O Coração das Trevas

Joseph Conrad · Capítulo 4 de 9

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O Coração das Trevas

Capítulo III

 

“Olhei para ele, tom ado de adm iração. Lá estava ele, bem diante de

m im , coberto de retalhos, com o se ele tivesse escapado de um a trupe de

m ím icos, entusiasm ado, fabuloso. Sua própria existência era im provável,

inexplicável e plenam ente desconcertante. Ele era um problem a insolúvel. Era

inconcebível com o ele tinha sobrevivido, com o ele tinha obtido sucesso em

chegar tão longe, com o ele tinha conseguido perm anecer – o porquê dele não ter

desaparecido instantaneam ente. ‘Eu prosseguia um pouco de cada vez’, disse ele,

‘e aí um pouquinho m ais, até que eu cheguei tão longe que não sei m ais com o

voltar. Não im porta. Há m uito tem po para isso. Eu posso dar um j eito. Leve Kurtz

em bora, depressa, depressa, ouça o que eu lhe digo’. O encanto da j uventude

envolvia os retalhos m ulticoloridos da roupa dele, a privação, a solidão e a

desolação essencial de suas peram bulações sem valor. Por m eses, por anos, a

vida dele não valia nada; e ali ele se sentia vivo, de um m odo galante e

despreocupado, vivo com toda sua indestrutível aparência apenas por causa da

virtude de seus poucos anos e de sua audácia irrefletida. Estava seduzido por algo

com o adm iração e invej a. Aquele encanto o encoraj ava e o m antinha incólum e.

Ele claram ente não desej ava nada da floresta, além de espaço para respirar e,

com isso, seguir à diante. Sua necessidade era a de escapar e de prosseguir em

direção ao m aior perigo possível e com o m áxim o de privação. Se aquele espírito

de aventura, absolutam ente puro, arbitrário e pouco prático j á chegou a governar

um ser hum ano, com certeza governava aquele j ovem rem endado. Eu

praticam ente invej ava o seu controle de tal cham a tão m odesta e clara. Ela

parecia que consum ira todos os pensam entos daquele ser tão com pletam ente

que, m esm o enquanto ele conversava com você, esquecíam os que ela na

verdade era ele – o hom em diante de seus olhos – que havia passado por todas

aquelas coisas. Contudo, não invej ava a sua devoção a Kurtz. Ele não tinha

m editado sobre isso. Sim plesm ente, veio até ele e ele a tinha aceitado com um

pouco de fatalism o ansioso. Devo dizer-lhes que para m im ela se apresentava

com o sendo um a das coisas m ais perigosas pela qual ele j á tinha passado até

então”.

“Eles tinham se aproxim ado, inevitavelm ente, com o dois navios com o

m aquinário parado que se aproxim avam um do outro e que, eventualm ente, se

esbarravam . Suponho que Kurtz desej asse pessoas que o ouvissem , pois, em

certa ocasião, quando se encontravam acam pados na floresta, eles conversaram

a noite toda, ou m ais provavelm ente Kurtz falava. ‘Nós conversam os sobre tudo’,

disse ele, praticam ente arrebatado pela lem brança. ‘Esqueci que havia algo

com o o descanso. A noite não pareceu ter durado m ais que um a hora. Sobre

tudo! Sobre tudo! Inclusive sobre o am or’. ‘Ah, ele conversou com você sobre o

am or!’, disse, m uito entretido. ‘Não é o que você está pensando’, exclam ou,

quase apaixonadam ente. ‘Mas em linhas gerais. Ele fez com que eu pudesse

com preender certas coisas... coisas’”.

“Ele j ogou os braços para cim a. Estávam os no convés naquela ocasião e

o líder dos m eus cortadores de lenha, que descansava ali próxim o, lançou sobre

ele os seus olhos duros e cintilantes. Olhei ao redor... não sei o porquê, m as posso

lhes assegurar que nunca, nunca antes, aquela terra, aquele rio, aquela selva,

m esm o a abóbada daquele céu flam ej ante, pareceram -m e tão sem esperança e

tão som brios, tão im penetráveis ao pensam ento hum ano, tão im piedosos à

fraqueza hum ana. ‘E, desde então, você tem estado com ele, por certo?’, disse a

ele”.

“Pelo contrário. Parece que o relacionam ento entre eles havia sido

interrom pido por diversas razões. Ele tinha, com o m e inform ou orgulhosam ente,

conseguido cuidar de Kurtz por duas ocasiões, quando esteve doente (ele se

referia a aquilo com o vocês se refeririam a algum a façanha arriscada), m as, por

via de regra, Kurtz peram bulava sozinho para dentro das profundezas da floresta.

‘Frequentem ente, ao chegar ao entreposto, eu tinha que esperar dias e dias antes

que pudesse vê-lo novam ente’, disse ele. ‘Ah, m as valia a pena esperar! Às

vezes’. ‘O que ele estava fazendo? Explorando ou algo do gênero?, perguntei. ‘Oh,

sim , claro’. Ele tinha descoberto um m onte de vilarej os, um lago tam bém ... ele

não sabia bem exatam ente em qual direção; era perigoso fazer m uitas perguntas,

m as, na m aioria das vezes, as suas expedições eram em busca de m arfim . ‘Mas

ele não possuía nenhum a m ercadoria para trocar por m arfim naquela época’,

obj etei. ‘Ainda havia um a boa quantidade de m unição que restara’, ele

respondeu, desviando o olhar. ‘Falando francam ente, ele tom ou de assalto o

território’, disse eu. Ele concordou. ‘Certam ente, não sozinho!’. Ele m urm urou

algum a coisa sobre os vilarej os em torno do lago. ‘Kurtz conseguiu que a tribo o

seguisse, foi isso?’, sugeri. Ele se incom odou um pouco com isso. ‘Eles o

adoraram ’, ele disse. O tom daquelas palavras era tão extraordinário que eu olhei

para ele com um olhar inquiridor. Era curioso ver o ím peto que ele possuía

m isturado à relutância ao falar de Kurtz. O hom em preenchera a sua vida,

ocupara os seus pensam entos, influenciara os seus sentim entos. ‘O que

poderíam os esperar?’, irrom peu de repente; ‘ele veio até eles com o trovão e o

relâm pago, você bem sabe, e eles nunca tinham visto nada com o aquilo e foi

algo terrível. Ele poderia ser realm ente terrível. Não j ulgue o senhor Kurtz com o

você faria com um hom em com um . Não, não, não! Vej a – apenas para lhe dar

um a ideia – e não m e im porto em lhe dizer – um dia, ele tam bém quis atirar em

m im , m as, m esm o assim , eu não o j ulguei’. ‘Atirar em você!’, exclam ei. ‘Mas

por quê?’ ‘Bem , eu tinha um pequeno lote de m arfim que o chefe daquele

vilarej o próxim o de m inha casa havia m e dado. Vej a bem , eu costum a abater

alguns anim ais de caça para eles. Bem , ele desej ava o m arfim e não se

im portava com as m inhas razões. Ele afirm ou que atiraria em m im , ao m enos

que eu lhe desse o m arfim e que partisse do território, pois ele faria isso

realm ente e, estava m uito inclinado a fazê-lo, e não havia nada no m undo que o

im pediria de m atar quem lhe bem aprouvesse. E isso era bem verdade. Eu lhe

dei o m arfim . Não m e im portava! Mas eu não fui em bora. Não, não. Eu não

poderia deixá-lo. Eu tinha que ser cuidadoso, durante certo tem po, é claro, até

que nós fôssem os am igos novam ente. Foi quando ele adoeceu pela segunda vez. Depois disso, tive que m e m anter fora do cam inho, m as eu não m e im portava.

Ele estava vivendo na m aior parte do tem po j unto daqueles vilarej os no lago.

Quando ele descia o rio, às vezes ele vinha até m im , e às vezes era m elhor que

eu fosse cuidadoso. Este hom em sofreu m uito. Ele odiava tudo aquilo, m as de

algum m odo não conseguia se afastar. Quando eu tive um a oportunidade, eu lhe

im plorei para tentar partir enquanto houvesse tem po; cheguei a m e oferecer para

acom panhá-lo. E ele dizia que sim , m as continuava aqui; partia em outra busca

por m arfim ; desaparecia por sem anas; esquecia-se entre aquela gente, esquecia-

se por com pleto, você entende?’. ‘Por quê? Ele é louco’, respondi. Ele protestou,

tom ado de indignação. O senhor Kurtz não poderia ser louco. Se eu o tivesse

ouvido falar, há apenas dois dias, não ousaria sugerir tal coisa... tom ei os m eus

binóculos, enquanto conversávam os, e olhei para a m argem , calculando os

lim ites da floresta de cada lado da casa, bem com o pelos fundos. A ciência de

que havia pessoas naquela selva, tão silenciosa e quieta – com o o silêncio e a

quietude da casa arruinada na colina – m e deixava desconfortável. Não havia

nenhum sinal sobre a face da natureza daquela história im pressionante que não

era tão vívida quanto m e era sugerida pelas exclam ações vazias,

com plem entadas por encolher de om bros, em frases interrom pidas, em

sugestões term inadas com suspiros profundos. A m ata estava im óvel com o um a

m áscara... pesada com o um a porta fechada de um a prisão... ela olhava com um

ar de conhecim ento oculto, de expectativa paciente, de silêncio inacessível. O

russo estava m e explicando que fazia pouco tem po que senhor Kurtz tinha decido

o rio, trazendo com ele todos os guerreiros daquela tribo do lago. Ele tinha se

ausentado por vários m eses – enquanto era venerado, suponho – e de repente, ele

descera o rio, com a clara intenção aparente de fazer um a incursão ou à outra

m argem do rio ou descendo a correnteza. Evidentem ente o apetite por m ais

m arfim triunfara sobre – com o poderei dizer? – as aspirações m enos m ateriais.

