O deserto do amor
Capítulo I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
I
Durante anos, a esperança de Raymond Courrèges fora defrontar seu caminho com aquela Maria Cross: era seu desejo ardente vingar-se dela. Muitas vezes acompanhara uma passante na rua, supondo tratar-se daquela a quem procurava. Depois, o tempo de tal modo lhe adormecera o rancor que, quando o destino novamente o pôs diante daquela mulher, já não sentiu a alegria mesclada de furor que o encontro lhe deveria suscitar. Quando entrou, nessa noite, num bar da rua Duphot, eram apenas dez horas, e o negro do jazz cantarolava para divertimento exclusivo do atento maître. Na boate apertada, onde, pela meia-noite, os pares dançariam, zumbia um ventilador, como uma enorme mosca.
O porteiro espantara-se:
— Não estamos acostumados a ver o senhor chegar tão cedo...
E Raymond, como resposta, fizera um gesto de mão para que interrompesse aquele zumbido. Em vão, o porteiro, confidencialmente, o quisera persuadir de que “aquele sistema novo absorvia a fumaça sem fazer vento”; Courrèges o olhara de tal modo que o homem saiu em direção ao vestiário. E, no teto, o ventilador silenciou como um zangão que pousa.
E o moço, então, depois de cortar a linha imaculada das toalhas de mesa, e avistando nos espelhos a sua cara dos piores dias, perguntara a si próprio: “Que será que está errado?”. Claro, ele detestava as noites perdidas, e aquela seria perdida por culpa da besta do Eddy H... Fora preciso quase obrigar o rapaz, apanhá-lo em casa para trazê-lo ao bar. Durante a refeição, Eddy desculpara-se pela desatenção, alegando dor de cabeça; mal se sentava à beira da cadeira, o corpo impaciente, já de todo ocupado com qualquer prazer futuro e próximo; bebido o café, fugira, alegre, o olhar vivo, as orelhas vermelhas, as narinas abertas. Durante o dia inteiro aquela noite fora esperada por Raymond como perspectiva encantadora; mas a Eddy, decerto, se teriam oferecido outros prazeres, mais amenos do que qualquer confidência.
Courrèges admirava-se de se sentir não apenas decepcionado e humilhado, mas triste. Chocava-o perceber que um colega qualquer lhe tornasse estimado; era coisa novíssima em sua vida. Até os 30 anos, incapaz daquele tipo de desinteresse que a camaradagem exige, além de se ver absorvido pelas mulheres, ele desprezara tudo que não lhe parecesse suscetível de posse e, menino guloso, poderia dizer: “Só gosto daquilo que se devora”. Nessa época, utilizava os colegas apenas como testemunhas ou confidentes; um amigo lhe significava, de saída, um par de ouvidos. Gostava também de provar a si próprio que os dominava, os dirigia; sentia paixão pela influência e se envaidecia em desmoralizar com eficácia.
Raymond Courrèges poderia ter feito para si uma clientela, como seu avô cirurgião, como seu tio-avô jesuíta, como seu pai médico, se fosse capaz de submeter seus apetites a uma carreira e se suas preferências não o levassem sempre a só procurar as satisfações imediatas. Contudo, atingira uma idade em que somente aqueles que se dirigem às almas podem ter um domínio garantido: e Courrèges só sabia ensinar aos seus discípulos o melhor rendimento de prazer. E os mais jovens sonhavam com cúmplices da sua própria geração — e a clientela de Courrèges diminuía. Em amor, a caça pulula durante muito tempo, mas o pequeno grupo que conosco começou a viver se reduz todos os anos. Quanto aos sobreviventes dos sombrios cortes da guerra, quer aprisionados pelo casamento, quer deformados pela profissão, Courrèges, vendo-lhes o cabelo grisalho, a barriga, a careca, odiava-os por serem da sua idade, acusava-os de assassinos da própria juventude, de a traírem, antes que ela os abandonasse.
Quanto a si, punha seu orgulho em se agrupar entre os rapazes do pós-guerra: e, naquela noite, no bar ainda vazio, onde apenas zumbia em surdina um bandolim (a chama da melodia morre, renasce, vacila), ele olhava ardentemente, refletido nos espelhos, seu rosto sob o cabelo liso, aquele rosto que os 35 anos ainda poupavam. Pensava que o envelhecimento, antes de lhe tocar o corpo, lhe tocava a vida. Se orgulhava em escutar a pergunta das mulheres: “Quem é aquele moço alto?”, pois sabia que os rapazes de 20 anos, mais perspicazes, já não o contavam entre os membros da sua raça efêmera. Esse Eddy, talvez, tivesse coisa melhor a fazer do que falar de si próprio até o amanhecer, o rumor do saxofone; mas talvez, também, naquela mesma hora, em outro bar, se ocupasse em explicar o próprio coração a outro jovem nascido em 1904, e que a todo o tempo o interrompesse, dizendo: “Eu também” e “Tal qual comigo...”.
