O Coração das Trevas
Capítulo II
“Um a noite enquanto eu estava estirado sobre o convés de m eu vapor,
ouvi vozes se aproxim ando – e lá estavam o sobrinho e seu tio peram bulando pela
m argem do rio. Deitei novam ente a cabeça sobre o m eu braço e j á tinha
praticam ente m e rendido a um novo cochilo, quando alguém disse próxim o de
m eu ouvido, com o se estive bem ali ao lado: ‘Sou tão inofensivo quanto um a
criancinha, m as eu não gosto que m e digam o que eu deva fazer. Afinal, eu sou
ou não sou o gerente? Eu recebi ordens de enviá-lo para lá. É incrível’... Percebi
que os dois estavam de pé nas m argens do rio diante da proa do vapor, bem ao
lado de m inha cabeça. Não m e m ovi; não m e ocorreu fazer qualquer
m ovim ento: estava dorm indo. ‘É de fato desagradável’, grunhiu o tio. ‘Foi ele que
pediu à Adm inistração para que fosse enviado para lá’, disse o outro, ‘com a
intenção de dem onstrar o que ele poderia fazer; e eu fui instruído deste m odo.
Im agine a influência que esse hom em deve ter. Não é assustador?’ Am bos
concordaram que era m uito assustador, então fizeram várias observações
estranhas: ‘Chova ou faça tem po bom ... alguém ... o Conselho... precisam ente’,
trechos de sentenças absurdas que consegui retirar de dentro de m inha
sonolência; j á estava quase próxim o de m inha plena consciência quando o tio
disse, ‘O clim a pode resolver essa dificuldade para você. Ele está sozinho lá?’.
‘Sim ’, foi o que respondeu o gerente, ‘ele enviou o seu assistente rio abaixo com
um bilhete para m im com os seguintes term os: ‘Livre-se deste pobre diabo da
região e não se incom ode em enviar alguém do m esm o tipo. Prefiro ficar
sozinho a ter os tipos de hom ens que você pode dispor para m im ’. Isso faz m ais
ou m enos um ano. Pode im aginar algo m ais im prudente?’ ‘Algo m ais desde
entao?’, perguntou o outro, roucam ente. ‘Marfim ’, disparou o sobrinho,
‘m ontanhas de m arfim , de prim eira qualidade, m uitos... m uito desagradável da
parte dele’. ‘E além disso?’, perguntou o pesadão. ‘As notas de débitos’, foi a
resposta disparada, supostam ente. E então, silêncio. Eles estavam falando sobre
Kurtz”.
“Já estava com pletam ente acordado àquela hora, m as, deitado
perfeitam ente e à vontade, perm aneci assim , não tendo nenhum m otivo para
m udar de posição. ‘Com o todo esse m arfim chegou até aqui?’, m urm urou o m ais
velho deles, aparentando estar m uito atorm entado. O outro explicou que o
m arfim chegou a bordo de um a esquadra de canoas sob o com ando de um
m estiço inglês, funcionário que Kurtz m antinha j unto a ele; que Kurtz
aparentem ente pretendia vir ele m esm o, um a vez que o entreposto àquela época
j á se encontrava sem m antim entos e provisões, m as, depois de ter percorrido uns
480 quilôm etros, de repente decidiu retornar, o que fez sozinho em um a pequena
canoa escavada num a árvore com quatro rem adores, deixando o m estiço
continuar rio abaixo com o m arfim . Os dois cam aradas pareciam
com pletam ente im pressionados com a ousadia de alguém que agia assim . Não
tinham a m enor noção dos m otivos daquilo. Para m im , parecia que estava vendo
Kurtz pela prim eira vez. Foi um vislum bre m uito distinto: a piroga, os quatro rem adores selvagens e o solitário hom em branco dando as costas
inesperadam ente para o quartel-general, para sua licença, para os pensam entos
concernentes ao lar, talvez; voltando em direção às profundezas da floresta, em
direção ao seu entreposto vazio e desolado. Eu não tinha ideia dos m otivos. Talvez
ele fosse apenas um bom cam arada, apegado ao seu trabalho, para o seu
desenvolvim ento. Vej am bem , o seu nom e não foi pronunciado um a vez sequer.
Ele era ‘aquele hom em ’. O m estiço, que, pelo m enos no que eu pude ver, tinha
conduzido um a difícil viagem com grande prudência e coragem , era
constantem ente m encionado com o sendo ‘aquele patife’. O ‘patife’ havia relatado
que o ‘hom em ’ tinha estado m uito doente, m as que não tinha se recuperado
totalm ente... Os dois, abaixo de m im , se afastaram por alguns passos e
peram bularam de um lado para outro a pouca distância. Ouvi, ‘Posto m ilitar...
m édico... uns 320 quilôm etros... praticam ente sozinho agora... atrasos
inevitáveis... nove m eses... sem notícias... estranhos rum ores’. Eles se
aproxim aram novam ente, bem no m om ento quando o gerente disse, ‘Ninguém ,
pelo que eu saiba, a não ser um com erciante andarilho, um suj eito pestilento que
saqueia m arfim dos nativos’. Quem seria aquele de quem estavam falando? Pelo
que eu entendi aos poucos aquele tal era algum hom em que deveria se encontrar
no distrito de Kurtz e que, pelo j eito, o gerente não aprovava. ‘Não estarem os
livres dessa com petição inj usta até que um desses cam aradas sej a enforcado
para servir de exem plo’, disse ele. ‘Certam ente’, grunhiu o outro; ‘enforcá-lo! Por
que não? Qualquer, qualquer coisa pode ser feita nesta terra. É por isso que eu
digo: ninguém por aqui – você m e com preende? – por aqui, pode por em risco a
sua posição. E por quê? Você suporta o clim a, você sobrevive a todos eles. O
perigo está na Europa; m as lá, antes de eu partir, tom ei as providências
necessárias para...’ Eles se afastaram e sussurravam ; de repente suas vozes se
exaltaram novam ente. ‘A extraordinária série de atrasos não é m inha culpa. Eu
fiz o possível’. O hom em gordo suspirou, ‘É m uito triste’. ‘E a absurda pestilência
de seu discurso’, continuou o outro, ‘chegou a m e enoj ar quando esteve por aqui:
“Cada entreposto deveria ser com o um a baliza nas estradas em direção a coisas
m elhores, um centro com ercial é claro, m as tam bém um centro para a
hum anização, desenvolvim ento e instrução”. Im agine só... aquele petulante! E
ainda quer ser gerente! Não, é…’ Nesse m om ento, ele foi tom ado por um a
excessiva indignação e eu ergui m inha cabeça um pouco m ais. Surpreendi-m e
ao ver o quão próxim o eles estavam ... bem ao m eu lado. Poderia m esm o babar
sobre os seus chapéus. Eles estavam olhando para o chão, absortos em seus
pensam entos. O gerente estava batendo na sua perna com um a varinha; seu
parente m ais perspicaz ergueu a cabeça. ‘Você tem se sentido bem desde que
veio para cá da últim a vez?’, ele perguntou. O outro se exaltou. ‘Quem ? Eu? Oh!
Maravilhosam ente, m aravilhosam ente. Mas com relação aos outros… ah, m eu
Deus! Com pletam ente doentes. Eles m orrem tão rapidam ente que nem tenho
tem po de lhes m andar em bora da região – é incrível!’ ‘Hum m m , deve ser
m esm o’, grunhiu o tio. ‘Ah! Meu rapaz, confie nisto, é o que eu lhe digo, confie
nisto’. Eu o vi esticar aquele seu bracinho, com o um a nadadeira, num gesto com o
se abraçasse a floresta, o m anguezal, o lodo, o rio... com o se parecesse atrair,
através de um floreio desavergonhado diante da ilum inada face da terra, um apelo traiçoeiro para a m orte que espreitava, para o m al oculto, para a escuridão
profunda daquilo tudo. O gesto foi tão im pressionante que m e pus de pé e m e
virei para as m argens da floresta, com o se esperasse por um a resposta de algum
tipo para aquela sinistra dem onstração de segurança. Vocês sabem com o tem os
algum as noções tolas às vezes. A suprem a im ensidão confrontou aquelas duas
figuras com sua paciência am eaçadora, esperando pela passagem de um a
fantástica invasão”.
“Falavam m al em voz alta, os dois j untos – para disfarçar o m edo,
acredito eu – e, então, fingindo nada saber da m inha presença ali, voltaram para
o entreposto. O sol estava se pondo; e inclinados, lado a lado, pareciam puxar
dolorosam ente, m orro acim a, suas duas ridículas som bras de com prim entos
desiguais que seguiam atrás deles vagarosam ente por sobre a relva alta sem
curvar um sim ples talo sequer”.
“Alguns dias depois, a Expedição Eldorado penetrou na paciente floresta
que se fechou por sobre ela do m esm o m odo que o m ar se fecha por sobre um
m ergulhador. Logo depois, chegaram notícias inform ando que todos os asnos
tinham m orrido. Não fiquei sabendo nada sobre o destino daqueles anim ais
m enos valiosos. Eles, sem dúvida, com o o restante de nós, encontraram o que
m ereciam . Não indaguei sobre o fato. Naquele m om ento, encontrava-m e bem
ansioso com a possibilidade de m e deparar com Kurtz em breve. Quando eu digo
‘em breve’, faço-o de m aneira com parativa. O encontro ocorreu dois m eses
depois do dia que deixam os o m anguezal, quando chegam os à m argem logo
abaixo do entreposto de Kurtz”.
“Navegar aquele rio acim a era com o retornar aos m ais longínquos
prim órdios do m undo, quando a vegetação dom inava a terra e as grandes árvores
eram soberanas. Um a corrente de rio vazia, um grande silêncio, um a floresta
im penetrável. O ar era m orno, denso, pesado, indolente. Não havia alegria no
esplendor da luz do sol. As longas extensões de correnteza corriam desertas para
dentro da obscuridade das distâncias escurecidas. Nos bancos de areia prateados,
hipopótam os e crocodilos se esquentavam ao sol lado a lado. As águas, cada vez
m ais vastas, fluíam através de inúm eras ilhas cobertas de galhos; vocês poderiam
perder a direção naquele rio, do m esm o m odo que em um deserto; íam os de
encontro a bancos de areia ao longo de todo o dia, tentando descobrir um canal
de passagem , até que vocês pensassem estar enfeitiçados e cortassem os laços
para sem pre de tudo que um a vez vocês conhecessem , algum lugar m esm o que
distante e em outra existência talvez. Havia m om entos quando o passado
retornava, com o algum as vezes acontece quando não se tem um m om ento
dedicado só para nós, m as surgia na form a de um sonho agitado e barulhento,
relem brado com espanto entre a estupefante realidade deste estranho m undo de
plantas, água e silêncio. E esta im obilidade de vida não se assem elhava, contudo,
a qualquer indício de paz. Era a quietude de um a força im placável m editando
sobre um a intenção inescrutável. Ela o encarava com um a aparência vingativa.
