O deserto do amor

François Mauriac · Capítulo 4 de 13

Páginas do PDF

O deserto do amor

Capítulo IV

 

 

Foi uma noite como qualquer outra — no fim de janeiro, quando já declina o inverno nessa região — que Raymond, no bonde dos operários, espantou-se por encontrar à sua frente aquela mulher. Longe de sofrer por se ver, toda noite, confundido com aquele carregamento humano, ele se persuadia de que era um emigrante; estava sentado entre os passageiros da coberta, e o navio cortava as trevas; as árvores eram os corais; os transeuntes e os veículos, o povo obscuro das grandes profundidades. Travessia por demais breve, durante a qual não seria humilhado; nenhum daqueles corpos seria menos abandonado que o seu, menos maltratado. Quando, às vezes, seu olhar encontrava outro olhar, Raymond não descobria nele a menor zombaria; afinal sua roupa branca era mais limpa do que aquela camisa mal-abotoada por cima de um peito peludo de animal. Ele se sentia à vontade entre aquela gente, longe de desconfiar que bastaria uma palavra para que de repente surgisse o deserto, que separa as classes como separa os seres; o máximo de comunhão possível era certamente alcançado por aquele contato, por aquele mergulho comum num bonde, a cortar o arrabalde noturno. Raymond, tão brutal no colégio, no bonde não repelia a cabeça cambaleante de um rapaz da sua idade, exausto, e a quem o sono abatia o corpo, desatava-o como a um ramo.

Mas, nessa noite, viu diante de si aquela mulher, aquela senhora. Entre dois homens de roupa suja de graxa, ela se sentava, vestida de preto, com o rosto descoberto. Raymond mais tarde perguntava a si próprio por que, sob aquele olhar, ele não sentira logo a vergonha que lhe dava o olhar da última das criadas. Não, vergonha nenhuma, nenhum constrangimento; talvez porque, no bonde, ele se sentia anônimo e não imaginava qualquer circunstância que o pudesse pôr em contato com a desconhecida. Mas, acima de tudo, ele não lhe decifrava na fisionomia nada que se assemelhasse à curiosidade, à zombaria, ao desprezo. E, contudo, como ela o observava! Com a aplicação, o método, de uma mulher que dissesse consigo: “Esse rosto vai me consolar dos minutos miseráveis que é necessário enfrentar num transporte público; posso suprimir o mundo ao redor desse rosto sombrio e angélico. Nada me pode ofender: a contemplação liberta; ele está a minha frente como um país desconhecido; suas pálpebras são as praias devastadas de um mar; dois lagos confusos dormem às margens dos cílios. A tinta que ele tem nos dedos, o colarinho e os punhos encardidos, e o botão que falta — tudo isso é apenas um pouco de terra a sujar o fruto intato, subitamente caído do ramo e que, com mão cuidadosa, tu apanhas”.

E ele também, Raymond, cheio de segurança, pois não tinha que temer sequer uma palavra da desconhecida, já que ponto nenhum os ligava um ao outro, contemplava-a com a insistência tranquila que prende nosso olhar a outro planeta... (Como ainda é pura a fronte da mulher! Courrèges a contempla furtivamente, esta noite, banhada de uma luz que não vem do pequeno bar rutilante, que é uma luz de inteligência, que tão raramente toca um rosto de mulher — mas quão emocionante quando a encontramos, e quanto nos ajuda a conceber que Mente, Ideia, Inteligência e Razão sejam palavras femininas!)

Em frente à igreja de Talence a moça ergueu-se, deixando aos homens abandonados apenas seu perfume, e até mesmo esse aroma se dissipou antes que Raymond descesse. Fazia pouco frio nessa noite de janeiro; o adolescente não pensava em correr; já a bruma noturna continha a doçura secreta da primavera que chegava. A terra ainda estava nua, mas já não dormia.

