O descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral
Notas
z) A unica objecção até hoje apresentada contra a existencia de
instrucções verbaes ou confidenciaes para procurar terra a oeste, é a de que em relação a este descobrimento, nada explica o segredo que d'ellas se fez anteriormente,{16} nem a falta de referencia posterior; mas esta razão contradictoria carece de fundamento, encontrando pelo contrario completa explicação na reserva que deveria haver nas explorações maritimas, desde que outras nações procuravam combater pela concorrencia a notavel expansão de Portugal sobre o globo.
A 3.ª hypothese fica evidentemente prejudicada em face dos
fundamentos que justificam a hypothese anterior.
*
* *
Portanto em vista dos factos e razões apresentadas no decurso
d'esta memoria, julgamos ter demonstrado com authenticidade e fundamento: que Pedro Alvares Cabral descobriu o Brasil porque levava instrucções de se desviar para oeste, não só por vantagem da navegação, como tambem para na sua passagem explorar os mares occidentaes, onde havia toda a probabilidade de existir terra.
Lisboa 7 de maio de 1892.
Notas
[1] «... que a partida de belem como vossa alteza sabe foy
segunda feira IX de março; e sabado XIIIJ do dito mez amtre as VIIJ
e IX oras nos achamos amtre as canareas mais perto da gram
canarea e aly amdamos todo aquelle dia em calma a vista delas
obra de tres ou quatro legoas, e domingo XXIJ do dito mez, a as X
oras pouco mais ou menos ouuemos vista das Ilhas do cabo verde a
saber da Ilha de Sam njcolaao, segundo dito de Pero Escobar,
piloto, e a noute seguymte da segunda feira lhe amanheceo se
perdeo da frota Vaasco d'atayde com a sua naao sem hy auer tempo
forte, nem contrairo pera poder ser. fez o capitam suas deligencias
pera o achar a huumas e outras partes e nom pareçeo mays, e asy
seguimos vosso caminho per este mar de comgo atãa terça feira
doitauas de pascoa que foram XX dias dabril que topamos alguuns
synaaes detera seemdo da dita Ilha segundo os pilotos diziam obra
de bj e lx ou lxx legoas».—Carta de Pero Vaz Caminha, 1 de maio
de 1500. Arch. Nac. da Torre do Tombo, gav. 8, maç. 2, n.º 8.
[2] «... e havendo já um mez que hiam n'aquella volta navegando
com vento prospero foram dar na costa desta Provincia».—Pero de
Magalhães de Gandavo, Historia da Provincia de Santa Cruz, 1575.
Bibl. Pub. de Lisboa, B, 14, 25, pag. 1.
[3] As Monções são determinadas pelo Equinocio, a do S. reina de
Março até Setembro, e a do N. de Setembro até Março; os Ventos
geraes na primeira são E.S.E. e S.S.E., e os da segunda são E.N.E.
e N.N.E.; porém isto regula sómente ao largo, porque a experiencia
nos mostra que a visinhança das terras perturba repetidas vezes
esta Lei; por exemplo: os navegadores praticos destas Costas
contam com ventos de E., e os encontram nos mezes de Outubro,
Novembro, e Dezembro, mezes que pertencem á Monção do N. Na
Monção do S. desde a Lagôa dos Patos até Cabo Frio ás vezes
tambem se encontrão Ventos do S.E. ao S.O. soprando com
violencia. Os furacões denominados Pampeiros (porque a sua maior
força se experimenta quando o Vento toma a direcção que passa
pelo paiz dos Pampas) que com frequencia se encontram defronte
do Rio da Prata e Costas visinhas, tem seus prognosticos; por
exemplo: os Ventos soprarão com força do S. ao S.O., se o Sol,
quando se põe, está cercado de nuvens e nevoas; se as terras
apparecem muito claras, e parecem aproximar-se ao Expectador;
felizmente a duração destes furacões he tanto menor, quanto maior
he sua violencia; de sorte que sendo furiosos, raras vezes durão
mais de 48 horas, e sua força diminue á proporção que se avança
para o N. Quando as Brizas do S.E. ao S.O. na Monção do S. são
moderadas, ellas alargão para o largo, durante o dia, e rondão para
a terra de noite.»—Roteiro geral do globo, publ. pela Ac. R. das
Sciencias de Lisboa, 1839, parte XI, sec. 1.ª, pag. 2.