Acabei por m e acostum ar com ela m ais tarde; nem m esm o a via m ais; não tinha
m ais tem po. Tinha que perm anecer atento ao canal; tinha que discernir, na m aioria das vezes por inspiração, os sinais de bancos de areia escondidos;
procurava por pedras subm ersas; estava aprendendo a cerrar os m eus dentes
com rapidez para evitar que m eu coração saltasse fora, quando raspávam os por
acaso em algum a velha saliência infernal de algum tipo que poderia sacar fora a
vida do vapor barato e afogar todos os peregrinos; tinha que m anter-m e atento
aos sinais de troncos m ortos que tínham os que cortar durante a noite para o
próxim o dia de navegação. Quando vocês têm que estar atentos a coisas desse
tipo, aos m eros incidentes da superfície, a realidade... a realidade – vej am bem
vocês – perde sua força. A verdade m ais profunda perm anece oculta –
felizm ente, felizm ente. Mas eu a sentia do m esm o m odo; sentia frequentem ente
sua quietude m isteriosa observando-m e através dos m eus truques baratos, assim
com o ela os observa, m eus caros, cam inhando sobre as suas respectivas cordas-
bam bas por... quanto m esm o? Meia-coroa[1] por cam balhota...”.
“Tente ser civilizado, Marlow”, rosnou um a voz e foi quando eu percebi
que havia pelo m enos m ais um ouvinte acordado além de m im m esm o.
“Desculpe-m e. Esqueci-m e do pesar que com põe o restante do valor. E,
de fato, o que im porta o valor, se o truque é bem executado? Vocês executam os
seus truques m uito bem . E eu não o realizei de todo m al, um a vez que trabalhei
para que o m eu vapor não afundasse em m inha prim eira viagem . Até hoj e eu
m e assom bro com isso. Im aginem um hom em vendado que foi colocado para
dirigir um carroção em um a péssim a estrada. Eu suei e trem i consideravelm ente
sobre aquela tarefa, posso lhes dizer. Depois de tudo, para um m arinheiro, raspar
a toda hora o fundo daquilo que está sob os seus encargos, e que supostam ente
deveria flutuar, é um pecado im perdoável. Talvez ninguém venha a perceber,
m as vocês nunca se esquecem da pancada, não é? Um a bofetada bem no m eio
do coração. Vocês se lem bram dela, sonham com ela, acordam no m eio da noite
e não param de pensar nela – m esm o anos depois – e se cobre inteiro de
calafrios. Não pretendo dizer que o vapor flutuou o tem po todo. Mais de um a vez
ele precisou ser rebocado um pouco, com vinte canibais em purrando e
chapinhando na água. Havíam os alistado algum desses cam aradas pelo cam inho
para fazer parte da tripulação. Bons cam aradas – os canibais – desde que em
seus devidos lugares. Eram hom ens com quem se podia trabalhar e sou m uito
grato a eles. E, afinal, eles não com eram uns aos outros bem diante de m im : eles
trouxeram um a provisão de carne de hipopótam o, m eio apodrecida, que fez com
que o m istério da floresta fedesse dentro de m inhas narinas. Blargh! Ainda posso
senti-lo. Eu levava o gerente a bordo e três ou quatro peregrinos com seus
bastões... todos com pletos. Às vezes, chegávam os a um entreposto próxim o da
m argem , agarrado às bordas do desconhecido, e hom ens brancos corriam
apressadam ente das cabanas prestes a desm oronar, com grandes gestos de
alegria e surpresa e boas-vindas, o que parecia m uito estranho, pois tinham a
aparência de serem m antidos lá cativos por algum encantam ento. A palavra
m arfim m antinha-se no ar por um tem po – e lá íam os novam ente de volta ao
silêncio, ao longo de trechos vazios, em volta de curvas caladas, entre as altas
m uralhas de nosso cam inho contorcido, reverberando em palm as ocas as
ponderadas batidas da roda de pás da popa. Árvores, árvores, m ilhões de árvores, sólidas, im ensas, estendendo-se para as alturas; e aos seus pés, abraçando a
m argem contra a correnteza, arrastava-se o pequeno vapor encardido, com o um
indolente besouro que se rastej ava sobre o piso de um pórtico im ponente. Isso
fazia com que nos sentíssem os m uito pequenos, m uito perdidos, ainda que esse
sentim ento não nos deixasse deprim idos. Afinal, m esm o pequeno, o besouro
encardido continuava em frente e era exatam ente o que queríam os que ele
fizesse. Para onde os peregrinos im aginavam que ele se rastej aria, não sei lhes
dizer. Para algum lugar aonde eles esperavam obter algum a coisa, aposto! Para
m im , ele se rastej ava em direção a Kurtz – unicam ente; m as quando os tubos de
vapor com eçaram a vazar, nós rastej am os bem devagar. Braços de rio se abriam
diante de nós para se fechar logo depois, com o se a floresta avançasse
vagarosam ente através do rio para im pedir o cam inho de nosso retorno. Nós
penetram os cada vez m ais, para o fundo, para dentro do coração das trevas. Lá
tudo era m uito quieto. Durante a noite, algum as vezes, o rufar dos tam bores por
detrás da cortina de árvores corria rio acim a e perm anecia prolongadam ente e
bem fraco, com o se flutuasse no ar sobre as nossas cabeças até os prim eiros
m om entos da aurora. Se aquilo significava guerra, paz ou algum a form a de
oração, não podíam os dizer. As auroras eram anunciadas pelo cair de um a
quietude fria; os lenhadores dorm iam , com o o fogo baixo das lareiras; o estalido
de um pequeno galho faria com que vocês se sobressaltassem . Nós estávam os
vagando por um a terra pré-histórica, sobre um a terra que se apresentava com o
aspecto de um planeta desconhecido. Podíam os nos im aginar com o os prim eiros
hom ens a tom ar posse de um a herança am aldiçoada, a serem subj ugados sob o
custo de um a profunda angústia e de um trabalho excessivo. Mas, de repente,
assim que vencíam os um a curva, nos deparávam os com o vislum bre de paredes
m al construídas, de telhados pontiagudos de sapé, um rom per de gritos, um
rodopiar de braços negros, um a m assa de m ãos aplaudindo, de pés batendo, de
corpos oscilando, de olhos rodopiando, sob a som bra de folhagens pesadas e sem
m ovim entos. O vapor avançava vagarosam ente ao largo de um furor negro e
incom preensível. O hom em pré-histórico estava nos am aldiçoando, orando por
nós, dando-nos as boas-vindas – quem poderia dizer? Estávam os distantes da
com preensão do que nos cercava; nós deslizávam os com o assom brações,
fascinados e secretam ente aterrorizados, com o hom ens sadios diante de um a
rebelião entusiástica em um hospício. Não com preendíam os, pois estávam os
m uito distantes e não podíam os lem brar, pois viaj ávam os na noite das prim eiras
eras, daquelas eras que se foram e que dificilm ente deixaram algum sinal,
m orm ente um a lem brança”.
“A terra parecia sobrenatural. Nós nos acostum am os a olhar sobre a
form a acorrentada de um m onstro conquistado, m as lá, lá podíam os olhar para
algo m onstruoso e livre. Era sobrenatural e os hom ens eram ... não, eles não eram
hum anos. Bem , com o vocês bem sabem , isso seria pior – essa suspeita de eles
não serem hum anos. Aquilo vinha surgindo aos poucos. Eles uivavam , pulavam e
rodopiavam , fazendo horríveis caretas; m as o que nos aterrorizava era
j ustam ente a ideia da hum anidade deles – com o a de vocês – a ideia do distante
parentesco com aquela selvagem e apaixonada baderna. Horrível. Sim , era horrível o suficiente; m as se vocês fossem hom ens o suficiente, adm itiriam para
vocês m esm os que havia em cada um o m ais leve traço de resposta à terrível
sinceridade daquele barulho, um a fraca suspeita de haver naquilo um significado
que vocês – vocês que se encontram tão distantes da noite das prim eiras eras –
pudessem com preender. E por que não? A m ente do hom em é capaz de qualquer
coisa, porque tudo se encontra dentro dela, todo o passado assim com o todo o
futuro. O que havia lá, então? Alegria, m edo, dor, devoção, coragem , cólera – o
que m ais poderia ser dito? – além da verdade, a verdade despida dos m antos do
tem po. Deixai que o tolo fique boquiaberto e estrem eça – o hom em a conhece e
pode observar sem m esm o piscar. Mas o hom em precisa pelo m enos ser tão
hom em quanto aqueles hom ens nas m argens. Deve encontrar aquela verdade
com a sua própria verdade, com a sua própria força inerente. Princípios?
Princípios não bastam . Aquisições, roupas, belos farrapos, farrapos estes que
voariam para longe à prim eira boa sacudidela. Não; precisa-se de um a crença
proposital. Há um apelo para m im naquela desordem dem oníaca? Muito bem ; eu
ouço; eu adm ito, m as tam bém possuo um a voz e para o m eu bem -estar, sej a ele
bom ou m au, é o discurso que não pode ser silenciado. Claro que um tolo, com
seu m edo absoluto e nobre sentim entos, está sem pre a salvo. Quem está
resm ungando? Vocês im aginam se eu desem barquei para uivar e dançar? Bem ,
não, claro que não. Nobres sentim entos, vocês entendem ? Malditos e nobres
sentim entos. Não tinha tem po. Estava perdendo tem po com alvaiade e tiras de
cobertor de lã, aj udando a colocar bandagens naqueles tubos de vapor que
vazavam , com o j á lhes disse. Tinha que ficar de olho na direção e esquivar-m e
daquelas saliências e cuidar daquela lata a qualquer custo. Havia um a superfície
verdadeira o suficiente naquelas coisas para salvar o m ais sábio dos hom ens. E,
entre tudo isso, eu tinha que ficar de olho no selvagem que servia de caldeireiro.
Ele era um tipo m elhorado: podia alim entar o fogo de um a caldeira vertical. Ele
estava bem abaixo de m im e, dou-lhes m inha palavra, olhar para ele era tão
edificante quanto ver um cão em um a paródia, um cão que estivesse vestindo
calções e um chapéu com penas e que andasse sobre suas pernas traseiras.
Alguns m eses de treinam ento realm ente transform aram aquele bom cam arada.
