O deserto do amor
Capítulo IX
Teria sido melhor, para Maria Cross, que essa primeira visita de Raymond não lhe deixasse tal impressão de segurança, de inocência. Ela se admirava por tudo ter passado tão simplesmente. “E eu que me preocupava...” Supunha sentir-se aliviada, mas começava a sofrer por ter deixado Raymond partir sem que marcassem novo encontro. E nunca se ausentava nas horas em que ele poderia vir. O jogo miserável das paixões é tão simples que um adolescente o domina à sua primeira intriga: Raymond não tinha necessidade de nenhum conselho para se resolver a deixá-la “cozinhar com pouco fogo”.
Depois de quatro dias de espera, Maria chegara quase a ponto de se acusar: “Só lhe falei de mim e de François; entristeci-o... Que interesse ele poderia ter por este álbum? Devia ter lhe feito perguntas a respeito da vida que leva, inspirar-lhe confiança... Aborreci-o; deve ter me considerado uma chata... e se não voltar mais?”.
Se ele não voltasse mais! Aquela inquietação em breve se tornou em angústia: “Naturalmente! Que me adianta esperar! Ele não volta... aqui não o apanham mais... Na idade dele, não se perdoa nunca às pessoas maçantes... Muito bem, é assunto terminado”. Evidência esmagadora, terrível! Ele não voltará mais. Maria Cross aterrava o último poço do seu deserto. Agora só havia areia. Que pode haver de mais perigoso no amor do que a fuga de um dos cúmplices? A presença, na maioria das vezes, é um obstáculo: diante de Raymond Courrèges, Maria Cross via em primeiro lugar um adolescente e pensava que seria vil perturbar aquele coração. Lembrava o pai de quem ele era filho; e o que restava de infância naquele rosto lhe lembrava o filho perdido; mesmo em pensamento, ela só se aproximava de Raymond com um pudor ardente. Mas agora que ele não estava presente, e que ela imaginava não mais o rever, que adiantava defender-se contra a onda turva dentro de si, o obscuro torvelinho? Se aquele fruto deve ser roubado à sua sede, por que privar-se de lhe imaginar o sabor desconhecido? A quem estaria fazendo mal? Que censura esperar da lousa na qual está escrito o nome de François? Quem a vê naquela casa sem marido, sem filhos, sem criados? As tristes falas de madame Courrèges, a debater as rixas da copa, que sorte se Maria Cross pudesse ocupar o espírito com elas! Aonde ir? Para além do jardim adormecido se estendia o subúrbio, depois a cidade pedregosa, onde, quando há tempestade, podem-se esperar nove dias sufocantes. Naquele céu lívido um animal feroz, sonolento, ronda, rosna, enfurna-se. Errando pelo jardim, ou pelas salas vazias, Maria Cross cede (e qual outra saída para a sua miséria?), pouco a pouco, à atração de um amor sem esperança ao qual só resta a mísera felicidade de sentir-se ela própria. E ela nada mais tenta contra o incêndio, não sofre mais com sua desocupação, com seu abandono; sua fornalha a ocupava; um demônio obscuro lhe murmurava: “Tu morres, mas não te aborreces mais”.
O estranho, na tempestade, não é seu tumulto, mas o silêncio que ela impõe ao mundo, aquele entorpecimento. Maria via de encontro às vidraças as folhas imóveis, como que pintadas ali. O abatimento das árvores era humano: dir-se-ia que elas conheciam o torpor, o estupor, o sono. Maria chegara ao ponto em que a paixão se torna uma presença; ela irritava a ferida, lhe assoprava o fogo; seu amor se tornava uma sufocação, uma contração que lhe seria possível localizar na garganta, no peito. Uma carta de Larousselle a fez estremecer de nojo. Ah! Até mesmo a aproximação do homem... de agora em diante não seria mais possível. Quinze dias para ele voltar... dava tempo para morrer. Ela se fartava de Raymond e de lembranças que outrora a teriam esmagado de vergonha. “Eu olhava o couro do chapéu dele, no lugar que toca na testa... procurava ali o cheiro dos seus cabelos...”, e essa ternura para com o rosto, o pescoço, as mãos de Raymond. Repouso impossível de imaginar, no desespero. Por vezes lhe atravessava o espírito a ideia de que ele estava vivo, de que nada se perdera, de que talvez voltasse. Mas como se essa esperança a assustasse, ela voltava às pressas para a renúncia total, para a paz de quem nada mais espera. Com horrível prazer, alargava o abismo entre si e aquele que se obstinava em considerar puro: tão longe do seu amor quanto o caçador Órion, ardia aquele menino inacessível: “Eu, uma mulher já gasta, perdida, e ele, ainda todo banhado de infância; sua pureza é como um céu entre nós, onde até o meu desejo renuncia a abrir caminho”. Durante todos aqueles dias os ventos do oeste e do sul arrastaram atrás de si massas obscuras, legiões rugidoras que, quase a fundir-se, de repente hesitavam, volteavam em torno dos cimos fascinados, depois desapareciam, deixando em nós aquele frescor que se observa quando choveu em alguma parte.
