O Faraó Negro
No navio almirante, ao lado da cabina…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
No navio almirante, ao lado da cabina do par real, uma cerca ao ar livre estava reservada para Valoroso, o cavalo de Piankhi. O quadrúpede dispunha de duas estalas e o monarca ordenava paragens regulares para lhe permitir galopar. Tal como o dos soldados, o comportamento de Valoroso era exemplar; também ele tinha consciência da importância da missão a cumprir.
Piankhi falava com freqüência ao cavalo, que lhe respondia com olhares e relinchos, traduzindo aprovação ou descontentamento. O rei tinha em consideração as suas opiniões para melhorar o seu dia a dia e o manter de excelente saúde. Além disso, Valoroso possuía uma qualidade rara: previa o perigo e manifestava os seus receios com uma ruidosa cólera.
Uma cólera que acabava de desencadear-se à aproximação da segunda catarata do Nilo.
Nenhum marinheiro se atreveu a intervir, com receio de ser vítima de um coice; e ninguém, à exceção de Piankhi, tinha o direito de se aproximar de Valoroso.
— Calma, amigo, calma recomendou o rei com a sua voz grave e pausada.
Mas Valoroso não se acalmava.
Quando Cabeça-fria viu o rei entrar na cerca, sentiu medo. O animal estava tão furioso que nem a vista do dono o acalmava. Mas Piankhi conseguiu cravar o seu olhar no de Valoroso e avançou para ele sem hesitar.
A fúria do animal esfumou-se.
— O Valoroso está a avisar-nos de um perigo disse Piankhi à esposa, estendida num leito com a cabeceira decorada por incrustações em marfim e pés em forma de patas de touro.
No olhar de Abilé pairava uma inquietação pouco habitual.
— Tive uma espécie de pesadelo revelou ela. Do Nilo saíam gigantescos crocodilos, da terra movediça das margens avançavam hipopótamos gigantescos. Começaram por se desafiar e julguei que se iam aniquilar uns aos outros. Mas mantiveram-se mutuamente em respeito e acabaram mesmo por fazer uma espécie de aliança contra um monstro surgido do deserto, um monstro que não identifiquei... O combate iniciou-se e eu acordei.
— Um sonho... ou uma visão?
— Não te sei dizer... Não deveríamos ter em conta estes avisos? Piankhi sentou-se na borda do leito e a esposa aninhou-se de encontro a ele.
— Por outras palavras, regressar a Napata, esquecer Tefnakhte e a guerra....
— Por que to hei-de ocultar? Tenho medo. Quem negar o seu medo não tem qualquer coragem. Mas não temos o direito de renunciar. Vou prevenir os marinheiros e os soldados que certamente teremos de combater muito mais cedo do que estava previsto.
A informação provocou perturbação. Que risco podia correr um exército núbio no seu próprio território, tão longe do inimigo? No entanto, os capitães dos barcos colocaram as tripulações em estado de alerta e os arqueiros vigiaram as margens dia e noite.
Kafy e os seus homens haviam conseguido.
Tinham franqueado todos os obstáculos para chegarem às proximidades da segunda catarata, depois de terem seguido pistas difíceis, felizmente ladeadas de nascentes de água.
A paisagem era angustiante: volumosos rochedos emergindo do Nilo, turbilhões que traduziam a sua cólera, rápidos lançando-se ao assalto das ilhotas de granito, falésias que pareciam guardar a passagem para melhor a proibir... Vários líbios estremeceram de pavor, convencidos que aqueles lugares eram assombrados por gênios maus.
Um deles tentou mesmo fugir, mas Kafy retesou tranquilamente o arco e abateu o timorato com uma flecha nas costas. Os cobardes não merecem outra sorte.
Kafy era mais assustador do que os gênios maus e os jovens líbios engoliram os seus receios.
— Vai ser aqui que vamos matar Piankhi. Quando estiver morto, com o corpo trespassado pelas nossas flechas, os seus soldados dispersar-se-ão como animais assustados. Apoderar-nos-emos do cadáver e levaremos a sua cabeça a Tefnakhte, exigindo o dobro da recompensa prometida. Em breve seremos homens ricos!
Esta perspectiva tornou a encorajá-los para o empreendimento.
— Estas falésias são nossas aliadas afirmou Kafy. Lá do alto, estaremos fora do alcance dos arqueiros núbios mas atingiremos com facilidade o nosso alvo!
Só faltava ao pequeno grupo atravessar o Nilo, saltando de ilhota em ilhota, e depois trepar para a falésia adequada para não terem o sol a bater-lhes nos olhos e o vento na cara.
Quando Kafy, que ia à frente, estava a meio caminho, um berro fê-lo voltar-se.
Um dos rochedos acabava de erguer-se, provocando a queda de um líbio no rio. Não era um bloco de granito mas sim um enorme hipopótamo com mais de quatro toneladas, perturbado na sua sesta. Uma dezena dos seus congêneres, igualmente monstruosos, emitiram terríveis urros abrindo assustadoramente os maxilares.
Em pânico, o líbio cometeu o erro de cravar o punhal na pele frágil do cavalo do rio. Louco de raiva e de dor, o hipopótamo espetou o nadador entre os seus dois acerados caninos com o comprimento de sessenta centímetros. Os outros imitaram-no, trespassando os corpos dos líbios que em vão tentavam escapar-lhes.
Na margem, Kafy viu mover-se o que julgava serem troncos de árvores enterradas no lodo. Uma cabeça alongada, escamas, uma cauda de réptil e patas curtas mas rápidas, tão rápidas...
— Crocodilos! Estamos salvos, vão atacar os hipopótamos!
Uma guerra sem misericórdia travava-se desde sempre entre as duas espécies.