 

Raymond, absorto, nada viu, naquela noite, na mesa de família, onde, entretanto, jamais seu pai mostrara antes um rosto tão doente; a tal ponto que dessa vez madame Courrèges estava muda: era preciso não se correr o risco de “impressioná-lo”, explicou ela depois aos Basque, quando o doutor já subira, em companhia da mãe. Mas Lucie resolvera consultar em segredo o doutor Dulac. O charuto do tenente empesteava a sala; de pé, encostado à lareira, ele repetia:

— Sem medo de errar, minha mãe, é um homem marcado.

Sua palavra, ao mesmo tempo breve e balbuciante, era a palavra de comando e, como Madeleine se opusesse à mãe, dizendo:

— Talvez seja apenas uma crise...

O tenente a interrompeu:

— Oh, não, Madeleine. O caso é grave, sua mãe tem razão.

A mulher ainda arriscou uma objeção e ele exclamou:

— Mas não estou dizendo que sua mãe tem razão! Você não acha bastante?

 

No primeiro andar, a velha madame Courrèges batera à porta do filho, que estava sentado diante dos livros abertos. Mas evitou fazer-lhe perguntas e, muda, tricotava. Quando ele não pudesse mais suportar o silêncio e o recalque, quando tivesse necessidade de falar, ela estaria ali, pronta para ouvir tudo; mas um instinto seguro a impedia de provocar qualquer confidência. E ele, por alguns instantes, pensou em não mais conter aquele grito que o sufocava; mas teria sido preciso remontar tão longe, retomar toda a cadeia das suas dores, até chegar à dor daquela noite... E como explicar a desproporção entre seu sofrimento e a causa que o fizera nascer? Porque não houvera nada, senão isto; na hora marcada, o doutor correra à casa de Maria Cross; como um criado o preveniu de que a madame ainda não voltara, foi uma primeira angústia; ele, porém, aceitou esperá-la na sala deserta, onde um relógio de pêndulo batia mais devagar que seu coração. Uma lâmpada iluminava as travezinhas pretensiosas do teto; numa mesa baixa, perto do divã, aquela porção de pontas de cigarro num cinzeiro: “Ela fuma demais, está se intoxicando”. Quantos livros! Mas não havia nenhum cujas últimas páginas estivessem abertas. O olhar do doutor acompanhava as pregas rotas das grandes cortinas de seda desbotada. E ele repetia: “Luxo e miséria, miséria e luxo...”. Olhou o relógio de parede, depois o relógio de algibeira, resolveu que iria embora dentro de um quarto de hora, e então o tempo passou a dar a impressão de que se precipitava. E, para que não lhe parecesse curto demais, o doutor evitou pensar no seu laboratório, na experiência interrompida. Levantara-se e, aproximando-se da chaise-longue, pusera-se de joelhos; e após olhar com medo para os lados da porta, enfiou a cabeça entre as almofadas... Quando se ergueu, o joelho esquerdo deu seu estalido habitual. O doutor se deteve diante de um espelho, tocou com o dedo a artéria temporal intumescida e disse a si próprio que alguém que o apanhasse ali o suporia louco. Segundo seu hábito de homem de trabalho, que tudo reduz a fórmulas, falara: “Assim que ficamos sós, somos loucos. Sim, o controle de nós próprios por nós próprios só funciona mantido pelo controle que os outros nos impõem”. Ai! E bastara esse raciocínio para esgotar o quarto de hora de misericórdia que se permitira...

Como explicar à velha mãe, que espreita uma confidência, a aflição daquele minuto, a renúncia exigida, o arrancar-se à triste felicidade cotidiana de uma conversa com Maria Cross? O principal não é querer confiar-se, nem mesmo ter junto a si um confidente, seja esse confidente a nossa própria mãe. Quem de nós possui a ciência de resumir a algumas palavras todo um mundo interior? Como destacar, daquele rio a correr, esta sensação e não aquela? Nada se pode dizer quando não se pode dizer tudo. E ademais, aquela velha, sentada ali, que poderá compreender da música profunda do filho e suas dissonâncias dilacerantes? O filho que é de outra raça, já que é de outro sexo... O sexo, que nos separa mais que dois planetas. Diante da mãe, o doutor recorda a sua dor, mas não a descreve. Cansado de esperar por Maria Cross, lembra-se ele de que apanhara o chapéu, quando soaram passos no hall e a sua vida ficou como suspensa. A porta se abrira, não diante da mulher esperada, mas diante de Victor Larousselle.

