O Coração das Trevas

Joseph Conrad · Capítulo 2 de 9 · parte 1/3

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O Coração das Trevas

Capítulo I

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

O “Nellie”, um veleiro de cruzeiro, lançou sua ancora sem , contudo,

sacudir suas velas, e ficou parado. A m aré tinha subido e o vento praticam ente havia parado e, um a vez que descia rio abaixo, a única coisa que podia ser feita era descansar e esperar a m aré abaixar.

O estuário do Tâm isa se estendia diante de nós com o o início de um

interm inável canal. Ao largo, o m ar e o céu se uniam , sem que houvesse um a j unção, e as velas dos barcos, am areladas pelo sol, que eram levados pela corrente pareciam im óveis, agrupadas em lonas verm elhas, pontuadas severam ente com o brilho dos m astros envernizados. Um a neblina repousava sobre as terras baixas que corriam para o m ar em um a planície que desaparecia aos poucos. O ar foi tom ado pela penum bra logo acim a de Gravesend e um pouco antes dela ainda parecia condensado em um a m elancolia desoladora, lançando um a im obilidade sobre a m aior e m ais grandiosa cidade do m undo.

O Diretor das “Com panhias” era nosso capitão e nosso anfitrião. Nós

quatro olhávam os com grande carinho para as suas costas enquanto ele perm anecia de pé na proa do navio olhando para o lado da praia. Em todo rio não havia nada que parecesse tão náutico. Ele se assem elhava a um prático o que para um m arinheiro era a personificação da confiança. Era difícil perceber que o trabalho dele não estava lá fora, no estuário reluzente, m as atrás dele, dentro da m elancolia desoladora.

Entre nós havia, e isso eu j á disse em algum outro lugar, certa ligação

com o m ar. Além de m anter os nossos corações unidos através de longos períodos de separação, ele tinha o efeito de nos tornar tolerantes com as histórias – e as convicções – de cada um de nós. O Advogado – o m elhor de nossos velhos com panheiros – por causa de sua idade e de suas inúm eras virtudes possuía a única alm ofada do tom badilho e estava deitado sobre a única m anta de viagem . O Contador tinha trazido um a caixa de dom inós e estava brincando com eles, m ontando estruturas arquitetônicas com as peças de m arfim . Marlow sentava-se com as pernas cruzadas diante da popa, recostado ao m astro de m ezena. Ele tinha as bochechas afundadas, um a com pleição am arelada, as costas m uitas eretas, um aspecto ascético e, com os braços cruzados, com as palm as voltadas para dentro, fazia lem brar a im agem de um ídolo. O Diretor, assegurando-se de que a âncora havia sido bem lançada, retornou em direção à popa e sentou-se entre nós. Nós trocam os poucas palavras, estas m esm as cheias de preguiça. Depois de um tem po, um silêncio se apoderou de todo o veleiro. Por algum a razão ou outra, nós não com eçam os a j ogar dom inó. Ficam os m editando, lançados a m ais nada além do que a plácida contem plação. O dia estava term inando com um a serenidade de um fulgor calm o e delicado. As águas brilhavam calm am ente; o céu, sem um a nódoa sequer, era de um a im ensidão benigna de luz purificada. A névoa característica dos pântanos de Essex se assem elhava a um tecido transparente e radiante, dependurado nas elevações arborizadas de terra à dentro e drapeando os baixios do litoral com pregas translúcidas. Som ente a escuridão vinda do oeste, derram ando-se sobre o curso superior do rio, tornava-se m ais som bria a cada m inuto, com o se ela se irritasse com a aproxim ação do sol.

E por fim , em sua queda curvada e im perceptível, o sol m ergulhou logo

abaixo, e de um branco radiante transform ou-se em um verm elho desbotado, sem raios e sem calor, com o se estivesse pronto para desaparecer de repente, tocado de m orte pela garra daquela escuridão que se estendia sobre a m ultidão dos hom ens.

