O Faraó Negro
— Não deis ouvidos a essa moça,…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Yegeb interveio.
— Não deis ouvidos a essa moça, senhor! Está a preparar-vos uma cilada.
— Consideras-me incapaz de me defender?
Aurora conduziu Tefnakhte à moradia de seu pai, passou pelas cozinhas e desceu uma escada de pedra que conduzia a uma cave.
A jovem ajoelhou-se e escavou a terra com as mãos até descobrir uma pedra selada.
— As armas estão aqui por baixo.
Tefnakhte soltou a pedra com o punhal e ergueu-a. Uma nova escada perdia-se nas profundezas.
O general acendeu uma tocha e penetrou num subterrâneo cheio de arcos, flechas e lanças. O conjunto era novo e de excelente qualidade. Graças àquele material, as suas capacidades ofensivas ficariam notavelmente aumentadas.
— Uma lâmina cravou-se-lhe nas costas.
— Mataste o meu pai lembrou Aurora com voz gelada e eu vou matar-te.
— O teu pai morreu como um soldado, acreditava poder salvar a sua cidade e considerava-me seu inimigo. Estava enganado, mas louvo a sua coragem e mandarei gravar uma Estela em sua memória. É pena... Com um pouco mais de lucidez, passaria a estar sob as minhas ordens e ter-lhe-ia confiado um posto importante no novo Egito que estou a construir. Não fui eu que matei o teu pai, Aurora, foi esta guerra. Esta guerra indispensável que é necessário levar a cabo com êxito.
— A ponta da lâmina enterrou-se mais, fazendo brotar um pouco de sangue.
— Se me matares, Aurora, lamentá-lo-ás durante toda a tua vida porque terás contribuído para a desgraça do teu povo. No fundo de ti própria, sabes que sou o único a poder salvar este país da ruína e dar um sentido à morte do teu pai.
— Como vos atreveis!
— É a verdade, Aurora. Tem a coragem de o admitir.
A lâmina hesitou e depois retirou-se docemente, milímetro a milímetro. Tefnakhte encarou a jovem.
— Estás disposta a ajudar-me, Aurora?
— Ajudar-vos? Mas eu...
— Conheces bem esta região e os seus notáveis. Graças a ti, talvez evitemos sangrentos combates. Em vez de apodreceres numa prisão, não desejas tornar-te útil salvando numerosas vidas?
— Eu, ajudar-vos...
— Seja qual for a tua decisão, atacarei Hermopólis. Se conseguires convencer o príncipe Nemrod a renunciar a servir Piankhi e tornar-se meu aliado, muitos sofrimentos serão poupados à população.
Aurora mordeu os lábios. Os argumentos de Tefnakhte tinham-na impressionado. Odiava-o, mas ele fazia renascer a esperança no seu coração. E ela não suportava continuar a ver-se naquele estado... Lavar-se, apagar os vestígios das pancadas e da sujidade, recomeçar a luta, evitar um massacre...
Tefnakhte não podia confessar a Aurora como ela o impressionava. O príncipe de Saís estava rodeado de uma corte de cortesãs sempre desejosas de o satisfazer, mas não lhes prestava qualquer atenção, dominado pelo seu projeto de conquista. Aurora não se parecia com elas. Era orgulhosa e insubmissa, capaz de viver uma aventura fora do vulgar. Até agora, Tefnakhte não se tinha sobrecarregado com uma mulher; uma vez coroado Faraó, teria de associar ao trono uma grande esposa real. Só Aurora seria digna dessa função.
Os chefes líbios não paravam de festejar. Quem poderia imaginar que se banqueteariam noites seguidas no palácio do príncipe de Heracleopólis, vassalo do faraó negro? Forçado a aceitar a sua sorte, Pefteu participava nos festejos. Ordenara aos seus oficiais e soldados que obedecessem a Tefnakhte sem qualquer reticência. Visto que a autoridade suprema tinha mudado, seria vão opor-se-lhe. Yegeb observava cada um dos convivas. Se um de entre eles se preparasse para trair Tefnakhte, sabê-lo-ia. Quanto a Nartreb, comia com avidez e esvaziava taças de um vinho branco dos oásis que não acrescentava com água.
— O que pensas de Pefteu, Yegeb?
— Na sua idade, procura acima de tudo evitar os aborrecimentos e preservar o seu conforto. Visto que Tefnakhte é o mais forte, segue-o cegamente.
— O general não se devia ter embeiçado por essa Aurora... As mulheres enfraquecem os guerreiros. E esta nunca deixará de o odiar.
— Não tenho tanto a certeza disso, Nartreb. Tefnakhte fascina-a. E afinal, não é ele o seu futuro?
— Mesmo assim, é preciso vigiá-la de perto.
— Há alguém que me inquieta mais.
— Quem?
— O príncipe Akanosh. Tem o aspecto de um homem inquieto e desiludido e não manifesta qualquer entusiasmo pela nossa guerra de conquista.
— Akanosh não contesta a autoridade de Tefnakhte!
— É mais subtil... Também é necessário vigiá-lo de perto. Envergando uma couraça, Tefnakhte entrou na sala do banquete.
Precisou de alguns segundos para conseguir obter silêncio. Mesmo os mais embriagados ouviram a sua declaração.