— O senhor faz mimos demais a Maria, doutor.

Nenhuma suspeita na voz. O doutor sorrira àquele homem impecável, sanguíneo, vestido de bege, a arrebentar de complacência e satisfação.

— Que boa presa para os senhores médicos, esses neurastênicos, esses doentes imaginários... Eh? Não, estou a brincar... nós conhecemos seu desinteresse... Mas tive uma sorte enorme em Maria cair na mão de uma avis rara como o senhor. Sabe por que ela ainda não chegou? Madame abriu mão do carro; é seu último capricho. Cá entre nós, acho que ela tem um parafuso frouxo; numa linda mulher, é um encanto a mais, não? Que é que acha, doutor? Este célebre Courrèges! Dá prazer vê-lo! Fique para o jantar. Maria ficará satisfeita; ela o adora. Não? Pelo menos espere que ela volte. Só com o senhor posso falar a respeito de Maria.

“Só com o senhor posso falar a respeito de Maria...” De repente, naquele homenzarrão glorioso, aquela pequena frase dolorida. “Esta paixão”, dissera consigo o doutor no carro que o levava de volta à cidade, “escandaliza a cidade e, contudo, é a única coisa nobre que existe naquele imbecil.” Com 50 anos, ele descobre que é capaz de sofrer por uma mulher, de quem, entretanto, conquistou o corpo; mas isso já não lhe basta. Além do seu mundo, dos seus negócios, das suas cavalariças, existe agora para ele, fora desse universo, um princípio superior de sofrimento... Talvez nem tudo seja louco na concepção romântica das paixões. Maria Cross! Maria! Dor, dor de a não ter visto, mas principalmente que evidencia o fato de ela não haver sequer pensado em me prevenir! Devo contar muito pouco na vida de Maria; ela renuncia a me ver sem mesmo deter-se a pensar um instante... Eu faço um infinito dos minutos que nada são para ela...

Algumas palavras despertam o doutor: a velha não pode mais suportar o silêncio: ela também acompanhou o declive das suas preocupações secretas, e já não pensa mais na ferida escondida do filho; retorna àquilo que a obceca: as suas relações com a nora:

— Eu faço que não sinto. Nunca respondo senão: “Pois é, minha filha, como queira... como queira!”. Não contrario. Depois que Lucie me fez sentir que ela era a dona da fortuna... Graças a Deus, você ganha bastante dinheiro. É verdade que, quando casou, você tinha o futuro e nada mais; e ela, da família Boulassier, d’Elbeuf! Sei bem que as fábricas deles não eram então o que são hoje; assim mesmo, ela poderia ter feito um casamento mais rico: “Quando se tem, se quer mais”, como me disse ela mesma, certa vez, a propósito de Madeleine. Enfim, não nos queixemos. Se não fosse o caso da criadagem, as coisas andariam bem.

— O que há de terrível na vida, mamãe, é viver na mesma cozinha dos criados que não têm os mesmos patrões...

O doutor Courrèges tocou com os lábios a testa da mãe, deixou a porta entreaberta para que ela enxergasse e ficou a repetir maquinalmente:

— O que há de terrível na vida...

 

No dia seguinte ainda durava o capricho de Maria Cross em relação ao carro, pois Raymond, no bonde, viu a desconhecida sentada no mesmo lugar, e os olhos calmos dela retomavam posse do rosto do menino, lhe viajavam ao redor das pálpebras, seguiam a ourela dos cabelos escuros, demoravam-se no clarão dos dentes, entre os lábios. Ele chegou a se lembrar de que não fizera a barba desde a antevéspera, tocou com o dedo a face magra e logo, envergonhado, escondeu as mãos sob a pelerine. A desconhecida baixou os olhos, e ele a princípio não percebeu que, por falta de ligas, uma das meias escorregara e lhe descobria as pernas. Não ousava esticá-la, mas trocou de posição. Contudo, não sofria: o que Raymond odiava nos outros era o riso, o sorriso, embora contido; ele surpreendia o menor frêmito a um canto de boca, sabia o que significava um lábio inferior mordido... Mas aquela mulher o contemplava com uma face estranha ao mesmo tempo inteligente e animal, sim, a face de um animal maravilhoso, impassível, que desconhece o riso. O rapaz ignorava que seu pai muitas vezes brincava com Maria Cross a propósito dessa sua maneira de apoiar o riso ao rosto como uma máscara, que caía de repente, sem que o olhar perdesse o mínimo da sua imperturbável tristeza.