Entretanto, ele havia piorado m uito de repente. ‘Ouvi que ele estava prostrado

sem auxílio algum e então eu vim para cá... arrisquei-m e’, disse o russo. ‘Oh, ele

está m al, m uito m al’. Mirei a casa com os m eus binóculos. Não havia nenhum

sinal de vida, além da cobertura arruinada, da longa parede de barro,

despontando acim a do m ato, com três pequenas j anelas quadradas, nenhum a do

m esm o tam anho; tudo aquilo ao alcance de m inha m ão, com o de fato estava. E,

então, eu fiz um m ovim ento brusco e um a das estacas rem anescentes da cerca

desaparecida saltou diante do cam po de visão de m eus binóculos. Vocês se

lem bram que eu lhes disse que havia fico im pressionado, m esm o que à distância,

com certas tentativas de ornam entação, fora do com um diante do aspecto

arruinado do lugar. Agora, e repentinam ente, eu tinha um a visão m ais próxim a e

o prim eiro resultado disso fez com que m inha cabeça fosse lançada para trás

com o diante de um golpe. Foi quando cuidadosam ente fui de estaca a estaca com

os m eus binóculos que percebi o m eu equívoco. Aquelas esferas redondas não

eram ornam entais, m as sim sim bólicas; elas eram significativas, estarrecedoras,

im pressionantes e perturbadoras – alim ento para a im aginação e tam bém para os

abutres se houvesse algum olhando dos céus; todavia, aqueles acontecim entos

alim entariam todas as form igas diligentes o suficiente que escalassem a estaca.

Aquelas cabeças espetadas nas estacas seriam ainda m ais im pressionantes se não estivessem viradas para a casa. Apenas um a, a prim eira que eu avistara, estava

voltada na m inha direção. Não fiquei tão im pressionado quanto vocês podem

supor. Na realidade, o sobressalto que eu tinha dado nada m ais era que um

m ovim ento de surpresa. Vej am bem vocês, eu esperava ver um a esfera de

m adeira ali. Voltei deliberadam ente para a prim eira que eu havia visto... lá

estava ela, enegrecida, seca, adorm ecida, com as pálpebras fechadas, um a

cabeça que parecia dorm ir sobre a ponta da estaca e com os lábios secos e

contraídos, m ostrando um a estreita linha branca dos dentes, que pareciam sorrir,

sorrindo continuam ente de algum sonho j ocoso e sem fim dentro daquele

repouso eterno”.

“Eu não havia descoberto nenhum segredo com ercial. De fato, o

gerente disse m ais tarde que os m étodos do senhor Kurtz tinham arruinado o

distrito. Eu não tinha nenhum a opinião àquele ponto, m as quero que vocês

entendam claram ente que não havia nada exatam ente de proveitoso no fato

daquelas cabeças estarem ali. Elas apenas dem onstravam que o senhor Kurtz

carecia de com edim ento quanto à satisfação de seus vários desej os... que havia

algum a coisa em falta nele, algum a coisa m enor que, quando confrontada com a

pressão, não podia ser encontrada sob a sua eloquência m agnífica. Se ele tinha

ciência daquela sua deficiência, não sei lhes dizer. Acredito que o conhecim ento

daquilo lhe foi revelado no fim , apenas no fim . Mas a floresta o encontrara logo

no início e lhe im pusera um a terrível vingança por sua fantástica invasão.

Acredito que ela lhe tenha sussurrado coisas sobre ele m esm o que ele ainda não

sabia, coisas que ele não tinha a m ínim a noção até que tivesse contato com

aquela grande solidão... e o m urm úrio dem onstrou-se irresistivelm ente

fascinante. Ele ecoou de m aneira vociferante dentro dele, pois ele era

com pletam ente vazio... Abaixei os binóculos e a cabeça que tinha surgido tão

próxim a, a ponto de eu m esm o poder conversar com ela, parecia de im ediato ter

saltado para longe de m im até um a distância inacessível”.

“O adm irador do senhor Kurtz ficou um pouco deprim ido. Com um a voz

indistinta e apressada, ele com eçou a m e assegurar que não ousara retirar

aqueles... digam os, sím bolos. Ele não tinha m edo dos nativos; eles não se

m ovim entariam até que o senhor Kurtz desse a ordem . A dom inação dele era

extraordinária. Os cam pos daquela gente circundavam o lugar e os chefes

vinham todos os dias para vê-lo. Eles se rastej avam ... ‘Não desej o saber nada das

m aneiras que eles usavam para se aproxim ar do senhor Kurtz’, gritei. Curioso

aquele sentim ento que eu tinha de que tais detalhes seriam m ais intoleráveis do

que aquelas cabeças secando no topo daquelas estacas sob a j anela do senhor

Kurtz. Afinal, aquilo era som ente um a visão selvagem , enquanto eu parecia estar

prestes a ser transportado para dentro de algum a região m ais tenebrosa de sutis

horrores, onde a pura e elem entar selvageria era um consolo positivo, com o se

fosse algo que tivesse o direito de existir tão obviam ente sob a luz do sol. O j ovem

olhou-m e com surpresa. Suponho que não tivesse lhe ocorrido que o senhor Kurtz

não era um ídolo para m im . Ele se esquecera que eu não tinha ouvido nada

daqueles esplendidos m onólogos sobre... – sobre o que m esm o? – sobre am or,

j ustiça, conduta de vida, ou o que m ais fosse. Se tivesse que se rastej ar diante do senhor Kurtz, ele rastej aria tanto quanto o m ais natural de todos aqueles

selvagens. Eu não tinha ideia das condições, ele m e disse: aquelas cabeças eram

as cabeças de rebeldes. Eu o surpreendi excessivam ente ao rir. Rebeldes! Qual

seria a próxim a definição para aquilo que eu estava ouvindo? Havia inim igos,

crim inosos, trabalhadores... agora aqueles eram rebeldes. Aquelas cabeças

rebeladas olhavam para m im m uito subm issas do alto das estacas. ‘Você não tem

ideia de com o um a vida com o esta pode testar um hom em com o ele’, exclam ou

o derradeiro discípulo de Kurtz. ‘Bem e você tem ?’, eu disse. ‘Eu? Eu? Eu sou um

hom em sim ples. Eu não tenho grande im aginação. Eu não quero a adm iração de

ninguém . Com o você pode m e com parar com …?’ Os sentim entos dele eram

tantos que não podia falar e, de repente, ele sucum biu. ‘Eu não entendo’, ele

suspirou. ‘Eu tenho feito o m elhor possível para m antê-lo vivo e isso é o

suficiente. Eu não tenho nenhum a m ão para isto. Não tenho nenhum a habilidade.

Não tive um a gota sequer de rem édio ou um a porção de com ida que prestasse

durante m eses aqui. Ele foi vergonhosam ente abandonado. Um hom em com o

este, com tais ideias. Vergonhoso! Vergonhoso! Eu… eu… faz pelo m enos dez

noites que eu não durm o…’”

“A voz dele se perdeu na calm aria do entardecer. As longas som bras da

floresta que se espalhavam colina abaixo enquanto conversávam os, tinham agora

se afastados do barracão em ruínas, para longe da fileira das estacas sim bólicas.

Tudo aquilo estava na escuridão, enquanto que nós, lá em baixo, ainda estávam os

sob a luz do sol e o braço do rio em frente à clareira, cintilava em um tranquilo e

ofuscante esplendor, com um a curva m elancólica e som bria acim a e abaixo.

Nenhum a viva alm a era vista na m argem . A m ata não farfalhava”.

“De repente, próxim o do canto da casa, um grupo de hom ens apareceu,

com o se eles tivessem surgido de dentro da terra. Eles atravessavam com

dificuldade, afundados até a cintura na relva, em um bloco com pacto, enquanto

carregavam um a padiola im provisada. Num piscar de olhos, no vazio da

paisagem , um grito irrom peu tão estridentem ente que perfurou o ar im óvel com o

um a flecha afiada voando diretam ente até o coração da terra; e, com o por

encantam ento, levas de seres hum anos, de seres hum anos desnudos, com lanças

nas m ãos, com arcos, com escudos, com olhares cintilantes e m ovim entos

selvagens, transbordavam para dentro da clareira pela floresta pensativa e de

fisionom ia som bria. O m atagal se agitou, a relva ondulou por um tem po e então

tudo ficou parado dentro de um a atenta im obilidade”.

“‘Agora, se ele não disser a coisa certa para eles, nós estarem os

com pletam ente perdidos’, disse o russo bem ao m eu lado. O grupo de hom ens

com a padiola parou tam bém , a m eio cam inho do vapor, com o se estivesse

petrificado. Eu vi o hom em na padiola se sentar, esquálido e com um dos braços

levantados, acim a dos om bros dos carregadores. ‘Esperem os que o hom em que

consegue falar tão bem sobre o am or, em geral, encontre algum a razão em

particular para nos poupar desta vez’, disse eu. Ressentia-m e am argam ente com

o absurdo perigo de nossa situação com o, estar sob a m isericórdia daquele

fantasm a atroz, fosse um a necessidade desonrosa. Não conseguia ouvir um som sequer, m as, através dos m eus binóculos, eu vi um braço m agro estendido,

com andando; a m andíbula inferior se m ovendo; os olhos da aparição brilhando

som briam ente nas profundezas de sua cabeça ossuda que se inclinava com

m ovim entos grotescos. Kurtz, Kurtz... significa ‘curto’ em alem ão, não é? Bem , o

nom e era tão verdadeiro quanto tudo o m ais em sua vida, bem com o diante de

sua m orte. Ele parecia possuir pelo m enos uns dois m etros de com prim ento. Sua

coberta havia caído e o seu corpo em ergiu, patético e pavoroso, com o se saltasse

de um a m ortalha. Eu podia ver o form ato de suas costelas, todas se agitando, os

ossos de seu braço em m ovim ento. Era com o se um a im agem anim ada da

m orte, esculpida em m arfim velho, sacudisse sua m ão com am eaças em direção

a um a m ultidão im óvel de hom ens feitos de bronze escuro e cintilante. Eu o vi

abrir bem sua boca, o que lhe dava um aspecto estranham ente voraz, com o se

desej asse engolir todo o ar, toda a terra e todos os hom ens diante dele. Mesm o

fraca, um a voz profunda alcançou-m e. Ele deveria estar gritando. De repente,

ele caiu para trás. A padiola sacudiu, enquanto os carregadores se balançavam

novam ente para frente e, praticam ente ao m esm o tem po, percebi que a m ultidão

de selvagens havia desaparecido sem qualquer m ovim ento perceptível de

retirada, com o se a floresta, que tinha expulsado aqueles seres tão

repentinam ente, os tivesse recolhido novam ente com o o ar que é inalado após

um a longa respiração”.

“Alguns dos peregrinos por detrás da padiola carregavam as arm as dele

– duas espingardas, um a carabina pesada e um revolver-carabina leve – os

relâm pagos daquele Júpiter patético. O gerente se curvou sobre ele, sussurrando

na m edida em que cam inhava ao lado da cabeça dele. Eles o colocaram em

um a das pequenas cabanas – apenas um côm odo com um a cam a e um a

banqueta de arm ar ou duas, entendem ? Nós tínham os trazido a sua

correspondência atrasada e um a pilha de envelopes rasgados e cartas abertas

entulhavam a sua cam a. A m ão dele vagava debilm ente por entre aqueles papéis.