Ele olhava com atenção o m edidor de pressão e o m edidor de água com um
esforço evidente de coragem – e tinha polido os dentes, o pobre diabo, raspado o
encaracolado de sua cabeça em estranhos form atos e três cicatrizes ornam entais
em cada um a de suas bochechas. Deveria estar batendo palm as e sapateando
sobre seus pés na m argem , m as ao invés disso ele trabalhava duro, um cativo de
estranha bruxaria, repleto de conhecim ento aperfeiçoado. Ele era útil porque
tinha sido instruído; e o que ele sabia era isso: que quando a água na coisa
transparente desaparecesse, o espírito do m al dentro da caldeira ficaria bravo por
causa da grandiosidade de sua sede e se vingaria terrivelm ente. E, por isso, ele
suava e alim entava o fogo e observava o vidro com grande tem or (com um
am uleto im provisado, feito de farrapos, atados ao seu braço e com um pedaço de
osso polido, tão grande quanto um relógio, enfiado com a parte achatada para
baixo passando por seu lábio inferior), enquanto que as m argens cobertas de
m ata passavam lentam ente por nós, o barulho era deixado para trás, aos
interm ináveis quilôm etros de silêncio, e nós nos rastej ávam os na direção de Kurtz. Mas as saliências eram densas, a água era traiçoeira e rasa, a caldeira
parecia de verdade ser a m orada de um dem ônio rabugento e, por isso, nem o
caldeireiro nem eu tínham os tem po de contem plar os nossos pensam entos
horripilantes”.
“A uns oitenta quilôm etros abaixo do Entreposto Interior, encontram o-
nos com um a choupana de j uncos, um m astro inclinado e m elancólico, com uns
farrapos irreconhecíveis do que um dia tinha sido um a bandeira de algum tipo e
um a pilha de m adeira arrum ada com todo o esm ero. Aquilo era inesperado.
Fom os à m argem e sobre a pilha de lenha encontram os um pedaço de prancha
com algum as letras esm aecidas escritas à m ão. Quando as decifram os, dizia
‘Madeira para vocês. Rápido. Aproxim em -se com cuidado’. Havia um a
assinatura, m as estava ilegível – m as não era Kurtz – um a palavra m uito m aior.
‘Rápido’, Para onde? Rio acim a? ‘Aproxim em -se com cuidado’. Não tínham os
agido assim . Mas o aviso não poderia se referir ao local onde ele poderia ser
encontrado após aproxim ação. Havia algum a coisa errada m ais acim a. Mas o
que e quanto? Aquela era a questão. Com entam os com contrariedade sobre a
im becilidade daquele estilo telegráfico. A floresta, em torno, nada dizia e não
deixava tam pouco que víssem os m uito longe. Um a cortina esfarrapada de sarj a
verm elha pendia no vão da porta da choupana e ondulava m elancolicam ente
diante de nossos rostos. A habitação estava desm ontando, m as podíam os ver que
um hom em branco havia vivido ali não m uito tem po atrás. Restava ali um a m esa
rústica – um a prancha sobre duas estacas, m ontes de lixo colocados num canto
escuro; próxim o da porta, apanhei um livro. Ele tinha perdido suas capas e as
páginas tinham sido folheadas até que se transform assem em algo de um a
m aciez extrem am ente suj a; m as a lom bada tinha sido cuidadosam ente
alinhavada de fresco com cordão de algodão branco que ainda parecia lim po. Foi
um achado extraordinário. Seu título era ‘Um a investigação sobre algum as
questões de navegação’, por um hom em cham ado Tower, Towson – algo assim –
m estre da Marinha de Sua Maj estade. O conteúdo parecia ser de um a leitura
m uito enfadonha, com diagram as ilustrativos e repulsivas tabelas de figuras; a
cópia tinha uns sessenta anos. Segurei aquela m aravilhosa antiguidade com a
m aior delicadeza possível, para que ela não se dissolve em m inhas m ãos. Nele,
Towson ou Towser tratava com m uita seriedade sobre a resistência à ruptura de
correntes e instrum entos de navios, além de outros tem as. Não era um livro
m uito cativante; m as, à prim eira vista, vocês poderiam ver que ali havia um a
sim plicidade de intenção, um a preocupação honesta com o m odo correto de
fazer as coisas funcionarem , trazidas àquelas hum ildes páginas com um a
lum inosidade distante de certo profissionalism o, apesar de terem se passados
tantos anos. Aquele sim ples e velho m arinheiro, com seu discurso sobre correntes
e equipam entos, fez com que eu m e esquecesse da selva e dos peregrinos,
através de um a deliciosa sensação de ter descoberto algum a coisa
inequivocam ente real. Um livro daquele tipo bem ali era algo sim plesm ente
m aravilhoso, m as ainda m ais surpreendentes eram as anotações escritas nas
m argens e repletas de referências sobre o texto. Não podia acreditar em m eus
olhos! Elas estavam cifradas! Sim , pareciam com um a escrita cifrada. Im aginem um hom em carregando um livro daquele tipo para aquele lugar
perdido no m undo e estudá-lo – e fazendo anotações – em código com o aquele!
Era um m istério extravagante”.
“Tinha m e atentado levem ente para um tipo de ruído preocupante e,
quando levantei m eus olhos, vi que a pilha de m adeira havia sum ido e que o
gerente, auxiliado por todos os peregrinos, estava gritando para m im da beirada
do rio. Escondi o livro em m eu bolso. Asseguro-lhes que abandonar a leitura era
com o se m e separasse do abrigo de um a velha e sólida am izade”.
“Dei partida no m aquinário defeituoso. ‘Deve ser aquele com erciante
m iserável – aquele introm etido’, exclam ou o gerente, olhando cheio de m ás
intenções para o lugar que acabáram os de deixar. ‘Ele deve ser inglês’, disse.
‘Isso não o im pedirá de se m eter em encrenca se ele não se cuidar’, m urm urou o
gerente, som briam ente. Observei com um a inocência dissim ulada que nenhum
hom em estava livre de problem as naquele m undo”.
“A correnteza estava m ais rápida agora, o vapor parecia dar os seus
últim os suspiros, a roda de pás golpeava languidam ente e peguei-m e escutando
atentam ente a próxim a batida do barco, pois, na verdade, esperava que aquela
coisa m iserável se desse por vencida a qualquer m om ento. Era com o
testem unhar as últim as centelhas de um a vida. Mas, m esm o assim , continuam os
rastej ando. Algum as vezes m antinha o m eu olhar fixo em algum a árvore um
pouco m ais à frente para m edir o nosso progresso na direção de Kurtz, m as
invariavelm ente a perdia de vista antes que nós a alcançássem os. Manter os olhos
fixos tanto tem po em um a coisa era algo dem ais para a paciência hum ana. O
gerente apresentava um a resignação belíssim a. Eu m e preocupava e m e irritava
e discutia com igo m esm o se eu deveria ou não falar abertam ente com Kurtz,
m as, antes que eu chegasse a algum a conclusão, ocorreu-m e que o m eu discurso
ou o m eu silêncio, ou m esm o qualquer ação de m inha parte, seria um a m era
futilidade. O que im portava se alguém sabia ou ignorava? O que im portava quem
era o gerente? Às vezes percebem os as coisas em um lam pej o de percepção. A
essência daquele assunto perm anecia bem abaixo da superfície, além do m eu
alcance, e além do m eu poder de bisbilhotice”.
“Próxim o do anoitecer do segundo dia, j ulgam os que estivéssem os a uns
treze quilôm etros do entreposto de Kurtz. Eu queria prosseguir, m as o gerente
olhou-m e seriam ente e disse-m e que a navegação rio acim a era tão perigosa que
seria aconselhável que, um a vez que o sol j á se encontrava m uito baixo,
aguardássem os onde estávam os até a m anhã seguinte. Além disso, observou que
se o aviso para que nos aproxim ássem os com cautela fosse seguido, deveríam os
nos aproxim ar à luz do dia e não ao anoitecer ou na escuridão da noite. Na
verdade, aquilo era m uito sensato. Treze quilôm etros representavam
aproxim adam ente um as três horas de navegação para nós e eu tam bém j á podia
ver um as ondulações suspeitas na parte superior do fim daquele braço do rio.
Todavia, irritei-m e com o nosso atraso para além do que m eras palavras
poderiam expressar, ainda que não houvesse lógica naquilo tudo, pois um a noite a
m ais não representaria nada diante de tantos m eses. Com o tínham os bastante lenha, e cautela era a palavra de ordem , atraquei no m eio do rio. Aquele trecho
do rio era estreito, reto, com barrancos altos com o os cortes feitos por ferrovias.
O crepúsculo chegou se deslizando até ali m uito tem po antes que o sol se pusesse.
A correnteza seguia suave e ligeira, m as um a im obilidade calada se lançava
contra as m argens. As árvores cheias de vida, am arradas um as às outras por
trepadeiras e todo tipo de arbusto que crescia da vegetação rasteira, pareciam
que tinham se transform ado em pedra, do ram o m ais delgado até a m ais leve das
folhas. Não estavam em repouso – parecia algo artificial, com o se estivessem
em um estado de transe. Nem o m ais fraco dos sons de qualquer tipo podia ser
ouvido. Olhávam os com atenção e com eçávam os a suspeitar que estávam os
surdos e, então, a noite caiu tão de repente que pareceu que ficam os cegos de
vez. Lá pelas três da m adrugada, algum peixe grande saltou e o forte barulho da
pancada na água fez-m e sobressaltar, com o se um a arm a fosse disparada.
Quando o sol nasceu, apareceu um a névoa branca, m orna e m uito pegaj osa, e
m ais ofuscante do que a noite. Não se m ovim entava nem se elevava, ficando
apenas ali, im óvel, nos rodeando com o algo sólido. Lá pelas oito ou nove horas,
talvez, ela se ergueu com o se ergue um a persiana. Tivem os um deslum bre da
grande m assa elevada de árvores, da im ensa floresta espessa, com a bolinha
reluzente do sol pendurada sobre ela – tudo perfeitam ente im óvel – e, então, a
persiana branca desceu novam ente, suavem ente, com o se ela deslizasse em
ranhuras lubrificadas. Ordenei que a corrente que j á estava com eçando a ser
levantada, fosse baixada novam ente. Antes que ela parasse de correr com um a
pancada abafada, um grito, um grito m uito alto, com o que tom ado por um a
infinita desolação, elevou-se lentam ente pelo ar nebuloso. Parou. Um clam or
queixoso, m odulado em dissonâncias selvagens, preencheu os nossos ouvidos. O
com pleto e inesperado de tudo aquilo fez com os m eus cabelos arrepiassem por
debaixo do m eu gorro. Não sei com o aquilo afetou os dem ais: para m im , parecia
com o se a própria neblina tivesse gritado, com o se aquele ruído, tão turbulento e
desolador, tivesse surgido repentinam ente e aparentem ente de todos os cantos ao
m esm o tem po. Culm inou em um a rápida erupção de gritos excessivos, quase
intoleráveis, que rapidam ente pararam , deixando-nos petrificados em um a
variedade de atitudes tolas e ouvindo obstinadam ente até atingir em cheio o
excessivo e aterrador silêncio. ‘Bom Deus! O que significa…?’, gaguej ou ao m eu
lado um dos peregrinos – um hom enzinho gordo, com cabelos cor de areia e
suíças ruivas, calçando galochas de borracha e pij am a cor-de-rosa enfiado
dentro das m eias. Dois outros perm aneceram boquiabertos por um m inuto
inteiro, lançando-se, então, para dentro da pequena cabina, e correndo de volta
incontinente, olhos assustados e arregalados e com as ‘winchesters’ preparadas
em suas m ãos. Tudo o que podíam os ver era exatam ente o vapor onde nos
encontrávam os, com suas linhas gerais borradas com o se tivesse atingindo o
ponto de desintegração e um a faixa enevoada de água, talvez com uns sessenta
centím etros de largura em torno dele – isso era tudo. O restante do m undo não se
encontrava ali, pelo m enos no que se referia aos nossos olhos e ouvidos.