[4] Vents et moussons—La côte du Brésil, entre Bahia et Rio-
Janeiro, est encore comprise dans la limite des alizés, et ce sont en
effet les vents de la partie de l'E. qui y régnent le plus fréquemment;
mais, comme on approche déjà de la limite Sud de ces vents, ils y
subissent de grandes perturbations, et les moussons de N.E. et S.O.
y sont bien caratèrisées, surtout dans le voisinage de la côte.
Mousson de S.O.—La direction moyenne de l'alizé varie de trois
quarts entre l'été et l'hiver, et, dans cette dernière saison d'avril à
septembre, dite mousson de S.O., les vents généraux sont souvent
remplacés par des vents variables du S. à l'O., qui sont les derniers
souffles des pampeiros régnant à cette époque de l'année sur les
côtes de la Plata. Ils amènent des temps sombres, de la pluie et un
peu de mauvais temps; mais, arrivés par cette latitude, ils ont perdu
toute leur force; ils sont tièdes, légers sur les voiles, et il est rare
qu'ils forcent à prendre plus d'un ris aux huniers. Ils ne durent jamais
plus de deux ou trois jours; le plus généralement même ce ne sont
que des grains de quelques heures, auxquels succèdent des calmes
et du beau temps, si le vent tourne au S.E. et à l'E. Outre ces grains
de S.O., on reçoit aussi assez souvent des grains de S.E. aux
environs des Abrolhos, et des orages du N.O. avec pluie et tonnerre
qui arrivent également tout le long de la côte, mais s'étendent en
général assez peu au large. En résumé, pendant tout l'hiver ou
mousson de S.O., entre les deux équinoxes (avril, mai, juin, juillet et
août), on trouve sur la côte du Brésil, entre Rio et Bahia, jusqu'à 30
ou 40 lieues au large, des petits temps très-variables, des grains
pluvieux de S.O., des orages de N.O. et des brises inégales de l'E.
au Sud».— e Les côtes du Brésil , II . section, pages 8. Dépôt des
cartes e plans de la marine, Paris, 1864.
«... aly jouuemos toda aquela noute, e aa quimtafeira pola manhãa
fezemos vella e segujmos direitos aa terra e os nauios pequenos
diante himdo per XVIJ, XVJ, XV, XIIIJ, XIIJ, XIJ, X, e IX braças ataa
mea legoa de terra onde todos lamçamos amcoras em direito da
boca de huum Rio e chegariamos a esta amcorajem aas X oras
pouco mais ou menos...»—Carta (citada) de Pero Vaz Caminha, 1
de maio de 1500.
[5] Carta de Pero Vaz Caminha.—Carta de mestre Johan, fisico e
cirugyano de El-Rei D. Manuel.—Roteiros já citados.—
Effectivamente não ha nada que documente ou explique a existencia
de uma tempestade, e portanto esta hypothese não tem fundamento
algum, e até está banida pelos principaes e mais profundos
historiadores e notaveis hydrographos.—Corografia Brazilica do
padre Cazal. Roteiro do Brazil de M. Ernest Mouchez, nota (a), pag.
115.
[6] «... senor ayer segunda feria que fueron 27 de Abril
descendymos en terra yo e el pyloto do capitan moor e el pyloto de
Sancho de tovar e tomamos el altura del sol al medyodya e fallamos
56 grados e la sontra era septentrional per lo qual segund las reglas
del estrolabio jusgamos ser afastados de la equinocial por 17 grados
e per consyguiente tener el altura del polo antartico en 17 grados
segund que es magnifiesto en el espera e esto es quanto alo uno
por lo qual sabra vosa alteza que todos los pylotos van adyante de
mi en tanto que pero escolar va adyante 150 leguas e otros mas e
outros menos pero quien dyse la verdad non se puede certyficar
fasta que en boa ora allegemos al cabo de boa esperança e ally
sabremos quien va mas cierto ellos con la carta o yo con la carta e el
estrolabio,...»—Carta de mestre Johan, 1 de maio de 1500. Arch.
