no outro, lugares-
comuns indisfarçáveis. Veio de Omaha, de uma família absolutamente normal,
de seis irmãos, e não havia mais ou menos nada de notável em seu passado.
Tinha estudado em Notre-Dame e casou com sua namorada, que havia estudado
em Saint Mary, um pouco para baixo na mesma rua, e agora tinham quatro
filhos, três meninas e por fim um menino, embora o menino tenha nascido com paralisia cerebral. “Ele é meio lelé”, disse Bailey quando anunciou o nascimento
do filho para a empresa e para o mundo. “Portanto vamos amá-lo ainda mais.”
Entre os Três Sábios, Bailey era o que tinha mais probabilidade de ser visto no
campus e tocar trombone no estilo dixieland no show de talentos da empresa, ou
de aparecer em programas de entrevista representando o Círculo, dando
risadinhas enquanto falava — fazendo pouco-caso — a respeito dessa ou
daquela investigação da Comissão Federal de Comunicações, ou quando
revelava uma novidade ou alguma tecnologia revolucionária. Ele preferia ser
chamado de Tio Eamon e, quando caminhava pelo campus, o fazia como se
fosse um tio amado, um Teddy Roosevelt do primeiro mandato, acessível,
autêntico e falante. Os três, na vida real e no retrato, equivaliam a um estranho
buquê feito de flores que não combinavam, mas não havia nenhuma dúvida de
que a composição dava certo. Todo mundo sabia que dava certo, o modelo de
três cabeças na gestão, e a partir daí a dinâmica passou a ser copiada e rivalizada
em outras empresas que figuravam na lista das quinhentas maiores da revista
Fortune, com diferentes resultados.
“Mas então por que”, perguntou Mae, “eles não pagaram por um retrato de
verdade, pintado por alguém que soubesse o que estava fazendo?”
Quanto mais Mae olhava para a pintura, mais estranha lhe parecia. O artista
tinha disposto as figuras de tal modo que cada um dos Sábios estava com a mão
apoiada no ombro do outro. Não fazia sentido e desafiava a maneira como os
braços podiam realmente se dobrar ou se esticar.
“Bailey acha a pintura hilariante”, disse Annie. “Ele queria que ficasse no
salão principal, mas Stenton vetou a ideia. Você sabe que Bailey é um
colecionador e tudo mais, né? Tem um gosto incrível. Quer dizer, é visto como
um cara boa-vida, como o homem comum que veio de Omaha, mas também é
um connoisseur e é totalmente obcecado em preservar o passado — mesmo a
arte ruim do passado. Espere só até ver a biblioteca dele.”
Chegaram a uma porta enorme que parecia medieval, e provavelmente era
mesmo, algo que deve ter barrado a entrada dos bárbaros. Um par de aldravas
gigantescas em forma de gárgulas sobressaía à altura do peito. Encarando as
figuras, Mae não resistiu a uma piada.
“Elas estão olhando para o meu peito.”
Annie grunhiu, levantou a mão na frente de uma placa azul na parede e a porta
abriu.
Annie virou-se para ela. “É foda, não é?”
Era uma biblioteca de três andares, três níveis construídos em redor de um
átrio aberto, tudo projetado em madeira, cobre e prata, uma sinfonia de cores
tênues. Havia facilmente dez mil livros ali, em sua maioria encadernados em couro, arrumados com esmero nas estantes, que reluziam de verniz. Entre os
livros, figuravam bustos austeros de seres humanos notáveis, gregos e romanos,
Thomas Jefferson e Joana d’Arc e Martin Luther King. Uma miniatura do avião
de carga Spruce Goose — ou seria do Enola Gay? — pendia do teto. Havia mais
ou menos uma dúzia de globos antigos iluminados por dentro, a luz leitosa e
suave, aquecendo várias nações perdidas.
“Muitas dessas coisas ele comprou quando iam ser leiloadas ou jogadas fora.
Essa é a cruzada dele, entende? Ele vai atrás dessas propriedades em dificuldade
financeira, dessa gente que tem de vender seus tesouros com um enorme
prejuízo, e ele paga o valor de mercado por tudo e dá aos antigos proprietários
acesso ilimitado aos objetos comprados. São eles que vêm muito aqui, esse
pessoal de cabelo branco que vem ler ou tocar suas coisas. Ah, você precisa ver
isto. Vai te deixar maluca.”
Annie subiu três lances de escada com Mae, todos os degraus ladrilhados com
mosaicos complexos — reproduções de algo da era bizantina, supôs Mae. Ela
segurava o corrimão de cobre enquanto subia, notando a ausência de marcas de
dedos, da mais ínfima nódoa. Viu antigas luminárias de leitura verdes usadas por
contadores, telescópios que se entrecruzavam, reluzentes em cobre e em ouro,
apontando para as numerosas janelas de vidro bisotado. “Ah, veja lá em cima”,
disse Annie, e ela olhou, para descobrir que o teto era de vitral colorido com a
imagem febricitante de incontáveis anjos dispostos em círculos. “Aquilo veio de
alguma igreja de Roma.”
Chegaram ao andar superior da biblioteca. Annie conduziu Mae por
corredores estreitos margeados por livros de lombada arredondada, alguns da
altura dela — Bíblias e atlas, histórias ilustradas de guerras e de insurreições, de
nações e de povos desaparecidos havia muito tempo.