Sim plesm ente não existia. Perdido, desaparecido; varrido sem deixar um
m urm úrio ou um a som bra sequer atrás”.
“Segui para a proa e ordenei que a corrente fosse levantada um pouco,
de m aneira que a âncora pudesse ser recolhida e o vapor pudesse partir se fosse
necessário. ‘Eles atacarão?’, sussurrou um a voz aterrorizada. ‘Nós serem os
m assacrados neste nevoeiro’, m urm urou outra. Os rostos aterrorizaram -se com a
tensão, as m ãos trem endo levem ente, os olhos esquecendo-se de piscar. Foi m uito
curioso testem unhar o contraste das expressões dos brancos e dos negros da nossa
tripulação que eram tão estranhos àquela parte do rio quanto nós, em bora
m orassem a apenas uns m il e duzentos quilôm etros dali. Os brancos, com um a
descom postura evidente, exibiam ainda um olhar curioso aflitivam ente chocados
com tal horrenda situação. Os outros m antinham -se em alerta, com um a
expressão naturalm ente de interesse, entretanto seus rostos estavam
essencialm ente tranquilos, m esm o aqueles um ou dois que, dando risadas,
erguiam a corrente. Muitos outros trocavam frases curtas, quase rosnadas, que
pareciam esclarecer o interesse de sua satisfação. O líder deles, um j ovem
negro, com peito largo, rigorosam ente traj ando roupas ornadas com franj as azul-
escuras, com narinas ferozes e cabelos arrum ados em cachos besuntados,
arrum ados de m odo engenhoso, ficou plantado ao m eu lado. ‘Aha!”, disse,
apenas pelo bem do bom com panheirism o. ‘Pega eles’, ele rosnou, com um olhar
largo, inj etado de sangue, e um lam pej o dos seus dentes afiados, ‘Pega eles. Dá
eles pra nóis’. ‘Para vocês, é?’, perguntei, ‘e o que vocês variam com eles?’.
‘Comê eles!’, ele respondeu de form a curta e, apoiando os cotovelos na m urada,
olhou diretam ente para o nevoeiro com um a atitude profundam ente pensativa e
repleta de dignidade. Sem dúvida, eu teria ficado com pletam ente horrorizado se
não tivesse m e ocorrido que ele e os seus cam aradas deveriam estar com m uita
fom e; que a fom e deles deveria ter crescido progressivam ente pelo m enos do
últim o m ês para cá. Já fazia seis m eses que eles estavam contratados (não
acredito que um deles sequer tenha um a clara noção de tem po com o nós a
possuím os, ao térm ino de nossas incontáveis eras. Eles ainda pertenciam aos
prim órdios do tem po – não tinham um a experiência herdada que os ensinasse,
por assim dizer), e claro, enquanto houvesse um pedaço de papel escrito de
acordo com algum a lei burlesca ou outra qualquer criada rio abaixo, não entraria
na cabeça de ninguém a preocupação de com o eles viviam . Certam ente, eles
tinham trazido com eles algum a carne de hipopótam o apodrecida, que não
duraria m uito de qualquer form a, m esm o se os peregrinos não tivessem , em
m eio a um grande tum ulto, atirado um a quantidade considerável daquela carne
barco a fora. Parecia com um procedim ento arrogante, m as era, na verdade, um
caso de legítim a autodefesa. Não se pode respirar hipopótam o m orto ao acordar,
ao dorm ir e ao com er e m anter um controle precário sobre a existência, ao
m esm o tem po. Além disso, era dado para eles, a cada sem ana, três pedaços de
aram e de latão, cada um com uns 22 centím etros de com prim ento; o propósito
disso seria para que eles com prassem provisões com aquela ‘m oeda’ nos
vilarej os à beira do rio. Vej am com o aquilo tudo funcionava. Ou não havia
vilarej o algum , ou as pessoas eram hostis ou o diretor, que com o o restante de
nós se alim entava dos nossos enlatados, além do acom panham ento de carne de
bode velho, ocasionalm ente, não desej ava que o vapor parasse por algum a razão
m ais ou m enos oculta. Daquele m odo, ao m enos que eles com essem o aram e ou fizessem com ele alguns anzóis para capturar peixes, não vej o que tipo de
serventia aquele salário extravagante poderia ter para eles. Mas devo dizer que
ele era pago com um a regularidade digna das m aiores e m ais honradas
com panhias com erciais. No m ais, a única coisa para com er – em bora não
parecesse palatável de qualquer m odo – que eu podia ver que m antinham com
eles, era alguns poucos pedaços de algo parecido com um a m assa m al assada, de
um tom púrpuro m eio suj o, m antidos em brulhados em folhas; de vez em quando,
eles engoliam um pedaço que de tão pequeno que eram pareciam feitos m ais
para a aparência da coisa em si do que para algum propósito m ais sério de
sustento. O porquê, em nom e de todos os dem ônios torturantes da fom e, eles não
partiam para cim a de nós – eles eram trinta contra cinco – e se em panturravam
de um a vez, ainda hoj e m e espanta quando paro para pensar sobre aquilo. Eles
eram hom ens grandes e potentes, sem grande capacidade de m edir
consequências, coraj osos, com m uita força, m esm o que a pele j á não
apresentasse o m esm o viço e os m úsculos j á não fossem tão firm es. E eu via que
algum a coisa os im pedia, um daqueles segredos hum anos que desafiam a
probabilidade que para ali tinha se deslocado. Olhei para eles com um breve
interesse crescente – não porque tivesse ocorrido a m im que pudesse ser
devorado por eles m uito em breve, em bora, j uro para vocês, só tivesse percebido
naquele m om ento – através de um a nova perspectiva com o aquela – o quanto os
peregrinos pareciam pouco saudáveis; e eu esperava, sim , positivam ente
esperava, que o m eu aspecto não fosse tão – com o poderei dizer? – tão – pouco
apetitoso: um toque de vaidade fantástica que com binava bem com a sensação
onírica que im pregnava todos os m eus dias àquela época. Talvez eu tam bém
tivesse um pouco de febre. Não se pode viver com o dedo a tom ar o pulso
eternam ente. Frequentem ente, eu tinha ‘um pouco de febre’ ou m esm o um pouco
de algum a outra coisa – palm adas divertidas da floresta, coisas bobas
prelim inares que antecederiam o ataque m ais sério que chegaria no devido
tem po. Sim ; eu olhava para eles com o vocês olhariam para qualquer ser
hum ano, com um a curiosidade sobre seus im pulsos, m otivos, capacidades e
fraquezas, que são trazidos a teste diante de um a inexorável necessidade física.
Com edim ento! Que com edim ento seria possível? Seria superstição, repulsa,
paciência, m edo ou algum tipo de honra prim itiva? Nenhum m edo pode se
interpor à fom e, nenhum a paciência é capaz de esgotá-la; repulsa sim plesm ente
não existe onde existe fom e; e quanto à superstição, crenças e o que m ais vocês
possam cham ar de princípios, são m enos que palha lançada ao vento. Vocês não
têm noção da diabrura da fom e prolongada, sua deprim ente e exasperante
ferocidade. Bem , eu a conheço. Ela leva o hom em a se valer de todas as suas
forças inatas para com batê-la apropriadam ente. Na verdade, é m ais fácil
encarar a provação, a desonra e a perdição de nossa alm a do que esse tipo de
fom e prolongada. Triste, porém verdadeiro. E aqueles cam aradas não tinham
nenhum a razão im aginável para ter qualquer tipo de escrúpulo. Com edim ento!
Eu sim plesm ente poderia esperar algum a form a de com edim ento de um a hiena
que rondasse por entre os cadáveres de um cam po de batalha. Mas ali estava o
fato diante de m im , um fato estonteante a ser visto, com o a espum a das
profundezas do m ar, com o um a ondulação sobre um enigm a insondável, um m istério m aior ainda – quando eu penso nele – do que o estranho e inexplicável
tom de pesar desesperado daquele clam or selvagem que passara por nós nas
m argens do rio, por detrás da brancura ofuscante do nevoeiro”.
“Dois peregrinos batiam boca com rápidos sussurros em qual m argem
estávam os. ‘Esquerda’. ‘Não, não; com o você pode saber? Direita, direita, é
claro’. ‘É m uito sério’, disse o gerente logo atrás de m im ; ‘Ficaria desolado se
algo acontecesse ao senhor Kurtz antes que chegássem os’. Olhei para ele e não
tive dúvida nenhum a de sua sinceridade. Ele era exatam ente o tipo de hom em
que desej aria m anter as aparências. Aquele era o com edim ento dele. Mas
quando ele m urm urou algo com referência a prosseguirm os de um a vez, não tive
nenhum problem a em responder-lhe. Eu sabia, e ele tam bém sabia, que isso era
im possível. Se perdêssem os por com pleto o controle do fundo, nós estaríam os
absolutam ente perdidos, no ar. Não poderíam os ser capazes de dizer para onde
estaríam os indo – se para cim a ou para baixo do rio, ou m esm o para os lados –
até que nos chocássem os contra um a das m argens e, tão pouco, saberíam os em
qual das m argens estaríam os. Claro que não fiz nenhum m ovim ento. Não tinha
pretensão nenhum a de colidir. Vocês não poderiam im aginar um lugar m ais
m ortal com o aquele para um naufrágio. Se afundássem os de um a vez ou não,
certam ente pereceríam os de um m odo ou de outro. ‘Eu o autorizo a correr todos
os riscos’, disse ele, após um breve silêncio. ‘Eu m e recuso a tom á-los’, respondi
sucintam ente, e aquela era exatam ente a resposta que ele esperava, em bora a
entonação pudesse ter lhe surpreendido. ‘Bem , devo render-m e ao seu
j ulgam ento. Você é o capitão’, disse ele, com o um a civilidade notável. Virei m eu
om bro para ele em sinal de m eu apreço e olhei para o nevoeiro. Quanto tem po
m ais ele duraria? Era um a vigília sem esperança. A aproxim ação até aquele
Kurtz, que se roçava em busca de m arfim naquela selva desprezível era cercada
por tantos perigos com o se ele fosse um a princesa encantada dentro de um
castelo de fábulas. ‘Você acha que eles atacarão?’, perguntou o gerente, em um
tom de confidência”.
“Não acreditava que eles atacariam por algum as razões m uito óbvias.
Aquele nevoeiro denso era um a delas. Se eles deixassem as m argens em suas
canoas eles poderiam se perder, do m esm o m odo que nós nos perderíam os se
tentássem os nos m over. Ainda assim , acreditava que a selva em am bas as
m argens era bem im penetrável, m esm o que houvesse olhos por dentro dela,
olhos que podiam nos ver. A m ata ribeirinha era com certeza m uito densa,
m esm o que a m ata rasteira por detrás dela fosse evidentem ente penetrável.