— O nosso armamento foi reforçado e as nossas tropas tiveram tempo para repousar. Chegou o momento de partir de novo para o combate. Antes de nos lançarmos mais para sul, devemos controlar a totalidade do Médio Egito e apoderarmo-nos da cidade de Hermopólis, das suas armas e das suas riquezas. Vamos tentar convencer o príncipe Nemrod a render-se. Se recusar, poremos cerco a Hermopólis.
O capitão Lamerskény estava fora de si. Organizar uma expedição para se dirigir a Tebas revelava-se uma tarefa irrealizável! Os serviços da administração recusavam tomar qualquer iniciativa e cada escriba remetia tudo para o seu superior que se declarava incompetente.
Não restava ao capitão outra solução senão forçar a porta de Cabeça-fria para conseguir explicações claras. O rei queria ou não uma intervenção armada contra Tefnakhte?
No gabinete do escriba, Lamerskény teve a desagradável surpresa de encontrar Puarma, o capitão dos arqueiros. Este pôs em evidência a sua musculatura, como para provar ao rival que a força estava do seu lado.
— Lamento rever-te, Puarma.
— Por que abandonaste o teu antro? Parece que não consegues deixar de estar bêbado.
— Mais vale ser bêbado do que fanfarrão e estúpido.
— Vamos lá para fora e enfrentemo-nos com as mãos nuas!
— Basta interveio Cabeça-fria. É contra o inimigo que deverão bater-se, e juntos!
— Eu, estou pronto afirmou Lamerskény, altivo. Porque anda este incapaz a meter-me paus nas rodas?
Puarma encarou o capitão de infantaria com estupefação.
— O que estás tu a dizer? Eu recebi uma ordem: partir para Tebas. Um trejeito deformou os lábios de Lamerskény.
— Eu sei que devemos colaborar.
— Recuso-me!
— Um oficial não tem nada que recusar as ordens de Sua Majestade cortou Cabeça-fria, irritado com o comportamento do capitão dos arqueiros. Mais uma insubordinação deste gênero e irás defender-te perante um conselho de guerra!
O rosto desnorteado de Puarma encantou Lamerskény.
— De nós os dois, quem será o superior?
— Tendes o mesmo posto, um na infantaria e o outro no regimento dos arqueiros. Durante a viagem. Terão de entender-se. Em Tebas, entregarão a vossa ordem de missão ao comandante das nossas tropas.
— Porque não partimos imediatamente?
— Por causa de uma mensagem recente que acabamos de receber revelou Cabeça-fria. Parece que Tefnakhte é menos ambicioso do que imaginávamos. Saiu de Heracleopólis e regressa ao Norte.
Lamerskény sentiu-se profundamente desiludido.
— Ora bem! A guerra acabou antes de ter começado... Esse Tefnakhte é um menos que nada!
— No entanto, continuamos de prevenção precisou o escriba. Em que estado o inimigo deixou Heracleopólis? Se o príncipe Pefteu não conseguir restabelecer a ordem e proclamar de novo a sua cidade vassala de Piankhi, interviremos. O Faraó não deixará o Médio Egito mergulhar na anarquia.
— Por outras palavras, temos ainda que esperar lamentou-se Lamerskény.
— Os meus arqueiros vão recomeçar os treinos afirmou Puarma.
— Com certeza que bem precisam. Quanto aos meus soldados, estão já prontos a marchar.
Chépéna5, a filha do faraó negro, era uma magnífica jovem de vinte anos, de tez acobreada como a mãe, esguia e soberbamente elegante. Muito jovem, tinha sido iniciada nos mistérios da deusa Mut, a esposa de Amon. Ao contrário das moças da sua idade, não passava a maior parte do seu tempo a nadar, a dançar, a fazer música e a deixar-se cortejar pelos rapazes. Nos laboratórios do templo, onde primeiro servira como assistente de um ritualista, tinha descoberto uma paixão: a fabricação de perfumes.
Tivera que passar por um temível exame, face a um velho sacerdote perfumista que a criticara severamente antes de reconhecer os seus dons. Desejoso de gozar a sua reforma numa pequena moradia oficial, à sombra do Gebel Barkal, consentira em revelar-lhe os seus segredos de profissão, fazendo-a ganhar assim anos de investigação e tentativas.
Chépéna agradecera ao especialista e aos deuses por lhe concederem uma tal graça, e sentira-se em dívida para com eles. Daí em diante, consagraria a sua existência a melhorar constantemente os perfumes destinados aos santuários a às estátuas divinas. Quando as pessoas penetrassem no templo, maravilhosos odores encantariam a alma e torná-la-iam leve como um pássaro.
Como o reino de Napata era rico e Piankhi exigia que as divindades fossem servidas da melhor forma, Chépéna tinha à sua disposição os produtos mais raros e dispendiosos, tais como a mirra do Yémen, designada por «as lágrimas de Hórus», o incenso da região de Pount ou o óleo de moringa, suave, incolor e que nunca ficava com ranço. Acabava de receber uma importante quantidade de styrax, importado da Síria, indispensável para fixar as fragrâncias. E as suas reservas tinham abundância de óleo de linho e de balanite, de gordura de vaca, de gomas-resinas, de bálsamos, de gálbano da Pérsia, de essências de rosa e de lírio e de sal para secar as preparações.