Logo em seguida, um a m udança se apoderou das águas e a serenidade

tornou-se m enos brilhante, m as m uito m ais profunda. O velho rio em suas

am plidão descansou serenam ente no declínio do dia, após eras de bons serviços

realizados à raça daquelas pessoas que habitavam suas m argens, derram ando-se

na dignidade tranquila de um canal que conduzia aos confins m ais extrem os da

terra. Olhávam os para aquela corrente de água venerável, não sob a luz que

vividam ente fluía através do curto dia que vinha e ia com o sem pre, m as sob a

augusta luz de lem branças perm anentes. E, na verdade, nada é m ais fácil para

um hom em que tem , com o diz o adágio, “seguido o m ar” com reverência e

afeição, que evocar o grande espírito do passado que habita os baixios das

m argens do Tâm isa. O fluxo das m arés tem subido e descido em seu incansável

serviço, coroando as lem branças de hom ens e navios por elas transportadas para

o descanso dos lares ou para as batalhas dos m ares. Conheceu e serviu a todos os

hom ens de quem a nação se orgulha, de sir Francis Drake a sir John Franklin,

cavaleiros todos, com ou sem títulos – os grandes cavaleiros – errantes do m ar.

Transportou todos os navios, cuj os nom es são com o j óias cintilantes na noite do

tem po, desde o Golden Hind, retornando com as suas m uradas transbordando de

tesouros, sendo visitado por Sua Alteza, a Rainha, e assim passando para a

enorm idade da história, até o Erebus e o Terror, ligados a outras conquistas e que

nunca retornaram[1]. Conheceu os navios e os hom ens. Eles velej aram partindo

de Deptford, de Greenwich e de Erith – os aventureiros e os colonos; navios de

reis e navios de hom ens a trabalho; capitães, alm irantes, “atravessadores”

som brios do com ércio com o Oriente e os “generais” com issionados das frotas

das Índias Orientais. Caçadores de tesouros ou perseguidores da fam a, todos eles

percorreram aquelas águas, portando suas espadas e seus archotes, m ensageiros

do poder na terra, portadores de um a centelha do fogo sagrado. Que grandeza

não flutuou sobre a m aré baixa daquele rio em direção ao m istério de um a terra

desconhecida! Os sonhos de hom ens, a sem ente de nações, os princípios de

im périos.

O sol se pôs; o anoitecer estendeu-se sobre as águas e as luzes

com eçaram a surgir ao longo da costa. O farol de Chapm an, um a criatura de três

pernas erigida sobre o lodaçal, brilhava com toda força. As luzes das

em barcações m oviam -se à distância – um grande rodopio de luzes que ia e

vinha. E m ais ao oeste, na parte m ais superior do curso do rio o local da

m onstruosa cidade ainda era m arcado de m odo am eaçador sobre o céu, um a

escuridão refletida contra o brilho do sol, um a claridade tenebrosa sob as estrelas.

“E m esm o assim ”, disse Marlow de repente, “tem sido um dos lugares

m ais som brios do m undo”.

Ele era o único hom em entre nós que ainda “seguia o m ar”. O pior que

poderia ser dito sobre ele era que ele não representava a sua classe. Ele era um m arinheiro, m as ele era tam bém um andarilho, enquanto que a m aioria dos

m arinheiros leva, se alguém pode se expressar desse m odo, um a vida sedentária.

Suas m entes são do tipo caseiro e os seus lares estão sem pre j unto deles – o

navio; e do m esm o m odo os seus países – o m ar. Um navio é m uito parecido um

com os outros; e o m ar é sem pre o m esm o. Na im utabilidade de suas cercanias,

os litorais estrangeiros, os rostos estrangeiros, a im ensidão m utável da vida, o

passado fugidio, encoberto não por um senso de m istério, m as por um a leve

ignorância desdenhosa; pois não há nada de m isterioso para um m arinheiro além

do próprio m ar que é o senhor de sua existência e tão im penetrável quanto o

Destino. Para o descanso, após suas horas de trabalho, um a cam inhada casual ou

um divertim ento casual no litoral são suficientes para lhe desvelar o secreto de

um continente inteiro e geralm ente ele descobre que o secreto não vale a pena

ser descoberto. As histórias dos m arinheiros possuem um a sim plicidade direta, o

todo do seu significado cabendo dentro de um a casca de um a noz partida. Mas

Marlow não era típico (se puderm os deixar de lado sua propensão em contar

histórias), e para ele o significado de um episódio não estava dentro tal qual um a

sem ente, m as sim , do lado de fora, envolvendo o conto que o revelava, tal qual o

brilho que escapa da neblina, do m esm o m odo que os halos enevoados que às

vezes se tornavam visíveis pela ilum inação espectral da luz do luar.