Na noite de sexta-feira para sábado, a chuva não interrompeu seu murmúrio. Graças ao cloral, Maria recebeu em paz aquele hálito perfumado que, através das cortinas, o jardim soprava sobre sua cama em desordem, depois afundou-se.
Ao sol da manhã, com o corpo descontraído, admirou-se do que sofrera. Que loucura era aquela? Por que esperar o pior? O menino estava vivo, só lhe aguardava um sinal. Depois da crise, Maria se reencontrava lúcida, equilibrada, talvez decepcionada: “Então era só isso? Mas ele virá, pensava ela, e por maior segurança vou lhe escrever, hei de vê-lo”. Era preciso, custasse o que custasse, confrontar a sua dor com o respectivo objeto. E ela impunha ao espírito a lembrança de um simples menino inofensivo, admirava-se de não mais estremecer à ideia daquela cabeça nos seus joelhos. “Vou escrever ao doutor contando que lhe conheci o filho (sabia que não escreveria). Por que não? Que mal nós fazemos?” À tarde, ela andou pelo jardim, cheio de poças d’água; realmente calma, calma demais, a ponto de sentir um medo surdo: sentir menos sua paixão seria sentir mais seu nada; reduzido, aquele amor já não lhe mascarava o vazio. Logo ela lamentava que a volta do jardim durasse apenas cinco minutos, e tomava novamente pelas mesmas aleias; depois apressou-se, porque a erva lhe molhava os pés... Calçaria as sandálias, deitar-se-ia, fumaria, leria... mas ler o quê? Não tinha nada de interessante à mão. E ei-la de volta à frente da casa. Ergueu os olhos para as janelas e, por trás de uma vidraça da sala, avistou Raymond.
Ele colara o rosto ao vidro, divertia-se em achatar o nariz. Aquela onda que a tomava, seria alegria? Maria subiu os degraus da entrada, pensando nos pés que os acabavam de pisar, empurrou a porta aberta e olhou a maçaneta por causa da mão que nela se encostara, atravessou a sala de jantar mais lentamente, compôs o rosto.
Foi má sorte de Raymond ter chegado depois daqueles dias em que Maria Cross tanto sonhara e tanto sofrera por sua causa. Entre aquela agitação infinita e a pessoa que a provocava, Maria sentiu-se constrangida ao primeiro olhar, por não poder preencher o vazio. Não teve consciência da decepção, mas estava decepcionada, como testemunhava esta observação:
— Você vem direto do barbeiro?
Nunca o vira assim, com os cabelos curtos demais, reluzentes... E tocou por cima da têmpora do rapaz a marca lívida de uma cicatriz. E ele disse:
— Foi uma queda que levei do balanço, quando tinha 8 anos.
Maria o observava, esforçava-se por ajustar ao seu desejo, à sua dor, à sua fome, à sua renúncia, aquele menino ao mesmo tempo forte e magro, aquele canzarrão jovem. Mil sentimentos nela aparecidos a propósito dele, tudo que poderia ser salvo, agrupavam-se de alguma forma em torno daquele rosto tenso, ruborizado. Porém já não reconhecia uma expressão dos olhos e da testa, aquele furor do medroso resolvido a vencer, do covarde resolvido à ação. Nunca, entretanto, ele lhe parecera tão pueril, e ela lhe disse, com carinhosa autoridade, o que de antes tantas vezes dissera a François:
— Está com sede? Daqui a pouco vou lhe dar refresco de groselha, mas quando não estiver tão suado.
Apontou-lhe uma poltrona; ele, porém, sentou-se na chaise-longue onde Maria já se reclinara e lhe afirmou que não tinha sede:
— Pelo menos não tenho sede de refresco.
