O Faraó Negro

Christian Jacq · Capítulo 4 de 4 · parte 1/3

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O Faraó Negro

Quando Abilé e Piankhi ficaram finalmente sós…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Quando Abilé e Piankhi ficaram finalmente sós no quarto mais luxuoso do palácio, reservado permanentemente ao casal real, o faraó estendeu-se sobre o leito de madeira dourada cujos pés tinham a forma de patas de leão. Não eram dois leões, Ontem e Amanhã, que protegiam o sono do que dormia para o fazer morrer ontem e renascer amanhã?

Abilé sentou-se à altura das ancas do marido a acariciou-lhe docemente o peito. Quanto mais os anos passavam, mais ele encarnava uma força serena contra a qual a maldade vinha esbarrar.

— Porque estás tão preocupado? perguntou ela. Acabamos de reconquistar Hermopólis e Heracleopólis. A partir de agora, graças às medidas por ti tomadas, estas duas cidades permanecer-te-ão fiéis e o Médio Egito será de novo um baluarte contra a invasão nortista.

— Nem todo o Médio Egito, Abilé.

— Queres dizer... que sonhas prosseguir para norte? Piankhi não respondeu e Abilé exaltou-se.

—- Reconquistamos as nossas posições, Tefnakhte não ameaça Tebas... Continuar esta guerra porquê?

— Porque fui egoísta e cobarde. O meu pai Amon quis que eu fosse Faraó do Alto e do Baixo Egito mas, no remanso da minha felicidade, esqueci metade do meu país. Foi por isso que surgiu um demónio vindo das trevas: Tefnakhte vem recordar-nos brutalmente os nossos deveres, Abilé.

A tristeza inundou o belo rosto da rainha.

— Esperava que residiríamos em Tebas, perto da nossa filha, a Divina Adoradora, e que passaríamos o resto da nossa existência a venerar os deuses.

— e não reduzirmos Tefnakhte à impotência, como a serpente Apopis que tenta entravar a circulação da barca do sol, recuperará forças e semeará a perturbação em todo o país e mesmo na Núbia. Não se trata de uma simples revolta, como eu tinha suposto, mas de uma verdadeira guerra. O exército de Tefnakhte está intato, reunido mais a norte.

— Estás a pensar em... Mênfis?

— Sim, em Mênfis, a capital da idade do ouro, a cidade de paredes brancas fundada por Djoser, a cidade luminosa do tempo das pirâmides, a que é chamada «a balança das Duas Terras», no ponto de equilíbrio e de junção entre o Delta e o vale do Nilo.

Abilé sentiu a garganta apertada.

— Entre Mênfis e nós, há ainda várias praças fortes nas mãos dos nortistas... E todos sabem que a fortaleza menfita é inexpugnável! Há muito que a nossa linhagem renunciou a ela.

— Tempo demais, Abilé.

— Piankhi...

— Tens medo, rainha do Egito? Ela aninhou-se de encontro a ele.

— Sim, tenho medo... medo de te perder num combate, medo dos sofrimentos infligidos ao nosso exército e ao nosso povo, medo das conseqüências terríveis de uma derrota!

— Também eu tenho medo, medo de uma tarefa que ultrapasse as nossas capacidades em homens e em material, mas recuso-me a tomar em consideração esses receios.

— Porquê, meu amor?

— Porque trairíamos Maât se não seguíssemos até ao limite o caminho por ela traçado. E esse limite é o aniquilamento de Tefnakhte e o regresso do Baixo Egito e das províncias do Norte à harmonia de um país reunificado.

De faces encostadas, com o braço poisado sobre o peito de Piankhi, a esplêndida núbia deixou de lutar.

— Nem mesmo eu conseguirei fazer-te mudar de opinião...

— Não, porque aprovas a minha decisão. Tu, que és depositária da magia de Ísis, sabes que a renúncia dos brandos conduz ao fracasso e à desgraça. Empenharemos todas as nossas forças neste combate, Abilé. Se tivermos de morrer, morreremos juntos agradecendo aos deuses por nos terem concedido tanta felicidade.

 

O homem com cara de rato não tivera tempo de terminar a sua investigação sobre a esposa de Akanosh, pois havia algo muito mais urgente: deixar o mais rapidamente possível Heracleopólis e reunir-se a Yegeb para lhe contar a verdade sobre os trágicos acontecimentos que acabavam de verificar-se. A tarefa era difícil e arriscada, mas conseguiu franquear a linha da frente sob o pretexto de visitar a família, que residia numa aldeia situada a menos de um quilômetro a norte da cidade e que era de supor que estivesse de novo submetida à autoridade de Piankhi. Com cinismo, o oficial que deixou passar o viajante considerou que se tratava da melhor forma de verificar isso: se fosse abatido, conviria cercar a aldeia.

Franqueada esta primeira etapa, o homem com cara de rato atravessou os campos cultivados, roubou cebolas e figos, e alcançou a margem do Nilo numa zona que os sulistas não controlavam. Entre os condutores de barcos circulavam notícias alarmantes: falava-se de bandidos núbios que não tardariam a incendiar as aldeias, a violar as mulheres e a massacrar a população. O fugitivo conseguiu convencer um deles a levá-lo a toda a pressa a Mênfis para alertar o general Tefnakhte e pedir-lhe para intervir sem demora.