Nac. da Torre do Tombo, Corpo Chron., parte 3.ª, maço 2, doc. n.º 2.
[7] Courant général au large. Il existe à 40 ou 50 lieues, au large
de la côte du Brésil, un courant général descendant parallèlement à
cette côte du N.N.E. au S.S.O., et qui n'est que la branche Sud du
grand courant équatorial se bifurquant sur le cap Saint-Roque. Ce
courant a une vitesse moyenne de 10 à 15 milles par 24 heures; il
perd de sa force en avançant vers le S., et varie d'ailleurs selon les
saisons et la force du vent. Il n'est plus guère sensible au delà du
tropique. Ce courant, combiné avec la dérive produite par les vents
alizés du S.E., se modifie souvent et porte vers la côte au S.O. et à
l'O.S.O.»—Les côtes du Brésil (já citado), pag. 11. Veja-se tambem a
Chart of the World on Mercators projection, constructed by Hermann
Berghaus and Fr. v. Stülpnagel. Gotha: Justus Perthes.
[8] «Courants près de terre. Entre le courant dont nous venons de
parler et la côte, le mouvement des eaux est entièrement soumis aux
vents régnants dès que la brise souffle 24 heures de la même
direction, soit du N.E. ou du S.O. Le courant s'établit en
conséquence et proportionnellement à la force des vents; aussi
pendant la saison des vents de N.E., surtout d'octobre à janvier, les
courants portent au S.O. avec une vitesse qui peut atteindre 25 à 30
milles par 24 heures. C'est surtout près des points saillants, tels que
les caps Saint-Augustin, le Rio Doce, les caps Saint-Thomé et Frio,
que la vitesse est la plus grande. Les navires qui atterrissent dans
cette saison à Pernambouc et Bahia doivent compter sur une
différence d'au moins 1 mille par heure et manœuvrer en
conséquence; beaucoup de navires sont portés de 36 à 40 milles au
S.O. dans les 24 heures. Mais, nous le répétons, ces courants
cessent avec la cause qui les produit et sont loin d'opposer à la
navigation un obstacle semblable à celui que l'on rencontre le long
de la côte ferme, quand on veut remonter à contre-courant et contre-
mousson de Sainte-Marthe à Curaçao ou à la Guayra. A l'exception
des trois ou quatre mois d'été, novembre, décembre et janvier, où les
vents de N.E. sont dans toute leur force, ces courants sont assez
faibles et très-variables. Pendant la mousson de S.O., ils portent au
N., et sont également faibles et variables; c'est en juin et juillet qu'ils
acquièrent la plus grande force».—Les côtes du Brésil (já citado),
pag. 12.
[9] A expedição compunha-se ao largar de Lisboa de tres naus e
dez caravellas. «Caravelle: Le navire de ce nom, qui eut une
véritable célébrité aux XVe et XVIe siècles; le navire dont se servirent
les Portugais pour leur voyages de découvertes, et Christophe
Colomb pour sont aventureuse navigation à l'ouest, était un petit
bâtiment de la famille des vaisseaux ronds, mais plus fin de forme
que les nefs ses contemporaines, et ayant des façons plus pincés.
Ainsi était-il plus rapide, meilleur manœuvrier, et plus propre à toutes
les expéditions qui demandait de la célérité dans la marche et une
grande rapidité dans les évolutions».==Glossaire Nautique par A.
Jal, Paris MDCCCXLVIII, pag. 419.
[10] Vaz de Camina, qui donne beaucoup de détails sur ce voyage,
n'indique nulle part ce motif (éviter les calmes de la côte d'Afrique)
comme cause de la déviation dans l'O. de la route de Cabral, et nulle
par non plus on ne lui voit invoquer le motif d'une tempête par 15° ou
16° de latitude pour expliquer ce grand écart de route et la
découverte de la terre. Dès qu'on s'avance au S. de l'équateur, les
alizés adonnent continuellement, et si l'on peut doubler la partie la
plus orientale du continent, un peut au S. du cap Saint-Roque, l'on
ne peut que s'éloigner de plus en plus de la côte quand on cherche à
doubler le cap de Bonne-Espérance, puisque, d'un côté, les vents
permettent de faire plus d'E., et que, de l'autre, la côte s'éloigne vers
l'Ouest. Il est donc à peu près impossible de donner un autre motif
plausible de l'arrivée de Cabral en vue de terre par 16° de latitude
qu'une erreur de route commise par ce navigateur.—Les côtes du
Brésil (já citado), nota a, pag. 115
[11] Veja-se: Vida do Infante D. Henrique de Portugal, por Richard
Henry Major; Roteiro da Viagem de Vasco da Gama, por A.