Para a próxima festa de Amon, Chépéna decidira encher alguns esguios frascos com o mais maravilhoso dos perfumes, o kyphi, tão difícil de conseguir. Apenas os mestres perfumistas se lançavam nesta aventura que, muitas vezes, se saldava por um fracasso. De acordo com as antigas receitas, este perfume era composto por dez ou doze produtos e alguns especialistas iam mesmo até dezesseis. Chépéna escolhera bagas de zimbro, junca odorífica, mirra seca, lentisco, cascas aromáticas, resina, junco da Fenícia, styrax, orcaneta, alforva e
5 O seu nome completo é Chép-en-Oupet, «o Dom da deusa Oupet (a fecundidade espiritual)” pistácio. Depois de ter respeitado escrupulosamente as proporções exatas, esmagara demorada e cuidadosamente tudo com um almofariz e depois coara o produto para obter três quintos da massa inicial. Verificara a fineza do pó e misturara com um vinho excepcional, antes de fazer ferver mel, resina e serpentária, adicionados por fim ao pó aromatizado.
— Conseguiste? perguntou-lhe Piankhi.
— Majestade, a tua visita é uma honra.
— Falam tão bem do teu laboratório que quis verificar por mim próprio.
Chépéna destapou um frasquinho.
— De imediato, o rei sentiu-se transportado a um mundo irreal onde não existiam nem provações nem sofrimentos. O poder do kyphi preparado pela filha ultrapassava tudo o que conhecera até então.
— És uma feiticeira, Chépéna.
— Haverá tarefa mais exaltante do que trabalhar para dar satisfação aos deuses?
Piankhi tentou esquecer a atração do perfume.
— Talvez os pudesses servir de forma mais notável e eficaz.
Uma ruga de contrariedade vincou as faces da jovem.
— Terei de abandonar a minha profissão de perfumista?
— Claro que não... Mas terás de acrescentar-lhe outras funções igualmente exigentes.
— Pai, não te compreendo!
— A tua tia, a Divina Adoradora de Tebas, está velha e muito doente. Já não consegue dirigir como convém o conjunto dos templos de Karnak. Chegou o momento de escolher a que lhe sucederá para que ela a adote e lhe transmita os segredos e os deveres do seu cargo.
Chépéna empalideceu.
— Pai... a Divina Adoradora é uma rainha que governa uma cidade-templo e dá diretivas a milhares de pessoas! Eu aprecio a solidão e apenas reino sobre o meu laboratório, longe das preocupações quotidianas.
Piankhi envolveu Chépéna nos seus braços potentes.
— Foste tu que eu escolhi, minha filha adorada.
Ao aproximar-se dos cinqüenta anos, o príncipe Nemrod estava orgulhoso de si e dos seus êxitos. A sua existência tinha sido uma longa seqüência de momentos felizes, desde a sua infância feliz num palácio maravilhoso onde fora mimado por servidores dedicados, até ao dia em que herdada do pai a rica e cobiçada cidade de Hermopólis.
Classificado em primeiro lugar na escola de escribas, excelente atirador do arco, cavaleiro emérito, dotado de uma saúde de ferro, Nemrod sempre seduzira com facilidade as mais belas mulheres. Não suportava uma amante mais de seis meses e, mesmo assim, era preciso que ela fosse silenciosa e não o importunasse. Para não chocar a moral convencional, Nemrod desposara uma aristocrata que permanecia confinada nos seus aposentos e se contentava com a sua luxuosa ociosidade.
Para dizer a verdade, o príncipe aborrecia-se. Era em Mênfis que teria gostado de reinar; lá, a vida era animada, a influência do Norte crescente e tornava-se fácil lançar-se em negócios mais ou menos turvos onde a velha lei de Maât não tinha cabimento. Aqui, em Hermopólis, a cidade sagrada de Thot, o deus que revelara aos homens o segredo dos hieróglifos e das ciências sagradas, a tradição era sufocante.
O grande templo de Thot, quase tão grande como o de Amon-Rá de Karnak, albergava sábios de alta linhagem: ritualistas que se inspiravam nos textos antigos, astrônomos e astrólogos, médicos e cirurgiões, mágicos, perfumistas e arquitetos desenvolviam dia a dia as suas investigações, que deixavam Nemrod indiferente.
Obrigado a receber os representantes desses eruditos de vez em94 quando, fingia ouvir com atenção os seus aborrecidos discursos, enquanto sonhava com a fêmea soberba que nessa mesma noite teria no seu leito, após um suculento repasto. No dia seguinte, passear-se-ia de carro pela décima quinta província do Alto Egito colocada sob a sua jurisdição, ou vogaria de barco pelo Nilo, bebendo cerveja doce.
Nemrod confiava todos os dias o corpo ao massagista, ao barbeiro, ao cabeleireiro, ao manicuro e ao pedicuro. Sendo o próprio a escolher as suas perucas, vestuário e perfumes, espreitava o mínimo sinal de envelhecimento. Graças aos bálsamos que uma serva aplicava sobre a sua pele com delicadeza, nenhuma ruga afligia o príncipe.
O tecnicismo dos escribas da sua administração poupava a Nemrod qualquer preocupação de gestão; a sua província era fértil, o controle das colheitas rigoroso e os impostos satisfatoriamente recebidos. Desta forma, o príncipe contentava-se com um exame superficial dos relatórios cifrados que lhe eram entregues e que não continham qualquer erro.
A sua única preocupação era a manutenção do regimento que Piankhi colocara sob as suas ordens. Era composto por arqueiros de elite e experimentados soldados de infantaria, capazes de repelir um assalto. A intervalos regulares, Nemrod mandava reforçar as fortificações mantidas pela engenharia.