O barco foi detido numerosas vezes por patrulhas fluviais que obrigaram o homem com cara de rato a justificar-se, por vezes durante várias horas. Perdeu assim um tempo precioso que o faraó negro aproveitaria com certeza para avançar no Médio Egito. A interminável viagem não terminou às portas de Mênfis, porque ainda aí foi submetido a um interrogatório e depois a uma pena de prisão de quinze dias.

Finalmente, o informador foi recebido por um oficial que levou o seu relato a sério e o conduziu até Yegeb, instalado num gabinete de escriba, nas proximidades do templo de Ptah.

— Porque não esperaste pelo meu regresso a Heracleopólis? Boas notícias, espero!

— Oh, não, meu senhor! O príncipe Pefteu abriu as portas da cidade a Piankhi. Antes, o faraó negro apoderara-se de Hermopólis.

— O que me contas? O príncipe Nemrod...

— Nemrod mentiu! Obedece novamente a Piankhi, tal como Pefteu.

Yegeb sentiu os tornozelos inchar e teve vontade de vomitar. Mas a hora era tão grave que não tinha tempo para pensar em si. Depois de ter alertado Nartreb que se embriagava numa taberna, levou o informador ao quartel-general de Tefnakhte.

O general ouviu com atenção o homem com cara de rato.

— Paguem-lhe ordenou ele e dêem-lhe um alojamento na cidade.

— Corremos muitos riscos declarou Yegeb logo a seguir à partida do seu sicário mas conseguimos informar-vos com exatidão.

— Tens a certeza?

— General, estou convencido que este homem disse a verdade!

— Eu também, mas quais são os projetos de Piankhi?

— Reconquistou as duas cidades que considerava suas e restabeleceu a sua antiga fronteira, com a certeza que não podereis franqueá-la de novo.

— Se compreende bem a minha vontade, sabe que nunca me contentarei com este status quo e que recomeçarei os meus ataques.

— Piankhi prosseguir mais para norte? Seria loucura!

— Esse núbio considera-se como o rei do duplo país, tanto do Baixo como do Alto Egito!

— Queimará algumas aldeias admitiu Nartreb e depois irá rezar aos deuses na sua querida cidade santa de Tebas. Quando se convencer que a situação acalmou, far-lhe-emos uma bela surpresa!

Tefnakhte imaginou Piankhi apoderando-se do Médio Egito e depois dirigindo o olhar para Mênfis... No seu lugar, seria assim que teria agido. Mas ele, Tefnakhte, era um verdadeiro chefe de guerra e Piankhi um homem do Sul apegado à paz, ao passado e ao sagrado.

 

A frota de Piankhi desceu o Nilo até à cidade de el-Lahun, à entrada da rica província do Fayum. A bordo, a atmosfera era das mais alegres. Embora lamentasse a capitulação de Heracleopólis que impedira os seus soldados de provar a sua valentia, o capitão Lamerskény fazia boa cara à má sorte e jogava contra Puarma encarniçadas partidas de damas que acabava sempre por ganhar.

O prestígio de Piankhi crescia cada vez mais. Não só conseguia incríveis vitórias, como poupava a vida dos seus soldados! Lamerskény reavivara o entusiasmo prometendo duros combates: se Nemrod de Hermopólis e Pefteu de Heracleopólis, renegados arrependidos, apenas tinham oferecido medíocre resistência, o mesmo não aconteceria com os reizinhos que regiam as outras grandes cidades do Médio Egito. Esses sempre tinham sido fiéis aos líbios e tinham tudo a temer do exército sulista. Defenderiam portanto furiosamente as suas posições.

O discurso de Piankhi não era diferente. Em vez de tranqüilizar as suas tropas, anunciava-lhes que o mais difícil ia começar. Pois não se aventuravam numa região desconhecida onde nenhum núbio tinha penetrado há decênios? Mas esta severa advertência apenas servira para reforçar a convicção dos sulistas: lutariam pela liberdade e pela alegria das Duas Terras, mesmo com o preço da própria vida. Servir sob as ordens do faraó negro era uma honra que faria inveja às futuras gerações.

À vista da cidadela de el-Lahun, no entanto, caiu um pesado silêncio sobre os navios de guerra. Todos sabiam que a cidade fortificada estava cheia de soldados nortistas que se bateriam até à morte. Como as muralhas eram mais altas do que as de Hermopólis, não havia a certeza da utilização das catapultas ser tão eficaz. Restava esperar que o faraó negro descobrisse a forma de vencer.

 

— O que preconizas, capitão Lamerskény? interrogou o rei.

— Podemos experimentar as nossas máquinas... Mas não devemos esperar um milagre!

— Sou da tua opinião. E que mais?

— As flechas dos nossos arqueiros não farão muitas vítimas... Reparai na cobertura do caminho de ronda!

— Bem observado, Lamerskény.

— Vai ser necessário passar por um cerco que pode vir a ser demorado... Por outras palavras, Tefnakhte terá tempo para enviar reforços.

— Se a engenharia erguer contrafortes de terra junto das muralhas propôs Puarma as nossas dificuldades ficarão resolvidas.

— Os trabalhadores serão abatidos pelos arqueiros líbios objetou Lamerskény. Esqueces-te que, desta vez, não beneficiarão de nenhuma proteção!