Eu m e surpreendi com o calor de seus olhos e a languidez contida de seu

sem blante. Não era tanto pela exaustão da doença. Parecia que ele não sentia

dor. Aquela som bra parecia saciada e calm a, com o se, para aquele m om ento,

estivesse satisfeita de todas as em oções”.

“Ele folheava um a das cartas e, olhando diretam ente para o m eu rosto

disse, ‘Muito prazer...’. Alguém j á tinha lhe escrito sobre m im . Aquelas

recom endações especiais apareciam novam ente. O tom de sua voz, que ele

em itia sem esforço, quase sem dificuldade para m ovim entar os lábios,

im pressionou-m e. Um a voz! Um a voz! Era grave, profunda, vibrante, enquanto

que o hom em aparentava não ser capaz nem de um sussurro. Todavia, havia um a

força suficiente nele, dissim ulada sem dúvida, m uito próxim a de dar fim em nós,

com o vocês perceberão logo m ais”.

“O gerente apareceu silenciosam ente pelo vão da porta; saí ao m esm o

tem po e ele fechou a cortina logo após. O russo, observado curiosam ente pelos

peregrinos, estava olhando para a m argem do rio. Segui a direção de seu olhar”.

“Escuras form as hum anas podiam ser percebidas à distância, passando rápida e indistintam ente contra a som bria borda da floresta e, próxim as do rio,

duas figuras de bronze, apoiadas sobre lanças altas, perm aneciam sob a luz do

sol, envergando fantásticos toucados de pele m alhada, prontas para a guerra e,

ainda assim , tais figuras estavam lançadas em um repouso tão estático quanto o

de estátuas. E, da direita para a esquerda, ao longo da m argem ilum inada,

m ovia-se um a selvagem e vistosa aparição de um a m ulher”.

“Ela cam inhava com passos controlados, drapej ada com roupas ornadas

com franj as e listras, pondo os pés sobre a terra com orgulho, com um leve

tilintar de ornam entos bárbaros. Ela m antinha a cabeça elevada; seus cabelos

estavam arrum ados no form ato de um elm o; tinha perneiras de bronze até os

j oelhos, pulseiras feitas com fios de bronze até os cotovelos, um sinal carm esim

sobre as bochechas pardas, incontáveis colares de contas de vidro no pescoço;

coisas bizarras, am uletos, presentes de feiticeiros que pendiam dela, reluzindo e

balançando a cada passo. Ela ostentava o valor de várias presas de elefante sobre

o corpo. Ela era selvagem e m aravilhosa, m agnífica, com olhos arregalados;

havia algo de am eaçador e m aj estoso em seu avanço deliberado. E no silêncio

que se abatera repentinam ente sobre toda aquela terra pesarosa, a im ensa

floresta, o colossal corpo da vida fecunda e m isteriosa, parecia contem plá-la,

pensativa, com o se estivesse olhando para a sua própria alm a, tenebrosa e

apaixonada”.

“Ela seguiu diretam ente para diante do vapor, parando ali e nos

encarando. A sua longa som bra se esparram ava sobre a m argem da água. O seu

rosto tinha um aspecto trágico e feroz, um sofrim ento selvagem , um a dor calada,

m esclado com o tem or de algum a determ inação m al form ada e esforçada. Ela

perm aneceu olhando para nós, sem se m exer, e, com o a própria floresta, possuía

um ar de m editação sobre um propósito im penetrável. Passou-se um m inuto todo

e então ela deu passo para frente. Havia um tilintar baixo, um brilho de m etal

dourado, um gingado de tecido com franj as, e ela parou com o se o seu coração

tivesse lhe falhado. O j ovem ao m eu lado rosnou. Os peregrinos m urm uraram

atrás de m im . Ela olhou para nós com o se a sua vida dependesse da estabilidade

inabalável de seu olhar. De repente, ela estendeu os seus braços desnudos e

lançou-os petrificados acim a de sua cabeça, com o se fosse tom ada por um

incontrolável desej o de tocar o céu e, ao m esm o tem po, som bras ligeiras

arrem essaram -se sobre a terra, arrastando-se em torno do rio, unindo-se ao

vapor dentro de um abraço tenebroso. Um silêncio form idável pairava sobre a

cena”.

“Ela se virou lentam ente, cam inhou, seguindo a m argem do rio e

penetrou na floresta, à esquerda. Um a única vez, os seus olhos resplandeceram

em nossa direção, de dentro das trevas da m ata fechada, antes de desaparecer”.

“‘Se ela tivesse dem onstrado que viria a bordo, eu acho realm ente que

teria que atirar nela’, disse o hom em dos retalhos, tom ado por nervosism o. ‘Eu

arrisquei a m inha vida todos os dias das últim as duas sem anas para m antê-la

afastada da casa. Ela conseguiu entrar um dia e criou um tum ulto por causa

daqueles trapos m iseráveis que eu tinha conseguido no depósito com os quais rem endaria as m inhas roupas. Eu estava indecente. Pelo m enos deveria ser isso,

pois ela conversou com Kurtz por um a hora toda, tom ada de fúria, vez ou outra

apontando para m im . Eu não entendo o dialeto dessa tribo. Felizm ente para m im ,

supus que Kurtz estivesse m uito adoentado naquele dia para se im portar com

aquilo, ou teria havido um a grande confusão. Eu não entendo... Não... isso é

dem ais para m im . Ah, bem , m as agora isso tudo acabou’”.

“Naquele m om ento, ouvi a voz cavernosa de Kurtz por detrás da cortina,

‘Salve-m e!... Salvar o m arfim , você quer dizer. Não m e diga. Salve a mim! Por

que eu deveria lhe salvar. Você está interrom pendo os m eus planos. Doente!

Doente! Não tão doente quanto você j ulga. Não im porta. Eu ainda porei em

práticas as m inhas ideias… eu voltarei. Eu lhe m ostrarei o que pode ser feito.

Você, com sua percepção de vendedor... você está m e atrapalhando. Eu voltarei.

Eu...’”

“O gerente saiu. Deu-m e a honra de tom ar o m eu braço e m e levar

para o lado. ‘Ele está m uito fraco, m uito fraco’, disse ele. Considerou ainda a

necessidade de suspirar, m as m enosprezou a utilização de um pesar consistente.

‘Nós fizem os tudo o que foi possível para ele, não foi? Mas não havia com o

m ascarar o fato de que o senhor Kurtz tinha causado m ais prej uízo do que lucro

para a Com panhia. Ele não tinha percebido que não era época de se agir com

vigor. Sem pre com cautela, com cautela... este é o m eu princípio. Devem os ser

cautelosos ainda. O distrito está fechado para nós por um tem po. Deplorável! De

um m odo geral, o com ércio que irá sofrer. Não nego que há um a quantidade

considerável de m arfim , a m aioria fossilizada. De todo m odo, devem os resgatá-

la, m as vej a com o a nossa posição é precária... e por quê? Porque o m étodo não

é correto’. ‘Você’, eu disse, olhando para a m argem do rio, ‘cham aria isso de

método incorreto?’. ‘Sem dúvida’, ele exclam ou ardentem ente. ‘Você não

cham aria...? Mas não há m étodo nenhum ’, m urm urei depois de um tem po.

‘Exatam ente’, ele exultou. ‘Eu j á estava esperando isso. Dem onstra um a

com pleta falta de j ulgam ento. É m eu dever apontar a quem com pete’. ‘Oh’, disse

eu, ‘aquele cam arada… qual m esm o o nom e dele?... o oleiro, fará um relatório

m inucioso para você’. Ele pareceu estar confuso por um m om ento. Parecia para

m im que eu nunca tivera respirado um a atm osfera tão desprezível e voltei o m eu

pensam ento para Kurtz, em busca de alívio... positivam ente em busca de alívio.

‘Todavia, acho o senhor Kurtz um hom em adm irável’, disse com ênfase. Ele se

sobressaltou, lançando-m e um olhar frio e pesado e dizendo com m uita

serenidade, ‘Ele era’, e deu-m e as costas. Meu tem po de gentileza tinha

term inado; encontrei-m e associado à Kurtz, com o um partidário de certos

m étodos não adequados para a ocasião: eu era im perfeito! Ah! Mas pelo m enos

significava algum a coisa ter um a variedade de opções em m eio aos pesadelos”.

“Eu tinha m e voltado para a floresta, na verdade, não para o senhor

Kurtz que eu j á considerava com o praticam ente sepultado. E, por um m om ento,

pareceu para m im que eu tam bém estivesse enterrado em um a enorm e

sepultura, repleta de segredos inconfessáveis. Senti um peso intolerante

oprim indo-m e o peito, o cheiro de terra úm ida, a presença invisível da corrupção vitoriosa, a escuridão de um a noite im penetrável... o russo bateu-m e no om bro.

Eu o ouvi m urm urando e gaguej ando algo com o ‘irm ão m arinheiro... não

poderia ocultar... conhecim ento dos assuntos que afetaria a reputação do senhor

Kurtz’. Eu aguardei. Para ele, o senhor Kurtz evidentem ente não estava em seu

leito de m orte; suspeitei que para ele, o senhor Kurtz era um dos im ortais. ‘Bem !’,

disse por fim , ‘que sej a. No final das contas, sou am igo do senhor Kurtz, de certo

m odo’”.

“Ele declarou com um a boa parcela de form alidade que se não

tivéssem os ‘a m esm a profissão’, ele m anteria o assunto apenas para si m esm o,

sem considerar as consequências. ‘Ele suspeitava que houvesse um a m á vontade

contra ele por parte daqueles brancos que...’. ‘Você está certo’, respondi,

lem brando de certa conversa que tinha ouvido por alto. ‘O gerente acha que você

deveria ser enforcado’. Ele m ostrou-se preocupado com aquela inform ação, o

que m e divertiu a princípio. ‘Eu não posso fazer m ais nada por Kurtz no m om ento

e eles logo descobririam algum a desculpa. O que os im pediria? Havia um posto

m ilitar a uns quinhentos quilôm etros daqui’. ‘Bem , dou-lhe m inha palavra’,

exclam ei, ‘talvez sej a m elhor que você se vá, se você tiver alguns am igos entre

os selvagens da redondeza’. ‘Tenho m uitos’, ele disse. ‘Eles são pessoas sim ples e

eu não desej o nada, com o você sabe’. Ele ficou m ordiscando os lábios, e

com pletou, ‘eu não desej o que nada de m al aconteça com os brancos daqui, m as,

tam bém , estou pensando na reputação do senhor Kurtz... m as você é um irm ão

do m ar e...’. ‘Tudo bem ’, disse-lhe, depois de um tem po, ‘A reputação do senhor

Kurtz está a salvo com igo’, só não sabia quão verdadeira era essa inform ação”.

