O descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral

Antonio Arthur Baldaque da Silva · Apêndice

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O descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral

Notas

z) A unica objecção até hoje apresentada contra a existencia de

instrucções verbaes ou confidenciaes para procurar terra a oeste, é a de que em relação a este descobrimento, nada explica o segredo que d'ellas se fez anteriormente,{16} nem a falta de referencia posterior; mas esta razão contradictoria carece de fundamento, encontrando pelo contrario completa explicação na reserva que deveria haver nas explorações maritimas, desde que outras nações procuravam combater pela concorrencia a notavel expansão de Portugal sobre o globo.

A 3.ª hypothese fica evidentemente prejudicada em face dos

fundamentos que justificam a hypothese anterior.

*

* *

Portanto em vista dos factos e razões apresentadas no decurso

d'esta memoria, julgamos ter demonstrado com authenticidade e fundamento: que Pedro Alvares Cabral descobriu o Brasil porque levava instrucções de se desviar para oeste, não só por vantagem da navegação, como tambem para na sua passagem explorar os mares occidentaes, onde havia toda a probabilidade de existir terra.

 

Lisboa 7 de maio de 1892.

 

Notas

[1] «... que a partida de belem como vossa alteza sabe foy

 

segunda feira IX de março; e sabado XIIIJ do dito mez amtre as VIIJ

e IX oras nos achamos amtre as canareas mais perto da gram

canarea e aly amdamos todo aquelle dia em calma a vista delas

obra de tres ou quatro legoas, e domingo XXIJ do dito mez, a as X

oras pouco mais ou menos ouuemos vista das Ilhas do cabo verde a

saber da Ilha de Sam njcolaao, segundo dito de Pero Escobar,

piloto, e a noute seguymte da segunda feira lhe amanheceo se

perdeo da frota Vaasco d'atayde com a sua naao sem hy auer tempo

forte, nem contrairo pera poder ser. fez o capitam suas deligencias

pera o achar a huumas e outras partes e nom pareçeo mays, e asy

seguimos vosso caminho per este mar de comgo atãa terça feira

doitauas de pascoa que foram XX dias dabril que topamos alguuns

synaaes detera seemdo da dita Ilha segundo os pilotos diziam obra

de bj e lx ou lxx legoas».—Carta de Pero Vaz Caminha, 1 de maio

de 1500. Arch. Nac. da Torre do Tombo, gav. 8, maç. 2, n.º 8.

[2] «... e havendo já um mez que hiam n'aquella volta navegando

com vento prospero foram dar na costa desta Provincia».—Pero de

Magalhães de Gandavo, Historia da Provincia de Santa Cruz, 1575.

Bibl. Pub. de Lisboa, B, 14, 25, pag. 1.

[3] As Monções são determinadas pelo Equinocio, a do S. reina de

Março até Setembro, e a do N. de Setembro até Março; os Ventos

geraes na primeira são E.S.E. e S.S.E., e os da segunda são E.N.E.

e N.N.E.; porém isto regula sómente ao largo, porque a experiencia

nos mostra que a visinhança das terras perturba repetidas vezes

esta Lei; por exemplo: os navegadores praticos destas Costas

contam com ventos de E., e os encontram nos mezes de Outubro,

Novembro, e Dezembro, mezes que pertencem á Monção do N. Na

Monção do S. desde a Lagôa dos Patos até Cabo Frio ás vezes

tambem se encontrão Ventos do S.E. ao S.O. soprando com

violencia. Os furacões denominados Pampeiros (porque a sua maior

força se experimenta quando o Vento toma a direcção que passa

pelo paiz dos Pampas) que com frequencia se encontram defronte

do Rio da Prata e Costas visinhas, tem seus prognosticos; por

exemplo: os Ventos soprarão com força do S. ao S.O., se o Sol,

quando se põe, está cercado de nuvens e nevoas; se as terras

apparecem muito claras, e parecem aproximar-se ao Expectador;

felizmente a duração destes furacões he tanto menor, quanto maior

he sua violencia; de sorte que sendo furiosos, raras vezes durão

mais de 48 horas, e sua força diminue á proporção que se avança

para o N. Quando as Brizas do S.E. ao S.O. na Monção do S. são

moderadas, ellas alargão para o largo, durante o dia, e rondão para

a terra de noite.»—Roteiro geral do globo, publ. pela Ac. R. das

Sciencias de Lisboa, 1839, parte XI, sec. 1.ª, pag. 2.