— Deixem-me só cortou Piankhi. Tenho de refletir. el-Lahun... Perto dali o faraó Amenemhat tinha feito construir o famoso labirinto, um imenso palácio com centenas de compartimentos. E, sob o seu impulso, o Fayum fora transformado num imenso jardim de lendária fertilidade. Reserva de caça e de pesca, estava colocado sob a proteção do deus-crocodilo Sobek que fazia erguer do lago primordial um sol regenerado para o colocar no topo do céu. Devido a isso, não merecia o seu cognome de «Belo Rosto»?

A reflexão do faraó negro foi de curta duração. Quando saiu da tenda do conselho, Abilé interpelou-o.

— Quais são as tuas intenções?

— Não me aprovarias.

— Piankhi... Tu és o rei, o chefe deste exército, e não tens o direito de arriscar a tua vida!

— Que a tua magia me proteja, Abilé.

Cavalgando o seu cavalo baio, tão rápido como um chacal de orelhas vermelhas e semelhante à tempestade quando esta rebenta, Piankhi partiu só em direção a el-Lahun, sob o olhar estupefato dos seus soldados. Excitado pela velocidade, Valoroso dava largas a toda a potência das suas patas longas e musculadas.

Para o fazer parar perto da grande porta de acesso da fortaleza, bastou Piankhi dar-lhe uma pequena palmada no pescoço.

Pelo aprumo, pela envergadura, pela cota de malha dourada e o luxo da túnica de linho real, os arqueiros colocados nas muralhas de el-Lahun tinham identificado o faraó negro e não se atreviam a disparar as suas flechas.

A potente voz de Piankhi encheu os ouvidos dos defensores de el-Lahun.

— Vós, que sois mortos-vivos sem o saberdes, infelizes e homens perdidos, escutai-me, escutai o vosso rei! Se um só minuto mais passar sem que essa porta se abra e vós me jureis fidelidade, sereis exterminados. Não fecheis as portas da vossa existência recusando obedecer-me, não coloqueis a vossa cabeça no cepo da execução! Se oferecerdes a vossa cidade ao faraó do Alto e do Baixo Egito respeitando a lei de Maât, ninguém será morto, ninguém será espoliado e reinará a paz. Espero a vossa resposta, mas a minha paciência já se esgotou.

Nas muralhas houve correrias em todas as direções. Oficiais e notáveis precipitaram-se para a sala de audiências de Osorkon, o príncipe de el-Lahun, um líbio de velha cepa, a quem foram relatadas as palavras de Piankhi.

— Então ele veio... e veio só!

— Podemos abatê-lo facilmente considerou o comandante da fortaleza. Com ele morto, os núbios fugirão em desordem.

— Imbecil! Nunca ouviste falar do poder sobrenatural que o faraó possui e que lhe permite ser a unidade vencedora da multiplicidade? Foi graças a ele que Ramsés o Grande venceu os hititas em Kadesh e é por estar investido dele que Piankhi nos desafia desta maneira. Nenhuma flecha o atingirá, nenhuma lança trespassará a sua couraça porque ele é como um fogo devorador que nenhum humano pode apagar.

— Então... o que decidis?

O príncipe Osorkon saiu do seu palácio, ordenou a abertura da grande porta da fortaleza e prostrou-se perante o faraó negro.

— Que a sombra de Deus nos proteja disse. É o céu que vos confere o vosso poder e o que o vosso coração concebe de imediato se realiza. Se somos capazes de ver a realidade tal como ela é, é porque vós assim o ordenais. Esta cidadela, esta cidade, os seus tesouros e o seus habitantes pertencem-vos. Entrai em paz, Majestade.

Valoroso galopou até à acrópole de el-Lahun de onde Piankhi dominou uma cidade cujas principais artérias, traçadas com geométrico cuidado, se cruzavam em ângulo reto. Grandes villas de setenta compartimentos misturavam-se com modestas casas de pouco mais de cem metros quadrados. Saindo do seu estupor e do seu receio, os habitantes da cidade aclamaram o seu libertador, enquanto que os soldados da guarnição, que tinham substituído as armas por folhas de palmeira, abraçavam os núbios.

Em menos de uma hora, a festa espalhou-se por toda a cidade. Das caves do palácio vieram centenas de jarros de vinho e de cerveja, carne e peixe seco foram dispostos sobre mesas baixas, espalharam-se no chão figos, tâmaras e uvas e todos cantaram a felicidade de viver sob o reinado de Piankhi.

— O que tens tu? perguntou Puarma a Lamerskény. Pareces embriagado mas ainda não bebeste nada!

— És realmente o último dos idiotas, arqueiro. A ti, nada te espanta. Eu, nunca vi um homem como este.

— Tu é que és um pobre de espírito, Lamerskény. De quantos anos precisarás para compreender que ele é o Faraó?

— El-Lahun caiu disse Tefnakhte a Aurora.

— Essa má notícia não parece entristecer-te nada.

— O príncipe Osorkon é um homem já gasto que tem medo do futuro... Piankhi não deve ter tido qualquer dificuldade em convencê-lo a abrir-lhe as portas da cidade.

— Esse maldito núbio controla Atualmente o Fayum!

