O dilema preventivista
Apresentação
Anamaria Testa Tambellini, Pedro Tambellini Arouca
Querido pai e amigo Arouca,
As saudades que sentimos são imensas, oceânicas, estratosféricas. Esta viagem, pela qual você foi arrebatado para
lonjuras, não é como aquela da Nicarágua que todos entenderam. 1 É uma viagem para dimensões infinitas que pouco compreendemos, e que nos separou irremediavelmente. Irrecuperável o tempo que estivemos separados, perdidos em afazeres, brincadeiras — prazeres e tristezas que não compartimos. Perdidas as oportunidades de nos dizermos coisas queridas, segredos de filho, projetos de trabalho, confissões amorosas, sonhos lindos, sonhos bobos, complicados, vazios de explicações; pequenos e grandes desejos. Muitas recordações: o dia em que juntos, mãe e filho, admiramos sua declaração na TV e não compartimos suas esperanças; as risadas que demos quando entendemos sua tranquilidade em situações de aperto; sua bonomia em preparar comida e a satisfação explícita em comê-la; os dias de convivência feliz na chácara — pai, filhas e filho em harmonia. Até sua vaidade, que nos perturbava, tornou-se uma marca poderosa de seu afeto, de sua generosidade um pouco escamoteada, da timidez que às vezes você não conseguia disfarçar.
Na verdade, queremos declarar que foi bom, uma benção, uma felicidade bem vinda, uma fartura de amor para mim, Pedro, nascer seu filho e crescer sob sua proteção e carinho, e para mim, Anamaria, ter sido sua companheira de partido, amiga, namorada, amante, esposa e sempre a mãe de Pedro.
Mas, apesar das declarações, das saudades, das lembranças, da tristeza que vem e que vai, estamos continuando pela vida, amando, trabalhando com muito esforço, mas com grande prazer.
Sua tese hoje se transformou em um livro. Cuidamos para que, na publicação, tudo ficasse conforme havíamos nos comprometido com você e de acordo com seu desejo. O texto foi mantido na íntegra, incluindo a dedicatória e os agradecimentos. Somente fizemos uma nova revisão que, da mesma maneira que quando o texto veio à luz sob a forma de tese, foi feita pela amiga Ecilda Nunes, ajudada por seu marido e nosso colega, Everardo Duarte Nunes, e por mim, Anamaria, que também assino esta carta. Após cada capítulo, foi inserido um dos textos dos autores convidados. Esses textos procuram comentar, discutir e relativizar, no tempo, as questões que você abordou, na maioria das vezes, naquele capítulo. Em algumas ocasiões, como não podia deixar de ser, dada a interconexão das questões em pauta, houve necessidade de referências mais amplas para realizar o comentário. Conseguimos a colaboração de todos os colegas amigos que você havia escolhido e, como regra, felizmente, acertamos — na especificação temática que havíamos imaginado para cada um deles.
O “Prefácio” coube ao nosso querido professor Dr. Guilherme Rodrigues da Silva, sempre titular do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de São Paulo, apoio e afeto em horas difíceis e um exemplo de seriedade, disciplina científica e amor ao trabalho.
O texto que sucede a sua “Introdução” (Capítulo I), coube a mim, Anamaria Testa Tambellini, companheira de tempos ásperos, que conviveu de muito perto no processo de definição do tema e elaboração de análise crítica, do trabalho de tese para a obtenção do seu grau de Doutor. O comentário procurou contextualizar a idéia do processo de trabalho, enquanto elemento indicativo das preocupações políticas e científicas do autor Arouca —, bem como se perguntar sobre a importância das idéias delineadas e as possibilidades de pensar hoje, em tempos de globalização e reestruturação produtiva, sobre alguns problemas creditados a uma Saúde Coletiva plenamente justificada teórica e conceitualmente.
Coube ao Everardo Duarte Nunes, sociólogo na área desde os 60 e que tem se dedicado, entre outras questões, a uma análise crítica e atualização da proposta foucaultiana no campo da saúde coletiva, escrever o texto que está solidário ao capítulo em que se explicita a
metodologia do seu trabalho (Capítulo II).
O Capítulo III foi seguido pelo texto de Jairnilson da Silva Paim, médico sanitarista, um dos fundadores do Centro Brasileiro de Estudos da Saúde (cebes), núcleo da inteligência do movimento sanitário, que tratou da emergência da Saúde Coletiva. Tal emergência foi vista em termos de uma ruptura do pensamento preventivista que se configurou na articulação da Saúde Pública com a Medicina Social.