“Ele m e disse, abaixando a voz, que tinha sido Kurtz que ordenara o

ataque que atingiu o vapor. ‘Ele, m uitas vezes, odeia a ideia de ser retirado

daqui... e por isso... Mas eu não com preendo essas questões. Eu sou um hom em

sim ples. Ele pensou que isso os assustaria… que vocês desistiriam se achassem

que ele estivesse m orto. Não pude im pedi-lo. Oh, eu passei por m aus m om entos

neste últim o m ês’. ‘Muito bem ’, eu disse. ‘Está tudo bem agora’. ‘S-s-sim ’, ele

resm ungou, não plenam ente convencido daquilo. ‘Obrigado’, eu disse; ‘Vou

m anter os m eus olhos abertos’. ‘Mas silêncio, sim ?’, ele pediu ansiosam ente.

‘Seria terrível para a reputação dele se qualquer um aqui...’. Prom eti discrição

com pleta com grande seriedade. ‘Eu tenho um a canoa e três cam aradas negros

esperando não m uito longe daqui. Eu vou em bora. Você poderia m e dar um

pouco de m unição para Martini-Henry ?’ Eu podia e eu lhe dei, dentro do sigilo

necessário. Serviu-se, piscando para m im , de um punhado do m eu tabaco. ‘Entre

m arinheiros... você sabe... o bom tabaco inglês’. Ao chegar à porta da cabina do

lem e, ele se virou, ‘Você não teria um par de sapatos que você pudesse m e dar?’

e levantando um a das pernas, disse, ‘Vej a’. As solas estavam am arradas com

barbantes de sandálias, habilm ente atadas sob os pés descalços. Dei-lhe um par

velho, que ele olhou com adm iração antes de colocar sob o seu braço esquerdo.

Um dos seus bolsos (verm elho-vivo) estava abarrotado com m unição, o outro

(azul-escuro) deixava à vista a ‘Investigação de Towson, etc., etc.’. Ele parecia

acreditar que estava m uito bem equipado para um encontro renovado com a

floresta. ‘Ah! Eu nunca, m as nunca encontrarei um hom em deste tipo novam ente. Você precisava ouvi-lo recitar poesia... e de sua própria lavra, com o

m e disse. Poesia!’ Ele ergueu os olhos ao se lem brar de tais prazeres. ‘Oh, ele

am pliou a m inha m ente!’. ‘Adeus’, eu disse; cum prim entam o-nos e ele

desapareceu na noite. Algum as vezes eu m e perguntava se eu tinha realm ente

m e encontrado com ele... se era possível se encontrar com algo tão

extraordinário!...”

“Quando eu acordei, logo após a m eia-noite, veio-m e à m ente a

recom endação que ele m e fizera, com a m enção de perigo que havia nela, na

escuridão estrelada, tão real que m e fizera levantar com o propósito de dar um a

volta ao redor. Na colina, um a grande fogueira queim ava, ilum inando

irregularm ente um dos cantos destruídos da casa do entreposto. Um dos agentes,

com um a patrulha form ada por alguns de nossos negros arm ados para tal, estava

vigiando o m arfim ; m as nas profundezas da floresta, lam pej os verm elhos que

cintilavam , parecendo afundar e surgir a partir da terra, por entre form as

colunares em baraçadas de intensa escuridão, m ostravam a exata posição aonde

os adoradores do senhor Kurtz m antinham a sua desconfortável vigília nos

cam pos. A m onótona batida de um grande tam bor preenchia o ar com abalos

abafados e um a prolongada vibração. O contínuo e m onótono som de m uitos

hom ens entoando para si m esm os alguns encantam entos m isteriosos surgia vindo

da escura e chapada m uralha de árvores com o o zum bir de abelhas que saiam de

sua colm eia e produzia um estranho efeito narcotizante sobre os m eus sentidos

m eio adorm ecidos. Acredito que tivesse cochilado, apoiado em um a estaca,

quando um súbito irrom per de gritos, um devastador rom pante de um frenesi

contido e m isterioso, despertou-m e para dentro de um assom bro desnorteado. Na

verdade, ele foi bem curto, e o zum bido baixo prosseguiu com um efeito audível

e um silêncio tranquilizador. Olhei casualm ente para a pequena cabana. Um a luz

ardia dentro dela, m as o senhor Kurtz não estava lá”.

“Acho que eu teria gritado se tivesse acreditado em m eus olhos. Mas eu

não acreditei neles a princípio – a coisa parecia tão im possível. O fato era que eu

fiquei com pletam ente sem coragem por um tem or vazio e absoluto, um terror

puro e abstrato, desconectado com qualquer form a distinta de perigo físico. O

que fez com que aquela em oção fosse tão poderosa era... com o poderia defini-

la... o choque m oral que eu recebi, com o se algo com pletam ente m onstruoso,

intolerável ao pensam ento e detestável para a alm a, tivesse se apoderado de m im

inesperadam ente. Aquilo durou, é claro, um a m era fração de segundo e, então, o

sentim ento usual de lugar-com um , de perigo m ortal, a possibilidade de um súbito

ataque ou m assacre ou algo do tipo, que percebi im inente, foi positivam ente bem

vinda e apaziguante. Na verdade, esse sentim ento m e tranquilizou tanto que eu

não soei nenhum alarm e”.

“Havia um agente abotoado dentro de um sobretudo e que dorm ia em

um a cadeira no convés a apenas um m etro de m im . Os gritos não o acordaram ;

ele roncava m uito levem ente; Deixei-o descansar e pulei para a m argem do rio.

Eu não trairia o senhor Kurtz – estava decidido que eu não deveria nunca traí-lo –

estava escrito que eu deveria ser leal ao pesadelo da m inha escolha. Estava ansioso para tratar com aquela som bra sozinho – e até este dia eu não sei por que

eu estava tão receoso em dividir com alguém a peculiar escuridão daquela

experiência”.

“Tão logo eu cheguei à m argem eu vi um a trilha – um a trilha larga

através da relva. Lem bro-m e do j úbilo com o qual eu disse a m im m esm o, ‘Ele

não consegue andar – ele está se rastej ando – eu o peguei’. A relva estava

m olhada com o orvalho. Cam inhei rapidam ente com os punhos cerrados.

Im agino que eu tinha algum a vaga noção de m e lançar sobre ele e de lhe dar

um a surra. Não sei. Eu tinha alguns pensam entos im becis. A velha tricoteira com

o gato irrom pia em m inha lem brança com o a pessoa m ais im provável de se

encontrar, colocada na outra ponta de um negócio com o aquele. Vi um a fileira

de peregrinos disparando para o ar com seus Winchesters apoiados no quadril.

Pensei que nunca retornaria ao vapor e m e im aginei vivendo sozinho e

desarm ado no m eio da m ata até um a idade avançada. Essas coisas m eio bobas,

vocês com preendem ? E lem bro-m e que confundi a batida do tam bor com as

batidas do m eu coração e fiquei satisfeito com a tranquila regularidade dele”.

“Mantive-m e ao longo da trilha e então parei para escutar. A noite estava

m uito clara: o espaço azul escuro, cintilando com orvalho e a luz das estrelas, no

qual as coisas negras perm aneciam im óveis. Pensei ter visto um tipo qualquer de

m ovim entação logo a m inha frente. Estranham ente, senti que tinha certeza de

tudo àquela noite, tanto que deixei a trilha e corri por um grande sem icírculo

(acredito que rindo com igo m esm o de tudo aquilo), de m odo que eu ficasse à

frente daquele tum ulto, daquele m ovim ento que eu tinha visto... na verdade, eu

não tinha visto nada. Eu estava m e esquivando de Kurtz com o se fosse um a

brincadeira de criança”.

“Eu cheguei perto dele e, se ele não tivesse m e ouvido chegando, eu

teria caído sobre ele, m as ele se levantou a tem po. Ele se ergueu, cam baleando,

alto, pálido, indistinto, com o o vapor que exala da terra e que bruxuleia

levem ente, nebuloso e silencioso diante de m im ; enquanto que atrás de m im , o

fogo agigantava-se por entre as árvores e o m urm úrio de m uitas vozes em anava

da floresta. Eu o havia interrom pido com m uita astúcia, m as quando o confrontei

de verdade ele pareceu se apoderar dos m eus sentidos. Eu vi o perigo em suas

devidas proporções. Ele não tinha term inado de j eito nenhum . Vocês devem

supor que eu tivesse com eçado a gritar. Em bora ele não pudesse se equilibrar

m uito bem , ele ainda possuía um a grande energia em sua voz. ‘Vá em bora...

esconda-se’, ele disse, com aquela entonação profunda. Era m uito aterrador. Eu

dei um a olhada para trás. Estávam os a uns trinta m etros da fogueira m ais

próxim a. Um a figura escura perm anecia de pé, cam inhando sobre as suas

pernas longas e negras, agitando os seus longos braços negros, em direção ao

fogo. Ele tinha chifres – chifres de antílope, eu acho – em sua cabeça. Algum

tipo de feiticeiro, algum tipo de bruxo, sem dúvida; ele realm ente se parecia com

um dem ônio. ‘Você sabe o que você está fazendo?’, eu sussurrei. ‘Perfeitam ente’,

foi a resposta dada por ele, elevando a voz ao exclam ar aquela única palavra. Ela

soou-m e longínqua, m as ainda assim , alta, com o um a saudação em itida através de um m egafone. ‘Se ele partir para a luta, estam os perdidos’, pensei com igo

m esm o. Certam ente não era o caso para um a troca de socos, m esm o apesar da

aversão natural que eu tinha em bater naquela Som bra – aquela coisa

atorm entada e peram bulante. ‘Você se perderá’, eu disse, ‘se perderá

com pletam ente’. Às vezes, tem os um lam pej o de inspiração, sabem ? Eu

realm ente disse a coisa certa, em bora ele não pudesse se encontrar m ais

irreparavelm ente perdido com o ele j á se encontrava naquele m om ento, quando

as bases de nossa intim idade estavam sendo lançadas... de m odo a resistir... a

resistir... m esm o até o fim ... para além de tudo aquilo”.