— Apenas em parte... Se quer continuar, será a fortaleza de Meidum que se erguerá no seu caminho. Nomeei para lá um dos meus oficiais mais aguerridos. Dirige pessoalmente os exercícios todos os dias e já matou por suas mãos recrutas que considerava demasiado fracos. Meidum talvez não detenha o avanço de Piankhi, mas imobilizá-lo-á durante longas semanas e fá-lo-á perder muitos homens.

— Porque não lhe envias reforços?

— Creio que um sonho insensato domina o espírito do núbio: conquistar Mênfis.

— Piankhi não é louco! objetou a jovem. Sabe perfeitamente que isso é impossível.

— As suas medíocres vitórias embriagaram-no... Prefiro que se desgaste em objectivos menores e que continue a acreditar na sua invencibilidade. Aqui, em Mênfis, esbarrará com paredes intransponíveis e com um exército repousado e melhor equipado do que o seu. Esta velha capital será o seu túmulo.

 

O Vermelho comandava a guarnição de Meidum há já cinco anos. Pouco lhe interessava que a antiga cidade fosse «a morada de Áton», o princípio criador; o seu único centro de interesse era a caserna onde treinava soldados para o combate que se aproximava. Vinte por cento de perdas não o incomodavam, pois formava verdadeiros combatentes, de extrema dureza. Desde a sua nomeação, nem sequer lhe passara pela cabeça ir ao local onde tinha sido erigida uma grandiosa pirâmide, a primeira de faces lisas, na qual se inspirara o arquiteto de Kéops. O Vermelho só sonhava com conflitos sangrentos e, desta vez, a ocasião era soberba!

Desde o momento em que os seus vigias lhe tinham anunciado a chegada iminente do exército de Piankhi, o comandante da fortaleza de Meidum não parava no mesmo sítio. Corria de uma ameia para outra, verificava o equipamento dos seus homens e berrava ordens, incitando cada homem a mostrar-se mais vigilante do que o seu vizinho.

Primeiro, julgou estar enganado; depois, observou o mesmo fenômeno na quase totalidade dos defensores: tremiam.

O Vermelho tê-los-ia abatido de boa vontade para lhes apagar o sabor do medo, mas precisava de todos. Clamou que a sua fortaleza nada tinha a recear das catapultas e das flechas núbias, mas sentiu que ninguém lhe dava ouvidos.

Quando Piankhi, cavalgando o seu cavalo baio, se apresentou só em frente da grande porta, um arqueiro líbio ajoelhou. Sob o olhar horrorizado dos seus camaradas, o Vermelho cortou-lhe o pescoço.

— Abrem-se perante vós dois caminhos declarou o faraó negro: ou abris as portas de Meidum e vivereis; ou persistis em mantê-las fechadas e morrereis. Como rei do Alto e do Baixo Egito, não posso permitir que uma cidade me proíba o livre acesso.

O Vermelho retesou o arco do homem que acabara de matar e visou Piankhi.

Mas a flecha não partiu porque três arqueiros se precipitaram sobre o líbio, espancaram-no até à morte e lançaram o seu cadáver por sobre as muralhas.

De imediato, os soldados abriram a grande porta da fortaleza para deixar entrar Piankhi, cujo cavalo soltou um relincho de alegria.

— Meidum caiu sem combater confessou lastimosamente Yegeb, seguido como uma sombra por um Nartreb cada vez mais nervoso.

— O que aconteceu? perguntou Tefnakhte, furioso.

— O Vermelho foi traído pelos seus próprios soldados! Piankhi aterroriza-os... Correm as lendas mais loucas a respeito desse colosso negro! Afirmam que o deus Amon arma o seu braço, que lê no pensamento dos seus adversários, que...

— Poupa-me a essas criancices! Antes que Piankhi tome o caminho de Mênfis, já só resta um obstáculo: el-Lisht.

— Não tenhamos ilusões, meu general. Angustiada, Aurora interveio.

— Não estás a ser derrotista?

— Apenas realista... A cidadela de el-Lisht é menos importante do que a de Meidum e...

— A sua guarnição talvez se mostre mais corajosa!

— Esperemos, Aurora, esperemos...

— Não me trates assim pelo meu nome, Yegeb. Não és um dos meus familiares. Tenho um título: Alteza.

Yegeb engoliu saliva.

— Muito bem, Alteza. Mas mantenho que el-Lisht não resistirá muito tempo ao faraó negro.

— Essa falta de otimismo poderia alterar o moral das nossas tropas, não te parece? Por vezes, pergunto a mim mesmo se tu e Nartreb não fazem o jogo do nosso inimigo.

— Alteza, essas afirmações...

— Basta! cortou Tefnakhte. No momento em que precisamos de unir esforços, não nos ataquemos mutuamente. Que os meus conselheiros velem pela prosperidade do país. Eu ocupar-me-ei dos problemas militares.

Yegeb e Nartreb, de mãos dadas, retiraram-se. Tefnakhte agarrou Aurora pelos ombros.

— Nunca mais faças isto! Não é a ti que compete criticar os meus colaboradores.

— Estes dois hão de trair-te!

— São-me dedicados como cães ao seu dono. Sem mim, não existiriam.

A jovem libertou-se.

— Um dia, terás de escolher entre eles e eu. Amo-te, Tefnakhte. Eles, servem-se de ti.

— Pensas que ignoro isso? O poder não se exerce sem aliados e estes são eficazes.