Apareceram uns rapazes que expressaram, para atravessar a sala, um ar de suficiência e altivez que agora os embaraçava, ante tanta solidão. Aglutinaram-se ao redor do barman. Courrèges, entretanto, jamais aceitava sofrer por causa de outrem, fosse uma amante ou um colega. Procurou, pois, de acordo com seu método, descobrir a falta de proporção entre a insignificância de Eddy H... e a perturbação em que o deixava o seu abandono. E teve o prazer de não sentir a resistência da mínima raiz, quando tentou arrancar de si essa erva de sentimento. Chegou mesmo a conceber que amanhã poderia pôr na rua o rapaz, e, sem um tremor, encarou a hipótese de jamais o rever. Foi mesmo com alegria que pensou: “Vou varrê-lo...”. Suspirou, satisfeito: mas percebeu em seguida que subsistia nele um constrangimento, do qual Eddy não era o princípio. Ah, sim, era aquela carta que tocava no bolso do smoking... Nem precisava reler: o doutor Courrèges só empregava com o filho uma linguagem elíptica, fácil de reter:
Alojei-me no Grande Hotel para o Congresso de Medicina. Fico à sua disposição pela manhã antes
das nove horas; à noite, após as onze horas.
Seu pai
PAUL COURRÈGES
Raymond murmurou: “Antes fosse...” e, sem o saber, assumiu um ar de desafio. Tinha rancor ao pai, por não lhe ser tão fácil desprezá-lo quanto ao resto da família. Aos 30 anos, em vão Raymond reclamara um dote idêntico ao que recebera sua irmã casada. Ante a recusa dos pais, cortara as pontes; mas a fortuna pertencia a madame Courrèges; Raymond sabia bem que o pai se teria mostrado generoso se tivesse o direito de fazer, e que o dinheiro para ele nada valia. E repetia: “Antes fosse...”, mas não se pode impedir de descobrir um apelo naquela mensagem seca. Não era tão cego quanto madame Courrèges, a quem irritavam a frieza e a brusquidão do marido, e que tinha o costume de repetir:
— Que me adianta ele ser bom, se não percebo isso? Imaginem só como seria se ele fosse mau!
Raymond sentiu-se incomodado ante o apelo daquele pai tão difícil de odiar. Não, claro que não responderia ao velho; mas assim mesmo... Mais tarde, quando Raymond Courrèges recordava as circunstâncias daquela noite, lembrou-se da amargura que sofrera ao entrar no pequeno bar vazio, mas esquecera as causas dessa amargura, que eram a ausência do colega Eddy e a presença de seu pai em Paris; acreditou que esse humor acerbo nascera de um pressentimento e que existia um laço entre o estado do seu coração, naquela noite, e o episódio que se aproximava de sua vida. Sempre afirmou, depois, que nem Eddy nem o doutor Courrèges teriam o poder de mantê-lo em tal angústia; mas que, mal se sentara, com um coquetel à frente, seu espírito e sua carne, instintivamente, haviam sentido a aproximação daquela que, no mesmo instante, num táxi na esquina da rua Duphot, mexia na bolsa pequena, e dizia ao companheiro:
— Que raiva, esqueci meu ruge.
E o homem respondeu:
— Devem ter ruge no toalete.
— Que horror! Posso me contaminar...
— Gladys lhe empresta o dela.
A mulher entrou: um chapéu cloche cobria o alto da face e só lhe deixava ver o queixo, que é o lugar onde o tempo inscreve a idade das mulheres. Os 40 anos haviam tocado aqui e ali essa extremidade do rosto, puxaram a pele, encheram uma papada. Sob o casaco de peles, o corpo devia estar cintado. Cega como um touro que sai do toril, ela se deteve à entrada do bar iluminado. Quando o companheiro a alcançou — retido por uma discussão com o motorista do táxi —, Courrèges, sem o reconhecer a princípio, disse consigo: “Já vi essa cabeça em qualquer parte... é uma cabeça de Bordeaux.” E, de repente, um nome lhe veio aos lábios, enquanto ele olhava para aquele rosto quinquagenário, como que enlarguecido pela satisfação de ser ele mesmo: Victor Larousselle... Com o coração a bater, Raymond examinou novamente a mulher que, verificando ser a única a usar chapéu, tirou-o de repente e sacudiu defronte do espelho os cabelos recém-cortados. Apareceram os olhos, grandes e calmos, depois uma fronte larga, mas estreitamente delimitada pelas sete pontas jovens de uma cabeleira escura. No alto daquele rosto, se concentrava tudo o que a mulher ainda tinha de mocidade sobrevivente. Raymond a reconheceu, apesar dos cabelos curtos, o corpo mais espesso e aquela destruição lenta que partia do pescoço e subia em direção à boca e ao rosto. Reconheceu-a, como reconheceria um caminho de infância, apesar de derrubadas as carvalheiras que o sombreavam. Courrèges fazia o cálculo dos anos e, dois segundos depois, dizia consigo: “Ela tem 44 anos: eu tinha 18, e ela, 27.” Como todos aqueles que confundem juventude com felicidade, ele tinha uma consciência surda, mas sempre desperta, do tempo que passava. Seu olhar media incessantemente o abismo cavado pelo tempo morto; todo ser humano que desempenhara um papel no seu destino apressava-se em inseri-lo em seu devido lugar e, vendo-lhe o rosto, rememorava a época.