Seu com entário não era de todo surpreendente. Era algo típico de

Marlow e foi aceito em silêncio. Ninguém sequer teve o trabalho de resm ungar algo; e, neste instante, ele disse, vagarosam ente:

“Estava pensando nos velhos tem pos, quando os prim eiros rom anos

vieram para cá dezenove séculos atrás, j usto outro dia... a luz em anava do rio, desde então – talvez Cavaleiros? Sim , m as ela é com o as labaredas que correm pela planície, com o o relâm pago nas nuvens. Nós som os a luz que trem ula – que ela possa durar tanto quanto o m undo continue girando! Mas a escuridão estava por aqui ontem . Im agine os sentim entos de um com andante de um belo – com o podem os cham ar m esm o? – trirrem e no Mediterrâneo ao ordenar repentinam ente que seguisse para o norte; cruzar apressadam ente a terra dos gauleses; por um a dessas naus ao cargo de um desses legionários – que m aravilhoso grupo de trabalhadores eles devem ter sido tam bém – acostum ados a construir, aparentem ente por centenas deles, em um m ês ou dois, se acreditarm os naquilo que lem os. Im agine-o aqui – nos extrem os do fim do m undo, um m ar com a cor do chum bo, um céu com a cor da fum aça, um barco tão firm e quanto um a concertina – subindo este rio com m ercadorias ou ordens m ilitares ou com o que você desej ar. Bancos de areia, pântanos, florestas e bárbaros – m uito pouco o que se com er, adequado para um hom em civilizado, nada além da água do Tâm isa para se beber. Sem o vinho da Falernia por aqui; sem desem barcar. Aqui e acolá um cam po m ilitar nas pradarias, tal qual um a agulha perdida no m eio do palheiro – frio, neblina, tem pestades, doenças, exílio e m orte – a m orte espreitando-se pelo ar, nas águas e florestas Eles deviam m orrer com o m oscas por aqui. Ah sim , eles conseguiram sim . E fez m uito bem , tam bém , sem dúvida e, tam pouco, sem pensar m uito sobre tudo isso, exceto tem pos depois, talvez para se vangloriar do que ele tinha feito através de sua época. Eles eram hom ens o suficiente para encarar a escuridão. E talvez ele fosse encoraj ado pela perspectiva de um a oportunidade de um a breve prom oção para a frota em Ravena, se ele tivesse bons am igos em Rom a e sobrevivesse ao horrível clim a. Ou im aginem um j ovem e honrado cidadão de toga – talvez m uito ligado aos dados, com o vocês sabem – vindo para cá na com itiva de algum pretor, de um cobrador de im postos ou m esm o de algum m ercador, para m elhorar suas fortunas. Desem barcando em um pântano, m archando através dos bosques e, em algum entreposto do interior, sentir que a selvageria, a selvageria prim itiva, o havia circundado – toda aquela vida m isteriosa que há na vastidão e que se m istura às florestas, nas selvas e nos corações dos hom ens selvagens. Não há um a iniciação a esses m istérios, tam pouco. Ele tem que viver no m eio do que é incom preensível e, ao m esm o tem po, detestável. E há tam bém um a fascinação que vem trabalhar sobre ele. A fascinação pela abom inação, com o vocês bem sabem . Im aginem os arrependim entos cada vez m aiores, o desej o de fuga, a repulsa im potente, a capitulação e a ira”.

Ele fez um a pausa.

“Im aginem ”, ele com eçou novam ente, libertando um dos braços a

partir do cotovelo, a palm a da m ão para fora, e assim , com suas pernas dobradas diante dele, assem elhando-se a um Buda que pregava, vestindo roupas europeias e a um a flor-de-lótus, “Im aginem que nenhum de nós sentiria exatam ente com o era isso. O que nos salva é a eficiência – a devoção à eficiência. Mas esses cam aradas não era grande coisa, a final. Eles não eram colonizadores; eu suspeito que a adm inistração deles fosse m eram ente um a form a de extorsão e nada m ais. Eles eram conquistadores e para tal você precisa apenas de força bruta – nada para se vangloriar, quando se a possui, um a vez que sua força sej a apenas um acidente surgido a partir da fraqueza dos outros. Eles se apoderavam do que conseguiam tom ar, apenas pelo fato de estar ali para ser tom ado. Tudo era apenas roubo com violência, agravado pelos assassinatos em larga escala, e hom ens avançando às cegas – com o é bem apropriado àqueles que enfrentam a escuridão. A conquista da terra, que na m aioria das vezes significa tom a-la daqueles que possuem um aspecto diferente ou narizes levem ente m ais achatados que os nossos, não é algo bonito quando você o olha m ais de perto. O que nos redim e é a ideia em si. Um a ideia que existe por detrás disso – não um pretenso sentim ento, m as sim um a ideia. E um a crença altruísta na ideia – algo que você possa elevar, se curvar diante e oferecer sacrifícios para...”