El-Lisht, «A que se apodera das Duas Terras», tinha sido a capital de Amenemhat I, faraó da XII dinastia. Perto da cidade, mandara edificar a sua pirâmide, tal como Sesóstris I, o qual marcara com o seu selo a época clássica do Império Médio, durante a qual tinham sido redigidas diversas obras-primas literárias, entre as quais o célebre Conto de Sinouhe. Depois de ter sido destituída do seu papel, el-Lisht transformara-se numa simples etapa entre o Fayum e Mênfis, um povoado cada vez mais abandonado às suas recordações.

— A sua cidadela, no entanto, não deixava de ter um ar digno. Inspirou mesmo a cobiça do capitão Lamerskény.

— Deixais-me esta, Majestade? Alguns lançamentos de catapulta e eu trato do resto!

— Não, Lamerskény. Porque hei-de modificar a estratégia que tão bem tem resultado?

— Salvo o devido respeito, não deveis desafiar demasiado a vossa sorte... Sem vós, ficaríamos desamparados.

— Porque há-de o comandante desta fortaleza ser mais insensato do que os de el-Lahun e de Meidum?

— Antes mesmo do faraó negro montar a cavalo, a porta da cidadela de el-Lisht abriu-se e o seu comandante, seguido pelos soldados e por boa parte da população, submeteu-se a Piankhi.

— As Duas Terras pertencem-vos declarou ele. O Sul e o Norte são vossos, as riquezas que contêm são propriedade vossa, a terra inteira se prostra perante vós.

Logo depois de ter franqueado a entrada da cidade, o faraó negro ofereceu um sacrifício aos seus deuses protetores e prestou homenagem a Amon.

Todo o Médio Egito se tinha submetido, o caminho para Mênfis estava livre.

 

O batedor entrou a galope no pátio da caserna, imobilizou o carro em frente do edifício do quartel-general e saltou para o chão.

— Tenho uma mensagem para o capitão Lamerskény anunciou à sentinela.

— Está a descansar... Mas o capitão Puarma está aqui.

— Serve.

Puarma praguejava precisamente contra Lamerskény que, em vez de se ocupar das tarefas administrativas às quais era teoricamente obrigado, se dedicava ao prazer com as empregadas da casa da cerveja próxima da caserna. E ele, Puarma, nem sequer tinha tempo para fazer assiduamente a corte à filha do chefe de uma povoação vizinha que ficava embasbacada perante o seu aprumo.

— Eis informações recentes e pormenorizadas disse o batedor, entregando a Puarma um espesso papiro selado.

— Até que enfim... Estávamos à espera delas há várias semanas! Na posse do precioso documento, o capitão dos arqueiros correu até ao palácio.

Abilé nadava nua, sem esforço, com a graça incomparável das mulheres do Grande Sul que, desde a infância, aprendiam a divertir-se com as correntes do rio. No lago do palácio de el-Lisht, quando o calor se tornava sufocante, a rainha esquecia as preocupações.

E Piankhi tentava esquecer as suas admirando aquela esposa sublime, cuja alma e corpo revelavam uma beleza inalterável.

Há perto de um ano que a guerra entre o Sul e o Norte tinha começado. Depois de ter conquistado o Médio Egito, o faraó negro instalara administradores oriundos de velhas famílias locais e bem decididos a impedir príncipes como Pefteu e os seus semelhantes de saírem do caminho de Maât. Piankhi pusera cobro a demasiados longos anos de corrupção, de poder pessoal sem limites e de exploração dos mais humildes. A sua estadia no Médio Egito fizera compreender aos notáveis que o faraó governaria a partir de agora com autoridade e rigor, sem dar ouvidos à voz dos clãs, preocupados apenas com os seus próprios interesses. Durante esse período de reconstrução do Estado, o exército núbio gozara de uma existência agradável da qual, no entanto, não estava ausente o exercício quotidiano. Os feridos e os doentes tinham tido tempo para recuperar a saúde enquanto os seus camaradas, embora permanecendo mobilizados, saboreavam a doçura da região.

Se Piankhi não tinha atacado Mênfis imediatamente depois da tomada das praças fortes do Médio Egito, fora porque queria ter a certeza da estabilidade da região. Hoje, esta era um fato e o monarca podia sonhar com a etapa mais perigosa da sua missão: a batalha de Mênfis.

Seria ainda necessário obter informações válidas sobre as fortificações e as capacidades defensivas da maior cidade do país. Os batedores contradiziam-se, os relatórios tinham falta de precisão e o rei não se meteria naquela temível aventura antes de ter compreendido a amplitude das dificuldades.

— Majestade disse Cabeça-fria o capitão Puarma pede para vos ver com urgência.

— Ele que venha.

O escriba estava de excelente humor porque Piankhi o tinha autorizado a ir a Napata, onde passara alguns dias demasiado breves em companhia da mulher e dos filhos. Recebido como um herói, Cabeça-fria não se fizera rogado para narrar as proezas do faraó negro. Não ocultara, no entanto, que o mais difícil estava para vir e que, tendo em vista os acontecimentos, Napata já não era para Piankhi mais do que uma longínqua capital provincial. Lutando contra a tristeza, Otokou engordara alguns quilos num copioso banquete e continuava a administrar a cidade com uma competência com que o velho Kapa se congratulava.

Puarma estava excitadíssimo.