Herculano e o Barão do Castello de Paiva; e as chronicas escriptas
pelos historiadores portuguezes do seculo XVI.
[12] Ensaio de um mappa das linhas de egual declinação (linhas
isogonicas) no seculo XVI, Roteiro de Lisboa a Goa por D. João de
Castro, annotado por João de Andrade Corvo, 1882, est. XIII.
[13] Ensaio de um mappa das linhas de egual declinação no
seculo XVI, (já citado). Carta de Pero Vaz Caminha. Historia da
Provincia de Santa Cruz por Gandavo (tambem já citadas). Por
estes ultimos documentos sabe-se que a expedição passou entre as
Canarias e depois entre as Ilhas de Cabo Verde.
[14] «... solamente mando a vosa alteza como estan situadas as
estrellas del, pero en que grade esta cada una non lo he podido
saber, antes me paresce ser impossible en la mar tomarse altura de
ninguna estrella porque yo trabaje mucho en eso e por poco que el
navio enbalance se yerran quatro o cinco grados de guisa que se
non puede fazer sy non en terra e otro tanto casy dygo de las tablas
de la Indya que se non pueden tomar com ellas sy non con mui
mucho trabajo, que sy vosa alteza supiese como desconcertavan
todos en las pulgadas reyria dello mas que del estrolabio, porque
desde de lisboa até as canarias unos de otros desconcertavan en
muchas pulgadas que unos desyam mas que outros tres e quatro
pulgadas e otrotanto desde las canarias até as yslas de cabo verde,
e esto resguardando todos que el tomar fuese a una misma ora, de
guisa que mas jusgavan quantas pulgadas eran por la quantydad del
camino que les parescia que avyan andado que non el camino por
las pulgadas,...»
[15] Cortando a linha a oeste das Ilhas de Cabo Verde e seguindo
para o sul muito ao poente pelo meridiano de 30° a oeste de
Greenwich, com destino a montar o Cabo da Boa Esperança, seria
precisa uma corrente constante, ou um erro systematico, para oeste,
de 10 milhas por dia, durante uns 15 dias, para desviar a frota tanto
para o occidente; circumstancia inadmissivel, porque não existe tal
corrente, nem as derrotas estabelecidas pela pratica e traçadas nas
cartas maritimas modernas se afastam para oeste do meridiano de
30°.—Veja-se a Chart of the World on Mercators projection, (já
citada).
[16] «E ao outro dia que era quinta feira chegámos á Ilha de
Samtiago, onde pousámos na praya de Santa Maria com prazer e
folgar, e aly tomámos carnes e augua e lenha, e corregendo as
vergas dos navios porque nos era necesario. E huuma quynta feira
que eram tres dias d'agosto partimos em leste, e hindo huum dia
com sull quebrou a verga ao capitam moor, e foy em XVII dias
d'agosto, e seria isto CC legoas da Ilha de Samtiaguo, e pairámos
com o traquete e papafigo dous dias e huuma noute, e em XXII do
dito mês hindo na volta do mar ao sull e a quarta do sudueste,
achámos muitas aves feitas com garçõees, e quando vêo a noute
tiravam contra o susoeste muito rrigas como aver que hiam pera
terra, e neste mesmo dia vimos huuma baléa, e isto bem oytocentas
legoas em mar. A vinte e sete dias do mes d'outubro vespora de
Sam-Simam e Judas, que era sêsta feira, achámos muitas baléas, e
huumas que se chamam quoquas, e lobos marinhos. Huuma quarta
feira primeiro dia do mês de novembro, que foy dia de Todos os
Santos, achámos muitos signaees de terra, os quaes eram huuns
galfãoos que naçem ao lomgo da costa. Aos quatro dias do dito
mês, sabado ante manhan duas oras, achámos fundo de cemto e
dez braças ao mais, e ás nove oras do dia ouvemos vista de terra, e
emtam nos ajuntámos todos e salvámos o capitam moor com muitas
bandeiras e estemdartes e bombardas e todos vistidos de festa, e
em este mesmo dia virámos bem junto com terra na volta do mar,
porém nom ouvemos conhecimento da terra».—Roteiro da viagem
de Vasco da Gama em MCCCCXCVII por A. Herculano e o Barão do
Castello de Paiva, Lisboa, 1861, pag. 2.