[4] Vents et moussons—La côte du Brésil, entre Bahia et Rio-

Janeiro, est encore comprise dans la limite des alizés, et ce sont en

effet les vents de la partie de l'E. qui y régnent le plus fréquemment;

mais, comme on approche déjà de la limite Sud de ces vents, ils y

subissent de grandes perturbations, et les moussons de N.E. et S.O.

y sont bien caratèrisées, surtout dans le voisinage de la côte.

Mousson de S.O.—La direction moyenne de l'alizé varie de trois

quarts entre l'été et l'hiver, et, dans cette dernière saison d'avril à

septembre, dite mousson de S.O., les vents généraux sont souvent

remplacés par des vents variables du S. à l'O., qui sont les derniers

souffles des pampeiros régnant à cette époque de l'année sur les

côtes de la Plata. Ils amènent des temps sombres, de la pluie et un

peu de mauvais temps; mais, arrivés par cette latitude, ils ont perdu

toute leur force; ils sont tièdes, légers sur les voiles, et il est rare

qu'ils forcent à prendre plus d'un ris aux huniers. Ils ne durent jamais

plus de deux ou trois jours; le plus généralement même ce ne sont

que des grains de quelques heures, auxquels succèdent des calmes

et du beau temps, si le vent tourne au S.E. et à l'E. Outre ces grains

de S.O., on reçoit aussi assez souvent des grains de S.E. aux

environs des Abrolhos, et des orages du N.O. avec pluie et tonnerre

qui arrivent également tout le long de la côte, mais s'étendent en

général assez peu au large. En résumé, pendant tout l'hiver ou

mousson de S.O., entre les deux équinoxes (avril, mai, juin, juillet et

août), on trouve sur la côte du Brésil, entre Rio et Bahia, jusqu'à 30

ou 40 lieues au large, des petits temps très-variables, des grains

pluvieux de S.O., des orages de N.O. et des brises inégales de l'E.

au Sud».— e Les côtes du Brésil , II . section, pages 8. Dépôt des

cartes e plans de la marine, Paris, 1864.

«... aly jouuemos toda aquela noute, e aa quimtafeira pola manhãa

fezemos vella e segujmos direitos aa terra e os nauios pequenos

diante himdo per XVIJ, XVJ, XV, XIIIJ, XIIJ, XIJ, X, e IX braças ataa

mea legoa de terra onde todos lamçamos amcoras em direito da

boca de huum Rio e chegariamos a esta amcorajem aas X oras

pouco mais ou menos...»—Carta (citada) de Pero Vaz Caminha, 1

de maio de 1500.

[5] Carta de Pero Vaz Caminha.—Carta de mestre Johan, fisico e

cirugyano de El-Rei D. Manuel.—Roteiros já citados.—

Effectivamente não ha nada que documente ou explique a existencia

de uma tempestade, e portanto esta hypothese não tem fundamento

algum, e até está banida pelos principaes e mais profundos

historiadores e notaveis hydrographos.—Corografia Brazilica do

padre Cazal. Roteiro do Brazil de M. Ernest Mouchez, nota (a), pag.

115.

[6] «... senor ayer segunda feria que fueron 27 de Abril

descendymos en terra yo e el pyloto do capitan moor e el pyloto de

Sancho de tovar e tomamos el altura del sol al medyodya e fallamos

56 grados e la sontra era septentrional per lo qual segund las reglas

del estrolabio jusgamos ser afastados de la equinocial por 17 grados

e per consyguiente tener el altura del polo antartico en 17 grados

segund que es magnifiesto en el espera e esto es quanto alo uno

por lo qual sabra vosa alteza que todos los pylotos van adyante de

mi en tanto que pero escolar va adyante 150 leguas e otros mas e

outros menos pero quien dyse la verdad non se puede certyficar

fasta que en boa ora allegemos al cabo de boa esperança e ally

sabremos quien va mas cierto ellos con la carta o yo con la carta e el

estrolabio,...»—Carta de mestre Johan, 1 de maio de 1500. Arch.