— Majestade, aqui está finalmente o relatório que tanto esperávamos!

— Senta-te e bebe uma taça de cerveja fresca. O anão reapareceu.

— O capitão Lamerskény deseja igualmente ver-vos, Majestade. Com o rosto crispado, mal barbeado, um velho saiote de cabedal mal atado, o homem do braço de acácia avançava com um andar hesitante.

— Tive um sonho, Puarma... Ias ter com o rei e mostravas-lhe o mapa da fortaleza de Mênfis na minha ausência, quando foram os meus batedores que obtiveram essas informações fundamentais, com risco da própria vida e por indicação minha.

— Senta-te imediatamente recomendou Piankhi senão arriscas-te a cair.

Às vossas ordens, Majestade aquiesceu Lamerskény, deixando-se tombar num cadeirão de vime de costas curvas.

— Não deveríeis banhar-vos? sugeriu a rainha saindo do lago e envolvendo-se num manto de linho transparente.

A água é má para os meus reumatismos, Majestade. Na véspera de partir em campanha, o chefe dos soldados da infantaria do rei não tem o direito de correr o mínimo risco.

Acho que já bebeste demais.

— Enganais-vos, Majestade! Com este calor cada vez mais intenso, convém lutar sem desfalecimento contra a desidratação, esse mal matreiro que nos espreita a cada instante.

— Vejamos esse documento exigiu Piankhi.

Puarma quebrou o selo de lama seca e desenrolou o papiro.

— O mapa de Mênfis constatou Lamerskény com avidez.

Essa cidade é imensa observou a rainha, quase assustada pelo tamanho da primeira capital dos faraós, que continuara a ser o centro da vida econômica das Duas Terras.

Igualmente impressionado, Puarma leu as inscrições em hieróglifos cursivos inscritas no papiro.

— A sul, uma linha de fortificações que impede o acesso às docas do porto de Peru-Nefer, «Boa Viagem», por via terrestre. A oeste, um canal entre os bairros residenciais e o deserto.

— Um ponto fraco fez notar Lamerskény.

— Só aparentemente, pois é vigiado por uma guarnição próxima. E a sua ligação com o pequeno canal que rodeia o bairro sul está bloqueada por barcos de carga onde se encontram permanentemente arqueiros. Ataque impossível.

O homem do braço de acácia fez uma careta.

— Se bem compreendo, apenas nos resta o Nilo, a este.

— Três canais partem daí: o primeiro vai dar às docas, o segundo ao palácio e o terceiro à antiga cidadela de paredes brancas, no bairro norte. Mas os habitantes de Mênfis edificaram fortes muralhas que impedem qualquer invasão pelo rio.

— Contornaremos então a cidade pelo deserto de Leste, passando pela necrópole de Saqqara para cairmos sobre o norte de Mênfis, onde ninguém nos espera.

— Enganas-te, Lamerskény. Em primeiro lugar, teremos de atravessar o canal sob os disparos do inimigo; depois, as fortificações do norte, embora mais antigas do que as do sul, não são menos sólidas.

Lamerskény esvaziou nervosamente a sua taça de cerveja.

— Não haverá então nenhuma solução?

— Ao estudar este mapa, é a conclusão a que temos que chegar. Lamerskény gostaria de encontrar um argumento para demonstrar que Mênfis não passava de uma fortaleza semelhante às outras. Mas permaneceu calado.

Desta vez, tinha que render-se à evidência: o exército sulista não ultrapassaria aquela fronteira.

— Aguardamos as vossas ordens disse Puarma, exasperado.

Os dois capitães retiraram-se e Piankhi debruçou-se demoradamente sobre o mapa de Mênfis.

— Puarma e Lamerskény não hesitariam em dar as suas vidas se tivéssemos uma única hipótese de vencer disse Abilé.

— Enquanto Mênfis estiver nas mãos de Tefnakhte, a paz e a justiça não reinarão sobre o Egito. Graças às riquezas dessa cidade, ele equipa e alimenta o seu exército.

— Recusas-te a renunciar... Mas qual o caminho que vais seguir?

—Se o caminho não existe, Abilé, criá-lo-ei.

 

Ao chegar a noite, Yegeb e Nartreb deitavam contas aos seus ganhos do dia. Com um sorriso nos lábios, viam a sua fortuna aumentar a um ritmo acelerado desde que residiam em Mênfis. Tinham inventado um novo imposto, a contribuição geral para o esforço de guerra, variável de acordo com a sua vontade e sem limite, que lhes permitia extorquir com toda a legalidade a ricos e pobres. Como os notáveis e comerciantes menfitas desejavam conservar a estima e a confiança de Tefnakhte, o seu único protetor contra a invasão núbia. tinham que satisfazer as exigências dos seus dois conselheiros, cuja seriedade e competência todos gabavam.

— Durante quanto tempo vamos suportar a presença desta Aurora? inquietou-se Nartreb, massageando os tornozelos inchados com um precioso ungüento que lhe tinha oferecido o perfumista do templo de Ptah.

— Essa mulher é mais coriácea do que eu tinha imaginado confessou Yegeb mas o general colocou-a no seu lugar.

— Amanhã, será rainha!

— Tens razão em inquietar-te... Tentar apanhá-la com um novo apaixonado seria inútil, porque desconfiaria.