[17] «On lit en effet dans les instructions nautiques que ce
navigateur (Vasco da Gama) composa en 1499, à la demande du roi
de Portugal, pour servir à l'expédition de Pedralvarez Cabral qui
partait pour l'Inde: Qui l'on doit s'éloigner dans l'O. des îles du cap
Vert en prenant la bordée du S.O. pour passer dans l'hémisphère
Sud, afin d'éviter les calmes et les orages de la côte d'Afrique, et
courir ainsi jusqu'à la hauteur du cap Bonne-Espérance».—Les côtes
du Brésil, préface, pag. IX.—D'onde o auctor d'esta obra, o sr.
almirante Ernest Mouchez, traduziu esta parte das instrucções
nauticas, que diz terem sido dadas a Cabral, não o sabemos, apezar
de o ter perguntado aquelle escriptor, mas suppomos que existissem
em o primeiro caderno que falta antes do caderno das instrucções
para esta viagem que existe no Arch. Nac. da Torre do Tombo, das
Angedivas em deante, parecendo tambem faltar a ultima parte. É
porém evidente, havendo instrucções para aquella expedição, como
prova o segundo caderno d'ellas existente na Torre do Tombo, que o
primeiro e terceiro cadernos que faltam, fossem vistos em qualquer
parte pelo sr. Mouchez, actual director do observatorio de Paris.
[18] A nota anterior, evidenceia a circumstancia principal de evitar
as calmarias e trovoadas da costa d'Africa, como motivo do desvio
da frota para o occidente; devendo-se-lhe acrescentar o proposito de
passar ao largo do cabo das Tormentas, tão temido dos
navegadores, que já o conheciam pelos seus effeitos tempestuosos,
como eram Bartholomeu Dias e Vasco da Gama.
[19] As viagens portuguezas de exploração, obedeciam todas a
um plano systematico de estudo e investigação, recolhendo dados
experimentaes derivados da pratica e observação das condiçôes do
meio, que pouco a pouco ia sendo conhecido, o que explica o arrojo
de Vasco da Gama em soltar o rumo a meio do mar tenebroso,
derivando pelo Atlantico sul a grande distancia da costa africana,
abandonando o primitivo processo de exploração, costa a costa, dos
navegadores que o precederam. Pedro Alvares Cabral, melhor
informado das condições meteorologicas e maritimas do Atlantico, ia
procurar ao largo correntes atmosphericas e maritimas favoraveis á
sua derrota.