Contudo, durante o breve m om ento no qual o nevoeiro tinha se dissipado, eu não
tinha visto nenhum a canoa em nenhum a parte do rio, pelo m enos não ao lado do
vapor. Mas o que fazia com que a ideia de um ataque fosse inconcebível para
m im era a natureza daquele barulho, dos gritos que tínham os ouvido. Eles não
possuíam a característica violenta que prenuncia um a intenção hostil im ediata.
Inesperado, selvagem e violento com o tinha sido, dera-m e um a irresistível
im pressão de pesar. A visão do vapor tinha, por algum a razão, dado àqueles
selvagens um sofrim ento irrefreável. O perigo, se houvesse, conform e esclareci,
era oriundo de nossa proxim idade com um a grande com oção hum ana desenfreada. Mesm o um extrem o sofrim ento pode em um a últim a análise
transform ar-se em violência, m as m uito geralm ente tom a a form a de apatia...”
“Vocês precisavam ver com o os peregrinos encaravam aquilo tudo!
Eles não tinham ânim o nem para forçar um sorriso, ou m esm o para m e criticar;
acredito, entretanto, que eles pensavam que eu tinha enlouquecido, talvez com o
m edo. Proferi um a palestra bem pontual. Meus caros, não havia necessidade de
nos perturbarm os. Manter a vigilância? Bem , vocês podem im aginar que eu
continuei a olhar para o nevoeiro em busca de sinais de que ele se dissiparia, do
m esm o m odo que um gato vigia um rato; m as para tudo m ais, nossos olhos eram
tão inúteis para nós, com o se estivéssem os enterrados sob quilôm etros de m ontes
de algodão. Parecia exatam ente isso: sufocante, quente e abafado. Além disso,
tudo o que eu tinha dito, em bora parecesse extravagante, era a m ais absoluta
verdade dos fatos. O que m ais tarde aludim os com o um ataque era, na verdade,
um a tentativa de nos repelir. A ação estava m uito distante de ser agressiva, não
era nem m esm o defensiva, em um sentido usual: foi realizada sob a tensão do
desespero e a sua essência era puram ente de proteção”.
“Poderia dizer que se desenvolveu por si m esm a um as duas horas após o
nevoeiro ter se levantado em um local, grosso m odo, localizado a
aproxim adam ente dois quilôm etros e m eio abaixo do entreposto de Kurtz.
Acabávam os de patinar e lutar para vencer um a curva no rio, quando vi um a
ilhota, um sim ples m onte de areia coberto de capim de um brilho verde, bem no
m eio do rio. Era algo inusitado, m as na m edida em que avançam os m ais, percebi
que se tratava da frente de um grande banco de areia, ou m elhor, de um a série
de trechos rasos que se estendia pelo m eio do rio abaixo. Eram desbotados,
praticam ente no nível d’água, e todo o conj unto era visto sob a água exatam ente
com o a espinha dorsal de um hom em é vista correndo por debaixo da pele no
m eio de suas costas. Ora, até onde eu podia ver, poderia prosseguir passando pela
direita ou pela esquerda dele. Eu não conhecia aquele ou o outro canal, é claro.
As m argens se pareciam bem o suficiente, a profundidade aparentava ser a
m esm a, m as, um a vez que m e inform aram que o entreposto ficava na m argem
oeste, naturalm ente segui pela passagem ocidental”.
“Logo que entram os o suficiente por ele, percebi que era m uito m ais
estreito do que eu supunha. À nossa esquerda, havia um grande e ininterrupto
banco de areia e, à direita, um a escarpa alta coberta com um a vegetação de
m oitas fechadas. Por cim a das m oitas, as árvores se m antinham em fileiras
cerradas. Os galhos saltavam sobre a correnteza, espessam ente, e, de tem pos em
tem pos, um grande ram o de algum a árvore se proj etava rigidam ente por sobre o
rio. Já era bem de tarde, o rosto da floresta estava escurecido e um a grande faixa
de som bras j á caía por sobre a água. Era naquela som bra que navegávam os,
bem devagar, com o vocês podem im aginar. Mantive o vapor bem próxim o da
m argem – a água era m ais profunda próxim a da borda, com o a vara para m edir
profundidade m e inform ava”.
“Um dos m eus am igos fam intos e contidos estava sondado a
profundidade, inclinando bem diante de m im . O vapor era exatam ente com o um a barcaça coberta. No convés, havia duas pequenas construções feitas de
teca, com portas e j anelas. A caldeira ficava na proa e o m aquinário bem atrás.
Por sobre tudo aquilo, havia um a cobertura leve, apoiada sobre balaústres. A
cham iné proj etava-se através daquele teto e, em frente da cham iné, um a
pequena cabina construída com pranchas leves servia de cabina para o
tim oneiro. Nela havia um a poltrona, duas banquetas de arm ar, um Martini-
Henri[2] carregado em um dos cantos, um a m esinha e a roda do lem e. Tinha
ainda um a porta estreita na frente e am plas venezianas de cada lado. Tudo aquilo
estava sem pre aberto, é claro. Passava os m eus dias em poleirado lá na
extrem idade dianteira do telhado, diante da porta. À noite, eu dorm ia na poltrona,
ou pelo m enos eu tentava. Um negro atlético, pertencente a algum a tribo do
litoral e instruído pelo m eu pobre predecessor, era o tim oneiro. Ele ostentava um
par de brincos de latão, vestia um a espécie de roupão azul que se estendia da
cintura até os tornozelos e im aginava que o m undo lhe pertencia. Ele era o m ais
instável pateta que eu j á conheci. Pilotava com um a fanfarronice sem fim ,
enquanto estávam os por perto, m as se ele nos perdesse de vista, se tornava
instantaneam ente prisioneiro de um terror ignóbil e deixava rapidam ente aquela
fraqueza tom ar o controle do vapor”.
“Olhava para a vara de sondagem e, sentia-m e bastante aborrecido de
ver que a cada m edição um pouco m ais da vara ficava para fora da água; foi
quando percebi que o negro que a m anej ava de repente abandonou a tarefa e se
lançou, deitado contra o convés, sem nem m esm o se preocupar em puxar a vara
para dentro. De qualquer form a, ele continuou segurando-a e a arrastou pela
água. No m esm o instante, o caldeireiro, que tam bém podia ver bem abaixo de
m im , sentou-se abruptam ente à frente da fornalha e abaixou sua cabeça. Fiquei
espantado. Foi quando eu olhei rapidam ente para o rio, pois havia um a
protuberância logo à frente. Gravetos, pequenos gravetos, voavam por todos os
lados, abundantem ente: eles zuniam diante do m eu nariz, caindo aos m eus pés e
golpeando a cabina do tim oneiro bem atrás de m im . Durante todo aquele tem po,
o rio, as m argens e as árvores estavam m uito quietas, perfeitam ente quietas.
Conseguia ouvir apenas o pesado bater da roda de pás contra a água e o ruído
daquelas coisas. Desem baraçam o-nos da protuberância com m uita dificuldade.
Flechas, por Deus! Estávam os sob ataque! Corri rapidam ente para fechar a
j anela da veneziana que dava para o lado da m argem . O tim oneiro pateta, com
suas m ãos nos raios do tim ão, erguia os j oelhos para o alto, batendo os pés e
trincando os dentes, com o um cavalo puxado pelas rédeas. Aos diabos com ele!
Estávam os nos arrastando a uns três m etros da m argem . Tive que m e esticar
para fora para fechar a pesada veneziana e vi um rosto por entre as folhas à
altura do m eu, olhando fixam ente para m im com grande ferocidade; e de
repente, com o se um véu tivesse sido retirado de m eus olhos, distingui, nas
profundezas da escuridão em aranhada, peitos nus, braços, pernas e olhos
reluzentes – a floresta estava repleta de m em bros hum anos em m ovim ento,
reluzindo com suas cores de bronze. Os galhos balançavam , oscilavam e
farfalhavam ; flechas eram disparadas de dentro deles e então a veneziana se
fechou. ‘Pilote diretam ente à frente’, disse ao tim oneiro. Ele m antinha a sua cabeça rígida, com o rosto voltado para frente, m as seus olhavam não paravam
de se m exer, seus pés se erguiam e se abaixavam lentam ente e sua boca
espum ava um pouco. ‘Fique quieto!’, disse, furioso. Seria m ais fácil ordenar a
um a árvore que não balançasse ao vento. Lancei-m e para fora. Logo abaixo de
m im , um a grande confusão de pés sobre o convés de aço; exclam ações
confusas; um a voz gritou, ‘Não podem os voltar?’. Foi quando percebi um a
ondulação em form ato de V logo à frente nas águas. O quê? Outra
protuberância! Fogo cerrado explodiu sob os m eus pés. Os peregrinos atiravam
com seus Winchesters, apenas desperdiçando chum bo naquela floresta. Um
desgraçado de um rolo de fum aça subiu e se dirigiu lentam ente para frente.
Am aldiçoei aquilo. Agora eu não podia ver nem a ondulação nem a
protuberância. Perm aneci de pé no vão da porta, espreitando e com as flechas
vindo em enxam es. Elas provavelm ente estavam envenenadas, m as pareciam ,
contudo, não serem capazes de m atar um gato. A m ata com eçou a uivar. Os
nossos cortadores de lenha deram um brado pronto para a batalha; o disparo de
um rifle logo atrás de m im m e ensurdeceu. Olhei por trás de m eu om bro e a
cabina do tim oneiro ainda estava cheia de barulho e fum aça, quando m e lancei
para o tim ão. O negro idiota havia largado tudo para abrir a veneziana e disparar
com o Martini-Henry. Ele perm aneceu diante da abertura, com os olhos
arregalados, enquanto eu gritava para que ele voltasse, ao m esm o tem po em que
corrigia um a súbita guinada daquele vapor. Não havia lugar para m anobrar
m esm o que eu quisesse, a protuberância estava em algum lugar bem próxim o e
à frente naquela confusão enfum açada e não havia tem po a perder, por isso,
esprem i o vapor contra a m argem direita, onde eu sabia que a profundidade da
água era m aior”.