— Não podemos aceitar esta situação irritou-se Nartreb, cujo rosto lunar intumescia de cólera. Essa moça odeia-nos e tentará destruir-nos!

— Está descansado que não subestimo o perigo.

— O homem com cara de rato bateu à porta do quarto dos dois conselheiros, que se apressaram a enrolar o papiro no qual se encontrava a lista dos seus bens. Nartreb abriu.

— Ah, és tu... O que queres?

Uma espécie de careta pôs a descoberto os dentes pequenos e pontiagudos.

— Se me pagarem bem, terei coisas interessantes a contar-vos. Nartreb agarrou o informador pela gola da túnica e atirou-o pelo quarto fora como um embrulho qualquer. O homem levantou-se com a testa a sangrar.

— Vais falar e imediatamente! Depois, nós próprios decidiremos do montante da tua eventual retribuição. Fixa bem isto: quem tentar chantagear-nos não viverá o suficiente para se gabar disso.

Aterrado, o ferido refugiou-se num canto do compartimento.

— Pronto, senhor, pronto... Sabendo que eu andava à procura de informações sobre o passado da esposa de Akanosh, um homem que aluga burros contatou-me. Fiz despesas...

— Fala!

— Sim, está bem... Esse homem conheceu os pais dela, que morreram quando era adolescente. Um casal muito unido...

— Foi tudo o que conseguiste saber? Nartreb ergueu o punho.

— Não, não, meu senhor! A esposa de Akanosh tem a pele bronzeada como vós e eu, mas o seu pai era originário da Núbia.

— O pai dela é um núbio? Espantou-se Yegeb. Tens a certeza?

— Há essa testemunha e poderá haver outras...

— Paga-lhe ordenou Yegeb a Nartreb. Creio que encontramos a solução para todas as nossas preocupações.

A mão de Tefnakhte acariciou a curva dos rins de Aurora, subiu docemente ao longo das costas e depois agarrou-a pelos cabelos e obrigou-a a voltar-se.

— És um selvagem! exclamou ela, divertida, abrindo-se ao amante cuja fogosidade a encantava.

O general estava louco por Aurora. Com ela, cada confronto amoroso era diferente. Via-se obrigado a reconquistá-la constantemente e aquela guerra rejuvenescia-o.

— O que faz Piankhi? interrogou a moça, quando repousavam lado a lado num vasto aposento do palácio dos Tutmósis cuja janela dava para o Nilo. Afunda-se no marasmo, pois compreendeu que o seu exército era incapaz de se apoderar de Mênfis. Vai com certeza precisar de muito tempo para admitir a derrota, devido ao seu desmedido orgulho.

— E se se contentasse com a conquista do Médio Egito?

— Conquista momentânea, Aurora! Piankhi não permanecerá nessa região; retirará para Tebas. Nessa altura, contra-atacarei e os traidores trairão de novo, desta vez em meu favor. Mas não cometerei o mesmo erro desse mau estratega. Mandá-los-ei executar a todos e poremos em ação o modo de governo previsto pelos meus conselheiros.

Beijou-lhe os seios, semelhantes a maçãs doiradas pelo sol.

— Não conheces Saís, a minha cidade natal, da qual farei a capital do Egito. Amanhã levo-te lá!

Aurora surpreendeu-se.

— A tua presença aqui não é indispensável?

— Esta viagem estava prevista há muito tempo e reveste-se de um caráter estratégico.

— E se Piankhi atacasse?

— Descansa. Ou renunciou ou enlouqueceu. Nesse caso, o seu assalto terminará num desastre.

— Ver o Delta e Saís... Nunca imaginei...

— Uma região magnífica, cem vezes mais bela do que o vale do Nilo! Desta forma, apresentarei a minha rainha aos meus súbditos.

— Queres dizer...

— Sim, Aurora: vamos casar em Saís.

Piankhi passava horas a galopar no deserto e a conversar com o cavalo, a quem deixava a iniciativa do itinerário. Valoroso divertia-se com as dunas, evitava as zonas de areias movediças, parecia saltar até ao sol e conquistar as extensões sem fim onde, na luminosidade absoluta do ar, a voz dos deuses pronunciava palavras de eternidade.

Dez vezes, vinte vezes, Piankhi tinha desenrolado o mapa de Mênfis e consultado Lamerskény e Puarma. Apesar do seu desejo de se lançar ao assalto da cidade, os dois capitães não tinham qualquer estratégia a propor.

Abilé permanecia silenciosa. Também ela, apesar da sua magia, era incapaz de detectar a falha que permitiria a esperança de uma vitória. No acampamento núbio, a atmosfera tornava-se cada vez mais pesada. Ficariam acampados naquelas posições ainda durante meses, mesmo anos? Todos aguardavam um discurso do faraó negro, sabendo que uma retirada seria sinônimo de derrota. A brilhante campanha do Médio Egito parecia apenas um logro, visto que o exército nortista, sob o comando de um Tefnakhte firme, permanecia intacto.

Com o tempo, o balanço era quase negativo: é verdade que Tebas estava livre; é verdade que o Médio Egito fora reconquistado. Mas não se trataria de uma ilusão que uma invasão nortista dissiparia rapidamente? Detendo Mênfis, Tefnakhte possuía a chave das Duas Terras, o pólo de riqueza e equilíbrio cujo controle era indispensável para governar o país.