Nac. da Torre do Tombo, Corpo Chron., parte 3.ª, maço 2, doc. n.º 2.

[7] Courant général au large. Il existe à 40 ou 50 lieues, au large

de la côte du Brésil, un courant général descendant parallèlement à

cette côte du N.N.E. au S.S.O., et qui n'est que la branche Sud du

grand courant équatorial se bifurquant sur le cap Saint-Roque. Ce

courant a une vitesse moyenne de 10 à 15 milles par 24 heures; il

perd de sa force en avançant vers le S., et varie d'ailleurs selon les

saisons et la force du vent. Il n'est plus guère sensible au delà du

tropique. Ce courant, combiné avec la dérive produite par les vents

alizés du S.E., se modifie souvent et porte vers la côte au S.O. et à

l'O.S.O.»—Les côtes du Brésil (já citado), pag. 11. Veja-se tambem a

Chart of the World on Mercators projection, constructed by Hermann

Berghaus and Fr. v. Stülpnagel. Gotha: Justus Perthes.

[8] «Courants près de terre. Entre le courant dont nous venons de

parler et la côte, le mouvement des eaux est entièrement soumis aux

vents régnants dès que la brise souffle 24 heures de la même

direction, soit du N.E. ou du S.O. Le courant s'établit en

conséquence et proportionnellement à la force des vents; aussi

pendant la saison des vents de N.E., surtout d'octobre à janvier, les

courants portent au S.O. avec une vitesse qui peut atteindre 25 à 30

milles par 24 heures. C'est surtout près des points saillants, tels que

les caps Saint-Augustin, le Rio Doce, les caps Saint-Thomé et Frio,

que la vitesse est la plus grande. Les navires qui atterrissent dans

cette saison à Pernambouc et Bahia doivent compter sur une

différence d'au moins 1 mille par heure et manœuvrer en

conséquence; beaucoup de navires sont portés de 36 à 40 milles au

S.O. dans les 24 heures. Mais, nous le répétons, ces courants

cessent avec la cause qui les produit et sont loin d'opposer à la

navigation un obstacle semblable à celui que l'on rencontre le long

de la côte ferme, quand on veut remonter à contre-courant et contre-

mousson de Sainte-Marthe à Curaçao ou à la Guayra. A l'exception

des trois ou quatre mois d'été, novembre, décembre et janvier, où les

vents de N.E. sont dans toute leur force, ces courants sont assez

faibles et très-variables. Pendant la mousson de S.O., ils portent au

N., et sont également faibles et variables; c'est en juin et juillet qu'ils

acquièrent la plus grande force».—Les côtes du Brésil (já citado),

pag. 12.

[9] A expedição compunha-se ao largar de Lisboa de tres naus e

dez caravellas. «Caravelle: Le navire de ce nom, qui eut une

véritable célébrité aux XVe et XVIe siècles; le navire dont se servirent

les Portugais pour leur voyages de découvertes, et Christophe

Colomb pour sont aventureuse navigation à l'ouest, était un petit

bâtiment de la famille des vaisseaux ronds, mais plus fin de forme

que les nefs ses contemporaines, et ayant des façons plus pincés.

Ainsi était-il plus rapide, meilleur manœuvrier, et plus propre à toutes

les expéditions qui demandait de la célérité dans la marche et une

grande rapidité dans les évolutions».==Glossaire Nautique par A.

Jal, Paris MDCCCXLVIII, pag. 419.