“Rasgam os lentam ente a m ata que se lançava sobre o rio em um a
confusão de galhos partidos e folhas voando. O fogo cerrado logo abaixo
term inou, com o eu havia previsto, assim que a m unição acabou. Joguei a cabeça
para trás diante de um zum bido agudo que atravessou a cabina do tim oneiro,
entrando por um buraco na veneziana e saindo por outro. Olhando para além
daquele tim oneiro louco, que estava sacudindo o rifle vazio e gritando para a
m argem , vi vagas form as de hom ens que corriam inclinados, saltando,
deslizando, distintos, incom pletos, desaparecidos. Algo grande surgiu no ar diante
da veneziana, o rifle foi j ogado para a água e o hom em deu um passo para trás
rapidam ente e, olhando-m e por sobre o om bro de um m odo extraordinário,
profundo e fam iliar, tom bou aos m eus pés. O lado de sua cabeça bateu contra o
tim ão por duas vezes e a extrem idade de algo que parecia com um grande bastão
rolou, fazendo barulho e derrubando um a das pequenas banquetas. Parecia que
após puxar com violência aquela coisa de alguém que estava na m argem , havia
perdido o equilíbrio com a tentativa. A densa fum aça havia se dissipado e
estávam os desvencilhados da protuberância e, olhando para frente, pude ver que
j á estaríam os livres para desviar para fora daquela m argem a m ais ou m enos
uns noventa m etros; m as os m eus pés se sentiam tão quentes e m olhados que tive
que olhar para baixo. O hom em havia se virado sobre suas costas e olhava
diretam ente para m im ; suas m ãos agarradas com força naquele bastão. Era o cabo de um a lança que, ou atirada ou em purrada através da abertura, tinha lhe
atingido na lateral do corpo, bem em baixo das costelas; a lâm ina tinha
desaparecido de vista, após produzir um a ferida assustadora; m eus sapatos
estavam encharcados; um a poça de sangue se espalhava im óvel, reluzindo
verm elho-escuro sob a roda do lem e; seus olhos cintilavam com um brilho
surpreendente. O fogo cerrado com eçara novam ente. Ele olhava para m im
ansiosam ente, agarrado à lança com o se fosse algo precioso, com um sem blante
assustado, com o se eu fosse tentar retirar aquilo dele. Tive que fazer um grande
esforço para desvencilhar-m e do olhar dele e prestar atenção à navegação. Com
um a das m ãos, tateei sobre m inha cabeça em busca do cordão do apito do vapor
e, com gestos bruscos, soei e soei apressadam ente. O tum ulto da ira e dos gritos
de guerra deteve-se instantaneam ente e então, das profundezas da floresta,
chegou um pranto de m edo desolador e desespero absoluto, tão trêm ulo e
prolongado com o aquele que poderia ser im aginado após a fuga da últim a
esperança sobre a terra. Houve um a grande com oção na m ata; a chuva de
flechas parou, alguns poucos disparos perdidos foram ouvidos agudam ente e,
então, o silêncio, com o qual a lânguida batida da roda de pás do vapor, chegava
claram ente aos m eus ouvidos. Pus com dificuldade o lem e em direção a
estibordo no m om ento em que o peregrino com pij am a cor-de-rosa, agitado e
m uito acalorado, surgiu pelo vão da porta. ‘O gerente m e enviou...’, disse ele com
um a tonalidade m uito oficial e parou por um m om ento. ‘Bom Deus!’, disse ele,
encarando o hom em ferido”.
“Nós dois, brancos, perm anecem os sobre ele e seu olhar, brilhante e
inquiridor, tom ou conta de nós. Declaro que parecia que pensei que ele poderia
nos fazer algum a pergunta em algum a língua incom preensível; m as ele m orreu
sem pronunciar som algum , sem um m ovim ento dos lábios, sem um
estrem ecim ento de um m úsculo qualquer. Som ente em seus m om entos finais,
talvez em resposta a algum sinal que não pudéssem os ver, a algum sussurro que
não pudéssem os ouvir, ele franziu as sobrancelhas pesadam ente e aquele franzir
deu à sua m áscara m ortuária negra um a expressão m elancólica som bria e
am eaçadora, de um tom inconcebível. O brilho daquele olhar inquiridor
desapareceu suavem ente até um vazio sem expressão. ‘Você consegue
navegar?’, perguntei ao agente com ansiedade. Ele olhou para m im cheio de
dúvidas, m as agarrei-o com força pelo braço e ele com preendeu, de um a vez
por todas, que eu pretendia que ele navegasse sabendo ou não. Para lhes ser bem
franco, eu estava m orbidam ente ansioso para trocar os m eus sapatos e m inhas
m eias. ‘Ele está m orto’, m urm urou o cam arada, im ensam ente im pressionado.
‘Sem dúvida disto’, disse eu, arrancando com o um louco os cordões dos sapatos.
‘E, a propósito, suponho que o senhor Kurtz tam bém estej a m orto esta hora’”.
“Por um m om ento, aquele foi o pensam ento dom inante. Havia um
sentim ento de extrem o desapontam ento, com o se eu tivesse descoberto que
estava m e em penhando por algo com pletam ente sem substância. Não poderia
haver algo m ais repulsivo um a vez que eu tinha percorrido todo aquele cam inho
com apenas um propósito que era o de conversar com o senhor Kurtz. Conversar
com ... Arrem essei um dos sapatos para fora do barco e percebi que aquilo era exatam ente o que eu estava esperando – conversar com Kurtz. Vocês sabem que
eu fizera a estranha descoberta de que eu nunca o havia im aginado fazendo nada
além de discursar? Não dizia para m im m esm o, ‘Agora eu nunca m ais o verei’,
ou ‘Agora, eu nunca poderei lhe cum prim entar’, m as sim , ‘Agora eu nunca
poderei ouvi-lo’. O hom em se apresentava por si só com o um a voz. Claro que eu
o associava tam bém a algum tipo de ação. Não tinha sido inform ado, com todos
os tipos de invej a e adm iração, que ele tinha coletado, trocado, burlado ou
roubado m ais m arfim do que qualquer outro agente j unto? Não era isso o que
im portava. A questão era que havia nele um a criatura dotada e, de todas as suas
dádivas, a que era m ais predom inante, que carregava com ele um sentim ento de
presença real, era a sua habilidade em falar, as suas palavras – o dom da
expressão, a perplexidade, a ilum inação, a m ais exaltada e a m ais desprezível, o
em ocionante facho de luz ou fluxo enganador oriundo do coração de um a
escuridão im penetrável”.
“O outro sapato seguiu voando para dentro do deus-dem ônio daquele rio.
Pensei, ‘Por Deus! Está tudo term inado. Nós chegam os m uito tarde; ele se foi – o
dom se foi, tom ado por algum a lança, flecha ou porrete. Eu nunca ouvirei aquele
cam arada falar afinal’, e o m eu pesar tinha um a em oção assustadoram ente
extravagante, a m esm a que eu tinha percebido no lam ento enorm e daqueles
selvagens na m ata. Não podia m e sentir m ais tom ado por algum tipo de
desolação solitária, do que se eu tivesse sido subtraído de um a crença ou tivesse
perdido a razão de m eu viver... Por que vocês todos suspiram desta m aneira
bestial? Absurdo? Bem , absurdo com certeza. Bom Deus! Será que um hom em
não pode j am ais… Hei, alguém m e dê um pouco de tabaco...”
Seguiu-se um a pausa de um profundo silêncio, então um fósforo foi
aceso e o rosto m agro de Marlow surgiu, cansado, vazio, m arcado por rugas
profundas e pálpebras caídas, com um aspecto de atenção concentrada; e na
m edida em que ele dava vigorosas baforadas em seu cachim bo, parecia retrair e
avançar para fora da noite com as centelhas pontuais da dim inuta cham a. O
fósforo foi apagado.
“Absurdo!”, ele gritou. “Esta é a pior parte quanto a se tentar contra…
Aqui estão todos vocês, cada um am arrado a dois bons endereços, com o um
casco de navio com duas âncoras, um açougueiro logo na esquina, um policial
próxim o da outra, desej os excelentes e tem peratura norm al – ouviram ? – norm al
ao longo do ano todo. E m esm o assim vocês dizem , ‘Absurdo!’ Absurdo que se
dane! Absurdo! Meus caros, o que se pode esperar de um hom em que fora de si,
nervosam ente, acabara de atirar para fora do barco um par de sapatos novos.
Agora que estou pensando naquilo, é im pressionante que eu não tivesse m e
debulhado em lágrim as. Estou, de um m odo geral, orgulhoso de m inha coragem .
Fui atingido até o âm ago pela ideia de ter perdido o inestim ável privilégio de
ouvir o talentoso Kurtz. Claro que eu estava errado. O privilégio ainda esperava
por m im . Ah sim , eu ouvira m ais que o suficiente. E eu estava certo, tam bém .
Um a voz. Ele era um pouco m ais do que um a voz. Eu ouvi… a ele… a ela…
aquela voz… outras vozes... todas elas eram nada m ais que m eras vozes... e a lem brança daquele tem po por si só se prolonga em torno de m im , intocável,
com o um a vibração agonizante de um a im ensa bobagem , de um a tolice atroz,
sórdida, bárbara ou sim plesm ente cruel, sem o m enor sentido. Vozes, vozes... até
m esm o a garota por si m esm a… agora...”
Ele perm aneceu em silêncio por um bom tem po.
“Enterrei o fantasm a de suas dádivas, afinal, com um a m entira”, ele
recom eçou de repente. “Garota! O quê? Eu m encionei um a garota? Ah, ela está
fora disto – com pletam ente. Elas – as m ulheres, quero dizer – estão fora disso...
deveriam estar fora disto. Nós devem os aj udá-las a se m anter dentro daquele
belo m undo de suas próprias existências, para que a nossa própria não fique pior.
Oh, ela tinha que ficar fora disso. Vocês precisavam ter ouvido o corpo exum ado
do senhor Kurtz dizendo, ‘Minha Prom etida’. Vocês teriam percebido
im ediatam ente o quanto ela estava fora daquilo tudo, então. E a fronte soberba do
senhor Kurtz! Dizem que os cabelos continuam a crescer por algum tem po, m as
aquele... espécim e?... era espantosam ente calvo. A selva tinha lhe atingido em
cheio a cabeça e, acreditem , ela era com o um a bola – um a bola de bilhar; a
floresta o tinha acariciado, e – vej am ! – ele havia m urchado; ela o tinha tom ado
em seus braços, am ado, abraçado, penetrado em suas veias, consum ido a sua
carne e aprisionado a sua alm a ao próprio destino dela através de inconcebíveis
cerim ônias de algum a iniciação dem oníaca. Ele era o seu favorito, m im ado e
corrom pido. Marfim ? Eu deveria ter acreditado nisso. Montes deles, pilhas dele.
O velho casebre de barro estava repleto dele. Vocês pensariam que não haveria
um a única presa que havia sido deixada acim a ou abaixo do solo em toda a
região. ‘A m aioria fóssil’, constatou o gerente com desprezo. Aquilo não era m ais
fóssil do que eu m esm o, m as eles assim o cham avam , quando eram retirados da
terra. Parece que aqueles negros, de fato, enterravam as presas às vezes, m as
evidentem ente eles não poderiam enterrar aquela quantidade profunda o
suficiente para salvar o talentoso senhor Kurtz de seu destino. Enchem os o vapor
com o m arfim e ainda tivem os que em pilhar grande parte dele sobre o convés.