Ele parou de falar. Labaredas surgiram no rio, pequenas labaredas

esverdeadas, labaredas averm elhadas, labaredas em branquecidas, prosseguindo, unindo-se, sobrepondo-se, cruzando um as às outras – e então se separando rápida ou vagarosam ente. O tráfego da grande cidade continuava na profundeza da noite por sobre o rio insone. Nós observávam os, esperando pacientem ente – não restava m ais nada a se fazer até o fim da m aré alta; m as foi som ente após um longo silêncio, quando ele disse, com um a voz hesitante, “suponho que os m eus com panheiros se lem brem que eu tam bém j á fui um m arinheiro de prim eira viagem , que nos dem os conta de que estávam os destinados a ouvir um as das experiências inconclusivas de Marlow, pelo m enos até que a m aré baixa com eçasse a vazar”.

“Não desej o aborrecer-lhes m uito com o que aconteceu com igo

pessoalm ente”, com eçou ele, m ostrando com esta observação a fraqueza de m uitos dos contadores de histórias que parecem tão frequentem ente ignorarem o que aqueles que o estavam ouvindo desej avam realm ente ouvir; “ainda assim , para entenderem o efeito daquilo sobre m im vocês devem saber com o eu cheguei lá, o que eu vi, com o eu subi o rio até o ponto aonde eu viria a encontrar o pobre diabo. Era o ponto m ais distante de navegação e o ponto culm inante de m inha experiência. Parecia que de algum m odo um a luz particular era lançada em tudo que havia em torno de m im – e em todos os m eus pensam entos. Tam bém era tudo m uito som brio – e patético – de algum m odo pouco extraordinário – nem m uito claro tam pouco. Não, nada m uito claro. E ainda assim , parecia irradiar algum tipo de luz”.

“Eu tinha por aquela época, com o vocês se lem bram , acabado de

retornar à Londres após um a volta pelo oceano Índico, pelo Pacífico, pelos m ares da China – um a dose considerável de Oriente – seis anos ou m ais, e estava vagabundeando por aí, im portunando-os, m eus cam aradas, em seus trabalhos e invadindo as suas casas, com o se eu possuísse um a m issão divina de lhes civilizar. Tudo isso foi m uito bom por um tem po, m as após um tem po, eu realm ente m e cansei de descansar. Então eu com ecei a procurar por um navio – acredito que sej a o trabalho m ais difícil que há no m undo. Mas os navios não estavam interessados em m im . E acabei m e cansando daquele j ogo tam bém ”.

“Vej am bem , quando eu era apenas um pirralho, eu tinha um a

verdadeira paixão por m apas. Eu ficava olhando por horas para a Am érica do Sul, para a África, ou para a Austrália, e perdia-m e em todas as glórias da exploração. Àquele tem po havia m uitos espaços em branco no m undo e quando eu via um desses espaços particularm ente convidativo em um m apa (apesar de todos parecerem assim ) eu logo punha o m eu dedo sobre ele e dizia, ‘Quando eu crescer eu irei para lá’. O pólo norte era um desses lugares, isso eu bem m e lem bro. Bem , eu ainda não estive lá, e não tentarei ir para lá agora. O glam our se esvaiu. Outros lugares se estendiam ao longo do Equador e em toda parte, em toda latitude por am bos os hem isférios. Eu estive em alguns deles, e... bem , eu não lhes contarei sobre isso. Mas ainda havia um – o m aior deles, o m ais vazio de todos, por assim dizer – que eu ainda ansiava”.

“Verdade sej a dita, que nessa altura ele não era m ais um espaço vazio.