Maria puxou o vestido sobre as pernas um pouco descobertas, o que lhe atraiu este elogio:
— Que pena!
E nesse ponto, mudando de posição, ela se sentou ao lado do rapaz, que lhe perguntou por que não continuava deitada:
— Será que eu lhe desperto medo?
Palavra que revelou a Maria Cross que, com efeito, ela tinha medo: mas de quê? Aquele era Raymond Courrèges, o jovem Courrèges, o filho do doutor.
— Como vai seu boníssimo pai?
Raymond ergueu os ombros, esticou o lábio inferior. Maria lhe ofereceu cigarros, que ele recusou; ela acendeu um e falou, repousando os cotovelos sobre os joelhos:
— Sim, você me disse que não tinha muita intimidade com seu pai; é o que sempre acontece: pais e filhos... Quando François vinha sentar no meu colo, eu pensava: é preciso aproveitar, porque isto não durará muito.
Maria Cross se enganava com a significação dos ombros levantados de Raymond, o trejeito da boca. Naquele momento ele desejava afastar a lembrança do doutor, não porque se sentisse indiferente, mas porque, ao contrário, andava obcecado pelo pai, depois do que se passara entre ambos na antevéspera. Acabado o jantar, o doutor reunira-se a Raymond na alameda das parreiras, onde o filho, sozinho, fumava, e pusera-se a caminhar ao lado dele, em silêncio, como um homem que tenta falar. “Que é que ele quer comigo?”, perguntava Raymond a si próprio, entregue ao cruel prazer de calar-se, seu prazer das madrugadas de outono, no carro de vidraças a escorrer. E chegara mesmo a apressar maldosamente o passo, porque percebera que o pai tinha dificuldade em segui-lo e ficava um pouco para trás. Mas, de repente, como não o escutasse mais resfolegar, voltou-se: a silhueta escura do doutor mantinha-se imóvel na alameda: ele apertava as duas mãos contra o peito, vacilava, como se estivesse bêbado; deu alguns passos e sentou-se pesadamente. Raymond atirou-se de joelhos; aquela cabeça morta contra o seu ombro. Ele olhava bem perto um rosto de olhos fechados, bochechas pálidas:
— Que é que há, papai? Que é que há, papaizinho? — Aquela voz, ao mesmo tempo súplice e imperiosa, despertara o enfermo, como se possuísse uma virtude: um pouco sem fôlego, ele tentara sorrir, com ar estonteado:
— Não é nada, não há de ser nada...
E contemplava o rosto angustiado do filho, escutava aquela mesma voz meiga de quando Raymond tinha 8 anos:
— Ponha a cabeça no meu ombro; o senhor não tem um lenço limpo? O meu está sujo.
E, delicadamente, Raymond enxugava aquele rosto que voltava à vida. Os olhos reabertos do pai viam os cabelos do adolescente que o vento soerguia um pouco e, para além, um ramo espesso de parra, e mais além, um céu de enxofre, ameaçador, onde parecia que se haviam despejado invisíveis descargas. Amparado no braço do filho, o doutor voltara para casa: a chuva quente se esmagava sobre os ombros de ambos, sobre as faces, mas era impossível caminhar mais depressa. O doutor dizia a Raymond:
— Isto é o que se chama a falsa angina de peito, tão dolorosa quanto a verdadeira... Estou “fazendo” uma intoxicação: vou passar 48 horas na cama, em dieta hídrica... E não me diga uma palavra nem à sua avó nem à sua mãe!
Mas Raymond o interrompeu:
— O senhor não está me enganando? Tem certeza de que não é nada? Jure que não é nada!
E o doutor perguntou em voz baixa:
— Você sentiria muito se eu...
Raymond, porém, não o deixara terminar a frase: passou o braço ao redor daquele corpo arquejante e um grito lhe escapou do peito:
— Que tolice!
O doutor deveria se lembrar mais tarde daquela carinhosa insolência, nas horas más, quando o filho voltasse a ser um estranho, um adversário, um coração surdo que não sabe responder. E os dois haviam entrado na sala, sem que o pai ousasse beijar o filho.
— E se nós falássemos de outra coisa? Não vim aqui para falar do papai, sabe? Temos coisa melhor a fazer, não?
Raymond adiantou uma mão enorme, desajeitada, que ela apanhou no ar.