Uma existência calma, demasiado calma... O Egito estava bloqueado. A Norte, os príncipes líbios e a anarquia; a Sul, a cidade santa de Tebas, tão fechada nas suas tradições como Hermopólis. E nas solidões da Núbia, longe da civilização, Piankhi, cuja fama bastava para assustar os seus adversários.
Quando Nemrod soubera do ataque a Heracleopólis, não acreditara. Mais uma dessas gabarolices em que os líbios eram exímios! E, depois, a confirmação... Pefteu fora incapaz de resistir a Tefnakhte.
Tefnakhte... Nunca Nemrod imaginara o efervescente príncipe de Saís como chefe de coligação e brilhante estratega! E a sua avaliação era correta, pois não se atrevera a atacar Hermopólis. Depois de um período de repouso e de bebedeiras em Heracleopólis, o exército líbio não avançara para a região tebana onde as tropas de Piankhi o teriam feito em pedaços, e retomara o caminho do Delta.
Em conclusão, um episódio sem importância. Heracleopólis voltaria a estar sob a égide de Pefteu, que se proclamaria novamente súbdito do faraó negro, e o imobilismo voltaria a ser força de lei.
Nemrod continuaria a suportar as lamúrias dos camponeses e artesãos que se queixavam do aumento dos impostos e das suas condições de trabalho, cada vez mais difíceis. Responderia endurecendo a legislação e, à menor tentativa de insurreição, enviaria a polícia para restabelecer a ordem. Em suma, um aborrecimento.
Nemrod escolhia um vinho para o jantar quando o seu chefe do estado-maior lhe pediu audiência. O homem tinha sangue frio; não alteraria assim o protocolo sem um motivo sério.
— Príncipe Nemrod, estamos cercados!
— Não é possível... O exército de Piankhi, só pode ser o exército de Piankhi que nos vem proteger!
— Não são soldados núbios.
— Mas, então...
— É o exército de Tefnakhte. Pus as tropas em estado de alerta.
— Somos realmente capazes de nos defendermos?
— Os assaltantes são numerosos, mas poderemos resistir. As cisternas estão cheias e as reservas de alimentos são abundantes. Como perderão muitos homens, talvez renunciem.
— Todos aos seus postos.
Quando a jovem envergando um longo vestido verde de alças e com uma peruca negra muito sóbria avançou sozinha para a grande porta fortificada de Hermopólis, os arqueiros, interditos, esperaram por ordens.
Aurora foi conduzida sob escolta ao palácio de Nemrod.
— Quem és tu?
A filha de um oficial de Heracleopólis morto por Tefnakhte.
— E... Ele libertou-te?
— Sou sua embaixadora.
— Estás a fazer troça de mim?
— Os soldados de Heracleopólis estão agora sob as ordens de Tefnakhte que decidiu apoderar-se da tua cidade.
— Não é presunção a mais?
— Podeis julgar isso, príncipe Nemrod, e dissuadir-vos é o objetivo da minha missão. Compreendi que Tefnakhte procurava salvar o Egito da sua decadência e devolver-lhe a grandeza de outrora. Se continuardes a servir Piankhi, a vossa cidade será destruída e desaparecereis com ela.
— Qual é a outra solução que Tefnakhte me propõe?
— Abri as portas de Hermopólis e tornai-vos seu aliado. Os vossos soldados serão colocados sob o seu comando e a guerra de reconquista orientar-se-á para sul, para Tebas.
— Interessante tentativa de intimidação, minha jovem... Mas Hermopólis resistirá ao ataque.
— Tefnakhte está decidido. Irá até ao fim, sejam quais forem as suas perdas. Hermopólis deve cair, Hermopólis cairá.
— Se lhe oferecer a minha cidade, Tefnakhte eliminar-me-á.
— O príncipe Pefteu está bem vivo e continua a governar Heracleopólis. Porque haveis de continuar a suportar o jugo desse Piankhi que nunca sai da sua Núbia e não se interessa pelo futuro do Egito, reduzindo-o ao estado de escravo? É por causa dele que a prosperidade desapareceu e que o marasmo se acentua. Sob o reinado de Tefnakhte, as Duas Terras recuperarão a unidade perdida e os que o tiverem ajudado a triunfar serão recompensados.
Nemrod refletiu. De fato, o faraó negro não passava de um tirano distante ao qual não teria, definitivamente, quaisquer contas a prestar. É verdade que tinha jurado a Piankhi permanecer-lhe fiel em todas as circunstâncias... Mas a situação de emergência libertava-o desse juramento prestado com leviandade. Tefnakhte estava às portas de Hermopólis, tinha um projeto grandioso e permitiria a Nemrod sair do seu aborrecimento e iniciar outra existência, muito mais exaltante.
— És uma embaixadora muito convincente disse Nemrod a Aurora. O sangue não correrá, abro as portas de Hermopólis ao exército de Tefnakhte e coloco-me sob o seu comando.
Tefnakhte entrou em Hermopólis à cabeça das suas tropas, aclamadas pela população da cidade à qual o príncipe Nemrod se dirigira uma hora antes para lhe anunciar que evitara um sangrento conflito e que o futuro se anunciava risonho. As dificuldades quotidianas, o aumento dos impostos, a inflação, as más cheias, as doenças das crianças... Todas essas infelicidades eram causadas por um único homem: Piankhi, o faraó negro. Nemrod lutara em vão durante vários anos para escapar à sua tirania; graças a Tefnakhte, o futuro faraó do Egito, o povo ia conhecer uma nova era de prosperidade.