Sem ouvir a opinião de ninguém, Piankhi avançou para norte, para Mênfis. Valoroso, por si, adotou um passo moderado que lhe permitiu percorrer sem fadiga cerca de quarenta quilômetros.

Mênfis! Como era bela e imponente a rainha do Império Antigo, precedida por um palmar que atenuava a austeridade das suas muralhas, fora do alcance das catapultas e dos arqueiros! O «muro branco» que fora edificado por Djoser o Magnífico preservava templos prestigiados onde Piankhi teria gostado de venerar os deuses ancestrais, mas erguia-se à sua frente como uma barreira intransponível.

O faraó negro avançou até ao primeiro posto de guarda.

Assustados, convencidos que os dois uraeus que se erguiam da fronte do monarca os aniquilariam, as sentinelas avisaram o seu superior, que solicitou imediatamente a intervenção do comandante da fortaleza, um escriba ambicioso que optara por fazer carreira na administração militar.

Saiu da sua residência e dirigiu-se às muralhas. Na ausência de Tefnakhte, competia-lhe tomar as decisões.

A visão do faraó negro tetanizou o escriba.

— Sou o teu rei afirmou Piankhi e deves-me obediência! Ouve-me, Mênfis! Não te feches, não combatas, morada da luz do tempo primordial. Que aquele que desejar entrar, entre, que aquele que desejar sair, saia, que ninguém restrinja a liberdade daquele que quiser andar de um lado para outro. Tenho um único objetivo: oferecer um sacrifício ao deus Ptah, o senhor de Mênfis, e aos deuses que residem na sua cidade. Nas províncias do Sul, nenhum habitante foi morto, com exceção dos que se revoltaram contra Maât. Que as portas sejam abertas!

O escriba saiu do seu torpor. Por sua ordem, as portas do posto de guarda abriram-se, mas para deixar passar um grupo de cavaleiros decididos a apoderar-se do faraó negro.

Eram cerca de cinqüenta, dispostos a cumprir a façanha: dominar o atleta núbio que os desafiava, impassível.

Piankhi tirou lentamente a sua espada curta da bainha e, com um gesto rápido e preciso, cortou o pescoço do primeiro assaltante. O segundo julgou atingir o faraó negro com a ponta da sua lança, mas o rei desviou-se no último instante para melhor desferir sobre ele um golpe fatal antes de atravessar com a espada um terceiro líbio.

Apesar da sua rapidez e da do seu cavalo, Piankhi sabia que sucumbiria ao número se o seu pai Amon não viesse em seu auxílio. Este manifestou-se sob duas formas estranhas: a do capitão Lamerskény, à frente dos seus soldados de elite cujas fundas dizimaram o inimigo, e a do capitão Puarma, cujos melhores arqueiros exterminaram o que restava dos cavaleiros menfitas.

Quando uma nuvem de flechas partiu das muralhas, os núbios recuaram para se colocarem fora de alcance.

— Como não tínhamos recebido ordens, Majestade explicou Lamerskény consideramos aconselhável seguir-vos. Certamente não teríeis tido necessidade da nossa ajuda para exterminar esses cobardes, mas por que haveis de fatigar-vos inutilmente?

Piankhi sorriu. No entanto, o seu coração estava triste porque Mênfis recusava a paz.

 

A exaltação estava no auge em todo o Delta. Tefnakhte fazia-se aclamar como o futuro senhor do Egito e anunciava o seu casamento com Aurora, cuja elegância deslumbrava os chefes de clã.

Com o ardor de um vencedor, o general pregava a luta total contra Piankhi, incapaz de se apoderar de Mênfis. Para o desencorajar definitivamente, bastava aumentar o número de soldados acantonados na grande cidade. A força de convicção de Tefnakhte varreu as hesitações e conseguiu sem dificuldade criar um exército de reserva enquanto Aurora, deslumbrada, descobria a cidade de Saís onde a deusa Neith criara o mundo com sete palavras. Uma legião de servidores dedicados satisfazia os mínimos desejos da futura rainha.

Tefnakhte reuniu-se-lhe na sala de recepções do palácio cuja decoração ela mandava modificar. Aurora queria substituir os habituais frisos de papiros e aves migratórias por representações do marido, de pé no seu carro e esmagando o exército núbio em debandada.

— Essas cenas não são excessivamente... guerreiras? inquietou-se ele, irônico.

— A confiança animará o braço de cada um dos nossos soldados. É aqui, no nosso palácio, que deve ter as suas raízes.

— Como quiseres... Amanhã, parto para Mênfis.

— Deixas-me aqui só?

— És ou não uma futura rainha? Na minha ausência, governarás a minha capital.

Aurora sustentou o olhar do amante.

— Dá-me as tuas instruções e fá-las-ei respeitar.

O escriba comandante da guarnição de Mênfis tentou demonstrar um otimismo decidido.

— General Tefnakhte, rechaçamos sem qualquer dificuldade o primeiro assalto do faraó negro.

— Quantos homens mandou? O escriba pigarreou.

— Na verdade... bastante poucos.

— Sê mais preciso!

— Bem... no princípio ele estava só, mas depois...

— Piankhi ousou apresentar-se pessoalmente às portas de Mênfis?

— Um desafio insensato, general!

— Como reagiste?

Continuar: parte 2 de 3