— Não, Raymond, não; você não o conhece porque vive perto demais dele. Os nossos são aqueles a quem mais ignoramos... Chegamos ao ponto de não mais ver o que nos cerca. Por exemplo, em minha família sempre me acharam feia, porque, quando menina, eu envesgava um pouco os olhos. No liceu, para meu espanto, foi que as minhas colegas me disseram que eu era bonita.
— Isso sim, conte uns casos do colégio de moças.
A ideia fixa lhe envelhecia o rosto. Maria não ousava mais largar aquela grande mão, que ia se tornando úmida; e sentiu mesmo alguma repugnância. Era a mesma mão cujo toque, dez minutos antes, a fizera empalidecer. A mão que, retida por um segundo, a obrigava dias atrás a fechar os olhos, a afastar a cabeça. Agora, era uma mão mole e molhada.
— Não, quero lhe ensinar a conhecer o doutor: sou muito teimosa!
Raymond a interrompeu para afirmar que, ele também, era teimoso:
— E fique sabendo, jurei a mim mesmo que hoje não me deixaria tapear.
Ele disse isso em voz tão baixa e balbuciante que ela pôde fingir não o haver escutado. Aumentou, porém, o espaço entre os dois corpos, depois ergueu-se, abriu uma janela:
— Não se diria que choveu; está abafado. Aliás, ainda estou escutando trovões... Ou então o canhão em Saint-Médard.
Por cima das folhas, ela lhe apontava a cabeça atormentada de uma nuvem profunda, sombria, franjada de sol. Raymond, porém, lhe segurou com ambas mãos os antebraços e a empurrou para a chaise-longue, Maria forçou o riso:
— Largue-me! — Quanto mais se debatia, mais ria, para dar a entender que aquela luta era apenas brincadeira, que assim a entendia: — Menino malcriado, largue-me...
Mas o riso se tornava uma careta; tropeçando contra o divã, ela viu de perto cerca de umas mil gotas de suor numa testa baixa; as asas do nariz salpicadas de cravos; e respirava um hálito acre. Mas aquele fauno estouvado tinha a pretensão de reunir numa mão só os pulsos da moça; com um repelão, Maria depressa se libertou. Havia entre eles, agora, a chaise-longue, uma mesa, uma poltrona. Maria arquejava um pouco e forçava-se a rir:
— Então você acha, meu filho, que se possui uma mulher à força?
Raymond já não ria, jovem macho humilhado, furioso com a derrota, ferido no ponto nevrálgico daquele orgulho físico que, nele, já era desmesurado, e que sangrava. Durante sua vida inteira deveria recordar aquele minuto em que uma mulher o considerara repugnante (o que não seria nada), mas grotesco também. Tantas vitórias futuras, todas suas vítimas derrotadas e miseráveis, não abrandariam jamais a queimadura dessa primeira humilhação.
Por muito tempo, só à lembrança daquela cena, ele magoaria os lábios com os dentes, e morderia o travesseiro, à noite. Raymond Courrèges continha lágrimas de fúria, a mil léguas de imaginar que o sorriso de Maria poderia ser uma simulação, que ela não estava procurando ferir o rapaz suspeitoso, procurava, sim, não deixar perceber nada daquele desastre, daquele desmoronamento dentro de si. Ah, tomara vê-lo longe! Tomara ver-se só!
De início, Raymond espantava-se por sentir ao seu alcance a famosa Maria Cross; repetia consigo: “Esta mulherzinha simples é Maria Cross”. Bastar-lhe-ia estender a mão, ela estava ali, submissa, inerte, e ele poderia segurá-la, deixá-la cair, apanhá-la; e, agora, apenas o gesto dos seus braços estendidos fizera afastar vertiginosamente aquela Maria. Ah, ela ainda estava ali; mas Raymond sabia, de ciência certa, que de agora em diante era-lhe tão impossível tocá-la quanto a uma estrela. Foi então que viu quanto ela era bela; preocupado em descobrir como colher e devorar aquele fruto, sem duvidar um segundo de que aquele fruto lhe era destinado, ele jamais a olhara; e agora o que te resta é devorá-la com os olhos.
Maria repetia suavemente, com medo de irritá-lo, mas com terrível obstinação:
— Preciso ficar só, Raymond... compreenda: precisa me deixar só...
