O descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral

Antonio Arthur Baldaque da Silva · Capítulo 2 de 3

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O descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral

Demonstração Negativa

 

I.—Que os navios da expedição foram arrastados para oeste pela

acção forçada e insuperavel do meio em que navegavam.

 

Esta hypothese desdobra-se em duas outras:

1.ª Que os navios da expedição foram impellidos para oeste pelas

correntes athmosphericas;

2.ª Que os navios da expedição foram arrastados para oeste

pelas correntes maritimas.

A 1.ª hypothese é inadmissivel pelos factos e razões seguintes:

a) Não consta da descripção minuciosa d'esta viagem, feita por

Pero Vaz Caminha, que ia a bordo, que depois de passadas as Ilhas de Cabo Verde sobreviesse tempestade; facto notavel que não ficaria de certo omittido na carta d'este escriptor se tivesse

determinado tão inesperado acontecimento. [1]

b) Refere Pero de Magalhães de Gandavo, na sua Historia da

Provincia de Santa Cruz, que passadas as Ilhas de Cabo Verde, foi

o vento prospero até avistarem a costa d'aquella provincia. [2]{6}

c) Independentemente das informaçôes authenticas d'aquella

epocha, sabe-se que as tempestades da costa do Brasil, na estação do anno considerada, sopram do noroeste e do sudoeste, afastando portanto da costa para o largo em sentido contrario ao que seguiu a

expedição.[3]

d) Para o desvio ser causado por temporal e este atirar os navios

para o lado da costa, deveria a tempestade provir dos quadrantes de fóra, pelo menos comprehendida entre os rumos de NE e SE, durar alguns dias e apartar os navios; circumstancias estas que não se verificam naquella zona, nem aconteceram á expedição, visto

que a frota aportou unida e completa até á costa. [4]{7}

e) Não se conhece documento nem fundamento, que mencione,

ou justifique, ter-se dado uma tempestade, que desviasse a expedição para oeste; mas existem duas cartas de bordo, nas quaes não se refere ter havido temporal; assim como se sabe que as condições meteorologicas d'aquella região, durante a monção do SW, são contrarias á cofirmação de tal caso de força maior; circumstancias e razões estas, todas decisivas, para pôrem de parte

e não auctorizarem esta hypothese.[5]

A 2.ª hypothese menos se pode tambem admittir, em vista dos

fundamentos seguintes:

f) Das observações astronomicas feitas em terra pelo bacharel

mestre Johan, physico e cirurgião de el-rei, não resultam differenças nas situações calculadas a bordo durante a viagem e estas feitas á chegada, o que deveria succeder se houvesse corrente attendivel, e não deixaria de ser mencionado na carta que elle dirigiu a el-rei, por isso que n'ella se occupa das differenças que ha entre as derrotas estimadas pelos diversos pilotos da expedição, comparadas com a

derrota por elle calculada.[6]{8}

g) O grande circuito maritimo do oceano Atlantico Sul, caminha de

leste para oeste ao longo do equador; inflecte para a sudoeste na altura da Ilha de Fernando de Noronha; desvia-se successivamente para o sul de Pernambuco em deante; dirigindo-se depois gradualmente para sueste e leste até ao Cabo da Boa Esperança; e corre além d'isto muito ao largo da costa oriental da America do sul; circumstancias estas que bem demonstram a nenhuma influencia

que este circuito pode ter sobre a atterragem dos navios. [7]

h) A corrente da costa do Brasil, que se destaca d'este grande

circuito, corre para SSW parallelamente á terra e a curta distancia d'ella, com pequena velocidade, não tendo acção sobre os navios senão na zona costeira, na qual a existencia da terra já está

assignalada muito por fóra. [8]{9}

i) Os navios da frota, que eram veleiros e de panno latino, podiam

facilmente ganhar caminho para barlavento, vencendo qualquer d'estas correntes, mesmo que ellas fossem contrarias, quanto mais sendo fracas e derivando à feição, para o largo ou parallelamente à costa, se o destino da derrota, com vento prospero, vizasse unicamente a montar o Cabo da Boa Esperança para seguir para a

India. [9]

 

II.—Que os navios foram desviados para oeste por erro commettido

na navegação.[10]

 

Esta hypothese tambem se decompõe em duas, egualmente

destituidas de fundamento:

1.ª Erro commettido no rumo ou orientação da derrota;

2.ª Erro na latitude ou na estimativa da distancia percorrida.{10}

A 1.ª hypothese não podia dar-se pelas razões seguintes:

j) As posições e orientação da costa occidental da Africa e a

situação do Cabo da Boa Esperança já eram bem conhecidas pelas viagens anteriores de Diogo Cam, Bartholomeu Dias e Vasco da Gama, e portanto os pilotos sabiam perfeitamente soltar o rumo

para ir dobrar o Cabo. [11]

k) Orientando-se a derrota pela agulha magnetica e

experimentando esta uma variação para leste, comprehendida entre 5° e 10°, na região considerada e na epocha em questão, não podia a pequena differença do rumo da agulha, mesmo que não fosse attendida a variação, que já era conhecida, influir no grande desvio

que a frota teve para oeste. [12]

l) Tendo a expedição partido do Tejo com rumo feito ás Canarias,

dado pelas agulhas de bordo, experimentando estas uma variação egualmente comprehendida entre 5° e 10° para leste, passou entre ellas não commettendo erro de orientação. Largando depois d'aqui para as Ilhas de Cabo Verde, nas mesmas condições, tambem deparou com este archipelago sem erro de rumo. E portanto continuando a regular-se pelas mesmas agulhas e dentro dos limites da mesma variação, não se pode admittir, nem ha documento algum que prove, ter-se dado erro de rumo proveniente da falsa indicação

das agulhas.[13]

A 2.ª hypothese tambem não tem fundamento:

m) Porque qualquer erro commettido na latitude calculada pela

observação do sol, ou na distancia estimada pelos pilotos, devia ter sido accusada pelas observações feitas em terra por mestre Johan, facto que não se deu, porquanto não consta da carta d'este physico, que especialmente se occupa do assumpto, notando até certas particularidades do rigor das observações feitas durante a viagem, pelo sol e pelos astros, e das differenças que se encontravam por

um e outro processo. [14]{11}

n) Porque conhecendo as latitudes e os rumos, navegando em

uma paragem de fracas correntes maritimas, e com vento prospero, não era possivel commetter erro sensivel no calculo ou estimativa do caminho andado, que desviasse a expedição tantos graus para

oeste. [15]

*

* *

Como acaba de ser demonstrado, tambem a 2.ª hypothese,

attribuida a erro commettido na navegação, não tem fundamento algum, tanto no que diz respeito a falsa orientação da agulha magnetica, como a erronea determinação das latitudes diarias e das distancias percorridas em cada singradura, factos que ainda menos podem ser acceites desde que na expedição iam navegadores tão experimentados e conhecedores do Atlantico sul, como: Bartholomeu Dias, Pero Escobar, Nicoláo Coelho e tantos outros pilotos notaveis, secundados para maior garantia por homens scientificos do valor de mestre Johan e Pedro Alvares Cabral.

É pois evidente: que nem caso de força maior, nem erro de

navegação determinaram o desvio da expedição para oeste, restando portanto, por exclusão de partes, a considerar a ultima e unica hypothese admissivel de um desvio propositado a caminho do occidente.{12}