«Porque serão estas pobres pessoas tão crédulas?», interrogava-se Akanosh, cujo cavalo trotava ao lado dos dois outros príncipes líbios, encantados com aquela vitória fácil devida ao gênio militar de Tefnakhte, cuja autoridade já ninguém pensava em contestar. Apoderando-se de Hermopólis, tornava-se senhor do Médio Egito, garantia a colaboração de escribas notáveis e aumentava de forma considerável o poderio do seu exército.
Desta vez, já não se podia falar de uma simples incursão ou de uma expedição sem futuro. Tefnakhte adquiria verdadeiramente a estatura de um conquistador. E outra pergunta obcecava Akanosh: «Por que razão Piankhi não reagia?» Ou a sua mensagem não chegara até ele, ou não avaliava a gravidade do perigo.
A partir de agora, o caminho de Tebas estava aberto. Nemrod tinha reservado ao seu novo senhor um acolhimento digno de um chefe de Estado: palanque de elegantes colunas de madeira dourada para o proteger do sol, trono com patas de leão decorado com palmas, banquinho esculpido em forma de núbio deitado por terra e subjugado para pousar os pés... A mensagem era clara -, o príncipe de Hermopólis considerava o seu vencedor como o novo faraó do Egito, ao qual apenas faltavam os rituais oficiais de coroação.
Com uma bela peruca, perfumado de essência de rosas, adornado com um longo colar de turquesas sobre a túnica de linho fino e calçando elegantes sandálias, Nemrod inclinou-se perante Tefnakhte.
— Esta cidade é tua a partir de agora, senhor. Ordena e obedecer-te-ei, se me concederes o imenso privilégio de continuar a governá-la.
— És um homem razoável, Nemrod. Em tempo de guerra, é uma virtude rara e preciosa. Quem melhor do que tu conhece esta antiga e gloriosa cidade?
Nemrod ajoelhou e beijou as grevas de Tefnakhte, que estava vestido com uma couraça e um capacete.
— Obrigado, senhor. Podeis contar com a minha absoluta fidelidade.
— Ergue-te, vassalo.
O príncipe de Hermopólis lançou um olhar a Aurora, que se mantinha um passo atrás de Tefnakhte.
— A inteligência e a beleza da vossa embaixadora...
— É muito mais do que isso, Nemrod. Aurora é a futura rainha do Egito.
Um sorriso simultaneamente surpreso e encantado iluminou o rosto da moça. A ferida provocada pela morte do pai ainda estava aberta, mas sucumbia sob o encanto daquele conquistador, convencida da justeza da sua causa. Despertara nela o mesmo fogo e, embora o ódio não tivesse desaparecido do seu coração e rivalizasse com uma admiração próxima do amor, desejava ajudá-lo. Tefnakhte não a enganara: graças à sua intervenção, milhares de vidas tinham sido poupadas. Amanhã, em Tebas, Aurora faria a mesma tentativa diplomática. Talvez a Divina Adoradora compreendesse que o faraó negro era um mau senhor e que opor-se a Tefnakhte equivalia a trair o Egito.
Tornar-se rainha... Este pensamento deslizou sobre Aurora como um bálsamo. Ela que sempre vivera o momento presente sem nunca pensar no futuro, perdia repentinamente a inconsciência da infância. Um profundo receio, é verdade, mas um tal desejo de viver, de ser útil, de sentir a mesma determinação de Tefnakhte!
No primeiro banquete organizado para celebrar a libertação de Hermopólis, Aurora foi colocada à esquerda de Tefnakhte. Aos olhos de todos, o conquistador evidenciava o lugar atribuído à jovem. Apesar da atração que sentia, Nemrod evitou fazer-lhe a corte.
— Lamento abordar assim tão depressa as coisas sérias e aborrecidas murmurou Nemrod ao ouvido de Tefnakhte mas no que se refere ao serviço de impostos preconizado por Piankhi... Desejais alterá-lo?
— Por agora, é a economia de guerra que prevalece. Os meus conselheiros Yegeb e Nartreb informar-te-ão das suas exigências e regularizarão os pormenores.
— No que se refere aos meus rendimentos pessoais...
— Visto que agiste bem, aumenta-os. O teu armamento, como está?
— Cuidadosamente tratado.
— Os teus soldados estão prontos para combater?
— Arqueiros de elite e soldados de carreira... Profissionais de primeira qualidade que infligirão pesadas perdas aos núbios.
— Goza a tua fortuna, Nemrod, e não te preocupes mais com nada.
A esposa núbia de Akanosh chorava.
— Yegeb e Nartreb aplicam aqui os mesmos métodos de Heracleopólis. Os velhos e os doentes são sistematicamente exterminados, tal como aqueles que se atrevem a formular qualquer dúvida sobre os projetos de Tefnakhte. Mas por que é que Piankhi continua em silêncio? Devia enviar o seu exército tebano para aniquilar estes monstros!
Akanosh estava acabrunhado.
— Talvez o sacerdote tebano que o devia informar não tenha chegado a Napata. Tenho que ser eu a desempenhar pessoalmente essa missão.
Ela envolveu-o nos seus braços.
— Não, Akanosh! Não te deixarão sair desta cidade, desconfiarão de ti, serás detido e torturado!
O príncipe líbio baixou a cabeça.
— Tens razão, seria loucura. Mas há uma possibilidade: os sacerdotes de Thot não podem aceitar esta situação! Conheces algum?