O doutor sofrera porque Maria não lhe desejava a presença; mas Raymond conhecia uma dor pior: a necessidade de não mais nos vermos que o ser amado não dissimula mais, que não pode esconder; ele nos recusa, nos vomita. Nossa ausência é necessária à sua vida; ele arde por nos precipitar no esquecimento: “Apressa-te em sair de minha vida”. E se não nos empurra, é porque se arreceia da nossa resistência. Maria Cross entregava o chapéu a Raymond, empurrava a porta, deixava-o passar, a ele que, aliás, só desejava desaparecer, e balbuciava tolos pedidos de desculpas, submerso pela vergonha, voltando a ser um adolescente cheio de horror por si próprio. Mas, mal chegara à estrada, fechado o portão, o rapaz encontrou de súbito as palavras que deveria ter lançado à cara daquela rameira... Tarde demais! E durante anos torturou-o um pensamento: “Ele ir embora sem lhe dar o troco”.
Enquanto caminhava, o coração de Raymond se descarregava de todas as injúrias com que não esmagara Maria Cross; a moça depois de fechar a porta e a janela, deitara-se. Além das árvores, um pássaro lançava por vezes um chamado interrompido, como o resmungo confuso de um homem que dorme. O subúrbio ecoava o som dos bondes e das sirenes; as cantigas avinhadas do sábado retiniam nas estradas. No entanto, Maria Cross sentia-se sufocada de silêncio, um silêncio que não lhe era exterior, que subia do mais profundo do seu ser, se acumulava na sala deserta, invadia a casa, o jardim, a cidade, o mundo. E no centro desse silêncio abafante, ela vivia, olhando dentro de si aquela chama a que de súbito faltava qualquer alimento, mas, assim mesmo, inextinguível. De que se alimentava esse fogo? Lembrou-se de que às vezes, no fim das suas noites insones, solitárias, uma derradeira chama erguia-se no borralho negro da lareira, que ela já supunha apagada. Maria procurava na memória o rosto adorável do menino do bonde das 18 horas e não o encontrava mais. Só restava agora um malandrinho arrepiado, louco de timidez e que se esporeava; imagem tão diferente do verdadeiro Raymond Courrèges quanto o era aquela outra com que o embelezara seu amor. E se encarniçava contra aquele a quem transfigurava, divinizara: “Foi por esse garoto sujo que eu me fiz sofrer e me senti feliz...”. Maria ignorava que seu olhar, baixando sobre aquele menino informe, bastara para torná-lo um homem — um homem de quem muitas outras iriam conhecer as astúcias, sofrer as carícias, os golpes. Se ela o criara com seu amor, agora acabava a obra, desprezando-o; acabava de largar no mundo um rapaz cuja mania seria provar a si mesmo que era irresistível, embora uma Maria Cross lhe houvesse resistido. Doravante, em todos os seus casos futuros, se infiltraria uma inimizade surda, o prazer de ferir, de fazer gritar a corça à sua mercê; seriam as lágrimas de Maria Cross que, durante a vida inteira, ele faria correr em rostos estranhos. Claro que ele nascera com aquele instinto de caçador, mas, sem Maria, uma fraqueza qualquer o teria abrandado.
— Por esse vagabundo... Que nojo!
E, contudo, a chama inextinguível ardia dentro de si, sem nada mais que a alimentasse. Ente nenhum, no mundo, se beneficiaria com aquela luz, com aquele calor. Para onde ir? Para a Chartreuse, onde estava o corpo de François? Não, não; confessa que, junto desse cadáver, só procurava um álibi. Ela só fora tão fiel nas visitas ao menino do cemitério por amor da volta ao lado de um outro menino vivo. Hipócrita! Nada tinha a fazer, nada tinha a dizer diante de um túmulo; chocava-se com ele, sempre, como diante de uma porta sem fechadura, condenada pela eternidade. Seria o mesmo se se ajoelhasse na poeira da rua... Pequenino François, pinhado de cinzas, tu que eras cheio de riso e de lágrimas... Quem desejar ao pé de si? O doutor, aquele maçante? Não, maçante não... Mas que adiantava o esforço pela perfeição, quando é nosso destino tentar apenas o que é escuso, a despeito de toda nossa boa vontade? O que havia de pior dentro de Maria sabia aproveitar muito bem todas as metas que ela se glorificara em alcançar.