Desde m inha infância, ele tinha sido preenchido com rios e lagos e nom es. Ele tinha deixado de ser um espaço vazio, m istério delicioso – um a m ancha em branco para um m enino que sonhava gloriosam ente sobre ele. Ele tinha se tornado um lugar de escuridão. Mas lá havia um rio em particular, um poderoso e enorm e rio que, ao se olhar no m apa, se assem elhava a um a im ensa cobra desenrolada com sua cabeça j unto ao m ar, seu corpo em descanso se alongando por sobre a vastidão do país, e com a cauda perdida nas profundezas da terra. E assim que eu vi um m apa dele na vitrina de um a loj a, ele m e hipnotizou com o um a cobra faz com um passarinho – um pequeno passarinho tolo. Então eu m e lem brei que havia um a grande em presa com ercial, um a Com panhia que com ercializava naquele rio. Maldição! Pensei com igo m esm o, eles não podem com ercializar se não tiverem algum tipo de em barcação naquele m onte de água fresca – barcos a vapor! Por que eu não procurava m e em pregar em algum deles? Eu segui para a Rua Fleet, m as não parava de pensar nessa ideia. A cobra tinha m e hipnotizado”.

“Vocês com preendem que aquela sociedade com ercial era um a

em presa com sede no continente?; m as eu tenho um m onte de conhecidos m eus que vivem no continente, pois é m ais barato que aqui e não parece ser tão suj o quanto parece, pelo m enos é o que dizem ”.

“Devo, contudo, adm itir que com ecei a preocupá-los. Aquilo era um

novo expediente para m im . Eu não estava acostum ado a obter coisas daquela m aneira, com o vocês bem sabem . Eu sem pre percorri o m eu próprio cam inho e através de m inhas próprias pernas, até onde a m inha m ente m e levava. Eu m esm o não acreditava em m im ; m as, vej am , que eu tinha que chegar lá a qualquer custo. Mas vocês acreditariam que eu tentei tudo isso através das m ulheres? Eu, Charlie Marlow, coloquei as m ulheres para trabalhar, para que m e conseguissem um em prego. Mas céus! Bem , vej am vocês, esse pensam ento m e guiou. Eu tinha um a tia, um a querida e entusiástica alm a. Ela m e escreveu: ‘Será um prazer. Eu j á estou pronta para tentar qualquer coisa, qualquer coisa por você. É um a ideia gloriosa. Conheço a esposa de um a pessoa m uito im portante na Adm inistração, e tam bém um hom em que tem m uita influência com ...’, e etc. e etc. Ela estava determ inada a fazer o barulho que fosse necessário para conseguir-m e um a indicação com o com andante de um navio fluvial a vapor, se esse fosse o m eu desej o”.

“Eu consegui a m inha nom eação – é claro; e a consegui m uito rápido,

por sinal. Parece que a Com panhia tinha recebido a notícia de que um de seus capitães tinha sido m orto em um a disputa com os nativos. Aquela era a m inha oportunidade e tudo isso m e tornou m ais ansioso ainda para partir. Foi som ente m eses e m eses depois, quando tentei resgatar o que sobrara do corpo que ouvi que a querela original resultara de um desentendim ento a respeito de algum as galinhas. Sim , duas galinhas pretas. Fresleven – este era o nom e do cam arada, um dinam arquês – achou que havia algo de errado com a barganha e foi ao litoral, onde com eçou a golpear o chefe do vilarej o com um pedaço de pau. Oh, não m e surpreendi em nada com o que eu ouvi, m esm o quando m e contaram que Fresleven era a m ais gentil e tranquila criatura que j á cam inhou sobre duas pernas neste m undo. Sem dúvida algum a de que ele o era; m as j á fazia um bom par de anos que ele estava envolvido com essa nobre causa, com o vocês bem sabem , e ele provavelm ente sentiu necessidade afinal de afirm ar o seu respeito próprio de algum m odo. Desse m odo, ele golpeou o velho negro sem qualquer m isericórdia, enquanto um a grande m ultidão o observava, sem acreditar no que viam , até que um outro hom em – disseram -m e que era o filho do chefe – desesperado por ouvir os gritos do velho, tentou afastar aquele hom em branco com um a lança e, é claro, perfurou-o facilm ente por entre as om oplatas. Toda a população do vilarej o fugiu para a floresta, diante da expectativa de toda sorte de calam idades, enquanto, ao m esm o tem po, o vapor que era com andado por Fresleven tam bém partia em pânico, sob as ordens do engenheiro de bordo, acredito eu. Depois de tudo isso, ninguém parecia se im portar com os restos m ortais de Fresleven, até que eu aparecesse e tom asse o seu lugar. Eu não poderia deixá-lo lá, afinal; m as quando surgiu um a oportunidade afinal de encontrar o m eu predecessor, a gram a que crescia por entre as suas costelas j á estava alta o suficiente para lhe esconder os ossos. Eles estavam todos lá. O ser sobrenatural não havia sido tocado desde que tom bara. E o vilarej o estava deserto, as choupanas enegrecidas, apodrecendo, e tudo arruinado dentro das cercas caídas. Um a calam idade se abatera sobre o local, sem dúvida algum a. As pessoas tinham desaparecido. Um terror alucinado tinha se abatido sobre eles, hom ens, m ulheres e crianças se lançaram à floresta e nunca m ais retornaram . O que foi feito das galinhas tam bém não consegui descobrir. Suponho que a causa do progresso as tenha capturado, de qualquer form a. Contudo, por m eio desse glorioso negócio, obtive m inha nom eação, antes m esm o de ter nutrido algum a esperança de obtê-la”.