— Não, mas temos de correr o risco. Vai queixar-te ao laboratório do templo. Diz-lhes que a casa que nos foi atribuída está infestada de pulgas e que precisamos de óleo essencial de poejo, a hortelã brava, para nos desembaraçarmos delas. Tendo em consideração a posição e o produto solicitado, mandar-nos-ão um especialista.
O especialista era um sacerdote de idade madura que trazia um frasco de óleo de poejo com o maior cuidado. Deslocando-se lentamente, inspecionou os compartimentos de entrada da Villa de Akanosh.
— Príncipe, estou espantado... Esta villa parece estar em perfeito estado e não detecto a presença de pulgas.
Akanosh mergulhou de cabeça.
— Continuais a ser fiel a Piankhi?
— Responder-vos poderia custar-me a vida...
— Não desconfies de mim. Sou um chefe de clã líbio, é verdade, e obedeço a Tefnakhte. Se for necessário, combaterei a seu lado. Mas não posso admitir que os seus esbirros se comportem como torcionários e martirizem a população. Parece-me portanto necessário avisar Piankhi. Talvez se trave uma guerra implacável, como espero, talvez a situação estacione de novo. Pelo menos, os civis serão poupados e a tirania de Tefnakhte não se espalhará.
— Não vos tornais culpado de alta traição?
— Ouço a voz da minha consciência. O templo de Thot pode enviar uma mensagem a Piankhi para o prevenir que Hermopólis caiu nas mãos de Tefnakhte?
— Tomai este frasco de óleo de poejo, príncipe Nemrod, e espalhai o conteúdo na vossa casa. Não me haveis chamado para lutar contra uma espécie prejudicial?
Piankhi abriu o frasco de vidro, um material precioso entre todos, que a filha lhe oferecera. O seu kyphi era realmente excepcional! Não respirariam os deuses aquele perfume nos paraísos do outro mundo, onde o espinho não picava, onde o crocodilo não mordia?
Abilé segurou docemente no frasco e perfumou o torso vigoroso de Piankhi.
— Este aroma é fascinante...
O corpo nu da rainha aninhou-se contra o do seu esposo. Ela era todas as flores e todas as essências, o encanto das margens do Nilo, a magia de uma terra fecunda, fascinante e ensolarada.
— Só amei uma única mulher e só amarei uma.
— Acredito em ti, porque sei que a tua palavra é verdade.
Com os seus longos dedos tão delicados como os de uma deusa, Abilé desatou o saiote de Piankhi. E o faraó negro saboreou, com a mesma emoção da sua primeira união, o perfume inimitável do corpo apaixonado.
Cabeça-fria não sabia o que havia de fazer. Os guardas não lhe tinham proibido o acesso aos aposentos privados do monarca, mas deveria despertar o rei e a rainha, nus e abraçados, para lhes anunciar uma má notícia?
Mas o anão era um escriba ao serviço do Estado e não devia ter em consideração qualquer privilégio. Portanto, tocou na cabeça do monarca.
— Majestade, despertai... Piankhi abriu um olho.
— És tu, Cabeça-fria... Mas o que fazes aqui?
— Lamento, mas é muito urgente!
O faraó contemplou o corpo admirável da esposa. Não teria o direito, como qualquer homem, de esquecer o peso do mundo na companhia da mulher que amava?
Abilé acordou e levantou-se. Com um andar de uma nobreza inimitável, sublime na sua nudez, dirigiu-se com passo ligeiro para a sala de água.
— Cabeça-fria... se me incomodaste por nada, esquecerei a nossa amizade!
— Embora seja inestimável, Majestade, sacrificá-la-ia à causa da paz se esta ainda pudesse ser salva.
— Notícias do Médio Egito?
— Infelizmente, sim!
O mensageiro mandado pelo templo de Thot era um homem jovem, de olhar directo e pernas musculadas.
— De onde vens?
— De Hermopólis.
— Quem te envia?
— O grande sacerdote do templo de Thot.
— Como se chama o vale onde foi construído esse santuário?
— O vale das Tamargueiras O que fabrica a oficina que fica perto da entrada do templo?
— Tabuinhas de escriba.
— Qual é o nome sagrado de Hermopólis?
— A cidade de Ogdóade, os oito deuses que criaram o mundo e repousam hoje em Tebas.
Piankhi ficou descansado: o mensageiro não era um impostor.
— Porque falaste de «catástrofe» a Cabeça-fria?
Porque o príncipe Nemrod vos traiu abrindo as portas de Hermopólis a Tefnakhte.
— É difícil de acreditar... Nemrod jurou-me fidelidade e tinha capacidade para resistir.
— No entanto, é a verdade, Majestade! Nemrod arrasou as muralhas da sua cidade, esqueceu a sua palavra para se tornar vassalo de Tefnakhte. Não hesitou em oferecer-lhe os tesouros de Hermopólis e colocar os seus soldados sob o comando do líbio. Perdoai o meu sentimento de revolta, Majestade, mas durante quanto tempo vos mantereis em silêncio, enquanto Tefnakhte estende as suas conquistas sem encontrar ninguém que se lhe oponha? É a vossa fama que cria o vosso poder, Majestade, só ele dissuadirá os vossos adversários de devastar o Egito.