Assim ele pôde ver e desfrutar enquanto pudesse ver, pois o apreço por sua
generosidade perm aneceu com ele até o fim . Vocês precisavam ouvi-lo dizer,
‘Meu m arfim ’. Oh sim , eu o ouvi. ‘Minha Prom etida, m eu m arfim , m eu
entreposto, m eu rio, m eu...’, tudo pertencia a ele. Aquilo fez com que eu
prendesse a respiração na expectativa de ouvir a selva rom per em um a
prodigiosa gargalhada estrondosa que estrem eceria as estrelas fixas em suas
órbitas. Tudo pertencia a ela, contudo, aquilo não tinha im portância algum a. O
fato era saber a quem ele pertencia, quantos poderes das trevas o reivindicavam
para si. Aquela era a reflexão que os tom ariam de pavor por com pleto. Era
im possível, e tam bém não era de bom term o, tentar im aginar. Ele havia tom ado
um lugar privilegiado entre os dem ônios da terra e digo isso literalm ente. Vocês
não entenderiam . Com o poderiam ? Com um sólido calçam ento sobre os seus pés,
cercados por vizinhos gentis, prontos para encoraj á-los ou criticá-los, progredindo
delicadam ente entre o açougueiro e o policial em m eio à sagrada e aterradora
infâm ia, à forca e ao asilo de loucos – com o poderiam im aginar a qual região
em particular das prim eiras eras os pés desim pedidos do hom em poderiam levá-lo para dentro dos cam inhos da solidão – a solidão absoluta sem um policial –
pelos cam inhos do silêncio, silêncio absoluto, onde nenhum a voz de alerta de um
vizinho gentil pode ser ouvida a sussurrar-lhe a opinião pública? São essas
pequenas coisas que fazem toda a grande diferença. Quando elas se vão,
devem os nos voltar para as nossas próprias forças naturais, para a nossa própria
capacidade de dedicação. Claro que vocês podem ser tolos o bastante para se
enganarem , estúpidos dem ais até para saberem que estão sendo tom ados pelas
forças das trevas. Percebam que nenhum tolo j á barganhou com o diabo por sua
própria alm a: o tolo ou é m uito tolo, ou o diabo é m uito diabo, não sei bem qual o
certo. Ou vocês podem ser criaturas tão poderosam ente nobres que se j ulgam
surdas e cegas a tudo o m ais que não sej am visões e sons celestiais. A terra seria,
portanto, apenas um lugar para se estar, e se form os assim deste m odo para que
percam os ou ganhem os, não lhes pretenderei dizer. Mas a m aioria de nós não é
nem deste m odo, nem daquele. A terra para nós é um lugar para se viver, onde
devem os preencher com pontos de vistas, com sons, com arom as tam bém , por
Deus! Respirar hipopótam o m orto e não ser contam inado com isso, por assim
dizer. E ali..., percebem ? A força de vocês aflora, a fé em sua capacidade de
cavar buracos im perceptíveis para enterrar a coisa toda... o poder de devoção,
não a si m esm os, m as a um obscuro e m assacrante negócio. E essa é a parte
difícil. Vej am vocês, eu não estou tentando desculpar ou m esm o explicar... estou
tentando prestar contas a m im m esm o sobre... sobre... o senhor Kurtz... sobre a
som bra do senhor Kurtz. Aquele espectro iniciado, oriundo dos confins de lugar
nenhum , honrou-m e com sua im pressionante confiança antes de desaparecer por
com pleto. Talvez porque ele pudesse falar em inglês com igo. O Kurtz original
havia sido educado em parte na Inglaterra e – com o ele m esm o teve a bondade
de m e dizer – suas afinidades estavam no lugar certo. Sua m ãe era m eio-inglesa,
seu pai era m eio-francês. Toda a Europa contribuíra para tornar Kurtz quem ele
era; e, aos poucos, com preendi que, apropriadam ente, a Sociedade Internacional
para a Supressão dos Costum es Selvagens havia instruído-o a produzir um
relatório para sua futura orientação. E ele o havia escrito. Eu o vi. Eu o li. Era
eloquente, vibrando com eloquência, porém tenso dem ais, acredito eu. Dezessete
páginas de letras m iúdas para as quais ele havia encontrado tem po! Mas isto deve
ter ocorrido antes que os seus – digam os assim – nervos se perdessem e os
levasse a presidir certas danças à m eia-noite que term inavam com cerim ônias
repulsivas que, até onde eu pude recolher com relutância, a partir do que pude
ouvir por diversas vezes, eram oferecidas a ele... vocês com preendem ? –
oferecidas ao próprio senhor Kurtz. Todavia aquele relatório era um a bela peça
escrita. O parágrafo inicial, entretanto, à luz de inform ações posteriores, parece-
m e agora um tanto am eaçador. Ele com eçou com o argum ento de que nós, os
brancos, a partir do ponto de desenvolvim ento que tínham os atingido, ‘devem os
necessariam ente parecer para eles [os selvagens] com a natureza de seres
sobrenaturais – aproxim ando-nos deles com os poderes de um a divindade’, e
assim continuava e continuava. ‘Pelo sim ples exercício de nossa vontade, nós
podem os exercer um a força praticam ente ilim itada para o bem ’, etc., etc. A
partir daquele ponto, ele se elevou e levou-m e com ele. O epílogo era m agnífico,
em bora sej a-m e difícil de lem brá-lo, vocês entendem . Deu-m e a noção de um a im ensidão exótica governada por um a augusta Benevolência. Fez com que eu
vibrasse de entusiasm o. Aquele era o ilim itado poder da eloquência, das palavras,
de nobres palavras incandescentes. Não havia nenhum a indicação prática que
interrom pesse a corrente m ágica de frases, ao m enos que um tipo de nota de
rodapé na últim a página, rabiscada evidentem ente m uito tem po depois, por um a
m ão trêm ula, pudesse ser com preendido com o a exposição de um m étodo. Era
tudo m uito sim ples, e ao térm ino daquele apelo em ocionante a todo sentim ento
altruísta, fulgurava, lum inoso e aterrador, com o um lam pej o de um relâm pago
sobre um céu sereno: ‘Exterm inem todos os selvagens!’. A parte curiosa é que ele
aparentem ente tinha se esquecido por com pleto daquele valioso postscriptum,
pois, m ais tarde, quando ele, de certo m odo, voltou a si, repetidam ente im plorou-
m e para cuidar bem do ‘m eu panfleto’ (com o ele se referia), com o se fosse certo
que tivesse um a boa influência sobre a sua carreira no futuro. Fui plenam ente
inform ado sobre todas aquelas coisas, e, adem ais, com o tudo se desenrolou,
acabei por ser o guardião de suas lem branças. Fiz o suficiente por elas para dar-
m e o indiscutível direito de lançá-las, se assim eu quisesse, no repouso perpétuo
da lata de lixo do progresso, entre todos os detritos e, figurativam ente falando,
entre todos os gatos m ortos da civilização. Mas, vej am , eu não tive escolha. Ele
não será esquecido. Não im porta o que ele tenha sido, ele não era um a pessoa
com um . Ele tinha o poder de encantar ou aterrorizar alm as rudim entares,
levando-as a um a irritante dança enfeitiçada em sua honra; ele tam bém podia
preencher as pequenas alm as dos peregrinos com tem ores atrozes: apesar disso
tudo, ele tinha um am igo devotado, cuj a alm a conquistada no m undo não era
nem rudim entar nem m aculada pelo egoísm o. Não; eu não podia m e esquecer
dele, em bora não estej a preparado para afirm ar que aquele cam arada valia
cada vida que perdêram os, precisam ente, para chegarm os até ele. Senti
terrivelm ente a falta do m eu finado tim oneiro – j á sentia sua falta, enquanto o
seu corpo estava estendido na cabina do tim oneiro. Talvez, vocês achem m uito
estranho este sentim ento por um selvagem que não valia m ais que um grão de
areia de um Saara negro. Bem , vocês não percebem que ele tinha feito algum a
coisa, ele tinha pilotado; durante m eses, eu o m antive j unto de m im – um
aj udante – um instrum ento. Era um a espécie de sociedade. Ele pilotava por m im
– eu tinha que ficar de olho nele, preocupava-m e com as suas deficiências, e
assim um sutil laço foi criado, do qual só tive consciência, quando se rom peu
repentinam ente. E a profundidade íntim a daquele olhar que m e lançou, quando
foi ferido, perm anece até hoj e em m inha m em ória, com o um clam or de um
parentesco distante reconhecido em um m om ento suprem o”.
“Pobre tolo! Se ao m enos ele tivesse deixado a veneziana em paz. Ele
não tinha nenhum com edim ento, nenhum com edim ento – exatam ente com o
Kurtz – um a árvore agitada ao vento. Assim que eu calcei um par de chinelos
secos, eu o arrastei para fora, logo depois de ter arrancado a lança de seu flanco,
operação que confesso ter realizado com os olhos bem fechados. Seus
calcanhares saltaram por sobre a soleira da porta; seus om bros estavam
pressionando o m eu peito; eu o segurava por trás desesperadam ente. Oh, com o
ele era pesado, m ais pesado que qualquer hom em no m undo, cheguei m esm o a im aginar. Então sem m uita dem ora, eu o arrem essei para fora do barco. A
correnteza o apanhara com o se ele fosse um punhado de capim e vi o corpo rolar
por duas vezes antes de perdê-lo de vista por com pleto. Todos os peregrinos e o
gerente estavam reunidos no convés coberto próxim o da cabina do tim oneiro,
tagarelando uns com os outros, com o um bando de gralhas excitadas; houve um
m urm úrio escandalizado sobre a diligência insensível. Não posso im aginar para
que eles desej avam m anter aquele corpo pendurado ali. Em balsam á-lo, talvez.
Mas eu tam bém tinha ouvido um outro m urm úrio, um m uito sinistro, vindo do
convés inferior. Meus am igos, os cortadores de lenha, estavam do m esm o m odo
escandalizados, e com um a razão m uito m ais razoável, em bora adm ita que a
razão fosse com pletam ente inadm issível. Absolutam ente! Eu tinha decidido que
se o m eu finado tim oneiro tivesse que ser com ido que os peixes o fizessem
sozinhos. Ele tinha sido um tim oneiro de segunda-classe enquanto esteve vivo,
m as agora que ele estava m orto ele poderia ter se tornado um a tentação de
prim eira-classe e, possivelm ente, seria a causa de problem a assustador. Além
disso, estava ansioso para retom ar o controle do lem e, um a vez que o hom em
com pij am a cor-de-rosa m ostrava-se um com pleto fracasso para a tarefa”.
“Aquilo eu fiz im ediatam ente após o térm ino do singelo funeral.
Estávam os seguindo a m eia velocidade, m antendo-nos bem no m eio do rio,
quando escutei um a conversa sobre m im . Eles tinham desistido de Kurtz, eles
tinham desistido do entreposto; Kurtz estava m orto e o entreposto tinha sido
queim ado – e por aí a diante e a diante. O peregrino ruivo estava transfigurado
com o pensam ento de que pelo m enos o pobre Kurtz havia sido apropriadam ente
vingado. ‘Digam ! Nós devem os ter feito um m assacre glorioso na floresta, não?
