O Coração das Trevas
Nota do Autor
Nota do Autor[1]
As três histórias deste volum e não pretendem possuir um propósito
artístico unificado. O único laço existente entre elas é a época em que foram escritas. Elas pertencem ao período im ediatam ente posterior à publicação d’ “O Negro abordo do Narciso” e precedem à concepção de “Nostrom o”, dois livros que, para m im , aparentam estar afastados um do outro dentro do corpo de m inha
obra. É tam bém a época durante a qual contribuí para “Maga”[2]; um período
dom inado por “Lorde Jim ” e associado dentro da m ais agradável lem brança da útil bondade e do encoraj am ento prestados pelo finado senhor William Blackwood.
“Juventude” não foi a m inha prim eira contribuição para “Maga”. Foi a
segunda. Mas aquela história m arca a prim eira aparição no m undo de Marlow, o personagem com o qual m inhas relações cresceram em intim idade ao longo dos anos. As origens daquele cavalheiro (ninguém até onde eu sei sequer suspeitou que ele fosse algo m enor do que isto) – as origens dele – tenho o prazer de dizer – foram tem as de algum as especulações literárias de qualidades bem am igáveis.
Alguém poderia pensar que som ente eu poderia apropriadam ente lançar
certa luz sobre a questão, m as, na verdade, m as descobri que não é assim tão fácil. É prazeroso lem brar que ninguém o acusou de possuir propósitos fraudulentos ou ter olhado para ele com superioridade com o se ele fosse um charlatão apesar de ele ter sido classificado com todo tipo de adj etivos: um filtro engenhoso, um m ero instrum ento, um “im postor”, um espírito fam iliar, um “dem ônio” m urm urante. Eu m esm o sou suspeito de integrar um plano prem editado para a captura dele.
Mas não é assim . Eu não tinha feito nenhum planej am ento. O hom em
Marlow e eu nos encontram os de m odo casual, com o aqueles conhecidos de balneários que m uitas vezes se tornam grandes am igos. Nossa am izade am adureceu. Apesar de toda a positividade dele com relação a certas opiniões ele não é um a pessoa revoltada. Ele assom bra as m inhas horas de solidão, quando, no silêncio, nós deitam os as nossas cabeças j untos com grande conforto e harm onia, m as quando nos despedim os ao final de um conto nunca podem os ter certeza de que não será a últim a vez. Ainda que eu não acredite que qualquer um de nós pudesse sobreviver ao outro. No caso dele, de qualquer m odo, a ocupação dele continuaria e ele sofreria daquela extinção, pois suspeito que ele sej a de algum m odo vaidoso. Não m e refiro à vaidade em um sentido salom ônico. De todas as m inhas criações ele é o único que nunca m e perturbou o espírito. Um hom em com preensivo e na m aioria das vezes discreto...
Mesm o antes de ser publicado no form ato de livro “Juventude” foi m uito
bem recebido. Ele depende de m im para confessar o m ínim o, e este é um lugar tão bom para ele quanto para qualquer outro, o m elhor lugar que tive em m inha vida – em m inhas duas vidas – o filho adotado e m im ado da Grã-Bretanha e m esm o do Im pério, pois a Austrália foi quem m e deu o m eu prim eiro com ando. Eu subdivido esta declaração não por causa de um a tendência oculta à m egalom ania, m as, ao contrário, por ser um hom em que não tem m uitas ilusões insignes sobre si m esm o. Eu sigo os instintos do orgulho e da hum ildade natural de toda a hum anidade. Pois é m uito difícil negar que não são pelos seus próprios m éritos que os hom ens se orgulham , m as particularm ente pela sua sorte extraordinária e por sua fortuna m aravilhosa: orgulhosos por tudo aquilo que em suas vidas são sacrificadas e oferecidas graças sobre os altares de deuses inescrutáveis.