“‘Eu tinha grandes planos’, ele m urm urou, repleto de hesitação. ‘Sim ’, eu

disse, ‘m as se você tentar gritar eu lhe esm agarei a cabeça com ...’ Não havia ali

por perto nem um bastão ou m esm o um a pedra. ‘Eu lhe esganarei, por certo’.

Corrigi-m e. ‘Eu m e encontrava no lim iar de grandes feitos’, ele se defendeu,

com um a voz nostálgica e com um a tonalidade m elancólica que vez com que o

m eu sangue congelasse. ‘E agora, chega este canalha estúpido...’. ‘O seu sucesso

na Europa está assegurado de qualquer m odo’, afirm ei com firm eza. Eu não

desej ava ter que esganá-lo, vocês com preendem ? E, de fato, aquilo seria de

m uita pouca valia para qualquer propósito prático. Eu tentei quebrar o feitiço – o

feitiço pesado e obscuro da selva – que parecia drená-lo para o seu seio sem

piedade através do despertar de instintos brutais e esquecidos, através da

lem brança de paixões m onstruosas e gratificantes. Estava convencido de que ela

sozinha o tinha conduzido para as m argens da selva, para a m ata, em direção do

clarão das fogueiras, da batida dos tam bores, do zum bir de estranhos

encantam entos; ela sozinha tinha seduzido a alm a corrupta dele para além dos

lim ites das aspirações perm itidas. E, não sei se vocês perceberam , o terror da

posição não estava em ser golpeado na cabeça – em bora eu possuísse

claram ente aquele sentim ento de perigo – m as na verdade ter que lidar com um

ser a quem não se podia apelar em nom e de nada m ais alto ou m ais baixo. Eu

tinha, do m esm o m odo que os negros, que invocá-lo – torná-lo ciente de sua

própria incrível e exaltada degradação. Não havia nada acim a ou abaixo dele, e

eu sabia disso. Ele m esm o tinha se chutado para fora do m undo. Maldito sej a!

Ele tinha despedaçado o m undo a pontapés. Ele estava sozinho e eu, diante dele,

não sabia se o prendia ao chão ou se m e elevava ao ar. Eu tenho lhes contado o

que nós dissem os – repetindo as frases que pronunciam os – m as, isso é o certo?

Elas eram palavras com uns, cotidianas – sons fam iliares e vagos que trocam os a

cada despertar, em cada dia da vida. Mas para que serviram ? Elas estavam

ocultas em m inha m ente, a terrível sugestão de palavras ouvidas em sonhos, de

frases repetidas em pesadelos. Alm a! Se alguém j á lutou contra um a alm a, eu

sou este alguém . Mas tão pouco eu estava discutindo com um louco. Acreditem -

m e ou não, sua capacidade de com preensão era perfeitam ente clara...

concentrada, é claro, nela m esm a com um a intensidade horripilante, m as ainda

sim , clara. E naquilo residia a m inha única chance, salvo é claro que eu o

m atasse ali e aquilo não seria tão bom , devido ao inevitável barulho. Entretanto, a

sua alm a estava alucinada. Estando sozinha dentro da floresta, ela havia olhado

para dentro de si m esm a e, por Deus, ela tinha enlouquecido. Eu tive – talvez por causa dos m eus pecados, suponho – que m e subm eter à prova de ter que olhar

para dentro de m im m esm o. Nenhum a eloquência poderia ser tão em baraçosa

para a crença de alguém na hum anidade do que o seu definitivo rom pante de

sinceridade. Ele lutava contra si m esm o. Eu pude ver isso… eu ouvi isso. Eu

com preendi o inconcebível m istério de um a alm a que não conhecia nenhum

com edim ento, nenhum a fé e nenhum tem or, ainda que lutasse cegam ente contra

ela m esm o. Consegui m anter m uito bem a calm a, m as quando eu finalm ente o

coloquei sobre a cam a, lim pei a m inha testa, enquanto m inhas pernas trem iam

sob m im com o se eu tivesse carregado m eia tonelada nas costas m orro abaixo.

Mesm o assim eu só o apoiei, com o seu braço esquelético em torno do m eu

pescoço... ele não era m uito m ais pesado que um a criança”.

“Quando no dia seguinte, partim os ao m eio-dia, a m ultidão, cuj a

presença por detrás da cortina de árvores era-m e perfeitam ente consciente o

tem po todo, fluiu da m ata novam ente, preenchendo a clareira, cobrindo a

encosta da colina com um a m assa de corpos cor de bronze, desnudos, ofegantes

e agitados. Naveguei rio acim a um pouco, e depois rio abaixo; dois m il olhos

acom panharam as evoluções do feroz dem ônio do rio, chapinhando, espancando,

batendo na água com a sua terrível cauda e derram ando fum aça negra no ar.

Diante da prim eira fileira, ao longo do rio, três hom ens, cobertos com um a lam a

verm elho-brilhante desde a cabeça até os pés, em pertigavam -se de um lado para

o outro sem descanso. Quando nós nos aproxim am os novam ente, eles se viraram

para o rio, batendo os pés, acenando as suas cabeças enfeitadas com chifres,

balançando os corpos escarlates; eles sacudiam um punhado de penas pretas e

um a pele asquerosa com um rabo pendurado, algo parecido com um a abóbora

ressecada, contra aquele bárbaro dem ônio do rio; eles gritavam , periodicam ente

e todos j untos, um a série de palavras im pressionantes que não se assem elhavam

com quaisquer sons de linguagem hum ana; e os profundos m urm úrios da

m ultidão, interrom pidos repentinam ente, eram com o a resposta a algum a oração

satânica”.

“Nós tínham os carregado Kurtz para dentro da cabina do lem e: havia

m ais ar ali. Deitado sobre o colchão, ele olhava atentam ente através da

veneziana aberta. Houve um turbilhão dentro da m assa de corpos hum anos e a

m ulher com os cabelos em form a de elm o e com as bochechas pardas correu

até a lateral do vapor. Ela estendeu as m ãos, gritou algum a coisa e toda aquela

m ultidão selvagem com eçou a gritar, produzindo um coro barulhento, com

expressões articuladas, rápidas e ofegantes”.

“‘Você com preende tudo isto?’, perguntei”.

“Ele continuou a olhar através de m im , com olhos distantes e ardentes,

com um a expressão m isturada de ódio e m elancolia. Ele não deu nenhum a

resposta, m as vi que um sorriso, um sorriso de significado indefinível, aparecera

em seus lábios sem cor, contorcendo-se logo depois convulsivam ente. ‘Será que

eu com preendo?’, ele disse vagarosam ente, respirando profundam ente com o se

as palavras fossem retiradas de dentro dele por algum poder sobrenatural”.

“Puxei a corda do apito e fiz isso porque vi os peregrinos no convés, pegando as suas espingardas com um ar de um bom divertim ento antecipado.

Houve um a m ovim entação de terror abj eto no m eio daquela m assa de corpos

apinhados frente ao repentino apito. ‘Não! Não os espante’, gritou alguém do

convés, desconsolado. Puxei a corda m ais um a vez e m ais um a outra vez. Eles se

separaram e correram , saltaram , se desviaram , se esquivaram diante do terror

daquele som flutuante. Os três cam aradas verm elhos caíram de cara no chão,

rosto contra a m argem com o se eles tivessem sido atingidos pela m orte. Som ente

aquela m ulher, bárbara e soberba, não dem onstrou um sinal sequer de hesitação,

e esticou os seus braços desnudos tragicam ente em nossa direção, por sobre o

m elancólico e reluzente rio”.

“E então aquela m ultidão im becil desceu do convés atrás daquela

pequena diversão e eu não pude ver m ais nada por causa da fum aça”.

“A correnteza am arronzada fluía de dentro do coração das trevas,

levando-nos em direção ao m ar com um a velocidade duas vezes m ais rápida do

que o nosso progresso rio acim a; e a vida de Kurtz corria rapidam ente tam bém ,

esvaindo-se, esvaindo-se de seu coração para dentro do m ar do tem po

inexorável. O gerente estava m uito calm o, ele não dem onstrava nenhum a

inquietação vital, naquele m om ento; ele olhou para nós com um olhar

com preensivo e satisfeito: o ‘assunto’ havia resultado tão bem quanto ele podia

desej ar. Percebi que se aproxim ava o tem po do qual eu seria deixado à parte dos

partidários daquele ‘m étodo ineficaz’. Os peregrinos olhavam para m im com

desaprovação. Eu era, por assim dizer, contabilizado com os m ortos. Era estranho

com o eu aceitei aquela parceria inesperada, aquela escolha de pesadelos im posta

a m im naquela terra tenebrosa, invadida por aqueles fantasm as gananciosos e

m iseráveis”.

“Kurtz discursava. Um a voz! Um a voz! Ela soava profunda até o fim .

Ela sobreviva às suas forças para ocultar nas m agníficas dobras da eloquência a

estéril escuridão de seu coração. Oh, com o ele lutava! Com o ele lutava! As

ruínas de sua m ente devastada estavam agora assom bradas por im agens

tenebrosas – im agens de fortuna e fam a revolvidas com subm issão em torno de

seu dom inextinguível de nobreza e de expressão arrogante. Minha Prom etida,

m eu entreposto, m inha carreira, m inhas ideias – aquelas eram os tem as dos

discursos ocasionais de elevados sentim entos. A som bra do Kurtz original

frequentava a cabeceira daquele sim ulacro esvaziado, cuj o destino era o de ser

enterrado naquele exato m om ento no lodo prim ordial da terra. Mas tanto o am or

diabólico quanto o ódio sobrenatural de todos aqueles m istérios tinham penetrado

dentro dele, lutando pela posse daquela alm a saciada com em oções prim itivas,

ávida por um a fam a m entirosa, por um a distinção sim ulada, por todos os

aspectos de sucesso e poder”.

“Às vezes, ele era de um a infantilidade com pletam ente desprezível. Ele

desej ava que reis o aguardassem nas estações ferroviárias quando do seu retorno

daquele apavorante Lugar Nenhum , onde ele pretendera ter realizado grandes

feitos. ‘Se dem onstrarm os que tem os algo realm ente lucrativo, não haverá lim ites

ao reconhecim ento de nossas capacidades’, ele dizia. ‘Mas é claro que devem os levar em conta os m otivos... os m otivos corretos... sem pre’. Os longos braços do

rio que percorríam os eram com o se fossem sem pre os m esm os, curvas

m onótonas que exatam ente as m esm as, deslizando ao lado do vapor com as suas

inúm eras árvores seculares que olhavam pacientem ente para aquele im undo

fragm ento de outro m undo, para aquele precursor da m udança, da conquista, do

com ércio, dos m assacres, das bênçãos. Eu olhava adiante... navegando. ‘Feche a

veneziana’, disse Kurtz de repente, um a ocasião; ‘Não consigo olhar para isso’. Eu

assim o fiz. Tudo era silêncio. ‘Oh, m as eu ainda vou arrancar-lhe o coração!’,

ele disse para a selva invisível”.