[20] «... e por tanto bem aventurado Principe temos sabido e visto
como no terceiro anno de Vosso Reinado do hano de nosso senhor
de mil quatrocentos e noventa e oito donde nos vossa alteza
mandou descobrir ha parte oucidental passando alem a grandesa do
mar oceano honde he hachada e navegada huma tam grande terra
firme com muitas e grandes Ilhas ajacentes a ella que se estende a
satenta graaos de ladeza da linha equinocial contra ho polo artico e
posto que seja asaz fora he grandemente pouorada, e do mesmo
circulo equinoxial torna outra vez e vay alem de vinte e oito graaos e
meo de ladeza contra o pollo antartico e tanto se dilata sua grandeza
e corre com muita longura que de huma parte nan de outra nom foi
visto nem sabido o fim e cabo della pello qual segundo ha hordem
que leva he certo que vay em cercoyto per toda a Redondeza, asim
que temos sabido que das prayas e costa do mar destes Reynos de
Portugual e do promontorio de finisterra e de qualquer outro lugar da
europa e d africa e d azia hatravessando alem todo ho oceano
direitamente ha oucidente ou ha loest segundo hordem de
marinharia por trinta e seis graaos de longura que seram seiscentos
e quarenta e oito leguoas de caminho contando ha de soy to leguoas
por graao, e ha luguares algum tanto mais longe ha hachada esta
terra nom navegada pellos nauios de vossa alteza e por vosso
mandado e licença os dos vossos vassallos e naturaes» e findo por
esta costa sobredita do mesmo circulo equinocial em diante fez vinte
e oyto graaos de ladeza contra o pollo antartico ha hachado nella
muito fino brazil com outras muitas cousas de que os nauios nestes
Reynos uem grandemente carregados, e primeiro muitos annos que
esta costa fose sabida nem descoberta dise Vicente estorial no seu
primeiro livro que se chama espelho das istorias no capitolo cento e
satenta e sete «Além das tres partes do orbe ha quarta parta he
alem do mar oceano interior em ho meo dia em cujos termos os
antipodas dizem que habitam»—Esmeraldo de situ orbis, 1505,
pag.as 22, 23 e 24.
[21] «... e outros antigos cosmographos que a mesma terra por
muitos annos andarom e doutras pessoas que isso mesmo per
uerdadeira emformaçam ha souberom em tres partes notaveis ha
diuidirom» e na quarta parte que Vossa alteza mandou descobrir
aleem do oceano por a elles ser uicognygta cousa alguma nom
falorom «as quaees tres Asya, Europa, e Africa som chamadas cujos
nomes de seu antiguo principio atee agora ionguamente sempre
durarom»—Esmeraldo de situ orbis, 1505, pag.ª 27.
[22] «... e asy seguimos vosso caminho per este mar de comgo
atãa terça feira doitauas de pascoa que foram XX dias d abril que
topamos alguuns synaaes de tera........» Carta de Pero Vaz
Caminha, 1 de maio de 1500 (já citada). «Esta communicação de
Vaz de Caminha a el-rei D. Manuel, relatando que a frota seguiu o
caminho indicado de antemão (vosso caminho), relacionada de mais
a mais com a referencia de terem topado os primeiros signaes da
terra, mostra claramente o proposito com que a expedição se
afastou para oeste, trilhando uma derrota traçada em instrucções
positivas que Pedro Alvares Cabral levava comsigo (nota 17) e
dando conta do bom resultado que obtiveram em seguir essas
instrucções que el-rei scientemente lhes ordenou.
[23] «... e tanto que comemos vieram logo todolos capitãaes a esta
naao per mandado do capitam moor, com os quaes se ele apartou, e
eu na companhia, e preguntou asy a todos se nos parecia seer bem
mandar a noua do achamento desta terra a Vosa alteza pelo nauio
dos mantiimentos, pera a milhor mandar descobrir, e saber dela
mais do que agora nos podiamos saber por hirmos de nosa viajem e
antre muitas falas que no caso se fezeram, foy per todos ou a mayor
parte dito que seria muito bem, e nisto comcrudiram,...» Carta de
Pero Vaz Caminha (já citada),—Na primeira viagem á India tinha
Vasco da Gama mandado desfazer a náo dos mantimentos.—«Em
vinte e cinquo dias do dito mês de novenbro, huum sabado á tarde
dia de Santa Caterina, entrámos em a angra de Sam Bras, onde
estevemos trezes dias, porque nesta amgra desfezemos a naoo que
levava os mantimentos e os rrecolhemos aos nauios»—Roteiro da
Viagem de Vasco da Gama (já citado).—N'esta segunda expedição,
porém, tudo leva a crer que Vasco da Gama, tendo em vista não
perder o navio, tivesse incluido nas instrucções nauticas que deu a
Cabral, a indicação de aproveitar a náo dos mantimentos para voltar
para traz, dando conta da investigação que a frota ia fazer ao
occidente na sua passagem para o Cabo da Boa Esperança.
[24] Vejam-se as notas (4) e (10).
*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O DESCOBRIMENTO DO BRASIL POR PEDRO ALVARES CABRAL ***
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