O cavalo de crina fulva levou Piankhi bem para o interior do deserto. O faraó negro devorou o espaço, alimentou-se de ar límpido e comungou com o azul absoluto do céu. Compreendendo a perturbação do seu dono, Valoroso mudava de ritmo e de direção antes mesmo de receber ordem para tal. O homem e o cavalo formavam um todo, absorvidos no esforço violento que acompanhava os vôos de íbis brancos e de grous coroados.
Finalmente, Piankhi deteve-se perto de um poço.
Deu de beber a Valoroso antes de ele próprio matar a sede e depois admirou o deserto. Nada conspurcava aquela imensidade que se oferecia ao sol e ao vento. Nenhum ser perverso podia perturbar aquela harmonia criada pelo deus oculto cuja presença se afirmava para além de qualquer inteligência humana.
Piankhi meditou durante horas.
Os seus lábios murmuraram as antigas orações que os seus predecessores tinham dirigido a Amon:
«Deus perfeito, tu dás vida a todos os seres. Eu te saúdo, o Único, o senhor de Maât, tu que atravessas em paz o longínquo céu. Tu fazes nascer a luz e a tua palavra é o Verbo. A ti, que permaneces único criando o múltiplo, deseja o meu coração acolher. Como é doce pronunciar o teu nome, porque tem o sabor da vida! Tu és o boieiro que conduz os bois para as pastagens, a porta de bronze que protege a sua cidade, o piloto que conhece os meandros do rio. Tu és Amon, o senhor do silêncio, tu revelas-te aos humildes. Tu, que dás o fôlego a quem dele precisa, salva-me, pois estou mergulhado na aflição e na incerteza.”
Quando o sol declinou, o faraó negro retomou o caminho da sua capital.
Por ordem de Piankhi, o sacerdote de Thot repetiu perante toda a corte o que tinha revelado ao rei.
Os rostos ensombraram-se, com exceção do capitão Lamerskény que entrevia amanhãs alegres no decurso dos quais poderia massacrar líbios com toda a legalidade. A sua presença chocava muitos notáveis, desagradavelmente surpreendidos pela honra concedida àquele fulano sem fé nem lei.
— O que tencionais fazer, Majestade? interrogou Otokou, subitamente sem apetite.
— Temos de render-nos à evidência: a tomada de Heracleopólis não era uma ocorrência isolada e Nemrod é um traidor da pior espécie. Oferecendo a sua cidade a Tefnakhte, fez dele um inimigo temível que teremos de combater até ao limite das nossas forças.
O obeso receava ouvir aquelas palavras.
— Espero, Majestade, que não penseis sair de Napata à frente de um exército! A vossa presença aqui é indispensável e não tendes o direito de arriscar a vossa vida!
— Aprovo Otokou declarou a rainha Abilé. As perturbações verificadas no Médio Egito adquiriram uma dimensão inquietante por causa da traição de Nemrod, mas uma intervenção rápida das nossas tropas instaladas em Tebas deverá bastar para restabelecer a ordem.
— Acrescentar-lhes-ei um corpo expedicionário comandado pelos capitães Puarma e Lamerskény declarou Piankhi. Têm como missão libertar as cidades de Heracleopólis e Hermopólis, desmembrar a coligação inimiga e repelir definitivamente os fugitivos para o norte.
Otokou sentiu-se descansado. Portanto, o rei permanecia na capital e deixava aos seus soldados de elite o cuidado de acabar com uma sedição sem futuro.
Nemrod estava encantado. Não só conservava todas as suas prerrogativas, como ainda ficava livre de preocupações materiais. Nartreb e Yegeb, os dois conselheiros de Tefnakhte, ocupavam-se perfeitamente dos assuntos da cidade, que tratavam de pôr sob controle com um entusiasmo trasbordante. Nenhum aspecto da vida pública lhes escapava e até tinham endurecido os métodos aplicados em Heracleopólis.
Por ordem de Tefnakhte, as duas almas danadas tinham transformado Hermopólis numa gigantesca caserna onde todos os habitantes, da criança ao velho, trabalhavam de uma forma ou de outra para o exército. Os combatentes das tropas de libertação deviam ser mimados e satisfeitos os seus mínimos desejos. Que mães de família fossem obrigadas a prostituir-se e crianças de dez anos obrigadas a carregar pesados cestos com alimentos não incomodava Yegeb nem Nartreb. Os imperativos da economia de guerra não se discutiam. Tendo as bocas inúteis sido suprimidas, Hermopólis inteira estava pronta para o combate.
Tefnakhte reuniu o seu conselho de guerra na sala de refeições do palácio. Assistiam a ele Nemrod, o príncipe da cidade, Yegeb, Nartreb, os chefes de clã líbios, o príncipe Pefteu de Heracleopólis e Aurora, cuja presença desagradava à maioria dos participantes. Mas ninguém criticava as decisões do general.
— Temos novidades provenientes de Tebas?
— Sim, meu senhor apressou-se a responder Yegeb. Os nossos partidários lá são cada vez mais numerosos. A tomada de Hermopólis fê-los compreender que a reconquista tinha começado realmente e que a esperança de reunificação das Duas Terras não era uma utopia.
— Tens espiões infiltrados?
— Temos alguns informadores dignos de confiança. Têm de mostrar-se extremamente prudentes, porque Tebas proclama ainda alto e bom som a sua fidelidade a Piankhi.
— O que souberam eles?
— O faraó negro acaba de reagir enviando um corpo expedicionário para Tebas.
Os rostos ensombraram-se.
Até agora, as vitórias tinham sido fáceis e rápidas. Enfrentar os temíveis guerreiros núbios, de lendária crueldade, não alegrava ninguém.