[10] Vaz de Camina, qui donne beaucoup de détails sur ce voyage,

n'indique nulle part ce motif (éviter les calmes de la côte d'Afrique)

comme cause de la déviation dans l'O. de la route de Cabral, et nulle

par non plus on ne lui voit invoquer le motif d'une tempête par 15° ou

16° de latitude pour expliquer ce grand écart de route et la

découverte de la terre. Dès qu'on s'avance au S. de l'équateur, les

alizés adonnent continuellement, et si l'on peut doubler la partie la

plus orientale du continent, un peut au S. du cap Saint-Roque, l'on

ne peut que s'éloigner de plus en plus de la côte quand on cherche à

doubler le cap de Bonne-Espérance, puisque, d'un côté, les vents

permettent de faire plus d'E., et que, de l'autre, la côte s'éloigne vers

l'Ouest. Il est donc à peu près impossible de donner un autre motif

plausible de l'arrivée de Cabral en vue de terre par 16° de latitude

qu'une erreur de route commise par ce navigateur.—Les côtes du

Brésil (já citado), nota a, pag. 115

[11] Veja-se: Vida do Infante D. Henrique de Portugal, por Richard

Henry Major; Roteiro da Viagem de Vasco da Gama, por A.

Herculano e o Barão do Castello de Paiva; e as chronicas escriptas

pelos historiadores portuguezes do seculo XVI.

[12] Ensaio de um mappa das linhas de egual declinação (linhas

isogonicas) no seculo XVI, Roteiro de Lisboa a Goa por D. João de

Castro, annotado por João de Andrade Corvo, 1882, est. XIII.

[13] Ensaio de um mappa das linhas de egual declinação no

seculo XVI, (já citado). Carta de Pero Vaz Caminha. Historia da

Provincia de Santa Cruz por Gandavo (tambem já citadas). Por

estes ultimos documentos sabe-se que a expedição passou entre as

Canarias e depois entre as Ilhas de Cabo Verde.

[14] «... solamente mando a vosa alteza como estan situadas as

estrellas del, pero en que grade esta cada una non lo he podido

saber, antes me paresce ser impossible en la mar tomarse altura de

ninguna estrella porque yo trabaje mucho en eso e por poco que el

navio enbalance se yerran quatro o cinco grados de guisa que se

non puede fazer sy non en terra e otro tanto casy dygo de las tablas

de la Indya que se non pueden tomar com ellas sy non con mui

mucho trabajo, que sy vosa alteza supiese como desconcertavan

todos en las pulgadas reyria dello mas que del estrolabio, porque

desde de lisboa até as canarias unos de otros desconcertavan en

muchas pulgadas que unos desyam mas que outros tres e quatro

pulgadas e otrotanto desde las canarias até as yslas de cabo verde,

e esto resguardando todos que el tomar fuese a una misma ora, de

guisa que mas jusgavan quantas pulgadas eran por la quantydad del

camino que les parescia que avyan andado que non el camino por

las pulgadas,...»

[15] Cortando a linha a oeste das Ilhas de Cabo Verde e seguindo

para o sul muito ao poente pelo meridiano de 30° a oeste de

Greenwich, com destino a montar o Cabo da Boa Esperança, seria

precisa uma corrente constante, ou um erro systematico, para oeste,

de 10 milhas por dia, durante uns 15 dias, para desviar a frota tanto

para o occidente; circumstancia inadmissivel, porque não existe tal

corrente, nem as derrotas estabelecidas pela pratica e traçadas nas

cartas maritimas modernas se afastam para oeste do meridiano de

30°.—Veja-se a Chart of the World on Mercators projection, (já

citada).