“Acabam os por quebrar, com o eu j á esperava, e tivem os que nos

recolher para reparos na ponta de um a ilha. Aquele atraso foi a prim eira coisa

que abalou a segurança de Kurtz. Certa m anhã, ele m e deu um pacote com

cartas e um a fotografia – o m aço atado com um cordão de sapato. ‘Guarde isso

para m im ’, ele disse. ‘Este idiota canalha’ – referindo-se ao gerente – é capaz de

vasculhar as m inhas coisas quando eu não estiver olhando’. À tarde, fui vê-lo. Ele

estava deitado com os olhos fechados... retirei-m e em silêncio, m as o ouvi

m urm urar: ‘Viver corretam ente, m orrer, m orrer...’, foi o que eu ouvi. Nada além

daquilo. Era o ensaio de algum discurso em seu sono ou era um fragm ento de

algum a frase de algum artigo de j ornal? Ele tinha escrito para alguns j ornais e

pretendia fazê-lo novam ente, ‘para a prom oção de m inhas ideias. É um dever’”.

“Ele se encontrava em um a escuridão im penetrável. Eu olhava para ele

com o se encarasse um hom em que estava situado no fundo de um precipício,

onde o sol nunca ilum ina. Mas não podia dispor de m uito tem po com ele, porque

estava auxiliando o m aquinista a retirar as peças dos cilindros avariados, a

regular um eixo de conexão entortado e em outras coisas do tipo. Vivia dentro de

um a suj eira infernal de ferrugem , lim alhas, porcas, ferrolhos, chaves-inglesas,

m artelos, arcos de puas... coisas que eu abom inava, pois eu não sei lidar com

essas coisas. Tom ava conta da pequena forj a que felizm ente tínham os a bordo;

trabalhava sem descanso em um m onte m iserável de sucata... pelo m enos

enquanto as m inhas pernas conseguissem m e sustentar”.

“Certa noite, cam inhando com um a vela acesa, assustei-m e ao ouvi-lo

dizer um pouco trêm ulo, ‘Estou deitado aqui na escuridão, esperando pela m orte’.

A luz estava próxim a de seus olhos. Forcei-m e a m urm urar, ‘Oh, bobagem !’ e

perm aneci cravado ao lado dele”.

“Algum a coisa se aproxim ou dele que alterou a sua fisionom ia, algo que

eu nunca tinha visto antes e que espero nunca m ais ver novam ente. Oh, não

estava com m edo. Estava fascinado. Era com o se fosse um véu que havia sido

rasgado. Eu percebi sobre aquele rosto de m arfim a expressão de orgulho

m elancólico, de poder brutal, de terror covarde, de um desespero intenso e sem

esperança. Ele viveu a sua vida novam ente em cada detalhe de desej o, de

tentação e de rendição durante aquele suprem o m om ento de com pleto

conhecim ento? Ele exclam ou, sussurrando, para algum a im agem , para algum a

visão... ele gritou por duas vezes um grito que nada m ais era que um suspiro... ‘O

horror! O horror!’”.

“Soprei a vela e deixei a cabina. Os peregrinos estavam j antando no

refeitório e sentei-m e no lado oposto ao do gerente que ao erguer os olhos deu-

m e um olhar inquisidor, que ignorei de form a bem sucedida. Ele se recostou,

serenam ente, com aquele sorriso peculiar que selava as profundezas

inexprim íveis de sua m esquinhez. Um a enxurrada contínua de pequenas m oscas

corria para a lam parina, sobre a toalha, sobre nossas m ãos e faces. O auxiliar do

gerente, repentinam ente, colocou a sua cabeça negra insolente pelo vão da porta

e disse com um a tonalidade de desprezo m ordaz na voz, ‘Sinhô Kurtz... ele

m orreu’”.

“Todos os peregrinos correram para vê-lo. Eu perm aneci em m eu lugar

e continuei com o m eu j antar. Acredito que m e consideraram brutalm ente

insensível. Todavia, não cheguei a com er m uito. Havia um a lam parina lá... ou

vela, não sei bem ... e do lado de fora havia um a escuridão brutal, brutal. Não m e

aproxim ei m ais daquele hom em notável que tinha pronunciado um j ulgam ento

sobre as aventuras de sua alm a naquela terra. A voz tinha partido. O que m ais

haveria ali? Apesar de eu estar ciente de que, no dia seguinte, os peregrinos

enterrariam algum a coisa em um buraco lam acento, com certeza”.

“E, assim , estavam m uito próxim o de m e enterrarem ”.

“Entretanto, com o vocês podem perceber, eu não m e j untei a Kurtz

nem ali e nem depois. Eu perm aneci a sonhar o pesadelo até o final e a

dem onstrar sem pre a m inha lealdade para com Kurtz. Destino. Meu destino! A

vida é um a coisa engraçada: um arranj o m isterioso de lógica sem m isericórdia

para um propósito fútil. O m áxim o que se pode esperar dela é algum

conhecim ento de si m esm o... que chega tarde dem ais... um am ontoado de

arrependim entos inextinguíveis. Eu tenho lutado com a m orte. É a com petição

m ais entediante que vocês possam im aginar. Ela acontece num a m ediocridade

intangível, com nada sob os nossos pés, com nada em torno, sem espectadores,

sem um clam or, sem glória, sem o grande desej o de vitória, sem o grande tem or

da derrota, dentro de um a atm osfera doentia de cepticism o m orno, sem se

acreditar no próprio direito e ainda m uito m enos quanto ao direito do adversário.

Se for aquela a im agem da derradeira sabedoria, então a vida é um enigm a

m aior do que alguns de nós poderiam sequer supor que sej a. Eu estava à

distância de um fio de cabelo da derradeira oportunidade para um

pronunciam ento e descobri, hum ilhado, que provavelm ente eu não teria nada a

dizer. Esta é a razão do porquê de eu afirm ar que Kurtz era um hom em

im pressionante. Ele tinha algo a dizer. E tinha dito. Desde o m om ento em que eu

m esm o contem plara a beirada do precipício, eu com preendi m elhor o

significado de seu olhar, que não podia enxergar a cham a da vela, m as era

am plo o suficiente para dar conta de todo o universo, perfurante o suficiente para

penetrar em todos os corações que batem na escuridão. Ele resum ira tudo... ele

j ulgara tudo. ‘O horror!’ Ele era um hom em notável. Apesar de tudo, aquela era

a expressão de algum tipo de crença; tinha sinceridade, tinha convicção, tinha

um a nota vibrante de revolta naquele suspiro, tinha a face aterrorizada de um a

verdade resplandecente – o estranho am algam a de desej o e ódio. E não é da m inha própria extrem idade que eu m e recordo m elhor – um a visão da

m ediocridade sem form a, preenchida com a dor física e um desprezo negligente

pelo desaparecim ento de todas as coisas, m esm o com relação à própria dor.

Não! É na extrem idade dele que eu pareço ter vivido. A bem da verdade, ele

tinha dado um últim o passo, ele tinha cam inhado por sobre a beirada, enquanto

que a m im , tinha-m e perm itido recuar com o m eu pé hesitante. E talvez naquilo

estej a toda a diferença; talvez toda a sabedoria, toda a verdade e toda a

sinceridade estivessem com prim idas exatam ente dentro daquele m om ento

desprezível do tem po no qual cruzam os o lim iar do invisível. Talvez! Gosto de

pensar que o m eu relato não tenha sido um a palavra de desprezo negligente.

Melhor o seu clam or, m uito m elhor. Era um a afirm ação, um a vitória m oral paga

através de inúm eras derrotas, através de abom ináveis terrores, através de

abom ináveis satisfações. Contudo era um a vitória! É por isso que eu m e m antive

leal a Kurtz até o fim e, m esm o depois, quando m uito tem po depois eu ouvi um a

vez m ais, não a sua própria voz, m as o eco de sua m agnífica eloquência lançada

a m im a partir de um a alm a tão pura e translúcida quanto um a rocha de cristal”.