Ela não deseja a presença de ninguém, nem quer estar em nenhum outro lugar do mundo, senão naquela sala de cortinas rotas. Talvez em Saint-Clair? Sua infância em Saint-Clair... Lembra-se do parque, para onde fugia, quando de lá ia embora aquela família clerical, inimiga de sua mãe. Parecia que a natureza estava à espera da partida daquela gente, depois das férias de Páscoa, para romper seu burel de folhas. As samambaias subiam, engrossavam, venciam, com a sua onda verde e espumosa, os ramos baixos dos carvalhos; mas os pinheiros balançavam os mesmos cimos cinzentos que pareciam indiferentes à primavera, até que numa manhã eles também arrancavam de si uma nuvem de pólen: o imenso enxofre do seu amor. E Maria encontrava numa volta de vereda uma boneca quebrada, um lenço preso aos garranchos. Mas hoje, estranha àquela região, nada a acolhia, senão a areia, onde se deitara de bruços.
Justine avisou que o jantar estava servido: Maria arrumou os cabelos e sentou-se defronte da sopa fumegante. E como a criada e o marido não queriam perder a sessão de cinema, meia hora depois ela se viu novamente sozinha à janela da sala. A tília cheirosa ainda não tinha perfume; por baixo da tília, já os rododendros estavam escuros. Com medo do nada, para recuperar o fôlego, Maria procurava qualquer coisa a que se apegar. “Cedi”, pensava ela, “àquele instinto de fuga que quase todos nós sentimos diante do rosto humano enfeiado pela fome, pela urgência. Tu te convences de que aquele animal é um ente diverso do menino que adoravas, era o mesmo menino, mas com a máscara: tal como as mulheres grávidas usam no rosto uma máscara biliosa, os homens tomados de amor trazem também, colada à face, essa aparência, às vezes horrenda, e sempre terrível, do animal que neles se agita. Galateia foge do que a aterroriza, que é também o que a atrai... Eu sonhava com uma longa estrada, onde, numa caminhada insensível, passássemos das regiões temperadas às mais ardentes: mas o estouvado apressou-se... Porque não me resignei àquele furor! Era aí, e não além, que eu teria encontrado o inimaginável repouso; e talvez melhor do que repouso... Talvez não exista entre os seres nenhum abismo que um excesso de amor não seja capaz de preencher... Que amor?” Ela se lembrou; a boca de Maria torceu-se, emitiu um “hééé” de repugnância; imagens a assaltaram: e ela viu Larousselle afastando-se, a cara rubra, a praguejar: “Que é que você quer?”.
Que era, pois, que ela queria? Maria vagueava pela sala deserta, debruçava-se à janela, sonhava com um ignoto silêncio no qual sentiria seu amor sem que esse amor tivesse que dizer qualquer palavra, e assim mesmo o bem-amado a escutaria, apreenderia nela o desejo, antes mesmo que esse desejo nascesse. Qualquer carícia indica um intervalo entre dois seres. Mas se eles estivessem tão confundidos um no outro que o amplexo se tornasse desnecessário, aquele breve amplexo que o pudor desata... O pudor? Pareceu-lhe escutar o riso de rameira de Gaby Dubois e sua exclamação, certo dia:
— Mas não, não, fale só por você! Ao contrário, só isso é que ainda é bom, só isso é que não decepciona. Na droga da minha vida, é o único consolo.
De onde vem sua repugnância? Terá algum sentido? Será testemunha de um desejo especial por alguém? Mil ideias confusas despertavam em Maria, desapareciam, como se lhe passassem por cima da cabeça, como no céu azul deserto passam as estrelas cadentes, as bólides perdidas.
“Será”, pensa Maria, “que a minha lei não é a lei comum? Sem marido, sem filhos, sem amigos, ninguém pode ser mais só no mundo; mas que era essa solidão, ao preço de um outro isolamento do qual a mais carinhosa família não a libertaria: o isolamento que sentimos ao reconhecer em nós os sinais de uma espécie singular, de uma raça quase perdida, cujos instintos nós interpretamos, e as suas exigências, e as suas misteriosas metas? Ah, deixar de se extenuar nessa pesquisa! Se o céu ainda estava pálido, com um resto de luz do dia e da lua nascente, as trevas se amontoavam sob as folhas tranquilas. Com o corpo inclinado para a noite, atraído, como que aspirado pela tristeza vegetal, Maria Cross cedia menos ao desejo de beber naquele rio de ar atravancado de ramos, que à tentação de perder-se nele, dissolver-se, para que enfim o seu deserto interior se confundisse com o deserto do espaço, para que esse silêncio de dentro dela não fosse mais diferente do silêncio das esferas.”