[16] «E ao outro dia que era quinta feira chegámos á Ilha de

Samtiago, onde pousámos na praya de Santa Maria com prazer e

folgar, e aly tomámos carnes e augua e lenha, e corregendo as

vergas dos navios porque nos era necesario. E huuma quynta feira

que eram tres dias d'agosto partimos em leste, e hindo huum dia

com sull quebrou a verga ao capitam moor, e foy em XVII dias

d'agosto, e seria isto CC legoas da Ilha de Samtiaguo, e pairámos

com o traquete e papafigo dous dias e huuma noute, e em XXII do

dito mês hindo na volta do mar ao sull e a quarta do sudueste,

achámos muitas aves feitas com garçõees, e quando vêo a noute

tiravam contra o susoeste muito rrigas como aver que hiam pera

terra, e neste mesmo dia vimos huuma baléa, e isto bem oytocentas

legoas em mar. A vinte e sete dias do mes d'outubro vespora de

Sam-Simam e Judas, que era sêsta feira, achámos muitas baléas, e

huumas que se chamam quoquas, e lobos marinhos. Huuma quarta

feira primeiro dia do mês de novembro, que foy dia de Todos os

Santos, achámos muitos signaees de terra, os quaes eram huuns

galfãoos que naçem ao lomgo da costa. Aos quatro dias do dito

mês, sabado ante manhan duas oras, achámos fundo de cemto e

dez braças ao mais, e ás nove oras do dia ouvemos vista de terra, e

emtam nos ajuntámos todos e salvámos o capitam moor com muitas

bandeiras e estemdartes e bombardas e todos vistidos de festa, e

em este mesmo dia virámos bem junto com terra na volta do mar,

porém nom ouvemos conhecimento da terra».—Roteiro da viagem

de Vasco da Gama em MCCCCXCVII por A. Herculano e o Barão do

Castello de Paiva, Lisboa, 1861, pag. 2.

[17] «On lit en effet dans les instructions nautiques que ce

navigateur (Vasco da Gama) composa en 1499, à la demande du roi

de Portugal, pour servir à l'expédition de Pedralvarez Cabral qui

partait pour l'Inde: Qui l'on doit s'éloigner dans l'O. des îles du cap

Vert en prenant la bordée du S.O. pour passer dans l'hémisphère

Sud, afin d'éviter les calmes et les orages de la côte d'Afrique, et

courir ainsi jusqu'à la hauteur du cap Bonne-Espérance».—Les côtes

du Brésil, préface, pag. IX.—D'onde o auctor d'esta obra, o sr.

almirante Ernest Mouchez, traduziu esta parte das instrucções

nauticas, que diz terem sido dadas a Cabral, não o sabemos, apezar

de o ter perguntado aquelle escriptor, mas suppomos que existissem

em o primeiro caderno que falta antes do caderno das instrucções

para esta viagem que existe no Arch. Nac. da Torre do Tombo, das

Angedivas em deante, parecendo tambem faltar a ultima parte. É

porém evidente, havendo instrucções para aquella expedição, como

prova o segundo caderno d'ellas existente na Torre do Tombo, que o

primeiro e terceiro cadernos que faltam, fossem vistos em qualquer

parte pelo sr. Mouchez, actual director do observatorio de Paris.

[18] A nota anterior, evidenceia a circumstancia principal de evitar

as calmarias e trovoadas da costa d'Africa, como motivo do desvio

da frota para o occidente; devendo-se-lhe acrescentar o proposito de

passar ao largo do cabo das Tormentas, tão temido dos

navegadores, que já o conheciam pelos seus effeitos tempestuosos,

como eram Bartholomeu Dias e Vasco da Gama.

[19] As viagens portuguezas de exploração, obedeciam todas a

um plano systematico de estudo e investigação, recolhendo dados

experimentaes derivados da pratica e observação das condiçôes do

meio, que pouco a pouco ia sendo conhecido, o que explica o arrojo

de Vasco da Gama em soltar o rumo a meio do mar tenebroso,

derivando pelo Atlantico sul a grande distancia da costa africana,

abandonando o primitivo processo de exploração, costa a costa, dos

navegadores que o precederam. Pedro Alvares Cabral, melhor

informado das condições meteorologicas e maritimas do Atlantico, ia

procurar ao largo correntes atmosphericas e maritimas favoraveis á

sua derrota.