“Eu corri com o um louco para m e aprontar e em m enos de 48 horas j á

estava cruzando o Canal para m e apresentar pessoalm ente aos m eus em pregadores e assinar o contrato de trabalho. Em algum as poucas horas, cheguei à cidade que sem pre m e fazia lem brar um túm ulo branco. Preconceito, sem dúvida algum a. Não tive dificuldade em encontrar os escritórios da Com panhia. Era a m aior construção da cidade e todo m undo com quem m e encontrava se orgulhava m uito dela. Eles estavam se preparando para se tornar um im pério ultram arino e estavam ganhando rios de dinheiro com o negócio”.

“Um a rua, estreita e deserta, lançada em profundas som bras, casas

altas, inúm eras j anelas com venezianas, um silêncio m ortal, a gram a brotando

por entre as pedras, im ponentes passagens arcadas para as carruagens, tanto à

direita quanto à esquerda, im ensas portas duplas ponderadam ente entreabertas.

Deslizei-m e por um a dessas aberturas, subi por um a escada lim pa e sem

quaisquer enfeites, tão árida quanto um deserto, e abri a prim eira porta que

encontrei. Duas m ulheres, um a gorda e outra m agra, sentadas em cadeiras de

palha, tricotando com lã preta. A m ais m agra se levantou e cam inhou

diretam ente até m im , ainda tricotando com os olhos baixos – e som ente quando

eu com ecei a pensar em sair de seu cam inho, com o você faria diante de um

sonâm bulo, ela parou e levantou os olhos. Seu vestido era tão sim ples quanto um a

capa de guarda-chuva e, voltando-se sem dizer um a palavra sequer, dirigiu-m e

até um a sala de espera. Eu lhe forneci o m eu nom e e olhei em volta. Um a m esa

de pinho no m eio, cadeiras de espaldar alto ao redor j unto das paredes, e por fim

um m apa enorm e e resplandecente, m arcado com todas as cores de um arco-

íris. Havia um a quantidade enorm e de pontos em verm elho – fáceis de serem

vistos em qualquer tem po, pois qualquer um sabe que algum trabalho de verdade

é feito lá, um a boa parte de pontos em azul, um pouco de verde, algum as áreas

em laranj a, e, na Costa Oriental, trechos em roxo, m ostrando onde os alegres

pioneiros do progresso bebiam a deliciosa cervej a alem ã. Entretanto, eu não iria

para nenhum desses lugares. Eu estava indo para as áreas am arelas. Bem para o

m eio delas. E o rio estava lá – fascinante – m ortalm ente fascinante – com o um a

cobra. Finalm ente, um a porta se abriu, um a cabeça de secretário com cabelos

encanecidos, que apresentava um a expressão cheia de com paixão, apareceu e

um indicador m agricelo cham ou-m e para dentro do santuário. A luz era turva e

um a escrivaninha pesada se estendia no m eio da sala. Por detrás daquela

estrutura, surgiu um a im agem pálida e gordurosa, vestindo sobrecasaca. O todo-

poderoso em pessoa. Ele tinha cerca de um m etro e setenta, pelo que pude ver, e

o seu aperto de m ão tinha o peso de m ilhões. Cum prim entam o-nos; ele

m urm urou algo e pelo que percebi ficou satisfeito com o m eu francês. Bon

voyage”.