Quando a moça desceu diante da igreja de Talence, e já não vendo senão o couro do assento, um pouco amolgado onde ela se sentara, Raymond não duvidou de que a reveria no dia seguinte; não poderia dar a essa esperança nenhuma razão válida: apenas tinha fé. E essa noite, depois do jantar, o menino levou para o quarto dois jarros de água quentíssima, apanhou a banheira e no dia seguinte levantou-se uma meia hora mais cedo, porque resolvera barbear-se diariamente.

Os Courrèges poderiam observar durante horas o broto de um castanheiro sem nada compreender dos mistérios da eclosão; e, do mesmo modo, não viram no meio aquele prodígio; tal como o primeiro golpe de picareta descobre um fragmento de estátua perfeita, o primeiro olhar de Maria Cross suscitara no estudante um ente novo. Sob o quente olhar de uma mulher, aquele corpo abandonado portou-se como os jovens troncos rugosos de uma floresta antiga e onde, de súbito, move-se uma deusa adormecida. Os Courrèges não viram o milagre, porque os membros de uma família muito unida nunca se veem uns aos outros. Raymond já era, há semanas, um rapaz cuidadoso com sua aparência, convertido à hidroterapia, seguro de agradar e ocupado em seduzir, e sua mãe ainda o considerava um colegial desleixado. Uma mulher, sem dizer palavra, pelo único poder do seu olhar, transformava o filho dos Courrèges, moldava-o novamente, sem que a família descobrisse nele os traços desse encantamento desconhecido.

No bonde, que já não era mais iluminado, à medida que os dias se alongavam, Raymond, de cada vez, ousava um gesto novo: cruzava as pernas, descobria as meias cuidadas e esticadas, os sapatos lustrosos como espelhos (havia um engraxate na Croix de Saint-Genès); já não havia mais razão para que ele escondesse os punhos da camisa; passou a usar luvas; um dia tirou-as, e a moça não pôde deixar de sorrir à vista daquelas unhas por demais rosadas, onde uma manicura trabalhara de rijo; é que, roídas durantes anos, as unhas de Raymond lucrariam mais se ainda não chamassem a atenção. Tudo aquilo não era senão a aparência de uma ressurreição invisível; a bruma amontoada sobre aquela alma dissipava-se pouco a pouco sob a atenção grave da mulher, sempre muda, mas que o costume ia tornando mais familiar. “Ele não era então um monstro e, como os outros rapazes, tinha o poder de captar o olhar de uma mulher, e mais talvez que o olhar!”. A despeito do silêncio que havia entre ambos, o tempo sozinho tecia entre eles uma traça que palavra nenhuma, nenhum gesto, poderia tornar mais resistente. Eles sentiam que estava próxima a hora em que trocariam a primeira palavra, mas Raymond nada fazia por apressar a aproximação dessa hora. Muito tímido, bastava-lhe já não sentir o peso das correntes. Chegava-lhe, por ora, a alegria de tornar-se outro homem, de repente. Antes que a desconhecida o fitasse, não era ele, realmente, um colegial sórdido? Nós todos fomos amassados e reamassados por aqueles que nos amaram, e, por menor que tenha sido a tenacidade deles, somos sua obra — obra que, aliás, eles não reconhecem, e que não é nunca a obra com que sonharam. Não há um amor, não há uma amizade que atravesse o nosso destino sem colaborar com ele pela eternidade. O Raymond Courrèges daquela noite, no pequeno bar da rua Duphot, aquele moço de 35 anos, seria um homem diferente se em 19... quando estudante de Filosofia, não visse sentar-se diante de si, no bonde de volta, Maria Cross.