“Será que ela me reconhece?” Mas teria ela virado as costas tão rapidamente se não houvesse o reconhecido? Aproximando-se do acompanhante, a mulher provavelmente lhe implorava que não demorasse ali, pois ele respondia em voz bem alta, no tom do homem que gosta que os basbaques o admirem:
— Não está triste, não. Dentro de um quarto de hora vai estar lotado.
E, empurrando uma mesa, não longe daquela em que estava debruçado Raymond, sentou-se pesadamente; no rosto, para o qual o sangue afluía, o sujeito exibia, além de todos os sinais da esclerose, uma satisfação sem sombras. Como, porém, a mulher se mantinha em pé, imóvel, ele a interpelou:
— Que é que você está esperando?
E já não havia mais traço de satisfação nos seus olhos, nem nos lábios grossos, quase violeta. E, supondo, falar em voz baixa, ele acrescentou:
— Naturalmente, basta que me divirta por estar aqui para que você faça cara feia...
Ela decerto lhe murmurava: “Cuidado, estão ouvindo!”, porque ele quase gritou:
— Acho que sei me comportar em público! E que escutem!
Sentada perto de Raymond, a mulher se tranquilizara: seria óbvio que o moço se inclinaria para vê-la, e dela dependia lhe fugir ao olhar. Courrèges adivinhou essa segurança, compreendeu de repente, com terror, que aquela oportunidade, desejada por ele durante dezessete anos, pudesse se perder. Passados dezessete anos, esperava encontrar intacto seu desejo de humilhar aquela mulher que o humilhara, de lhe mostrar o homem que ele era: homem dos que não aceitam que uma tipinha qualquer os logre. Durante anos, comprazera-se em imaginar as circunstâncias que os poriam face a face, e qual seria a astúcia que empregaria para dominá-la, para fazer chorar aquela que, outrora, o rebaixara tanto... Claro que se em vez daquela mulher ele houvesse encontrado hoje qualquer outro comparsa de sua vida, dos tempos em que era um estudante de 18 anos: o seu colega preferido na época ou o inspetor que lhe inspirava horror, evidentemente ao vê-lo não teria descoberto em si mesmo traço nenhum da preferência ou do ódio sentidos pelo rapaz que deixara de ser. Mas, em relação àquela mulher, sentia-se tal como na quinta-feira de junho de 19..., ao crepúsculo, na estrada poeirenta de subúrbio, que cheirava a lírios, diante de uma porta cuja campainha para ele não soaria nunca mais! Maria! Maria Cross! Do adolescente arrepiado, envergonhado, que ele era então, ela fizera o homem novo em que ele se tornaria para sempre. Mas ela, Maria Cross, como mudara pouco! Os mesmos olhos indagadores, a mesma testa clara... Courrèges pensava consigo que seu colega predileto de 19... seria agora, esta noite, um homem pesado, já calvo, barbado: mas o rosto de certas mulheres continua banhado de infância até mesmo em plena maturidade; e é talvez a infância eterna delas que fixa o nosso amor e o liberta do tempo. Lá estava ela, igual ao que fora, depois de dezessete anos de paixões desconhecidas, como aquelas virgens negras às quais nenhuma labareda da Reforma ou do Terror pudera alterar o sorriso. Era o mesmo homem importante que ainda a mantinha, cuja impaciência e humor se manifestavam com ruído, porque as pessoas que ele esperava demoravam a chegar:
— Foi Gladys na certa que o atrasou... Eu, que sempre sou pontual, detesto as pessoas impontuais. É curioso, mas não tolero fazer ninguém esperar, não posso. Hoje todo mundo é tão grosseiro...
Maria Cross tocou-lhe o ombro e decerto repetiu: “Estão ouvindo...”, porque ele ralhou que não dizia nada que alguém não pudesse ouvir e que era incrível que ela quisesse lhe ensinar a viver.
A simples presença de Maria entregava Courrèges, indefeso, ao passado morto. Se ele guardara sempre uma consciência clara do tempo passado, detestava evocar imagens precisas desse passado, e o que mais temia eram as rebeliões dos espectros; mas naquela noite nada podia fazer contra a torrente de imagens desencadeadas dentro de si pela presença de Maria: escutava soar 18 horas e as carteiras batiam; não chovera sequer o suficiente para baixar a poeira, o bonde não tinha luz o bastante para que ele pudesse ler Afrodite — bonde cheio de operários, aos quais a fadiga do dia dava uma expressão de doçura.