“Aproxim adam ente quarenta e cinco segundos depois, encontrei-m e

novam ente na sala de espera em com panhia do secretário m isericordioso que,

cheio de desolação e sim patia, fez com que eu assinasse um docum ento.

Acredito que m e com prom eti, entre outras coisas, a não revelar nenhum segredo

com ercial. Bem , eu não pretendia fazê-lo”.

“Com ecei a m e sentir um pouco desconfortável. Vocês sabem que não

costum o ser m uito de cerim ônias e havia algo de am eaçador no ar. Era

exatam ente com o se eu tivesse sido levado para dentro de algum a conspiração – não sei bem – algo que de certa form a não era correto; e fiquei feliz em sair de

lá. Na sala anterior, as duas m ulheres tricotavam a lã preta com grande fervor.

Algum as pessoas chegaram e a m ais nova delas andava de um lado para o outro,

apresentando-os. A m ais velha delas perm anecia sentada em sua cadeira. Suas

pantufas de pano liso apoiavam -se sobre um aquecedor para os pés e um gato

dorm ia em seu colo. Ela usava um pano branco engom ado sobre sua cabeça,

tinha um a verruga em um a de suas bochechas e óculos de aros prateados

equilibravam -se na ponta de seu nariz. Ela olhou para m im por cim a dos óculos.

A placidez suave e indiferente daquele olhar m e perturbou. Dois j ovens com

aparência tola e sorridente estavam sendo introduzidos ali e ela lhes lançou o

m esm o olhar ágil de sabedoria indiferente. Ela parecia saber tudo a respeito

deles e de m im tam bém . Um sentim ento assustador se apoderou de m im . Ela

parecia m isteriosa e funesta. Por várias vezes, j á longe dali, pensei naquelas duas

com o guardiãs das portas da Escuridão, tricotando a lã preta com o se fosse um a

dura m ortalha, um a delas conduzindo e conduzindo continuam ente para o

desconhecido e a outra escrutinando os rostos tolos e sorridentes com os seus

velhos olhos indiferentes. Ave! Velha tricoteira de lã preta. Morituri te salutant[2].

Muitos destes que ela contem plou não foram capazes de vê-la novam ente – nem

a m etade deles, se tanto”.

“Ainda deveria realizar um a visita ao m édico. ‘Um a sim ples

form alidade’, assegurou-m e o secretário, com um ar de quem com partilhava

im ensam ente parte de todas as m inhas dores. Logo em seguida, um j ovem

indivíduo, usando um chapéu que lhe cobria a sobrancelha esquerda – algum

funcionário, eu supus, pois deveria haver alguns funcionários no negócio apesar

da edificação estar tão em silêncio quanto um m ausoléu na cidade dos m ortos –

surgiu de algum lugar, vindo dos andares superiores para m e conduzir. Tinha um

aspecto surrado e descuidado, com m anchas de tinta nas m angas de seu casaco e

com um a écharpe grande e encapelada atada sob um queixo que m ais lem brava

a ponta de um a bota velha. Ainda era um pouco cedo para o m édico chegar e,

deste m odo, sugeri tom arm os algo e por causa disso ele se m ostrou m ais

anim ado. Enquanto nos entregávam os aos verm utes, ele glorificava os negócios

da Com panhia e, aos poucos, expressei casualm ente m inha surpresa por ele

nunca ter ido até lá. De repente, ele tornou-se m uito frio e contido. ‘Não sou tão

tolo quanto pareço, disse Platão aos seus discípulos’, afirm ou ele laconicam ente,

esvaziando o seu copo com grande resolução e se levantando”.

“Um m édico idoso tom ou-m e o pulso, evidentem ente pensando em

qualquer outra coisa, enquanto isso. ‘Bom , bom para lá’, ele m urm urou e então,

com certo entusiasm o perguntou-m e se ele poderia tirar as m edidas de m inha

cabeça. Meio tom ado de surpresa, respondi que sim , no que ele pegou um

instrum ento, sem elhante a um com passo de calibre e tirou as dim ensões da

frente e do fundo e as dem ais tam bém , fazendo anotações m inuciosas de tudo.