“O Coração das Trevas” tam bém recebeu certa atenção a principio; e
sobre a sua origem algo precisa ser dito: é bem sabido que os hom ens curiosos se lançam a toda sorte de lugares (onde não se possui qualquer vínculo) e saem de lá com todo tipo de espólio. Esta história e um a outra, que não fazem parte deste volum e, são os despoj os que eu trouxe das regiões centrais da África, onde na verdade eu não possuía qualquer vínculo. Mais am bicioso em seu escopo e m aior em sua narrativa, “O Coração das Trevas” é tão autêntico quanto aos seus fundam entos quanto “Juventude”. Obviam ente é escrito de outra m aneira. Não vou descrever o estilo precisam ente, m as qualquer pessoa pode ver que ele possui qualquer coisa m enos um estilo repleto de m elancolia e de ternura rem iniscente.
Um a outra observação pode ser adicionada. “Juventude” é um a proeza
de recordação. É um registro de vivência; m as aquela vivência, em seus fatos, sua intim idade e sua tonalidade exterior, com eça e term ina em m im m esm o. “O Coração das Trevas” tam bém é um a vivência, m as é um a vivência um pouco alterada (e som ente um pouco) para além dos fatos reais do caso de um a legitim idade perfeita – assim acredito – com o propósito de torná-la reconhecível às m entes e anseios dos leitores. Não há nela nada m ais que um a questão de sincera coloração. No geral, ela era com o qualquer outra form a de arte. Àquele tem a som brio tinha que ser dado um a ressonância sinistra, um a tonalidade em todo particular, um a vibração contínua que, eu esperava, perm anecesse no ar e ecoasse aos ouvidos após a últim a nota ser tocada.
Após dizer tanto, ainda resta o últim o conto do livro, ainda intacto. “O
Fim da Corrente” é um a história sobre a vida no m ar apresentada de um m odo m uito especial; é a observação m ais próxim a que eu posso dizer sobre ele, pois tendo vivido aquela vida com pletam ente, por entre hom ens, pensam entos e sensações, descobri ser possível, sem o m ais leve tem or, com toda a sinceridade de coração e paz de consciência, conceber a existência da personalidade do capitão Whalley e relacioná-la de algum a m aneira ao seu fim . Esta declaração adquiriu certa força a partir das circunstâncias existentes nas páginas daquela história – um a boa parte do livro – pois tam bém é o produto de um a vivência. Aquela vivência pertence (com o no caso de “Juventude”) aos tem pos anteriores quando eu sequer im aginava transm itir algo com m inha pena para o papel. O quanto dela é “realidade”, cabe aos leitores determ inar. Alguém poderá conseguir capturar alguns fatos aqui e acolá. Os m ais hábeis poderão torná-los m ais reais e, com isso, toda a com posição m ais interessante. Mas neste ponto nos aproxim am os da região oculta dos valores artísticos, um a região im própria e de fato m uito perigosa para eu ingressar. Exam inei as provas, corrigi um ou dois erros de im pressão, alterei um a ou outra palavra… isso foi tudo. Não é m uito provável que eu releia “O Fim da Corrente” novam ente. Nada m ais precisa ser dito. Ele se harm oniza perfeitam ente com os m eus sentim entos ao se separar do capitão Whalley através de um silêncio afetuoso.
J. C.
1917
[1] A presente “Nota do Autor” foi elaborada por Joseph Conrad em 1917 com o
parte integrante da edição conj unta de três de seus contos, publicada em 1923. Naquela edição em conj unto das obras “O Coração das Trevas”, “Juventude: Um a narrativa” (publicada inicialm ente em 1898) e “O Fim da Corrente” (publicado em 1902), Conrad apresenta os pontos que o nortearam na elaboração de suas histórias.
[2] “Maga” ou m ais form alm ente conhecida “Blackwood’s Edinburgh Magazine”
foi um a das m ais im portantes revistas literárias da Inglaterra, publicada entre 1817 e 1980. A m istura de sátiras, resenhas e críticas, ao m esm o tem po grosseiras e significativas, a tornaram extrem am ente popular. Publicou trabalhos dos rom ânticos Percy Shelley, Sam uel Coloridge e William Wordswoth e recebeu contribuições de George Eliot, John Buchan e Joseph Conrad, onde o m esm o publicaria a versão original de “O Coração das Trevas” em três capítulos m ensais, entre fevereiro e abril de 1899.