“Não, eles não tinham m e enterrado, em bora haj a um período de tem po

que eu vagam ente m e lem bre, com um espanto estrem ecido, com o um a passagem através de um algum m udo inconcebível que não possuía nem esperança nem desej o. Encontrei-m e novam ente na cidade sepulcral, ofendido com a visão de pessoas correndo pelas ruas, roubando um pouco de dinheiro um dos outros, devorando a sua vergonhosa culinária, engolindo em seco a sua cervej a insalubre, sonhando seus sonhos insignificantes e estúpidos. Eles invadiam os m eus pensam entos. Eles eram intrusos cuj o conhecim ento da vida era um a pretensão irritante para m im , pois eu tinha a absoluta certeza de que eles não poderiam sequer saber as coisas que m e foram conhecidas. O com portam ento deles, que era sim plesm ente o com portam ento dos indivíduos de lugares-com uns que prosseguiam com os seus afazeres na certeza de um a perfeita segurança, era tão ofensivo a m im com o a m ais ultraj ante presunção de loucura em face de um perigo que não se pode com preender. Eu não tinha nenhum desej o em particular em esclarecê-los, m as tinha algum a dificuldade de m e conter diante dos risos de seus rostos, tom ados tão com pletam ente por um a im portância estúpida. Ouso dizer que eu não m e sentia bem àquela época. Eu vagava pelas ruas – havia um a série de negócios a serem resolvidos – sorrindo am argam ente para pessoas perfeitam ente respeitáveis. Adm ito que o m eu com portam ento fosse indesculpável, m as entendam que a m inha tem peratura raram ente era norm al naqueles dias. Os em penhos de m inha querida tia para ‘restabelecer as m inhas forças’ pareciam com pletam ente irrelevantes. Não eram as m inhas forças que desej avam ser restabelecidas, era a m inha im aginação que queria se suavizar. Eu m antive j unto de m im o pacote de papéis dados por Kurtz, não sabendo exatam ente o que fazer com ele. A m ãe dele falecera recentem ente, sob os cuidados, com o m e disseram , de sua Prom etida. Um hom em bem barbeado, com trej eitos oficiais e usando óculos com arm ação dourada, visitou-m e certo dia e m e interrogou, a princípio de form a indireta, logo depois um tanto insistente, sobre o que lhe aprazia denom inar de certos ‘docum entos’. Isso não m e surpreendia, pois eu tivera duas discussões com o gerente sobre o assunto lá m esm o. Eu m e recusara a dar-lhe um pedacinho sequer daquele pacote e foi a m esm a atitude que eu tive para com o hom em com óculos. Por fim , ele tornou-se am eaçador, de um m odo assustador, e com m uita veem ência argum entou que a Com panhia tinha o direito a cada m ínim a inform ação sobre os seus ‘territórios’. E, com pletou, ‘O conhecim ento do senhor Kurtz das regiões inexploradas era necessariam ente extenso e peculiar, devido às suas grandes habilidades e às deploráveis circunstâncias nas quais ele se encontrava; além disso...’ Assegurei-lhe que o conhecim ento do senhor Kurtz em bora extenso não se referia aos problem as com erciais ou adm inistrativos. Ele invocou então o desenvolvim ento da ciência. ‘Seria um a perda incalculável se...’, etc., etc. Eu lhe forneci o relatório sobre a ‘Supressão dos Costum es dos Selvagens’ com o postscriptum devidam ente retirado. Ele o tom ou rapidam ente, m as term inou torcendo o nariz com um ar de desapontam ento. ‘Isto não é exatam ente o que nós esperávam os’, observou ele. ‘Não esperem m ais nada’, respondi. ‘São som ente cartas particulares’. Ele saiu, am eaçando-m e com providências legais e eu não o vi m ais; m as um outro cam arada, dizendo-se prim o de Kurtz, apareceu uns dois dias m ais tarde, e m ostrou-se ansioso em ouvir todos os detalhes sobre os derradeiros m om entos de seu querido parente. Acidentalm ente, ele deu-m e a entender que Kurtz tinha sido na verdade um grande m úsico. ‘Ele teria feito um sucesso im enso’, disse o hom em , que era organista, creio eu, com cabelos lisos grisalhos caídos sobre um grande colarinho ensebado. Não tive m otivo nenhum em duvidar de tal declaração; e, daquele dia em diante, eu era incapaz de dizer qual era a profissão de Kurtz, se chegou a ter algum a... qual era o m aior de seus dons. Eu o havia tom ado por um pintor que escrevia para j ornais, ou m esm o um j ornalista que pintava... m as m esm o o prim o (que cheirava rapé durante a nossa conversa) não podia m e dizer o que ele tinha sido exatam ente. Ele era um gênio universal… naquele ponto eu concordei com o velho, que na ocasião assoou ruidosam ente o nariz em um lenço grande de algodão e se retirou, tom ado por um a agitação senil, levando consigo algum as cartas de fam ília e algum as lem branças sem im portância. Por fim , apareceu um j ornalista ansioso por conhecer algo sobre o destino de seu ‘querido colega’. Aquele visitante inform ou-m e que o cam po apropriado de Kurtz deveria ser a política, ‘em sua face popular’. Ele tinha sobrancelhas retas e espessas, cabelos curtos e espetados, um m onóculo preso a um a fita larga e, ficando m ais à vontade, confessou-m e sua opinião de que na verdade Kurtz não conseguia escrever nada... ‘m as por Deus! Com o aquele hom em falava! Ele eletrizava grandes reuniões. Ele tinha fé… você com preende?... ele tinha fé. Ele era capaz de acreditar por ele m esm o em qualquer coisa... qualquer coisa. Ele teria sido um líder esplêndido de um partido extrem ista’. ‘Qual partido?’, perguntei. ‘Qualquer partido’, respondeu o outro. ‘Ele era um … um … extrem ista’. Eu não pensava assim ? Concordei. Eu saberia, perguntou ele, com um lam pej o repentino de curiosidade, ‘o que o tinha induzido a ir para lá?’. ‘Sim ’, respondi, e logo em seguida, pus-lhe às m ãos o fam oso Relatório para publicação, se ele entendesse por bem . Ele o folheou, rapidam ente, resm ungando toda hora, e concluiu, ‘eu o publicarei’, e levou consigo aquele despoj o”.

“Fiquei, por fim , com um pacote fino de cartas e com o retrato da

garota. Eu a achei um a beleza... quero dizer, ela possuía um a expressão belíssim a. Sei bem que a luz do sol pode ser m anipulada para nos iludir, ainda que se pudesse ver que nenhum a m anipulação de luz e de postura tinha sido usada para conduzir a delicada form a de honestidade àqueles traços. Ela parecia pronta para ouvir sem qualquer reserva m ental, sem qualquer suspeição, sem nem um pensam ento sequer sobre si m esm a. Concluí que eu m esm o deveria procurá-la e devolver-lhe o retrato e aquelas cartas. Curiosidade? Sim , e talvez tam bém alguns outros sentim entos. Tudo o que pertencera a Kurtz tinha escapado de m inhas m ãos: sua alm a, seu corpo, seu entreposto, seus planos, seu m arfim , sua carreira. Só restaram as suas lem branças e a sua Prom etida... e eu desej ava dar aquilo para o passado tam bém , de certo m odo... ao lhe entregar pessoalm ente tudo o que restara dele com igo, para aquele esquecim ento que é a últim a palavra de nosso destino em com um . Não estou m e defendendo. Eu não possuía um a percepção clara do que eu realm ente desej ava. Talvez fosse um im pulso de lealdade inconsciente ou a satisfação de um a dessas irônicas necessidades que espreitam os fatos da existência hum ana. Não sei. Não sei dizer. Mas fui”.

“Eu pensava que a lem brança dele era com o as dem ais lem branças dos

m ortos que se acum ulam ao longo da vida de cada hom em , um a vaga im pressão de som bras na m ente que se abatem sobre ela em sua passagem final e ligeira; m as diante da alta e im ponente porta, entre as altas casas de um a rua, im óveis e decoradas com o um a bem conservada alam eda de um cem itério, eu tive um a visão dele, sobre a padiola, abrindo sua boca insaciavelm ente, com o se fosse devorar toda a terra j unto com toda a hum anidade. Ali, ele reviveu diante de m im ; ele estava tão vivo quanto eu j á tinha vivido – um a som bra insaciável com um aspecto esplêndido, com um a realidade aterrorizante; um a som bra m ais escura que a som bra da noite e drapej ada nobrem ente nas dobras de um a eloquência m agnífica. A visão parecia entrar na casa em m inha com panhia: a padiola, os carregadores fantasm as, a selvagem m ultidão de veneradores obedientes, a escuridão da floresta, o brilho dos braços dos rio por entre curvas m elancólicas, o bater de tam bores, regular e abafado com o o bater de um coração... o coração de um a escuridão conquistada. Era um m om ento de triunfo para a floresta, um a vingativa e invasora investida que, parecia para m im , retornar sozinha para a salvação de um a outra alm a. E a lem brança do que eu tinha ouvido dizer por ele lá longe, com as form as encim adas por chifres encarando-m e pelas costas, no clarão das fogueiras, dentro da selva paciente, aquelas frases interrom pidas, retornou para m im , ouvida novam ente com toda a terrível e am eaçadora sim plicidade. Lem brei-m e de suas súplicas abj etas, de suas am eaças abj etas, da colossal escalada de seus desej os m ais vis, da m esquinhez, da torm enta, da tem pestuosa angústia de sua alm a. E m ais tarde, pareceu-m e ver a sua postura lânguida e contida, ao m e dizer num dia, ‘Esta pilha de m arfim na verdade é m inha agora. A Com panhia não pagou por ela. Eu a reuni, sozinho, sob um grande risco pessoal. Eu tem o que eles tentem reivindicá-la com o sendo deles de qualquer form a. Hum m m . É um caso difícil. O que você acha que eu deveria fazer? Resistir? Eh? Não quero nada m ais que a j ustiça’… Ele desej ava nada m ais que a j ustiça… nada m ais que a j ustiça… Eu toquei a cam painha da porta de m ogno no prim eiro andar e, enquanto eu aguardava, pareceu-m e que ele m e encarava pelo painel de vidro da porta... encarava-m e com aquele olhar, im enso e vasto, abraçando, condenando, odiando todo o universo. Parecia que eu ouvia o seu grito sussurrado, ‘O horror! O horror!’”.

“Estava anoitecendo. Tive que aguardar em um a sala de visita

im ponente, com três grandes j anelas que iam do teto ao chão, parecendo três lum inosas colunas drapej adas. As pernas torneadas e os espaldares, folheados a ouro, cintilavam com curvas indistintas. A lareira de m árm ore alta era de um a brancura fria e m onum ental. Um grande piano repousava pesadam ente em um dos cantos, com lam pej os som brios sobre as superfícies lisas com o um se fosse um sarcófago polido, tétrico. Um a porta alta se abriu e se fechou... Levantei-m e”.

“Ela prosseguiu, toda de preto, com o rosto pálido, flutuando em m inha

direção, no anoitecer. Ela estava de luto. Fazia m ais de um ano desde a m orte dele, m ais de um ano que as notícias chegaram ; ela parecia que se lem braria e se lam entaria por ele por todo o sem pre. Ela tom ou as m inhas m ãos nas suas e m urm urou, ‘Soube que você viria’. Reparei que ela não era m uito j ovem ... quero dizer, não era um a m enina. Ela tinha um a capacidade am adurecida para ser fiel, para acreditar, para sofrer. A sala parecia escurecer m ais ainda, com o se toda a m elancólica luz daquela tarde nublada tivesse se refugiado dentro de sua fronte. Sua cabeleira clara, sua aparência pálida, sua testa pura, pareciam cercados por um a auréola cinzenta, onde olhos negros pareciam m e encarar. Seu olhar era sincero, profundo, confiante e verdadeiro. Ela carregava aquele sem blante pesaroso com o se ela tivesse orgulho daquele pesar, com o se dissesse, ‘Eu... só eu sei com o lam entar a m orte dele com o ele m erecia’. Mas enquanto ainda estávam os de m ãos dadas, um olhar de com pleta desolação cobriu-lhe a face, quando percebi que ela era um a daquelas criaturas que não são j oguetes do Tem po. Para ela, ele havia m orrido ontem . E, por Deus! A im pressão era tão poderosa que para m im tam bém pareceu que ele havia m orrido no dia de ontem ... não, naquele preciso m inuto. Eu a vi, bem com o a ele, no m esm o instante de tem po... a m orte dele e as dores dela... Eu percebi a sua dor em cada m om ento da m orte dele. Vocês com preendem ? Eu os vi j untos... eu os ouvi j untos. Ela tinha dito, prendendo profundam ente a respiração, ‘Eu sobrevivi’; enquanto que os m eus ouvidos atentos pareciam ouvir distintam ente, m isturado com o seu tom de lam ento desesperador, o sussurro que concluía a eterna condenação dele. Perguntei a m im m esm o o que eu estava fazendo ali, com um a sensação de pânico em m eu coração com o se eu tivesse com etido o erro estúpido de ter ingressado em um lugar de m istérios crueis e absurdos, incapazes de serem contem plados por seres hum anos. Ela m e conduziu até um a cadeira. Nós nos sentam os. Eu gentilm ente coloquei o pacote sobre um a m esinha e ela colocou as m ãos em cim a dele... ‘Você o conhecia bem ’, ela m urm urou, após um m om ento repleto de lutuoso silêncio”.