O que vocês acham ? Digam !’ Ele dançava categoricam ente, aquele bastardinho
ruivo e sanguinário. E olhem que ele praticam ente tinha desm aiado quando viu o
hom em ferido! Não pude m e conter ao dizer, ‘Vocês fizeram um glorioso m onte
de fum aça, isso sim ’. Eu tinha visto, pelo m odo que a copa das árvores farfalhava
e voava, que praticam ente todos os tiros tinham sido dados altos dem ais. Não se
pode atingir nada ao m enos que se m ire e atire com a arm a apoiada no om bro,
m as aqueles cam aradas disparavam da cintura e com os olhos fechados. A
debandada – foi o que eu observei, e estava certo quanto a isso – foi causada pelo
uivo do apito do vapor. Diante disso, eles se esqueceram de Kurtz e com eçaram a
uivar contra m im com protestos indignados”.
“O gerente perm aneceu ao lado do lem e, m urm urando
confidencialm ente sobre a necessidade de descerm os o quanto pudéssem os o rio,
antes que escurecesse, ainda naquele dia, quando vi, à distância, um a clareira à
m argem e os contornos de algum tipo de construção. ‘O que é aquilo?’, perguntei.
Ele bateu palm as, m aravilhado. ‘O entreposto!’, gritei. Continuei avançando
lentam ente, ainda a m eia velocidade”.
“Com os m eus binóculos, avistei o declive de um a colina, entrem eada
com algum as poucas árvores e perfeitam ente liberada de qualquer vegetação
rasteira. Um a construção com prida e decadente no alto da colina estava
parcialm ente subm ersa no m ato alto; à distância, grandes buracos na cobertura pontiaguda se pareciam com bocas negras; o m atagal e a floresta com punham o
fundo da paisagem . Não havia nem fecham ento ou cerca de qualquer tipo; m as
aparentem ente deve ter havido um a, pois próxim o da casa, m eia dúzia de estacas
finas perm aneciam alinhadas, toscam ente aparadas e ornam entadas, na parte
superior, com esferas esculpidas. As grades, ou o que quer que sej a que houvesse
entre elas, tinham desaparecido. Claro que a floresta circundava tudo. A m argem
do rio estava livre e, à beira do rio, vi um hom em branco, sob um chapéu
parecido com um a roda de carroção, agitando persistentem ente o seu braço
estendido. Exam inando as m argens da floresta acim a e abaixo daquele ponto,
quase tive certeza de poder ver m ovim entos – form as hum anas deslizando por
todos os lados. Com prudência, naveguei ao largo, então parei as m áquinas e
deixei que o vapor fosse levado pela correnteza. O hom em na m argem com eçou
a gritar, encoraj ando-nos a desem barcar. ‘Fom os atacados’, gritou o gerente. ‘Eu
sei... eu sei. Está tudo bem ’, respondeu o outro, com um a alegria que os
deixariam anim ados. ‘Venham . Está tudo bem . É um a satisfação’.
“Sua fisionom ia lem brava-m e algo que eu j á tinha visto – algo
engraçado que eu tinha visto em algum lugar. Enquanto eu m anobrava para atracar, ficava m e perguntando, ‘Com o que esse suj eito se parece?’. Foi quando, de repente, dei-m e conta. Ele se parecia com um arlequim . Suas roupas tinham sido feitas com algum a coisa, provavelm ente um linho m arrom , m as estavam com pletam ente cobertas com rem endos, rem endos claros, azuis, verm elhos e am arelos – rem endos na parte da frente, rem endos atrás, rem endos nos cotovelos e nos j oelhos; retalhos coloridos em seu casaco, bainhas escarlates na barra de suas calças; e a luz do sol fazia com que ele aparentasse um olhar extrem am ente alegre e, além disso, m aravilhosam ente elegante, pois se podiam ver quão belos os rem endos tinham sido feitos. Um rosto im berbe e j uvenil, m uito belo, sem m arcas a lhe alterar, o nariz despelando, pequenos olhos azuis, sorrisos e olhares sérios perseguindo uns aos outros, com um sem blante tão franco com o a luz do sol e as som bras fazem em um a planície exposta ao vento. ‘Tom e cuidado, capitão!’, ele gritou; ‘há um a saliência que ficou presa aqui noite passada’. O quê! Outra saliência? Confesso que eu praguej ei sem vergonha algum a. Quase abri um buraco em m eu com panheiro deficiente apenas para dar um fim àquela viagem tão encantadora. O arlequim na m argem virou o seu pequeno nariz arrebitado em m inha direção. ‘Você? Inglês?’, ele perguntou, todo sorriso. ‘Você é?’, gritei por detrás do lem e. O sorriso desapareceu e ele balançou a cabeça com o se lam entasse pelo m eu desapontam ento. Mas se anim ou logo em seguida. ‘Não im porta!’, ele gritou de m odo encoraj ado. ‘Chegam os a tem po?’, perguntei. ‘Ele está lá em cim a’, retrucou, com um m ovim ento brusco da cabeça em direção à colina e ficando de repente deprim ido. Seu rosto era com o o céu de outono, nublado em um m om ento e cheio de luz no m om ento seguinte”.
Quando o gerente, acom panhado pelos peregrinos, todos arm ados até os
dentes, prosseguiram em direção à casa, aquele cam arada veio a bordo. ‘Vej a, eu não gosto disto. Aqueles nativos estão na floresta’, eu disse. Ele assegurou-m e com toda honestidade que estava tudo bem . ‘Eles são pessoas sim ples’, adicionou; ‘bem , fico feliz que você tenha chegado. Tom ou-m e m uito tem po para m antê-los afastados’. ‘Mas você disse que estava tudo certo’, gritei. ‘Oh, eles não representam nenhum a am eaça’, disse ele; m as com o eu o encarava, corrigiu-se, ‘Geralm ente não’. Então continuou alegrem ente. ‘Céus, a sua cabina precisa de um a lim peza!’. No instante seguinte, ele aconselhou-m e a m anter vapor suficiente nas caldeiras para soar o apito no caso de algum problem a. ‘Um a boa soada fará m ais por vocês do que as suas espingardas. Eles são pessoas sim ples’, ele repetiu. Ele tagarelava com tal velocidade que m e deixava estupefato. Ele parecia tentar com pensar os longos silêncios e, de fato, chegou a insinuar, rindo, que seria esse o caso. ‘Você não conversa com o senhor Kurtz?’, disse. ‘Você não conversa com aquele hom em – apenas o ouvim os’, ele exclam ou com profunda exaltação. ‘Mas agora...’, ele agitou o braço e, num piscar de olhos, foi tom ado pelo m ais profundo desânim o. No m om ento seguinte, anim ou-se novam ente com um salto, tom ando-m e m inhas m ãos e sacudindo-as continuam ente, enquanto tagarelava, ‘Irm ão m arinheiro... honra... prazer... deleite... apresentar-m e...
russo... filho de um arcipreste... governador de Tam bov[3]... O quê? Tabaco!
Tabaco inglês, o excelente tabaco inglês! Agora, isso sim é cordialidade. Fum a? Claro, onde j á se viu um m aruj o que não fum a?’”
“O cachim bo o tranquilizou e, aos poucos, com preendi que ele tinha
fugido da escola, ganhando o m ar em um navio russo; fugiu novam ente; serviu algum tem po em navios ingleses; agora estava reconciliado com o arcipreste. Salientou aquele fato. ‘Mas quando se é j ovem , deve-se ver coisas, ganhar experiência, ideias; am pliar a m ente’. ‘Aqui!’, eu o interrom pi. ‘Não se pode dizer! Aqui encontrei-m e com o senhor Kurtz’, disse ele, com um a solenidade j uvenil e repreensiva. Depois daquilo, procurei m e controlar. Parecia que ele tinha convencido um a casa com ercial holandesa localizada no litoral a supri-lo com provisões e m ercadorias e seguira para o interior com o coração desarm ado e nenhum a ideia, além daquelas que poderiam ser com uns a ele e a um bebê. Ele vagou ao longo daquele rio aproxim adam ente por dois anos, sozinho, isolado de todos e de tudo. ‘Eu não sou tão j ovem quanto pareço. Tenho vinte e cinco anos’, ele disse. ‘No com eço, o velho Van Shuy ten m e m andara para o inferno’, narrava ele com um prazer entusiasm ado, ‘m as eu o im portunei, e falava e falava até que, por fim , acabei vencendo-o pelo cansaço, e por causa disso ele m e deu alguns produtos baratos e algum as arm as e disse-m e que esperava nunca m ais m e ver novam ente. O bom e velho holandês, Van Shuy ten. Eu lhe enviei um lote pequeno de m arfim ano passado, para que ele não pudesse m e cham ar de ladrãozinho quando eu retornasse. Espero que ele tenha recebido. Quanto ao restante, não m e im porta. Tenho um pouco de lenha em pilhada para você. Aquela era a m inha antiga casa. Você a viu?’”
“Dei-lhe o livro de Towson. Ele fez m enção de m e beij ar, m as se
conteve. ‘O único livro que eu tive e pensei que o tivesse perdido’, ele disse, olhando cheio de entusiasm o para o livro. ‘Você sabe que tantos acidentes podem acontecer com um hom em que está seguindo sozinho. Canoas às vezes viram ... e, às vezes, você precisa se deslocar tão às pressas quando esta gente se enfurece’. Ele folheou as páginas. ‘Você fez anotações em russo?’, perguntei. Ele concordou com a cabeça. ‘Pensei que elas estavam escritas em algum código’, disse. Ele riu e depois ficou sério. ‘Eu tive tanto problem a em m anter essa gente afastada’, ele disse. ‘Eles queriam lhe m atar?’, perguntei. ‘Oh, não!’, ele disse m as, então, se conteve. ‘Por que eles nos atacaram ?’, insisti. Ele hesitou, e então disse tom ado pela vergonha. ‘Eles não queriam que ele fosse em bora’. ‘Eles não queriam ?’, disse, com curiosidade. Ele concordou com a cabeça de um m odo repleto de m istério e sabedoria. ‘Vej a bem ’, continuou ele, ‘este hom em abriu m inha m ente’. Ele abriu totalm ente os braços, encarando-m e com os seus olhinhos azuis perfeitam ente redondos”.
[1] Um a coroa é um a m edida m onetária da Inglaterra, cuj o valor até 1971
correspondia a 25 xelins e após essa data a 25 pence. A partir de 1990, um a coroa
passou a valer cinco libras esterlinas.
[2] Martini-Henri foi um m odelo de rifle produzido entre 1877 e 1891; foram
produzidos aproxim adam ente 1 m ilhão de unidades e foi sinônim o do
Im perialism o Britânico, perm anecendo em operação no exército daquela nação
até a Prim eira Guerra Mundial.
[3] Tam bov é um a cidade russa, capital da província de m esm o nom e, localizada
na confluência dos rios Tsna e Studnets, a 480 quilôm etros ao sudeste de Moscou.