Os conceitos básicos foram revistos no texto do médico e pesquisador, Roberto Passos Nogueira, que descobriu o seu trabalho no mestrado de Medicina Social do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O texto
se localiza após o Capítulo IV e nele o autor reconsidera uma nova forma de prevenção primária em saúde, proposta para a prática médica, a Medicina Promotora. Essa medicina, que pretende cuidar da promoção de saúde, é considerada correlata à Medicina Preventiva, disciplina tampão, em tempos pós-modernos.
Após o Capítulo V, que se refere aos conceitos estratégicos da Medicina Preventiva, Elizabeth Moreira dos Santos, residente do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas ao tempo da elaboração final do texto e hoje professora adjunta da Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Osvaldo Cruz, traça o desenvolvimento de possibilidades teóricas e práticas de intervenção, baseadas nas novas técnicas de automação e manipulação genética que podem atuar sobre a vida e que se realizam tanto nos níveis micro e macrocelulares quanto na própria substituição de órgãos e criação de vida artificial.
As “Regras da formação discursiva” (Capítulo VI) foram relidas criticamente por Gastão Wagner de Souza Campos, médico, teórico e militante da Saúde Coletiva, pelas lentes da proposta de uma “Medicina de Evidências”. Segundo esse autor, a proposta retoma a questão da cientificização do discurso da medicina, operada pela Epidemiologia, núcleo “duro” da Saúde Coletiva. Seria por intermédio da produção de conhecimentos epidemiológicos, principalmente na área da epidemiologia clínica, que se objetivaria o pensamento da doença em sua dimensão de objeto da ciência.
Sônia Fleury Teixeira, pesquisadora das temáticas políticas e sociais em Saúde Coletiva, aluna e amiga desde os tempos de chegada ao Rio da “turma de Campinas”, comenta a importância de você ter considerado o “cuidado médico”, como valor e como categoria básica para entender a articulação medicina-sociedade. Além disso, assinala a centralidade desse conceito na formulação e desenvolvimento das idéias da reforma sanitária no Brasil.
O “Posfácio” coube ao atual presidente da Fiocruz, Paulo Marchiori Buss, que também conosco tem convivido desde seu tempo de aluno do curso de mestrado em Medicina Social da UERJ, na segunda metade da década de 1970. Representa hoje a instituição que tão abertamente acolheu você, Arouca, e seus colegas, objetos de uma cassação branca na Academia e onde você continuou realizando seu trabalho científico e, em especial, continuou agindo politicamente. Hoje, a Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, denomina-se Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, em sua homenagem.
Veja você: todos amigos e admiradores de seu trabalho e de sua capacidade de dar e receber afeto! Todos responderam prontamente à solicitação de contribuir para composição do livro e declararam-se felizes e honrados com o convite. Muito bom ter amigos e gostar deles.
A impressão que temos, afinal, é que este seu trabalho, mesmo após tantos anos e tantas mudanças, continua atual e que, juntamente com o trabalho de Cecília Donnangelo, marca a nova fase do pensamento e ação em Saúde, no Brasil. Mas isso você já sabia, quando enfatizou que não queria mudanças no texto original e indicou os comentaristas que julgava terem lido e entendido seu trabalho.
Dever cumprido! Muita satisfação por podermos nós, Pedro e Anamaria, retribuir seu carinho e confiança e também fazer algo que correspondesse ao seu desejo. Sabemos que o resultado de nosso trabalho, que foi dar Visibilidade ao seu, lhe agradaria caso você estivesse aqui conosco.
Muitos abraços, muitos bons pensamentos e muita doçura para lembrar de tudo.
Com amor,
De sua sempre comparsa
Anamaria
De seu filho amoroso
Pedro
“Pedro, meu nêgo,
A saudade está brava.
Sabe, aqui, porque era um país muito pobre, a maior parte das
pessoas não sabe ler. Então, depois da Revolução, todas as
pessoas que sabem ler estão ensinando as que não sabem.
Está muito bonito. O cartão mostra um menino ensinando a
uma família de trabalhadores.
Estou trabalhando muito e nem sobrou tempo para conhecer os
vulcões ou ver tubarões.
Leia o que está escrito no cartão, que um dia você Vai entender
por que eu Vim trabalhar aqui, deixando você e eu tão tristes.
Porque um dia, várias pessoas como ,eu também vão deixar
suas casas, seus filhos, para irem ajudar o Brasil, quando for.
necessário.
Um grande beijão,
Sergio”