Ele era um hom em baixo, com barba por fazer, usando um j aleco esfarrapado

de gabardina, com os pés m etidos em pantufas, o que lhe dava um aspecto m eio

tolo, inofensivo até. ‘Sem pre peço para m e deixarem tirar as m edidas do crânio

daqueles que vão para lá, no interesse da ciência’, disse ele. ‘E quando eles retornam tam bém ?’, perguntei-lhe. ‘Oh, eu nunca m ais os vej o’, observou ele; ‘e,

além disso, as m udanças acontecem nas partes internas, com o você deve saber’.

Ele sorriu, com o se isso fosse algum tipo de piada. ‘Então, você está indo para lá.

Excelente. Interessante tam bém ’. Ele olhou atentam ente para m im , e fez outra

anotação. ‘Há algum sinal de insanidade em sua fam ília?’, perguntou-m e, de um

m odo trivial. Senti-m e m uito incom odado com isso. ‘Essa pergunta tam bém é

pelo interesse da ciência?’. Sem dem onstrar qualquer irritação, ele disse, ‘Seria

interessante para a ciência observar as m udanças m entais dos indivíduos em

situações difíceis, m as...’. ‘Você é um alienista?[3]’, eu o interrom pi. ‘Todo

m édico deveria ser… um pouco’, respondeu-m e aquele ser tão original, sem

nem sequer se perturbar com aquilo. ‘Eu tenho um a teoria que vocês, messieurs,

que vão para lá devem m e aj udar a provar. Esta é a m inha participação nas

vantagens auferidas pelo m eu país pela posse de tal colônia m agnífica. A m era

riqueza eu deixo para os outros. Perdoe-m e as m inhas perguntas, m as você é o

prim eiro inglês que eu posso exam inar...’. Apressei-m e em assegurar-lhe que eu

era um a pessoa m uito com um . ‘Se eu fosse especial’, disse eu, ‘não estaria

conversando com você nesses term os’. ‘O que você diz é bastante profundo e

provavelm ente m uito equivocado’, disse ele, gargalhando. ‘Evito m e irritar m ais

do que m e expor ao sol. Adieu. Ou com o dizem vocês ingleses, Good-bye. Ah,

Good-bye, Adieu. Nos trópicos devem os, antes de qualquer coisa, m anter a

calm a’... E ergueu o indicador em sinal de advertência... ‘Du calme, du calme,

Adieu’”.

“Ainda restava um a coisa a ser feita – dizer adeus à m inha excelente tia.

Achei-a triunfante. Tom ei um a xícara de chá – a últim a xícara de chá decente

em m uitos dias – e, em um a sala, cuj a aparência tranquilizadora era o que se

deveria esperar de um a sala de estar de um a dam a, tivem os um a longa e calm a

conversa ao pé da lareira. Ao longo dessas confidências, ficou bastante claro

para m im que eu tinha sido indicado para a esposa de um alto dignitário, e sabe-

se lá para quantas outras pessoas m ais, com o sendo um a criatura abençoada e

excepcional – um a peça de boa ventura para a Com panhia – um hom em que não

se conseguia encontrar todos os dias. Por Céus! E eu estaria assum indo um barco

fluvial a vapor de m eros dois centavos e m eio com um apito de um centavo!

Entretanto, parecia que eu seria um dos Trabalhadores, com T m aiúsculo, vocês

sabem . Algo sem elhante a um em issário da luz, ou a um tipo m enor de apóstolo.

Havia m uito desse tipo de sandice circulando àquela época, tanto im presso

quanto falado, e um a excelente m ulher, vivendo corretam ente no m eio de tanto

engodo, acabou por deixar se levar. Ela falou tanto em ‘livrar aqueles m ilhões de

ignorantes daqueles horríveis vícios’, que, acreditem , deixaram -m e m uito

desconfortável. Cheguei m esm o a insinuar-lhe que a Com panhia buscava apenas

lucros, isso sim ”.

“‘Você se esquece, m eu querido Charlie, que o trabalhador vale pelo que

recebe’, ela disse cheia de orgulho. É extraordinário o quanto as m ulheres estão à

parte da verdade. Elas vivem em um m undo próprio e nunca houve nada com o

isso nem nunca poderá haver. Mas no geral, isso é m uito bonito e se fosse

revelado elas se despedaçariam antes do prim eiro pôr-do-sol. Qualquer fato em baraçoso com o qual nós hom ens vivem os com satisfação desde os dias da

Continuar: parte 2 de 3