[20] «... e por tanto bem aventurado Principe temos sabido e visto

como no terceiro anno de Vosso Reinado do hano de nosso senhor

de mil quatrocentos e noventa e oito donde nos vossa alteza

mandou descobrir ha parte oucidental passando alem a grandesa do

mar oceano honde he hachada e navegada huma tam grande terra

firme com muitas e grandes Ilhas ajacentes a ella que se estende a

satenta graaos de ladeza da linha equinocial contra ho polo artico e

posto que seja asaz fora he grandemente pouorada, e do mesmo

circulo equinoxial torna outra vez e vay alem de vinte e oito graaos e

meo de ladeza contra o pollo antartico e tanto se dilata sua grandeza

e corre com muita longura que de huma parte nan de outra nom foi

visto nem sabido o fim e cabo della pello qual segundo ha hordem

que leva he certo que vay em cercoyto per toda a Redondeza, asim

que temos sabido que das prayas e costa do mar destes Reynos de

Portugual e do promontorio de finisterra e de qualquer outro lugar da

europa e d africa e d azia hatravessando alem todo ho oceano

direitamente ha oucidente ou ha loest segundo hordem de

marinharia por trinta e seis graaos de longura que seram seiscentos

e quarenta e oito leguoas de caminho contando ha de soy to leguoas

por graao, e ha luguares algum tanto mais longe ha hachada esta

terra nom navegada pellos nauios de vossa alteza e por vosso

mandado e licença os dos vossos vassallos e naturaes» e findo por

esta costa sobredita do mesmo circulo equinocial em diante fez vinte

e oyto graaos de ladeza contra o pollo antartico ha hachado nella

muito fino brazil com outras muitas cousas de que os nauios nestes

Reynos uem grandemente carregados, e primeiro muitos annos que

esta costa fose sabida nem descoberta dise Vicente estorial no seu

primeiro livro que se chama espelho das istorias no capitolo cento e

satenta e sete «Além das tres partes do orbe ha quarta parta he

alem do mar oceano interior em ho meo dia em cujos termos os

antipodas dizem que habitam»—Esmeraldo de situ orbis, 1505,

pag.as 22, 23 e 24.

[21] «... e outros antigos cosmographos que a mesma terra por

muitos annos andarom e doutras pessoas que isso mesmo per

uerdadeira emformaçam ha souberom em tres partes notaveis ha

diuidirom» e na quarta parte que Vossa alteza mandou descobrir

aleem do oceano por a elles ser uicognygta cousa alguma nom

falorom «as quaees tres Asya, Europa, e Africa som chamadas cujos

nomes de seu antiguo principio atee agora ionguamente sempre

durarom»—Esmeraldo de situ orbis, 1505, pag.ª 27.

[22] «... e asy seguimos vosso caminho per este mar de comgo

atãa terça feira doitauas de pascoa que foram XX dias d abril que

topamos alguuns synaaes de tera........» Carta de Pero Vaz

Caminha, 1 de maio de 1500 (já citada). «Esta communicação de

Vaz de Caminha a el-rei D. Manuel, relatando que a frota seguiu o

caminho indicado de antemão (vosso caminho), relacionada de mais

a mais com a referencia de terem topado os primeiros signaes da

terra, mostra claramente o proposito com que a expedição se

afastou para oeste, trilhando uma derrota traçada em instrucções

positivas que Pedro Alvares Cabral levava comsigo (nota 17) e

dando conta do bom resultado que obtiveram em seguir essas

instrucções que el-rei scientemente lhes ordenou.

[23] «... e tanto que comemos vieram logo todolos capitãaes a esta

naao per mandado do capitam moor, com os quaes se ele apartou, e

eu na companhia, e preguntou asy a todos se nos parecia seer bem

mandar a noua do achamento desta terra a Vosa alteza pelo nauio

dos mantiimentos, pera a milhor mandar descobrir, e saber dela

mais do que agora nos podiamos saber por hirmos de nosa viajem e

antre muitas falas que no caso se fezeram, foy per todos ou a mayor

parte dito que seria muito bem, e nisto comcrudiram,...» Carta de

Pero Vaz Caminha (já citada),—Na primeira viagem á India tinha

Vasco da Gama mandado desfazer a náo dos mantimentos.—«Em

vinte e cinquo dias do dito mês de novenbro, huum sabado á tarde

dia de Santa Caterina, entrámos em a angra de Sam Bras, onde

estevemos trezes dias, porque nesta amgra desfezemos a naoo que

levava os mantimentos e os rrecolhemos aos nauios»—Roteiro da

Viagem de Vasco da Gama (já citado).—N'esta segunda expedição,

porém, tudo leva a crer que Vasco da Gama, tendo em vista não

perder o navio, tivesse incluido nas instrucções nauticas que deu a

Cabral, a indicação de aproveitar a náo dos mantimentos para voltar

para traz, dando conta da investigação que a frota ia fazer ao

occidente na sua passagem para o Cabo da Boa Esperança.

[24] Vejam-se as notas (4) e (10).

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