“‘A intim idade cresce rapidam ente lá’, eu disse. ‘Eu o conhecia tão bem

quanto é possível para um hom em conhecer o outro’”.

“‘E você o adm irava’, ela disse. ‘Era im possível conhecê-lo e não

adm irá-lo. Não é?’”

“‘Ele era um hom em extraordinário’, eu disse, não m uito certo daquilo.

Então, diante daquele olhar fixo e apelativo, que parecia esperar a chegada de m ais palavras vindas de m eus lábios, prossegui, ‘Era im possível não...’”

“‘Am á-lo’, ela term inou a frase rapidam ente, lançando-m e num silêncio

chocante. ‘Verdade! É bem verdade! Mas quando se pensa que ninguém o conhecia tão bem quanto eu... Eu possuía toda a sua nobre confiança. Era eu que o conhecia m elhor’”.

“‘Você que o conhecia m elhor’, eu repeti. E talvez fosse m esm o

verdade. Mas, a cada palavra dita, a sala se tornava cada vez m ais escura e som ente a fronte dela, lisa e branca, perm anecia ilum inada por um a luz inextinguível de crença e de am or”.

“‘Você era am igo dele’, ela continuou. ‘Am igo dele’, ela repetiu, um

pouco m ais alto dessa vez. ‘Você devia ter sido, se ele lhe deu isto aqui e o m andou até m im . Eu sinto que eu posso falar com você... e, oh! Eu preciso falar. Eu quero que você... você que ouviu as suas últim as palavras… saiba que eu fui m erecedora dele... Não é um a questão de orgulho... Sim ! Eu m e orgulho de saber que eu o com preendia m elhor que qualquer pessoa no m undo… ele m esm o m e disse isso. E desde que a m ãe dele m orreu, eu não tive m ais ninguém com quem ... com quem ...’”.

“Eu a escutava. A escuridão era profunda. Eu não tinha m uita certeza se

ele tinha m e dado o pacote certo. Eu cheguei a suspeitar que ele queria m e entregar um outro m aço de papéis que, após a sua m orte, eu vi o gerente exam inando sob a luz de um a lam parina. E a garota falava, aliviando a sua dor na certeza de m inha sim patia; ela falava do m esm o m odo que hom ens sedentos bebem . Ouvi que o seu com prom isso com Kurtz tinha sido desaprovado por seus parentes. Ele não era rico o suficiente para tal coisa. E, de fato, não sei se ele teve sequer um centavo em toda a sua vida. Ele deu-m e algum as razões para inferir que tinha sido a sua im paciência diante de um a pobreza com parativa que o conduzira para lá”.

“… Quem não seria am igo dele se pelo m enos j á não o tivesse ouvido

falar?’, ela dizia. ‘Ele atraía hom ens em sua direção pelo que havia de m elhor na vida deles’. Ela olhava para m im com intensidade. ‘É o dom da grandeza’, ela prosseguiu e o som de sua voz baixa parecia ser acom panhado de todos os dem ais sons, repletos de m istério, desolação e pesar, que eu j á tinha ouvido: a correnteza do rio, o sussurrar de árvores oscilando ao vento, o m urm úrio de m ultidões selvagens, o débil elo de palavras incom preensíveis ditas ao longe, o rum or de um a voz falando a partir do lim iar de um a escuridão eterna. ‘Mas você o ouviu! Você sabe!’, ela exclam ou”.

“‘Sim , eu sei’, eu disse com um a pontada de desespero em m eu

coração, m as inclinando m inha cabeça diante da fé que havia nela, diante da grandiosa e lim itada ilusão que reluzia com um brilho sobrenatural de dentro da escuridão, na triunfante escuridão da qual eu não poderia defendê-la... da qual nem m esm o eu poderia m e defender”.

“‘Que perda para m im … para nós!’, ela se corrigiu com um a bela

generosidade, para em seguida m urm urar, ‘Para o m undo’. Pelos últim os lam pej os do crepúsculo, pude ver o brilho de seus olhos, tom ados pelas lágrim as... lágrim as que não rolavam ”.

“‘Eu fui m uito feliz… m uito afortunada… tive m uito orgulho’, ela

prosseguiu. ‘Muito afortunada. Muito feliz por um breve m om ento. E agora, encontro-m e infeliz por... por toda m inha vida’”.

“Ela se levantou; seus cabelos claros pareciam aprisionar todos os

resquícios de luz dentro de um brilho dourado. Levantei-m e tam bém ”.

“‘E de tudo isso’, ela prosseguiu, m elancolicam ente, ‘de toda a sua

esperança, de toda a sua grandeza, de sua m ente generosa, de seu nobre coração, nada m ais resta... nada além de um a lem brança. Você e eu...’”

“‘Devem os sem pre nos lem brar dele’, disse, apressadam ente”.

“‘Não!’, ela gritou. ‘É im possível que tudo isso estej a perdido… que um a

vida com o aquela tivesse sido sacrificada deixando nada... nada além de dores. Você conhecia os grandes planos que ele tinha. Eu tam bém os conhecia... Talvez eu não os entendesse... m as outras pessoas os conheciam . Algum a coisa deve restar. As suas palavras, pelo m enos, não m orreram ’”.

“‘As palavras deles perm anecerão’, disse”.

“‘E o exem plo dele’, ela sussurrou para si m esm a. ‘Hom ens o

procuravam … a bondade dele resplandecia dentro de cada ato. O exem plo dele...’”

“‘É verdade’, eu disse; ‘o exem plo dele tam bém . Sim , o exem plo dele.

Eu havia m e esquecido disto’”.

“‘Mas eu não m e esqueci. Não... não posso acreditar... não ainda. Não

posso acreditar que eu nunca m ais o verei novam ente, que ninguém nunca m ais o verá novam ente, nunca m ais, nunca m ais’”.

“Ela estendeu os braços com o se buscasse um a im agem fugidia,

estendendo-os negros e com as m ãos pálidas entrelaçadas em direção do reflexo débil e estreito da j anela. Nunca m ais vê-lo! Eu o via bem claram ente. Eu conseguirei ver aquele fantasm a eloquente enquanto eu viver e verei tam bém o dela, um a Som bra trágica e fam iliar, assem elhando-se naquele gesto à outra, igualm ente trágica, e decorada com encantam entos im potentes, estendendo os braços m orenos e desnudos por sobre o brilho de um a correnteza infernal, a correnteza das trevas. De repente, ela disse, m uito baixo, ‘Ele m orreu com o viveu’”.

“‘O seu fim ’, eu disse, com um a raiva em botada que m e agitava, ‘foi de

todos os m odos digno de sua vida’”.

“‘E eu não estava ao lado dele’, ela m urm urou. Minha raiva sucum biu

diante de um sentim ento de infinita piedade”.

“‘Tudo que podia ser feito…’, m urm urei”.

“‘Ah, m as eu acreditava nele m ais do que em qualquer um no m undo…

m ais do que a própria m ãe dele, m ais do que... ele m esm o. Ele precisava de m im ! De m im ! Eu teria valorizado cada suspiro, cada palavra, cada sinal, cada olhar’”.

“Senti com o se um calafrio se apoderasse de m eu peito. ‘Não’, eu disse,

com um a voz abafada”.

“‘Perdoe-m e. Eu… eu… tenho estado de luto durante tanto tem po e em

silêncio... em silêncio... Você esteve com ele até o final? Eu penso na solidão dele. Ninguém próxim o para com preendê-lo do m esm o m odo que eu o com preendia. Talvez ninguém para ouvi-lo...’”

“‘Até o fim ’, disse, hesitante. ‘Eu ouvi cada um a de suas últim as

palavras...’. Detive-m e, assustado”.

“‘Repita-as’, ela disse com um a voz em bargada. ‘Eu quero... quero...

algum a coisa... algum a coisa... para... continuar a viver’”.

“Estava prestes a gritar para ela, ‘Você não as ouve?’. O pôr do sol as

repetia em um sussurro persistente que nos envolvia, um sussurro que parecia ganhar form a am eaçadoram ente com o o prim eiro sussurro de um vento crescente: ‘O horror! O horror!’”

“‘As últim as palavras dele… para continuar a viver’, ela m urm urou.

‘Você não com preende que eu o am ava... eu o am ava... eu o am ava!’”

“Eu m e recom pus e falei lentam ente”.

“‘A últim a palavra que ele pronunciou foi... o seu nom e’”.

“Ouvi um suspiro leve e, então, o m eu coração parou, m ortalm ente

paralisado por um grito terrível e exultante, pelo grito de um triunfo inconcebível e por um a dor inexprim ível. ‘Eu sabia... eu tinha toda certeza!’... Ela sabia. Ela tinha certeza. Eu a ouvi chorar; ela tinha escondido o seu rosto nas m ãos. Parecia para m im que toda a casa iria desm oronar antes que eu pudesse fugir, que o firm am ento cairia sobre a m inha cabeça. Mas nada aconteceu. O firm am ento não cai assim por tão pouco. Ele cairia, im agino, se eu tivesse dado a Kurtz a j ustiça que lhe cabia? Ele não tinha dito que ele desej ava apenas a j ustiça? Mas eu não pude. Eu não pude dizer aquilo para ela. Teria sido por dem ais som brio... por dem ais som brio afinal...”

Marlow parou e se sentou distante de nós, indistinto e em silêncio, na

posição de um Buda em m editação. Por um tem po, ninguém se m oveu. “Perdem os a prim eira m aré baixa”, disse o Diretor, de repente. Ergui m inha cabeça. O m ar ao longe estava bloqueado por um a barreira de nuvens negras e o tranquilo canal, que levava aos m ais longínquos confins do m undo, fluía som brio sob um céu nebuloso… parecendo guiar para dentro do im enso coração das trevas.

 

FINIS