— E se negociássemos? avançou o príncipe Pefteu com voz trêmula.
— O que propões?
— Senhor Tefnakhte, haveis conquistado duas grandes cidades e sois Atualmente o senhor do Médio Egito. Se Piankhi o reconhecer, porque havemos de ir mais longe? Uma troca de embaixadores ratificará esta nova situação.
— Não compreendeste o sentido do meu combate, Pefteu! Aumentar o meu território não me interessa. O que quero é um Egito unido como outrora, um Egito que voltará a ser o primeiro império do mundo mediterrâneo! Piankhi negociará comigo quando as suas tropas forem exterminadas e quando ficar condenado à solidão e à miséria, numa Núbia que o Egito controlará de novo e cujas riquezas explorará. Mas não cometerei o erro de poupar a vida a esse usurpador! Um rebelde núbio não merece qualquer indulgência.
O príncipe Pefteu não insistiu.
— Se Piankhi envia um corpo expedicionário considerou Aurora, tomando a palavra para surpresa geral não é nem para negociar nem para fazer a paz. Terá certamente escolhido os seus melhores homens para conduzirem à batalha as tropas estacionadas em Tebas.
— Não vai ser uma mulher que nos vai dar lições de estratégia protestou um chefe de clã líbio.
— Porque não? Esta parece-me excelente considerou Tefnakhte.
— Vá, marchemos sobre Tebas e ataquemo-la!
— Estúpido! cortou Aurora. Esbarraríamos com as tropas de Piankhi e o resultado do confronto seria incerto. Pelo contrário, esperemo-las! Serão obrigadas a fraccionar-se e apenas uma parte dos seus homens tentará retomar Hermopólis, para não desguarnecer Tebas e deixá-la sem defesa. Compete-nos preparar o dispositivo militar que nos garanta a vitória. Em seguida, e apenas em seguida, tomaremos o caminho de Tebas, cujas possibilidades de resistência estarão consideravelmente diminuídas.
Os chefes de clã resmungaram, alguns encolheram os ombros, mas muitos tiveram de admitir que a análise da jovem era pertinente.
— Porque mandaste destruir parte das muralhas de Hermopólis? perguntou Akanosh a Tefnakhte.
— Para convencer o inimigo que a cidade estava devastada e que podia penetrar nela facilmente. Uma vez no interior, os soldados de Piankhi serão apanhados na armadilha.
O general desenrolou um papiro no qual estava desenhado um mapa muito preciso da região.
— O resto do corpo expedicionário será apanhado em tenaz na planície e instalaremos várias emboscadas ao longo das colinas para cortar qualquer possibilidade de retirada. Piankhi ignora tudo da arte da guerra, acredita que a força brutal basta para vencer qualquer combate. Chegou o momento de lhe dar uma boa lição.
— Não há o risco da população se revoltar contra nós? interrogou Akanosh.
— Qual o motivo dessa inquietação? espantou-se Tefnakhte.
— Tratamo-la tão duramente!
— É a guerra, príncipe Akanosh. Qualquer sinal de fraqueza incitaria os civis a desobedecer. Os meus dois conselheiros têm feito um excelente trabalho.
Yegeb manifestou-se com um ligeiro sorriso.
— Graças a nós, essas pessoas sentem-se governadas e protegidas. O que pedimos ao povo? Que obedeça a Tefnakhte e lhe conceda a sua confiança, nada mais. E todos sabem que procedemos para o seu bem, mesmo que não compreendam de imediato os sacrifícios que exigimos.
Akanosh desafiou o hipócrita com o olhar, mas não se atreveu a dirigir-lhe as censuras que lhe roíam o coração.
— Quem propõe outra estratégia? perguntou Tefnakhte. Nenhum chefe de clã quebrou o silêncio.
— Vamos então proceder a um treino intensivo dos nossos diversos regimentos do exército nos locais onde irão intervir, a partir dos planos que vos vou mostrar. No dia do confronto, não tolerarei a mínima hesitação. Ao trabalho.
Nartreb mascava papiro, Yegeb fazia as suas contas.
— Começamos a enriquecer, amigo. Graças aos plenos poderes que Tefnakhte nos concede, desviamos legal e discretamente em nosso proveito um bom quinhão de riquezas. Casas, terrenos, vestuário, sandálias e loUças... Quando atacarmos o campo, espero deitar a mão a rebanhos inteiros. Esta guerra é uma bela guerra!
— Desde que continue considerou Nartreb e que a sorte das armas nos seja favorável.
— Paguei generosamente aos oficiais de Heracleopólis e Hermopólis para que eles obedeçam cegamente a Tefnakhte. Enquanto ele continuar vitorioso, não levantarão qualquer problema. O que um soldado espera são ordens claras e um bom soldo. Com isso, mata sem remorsos.
— Será que todos os nossos aliados desejam verdadeiramente essa vitória?
— Pensas no príncipe Akanosh?
— Tenho a impressão que se daria por satisfeito com um cessar das hostilidades e que não aprecia a nossa forma de governar uma cidade.
— Tens razão, Nartreb. Esse Akanosh pode vir a tornar-se incômodo.
— Queres que intervenha... à minha maneira?
— Não, uma morte violenta despertará a desconfiança dos outros chefes de clã em relação a Tefnakhte e abrir-se-ia uma brecha na coligação. Tenho uma idéia melhor: vamos preparar-lhe uma cilada.