Embora pesasse mais de uma tonelada, o crocodilo do Nilo era de uma espantosa agilidade. Aterrorizado, um dos líbios bateu na superfície da água com a sua lança para provocar fortes vibrações que afastariam o predador. Ao proceder assim, conseguiu o contrário do resultado pretendido e atraiu-o para si. E como a presa era de bom tamanho, o sáurio emitiu uma série de sopros para chamar os seus aliados ao confronto.
Kafy estava estupefato. Nenhum crocodilo se preocupava com os hipopótamos, nenhum hipopótamo queria saber dos crocodilos. Tanto uns como outros massacravam os membros do seu comando.
Kafy nem teve tempo de disparar uma flecha na goela aberta de um macho que se lançava sobre ele, porque uma fêmea fechou as mandíbulas sobre a sua perna direita e apertou com tanta força que as lágrimas correram das suas glândulas lacrimais. E todos os crocodilos verteram lágrimas de alegria por ocasião daquele excepcional festim.
Direito sobre o ombro de Piankhi, com o focinho ao vento, o mangusto olhava ao longe, tal como o rei e a esposa. Em plena segunda catarata, que tinham começado a atravessar lentamente com a máxima prudência, distinguiram uma efervescência e ouviram gritos roucos.
— É com certeza uma luta de crocodilos e hipopótamos admitiu Piankhi. Sim, estou a vê-los! Os sáurios parecem afastar-se.
— A água está tingida de vermelho fez notar Abilé.
— Tens razão! Mas, então...
— O meu sonho não me enganava. Havia monstros à nossa espera, mas não eram nem os hipopótamos nem os crocodilos.
A frota avançou.
Os sáurios não tinham deixado um único pedaço de carne e, graças à força da corrente, o sangue das suas vítimas rapidamente se diluiu no azul sombrio das águas.
Pela primeira vez desde a partida de Napata, Chépéna saiu da sua cabina e veio colocar-se ao lado do pai.
— Orei a Amon, disse ela — invoquei a sua invisível presença para que o seu olhar seja o piloto do teu barco. Terríveis provações nos esperam e não deixarei de implorar o seu auxílio.
O mangusto adormeceu sobre o ombro de Piankhi e a frota franqueou sem dificuldade o ventre de pedra da segunda catarata.
A pedicura acabava de cuidar dos pés finos e delicados de Aurora; sucedeu-lhe uma massagista que untou o corpo nacarado da jovem com um ungüento à base de incenso e junco perfumado. Desta forma, manteria a pele macia e odorífera durante todo o dia.
Os cuidados da manhã estavam quase terminados. Só faltava a intervenção da cabeleireira, completada pela escolha de uma peruca. Aurora pensava ainda na noite ardente que passara com Tefnakhte. Quanto mais o general era um homem frio, austero, de palavras rudes na sua existência pública, tanto mais com ela se transformava em amante apaixonado com inesperadas iniciativas. E mesmo na intensidade do prazer, ela sentia-o possuído pelo seu grande projeto. Se a amava, não era nem por causa da sua beleza nem da sua juventude, mas porque ela estava animada pela mesma ambição.
A cabeleireira chorava.
— O que se passa?
— Senhora, é esse monstro do Nartreb...
— Violentou-te?
— A mim, não se atreveria porque estou ao vosso serviço... Mas violou a minha irmã mais nova, que tem dezoito anos e é linda como um lírio!
— Envolta num manto de linho transparente, com os cabelos soltos, descalça, Aurora saiu do quarto em passos apressados, passou em frente dos guardas colocados nas esquinas de cada corredor do palácio, empurrou o camareiro que se inclinava para a saudar e entrou como um turbilhão na sala do conselho onde Tefnakhte ouvia o relatório de Yegeb sobre a situação econômica da região.
— O teu conselheiro Nartreb é um bruto e um criminoso!
— Porquê tanta excitação, Aurora?
— Porque ele violou a irmã da minha cabeleireira!
— Impossível protestou Yegeb. Tomo a responsabilidade por ele.
— Ele que venha cá e se explique exigiu a jovem.
O rosto de Yegeb endureceu.
— Não compete ao general dar ordens?
— Vai buscar o teu amigo disse Tefnakhte a Yegeb. O semita curvou-se e desapareceu.
— Desembaraça-te deles aconselhou Aurora. Acabarão por fazer com que a população te odeie. E, de acordo com as nossas leis, a violação é punida com a morte.
— A eficácia dos meus conselheiros é incontestável objetou Tefnakhte. Mesmo que os seus métodos possam por vezes parecer brutais, conseguem excelentes resultados porque lhes permito que enriqueçam. Graças a eles, o povo receia-me e sabe que me deve obedecer.
— Vais ilibar um violador?
— Ouçamos primeiro a sua versão dos fatos.
Quando Nartreb se apresentou em frente de Tefnakhte, Aurora repetiu as suas acusações com veemência.
— Trata-se de um simples mal-entendido... Na realidade, eu é que fui em socorro dessa infeliz que acabava de ser atacada por um camponês. Compreendi imediatamente que tinha sido vítima de terríveis sevícias e ordenei que a tratassem, à minha custa.
— É a ti que ela acusa, não a um camponês!
— Estava quase desmaiada e a emoção deve tê-la feito divagar... É perfeitamente compreensível e perdoo-lhe.
— Perante um tribunal, insistiu Aurora - será a sua palavra contra a tua.
— Com certeza que não, pois tenho três testemunhas. Três milicianos que me escoltavam e que viram o camponês fugir. O seu testemunho será decisivo.
Yegeb sorriu.
— Estais a ver, meu general. Nartreb é um homem acima de qualquer suspeita.
— O assunto está encerrado declarou Tefnakhte.
Acompanhando-se à lira, a esposa núbia do príncipe Akanosh cantava-lhe uma canção do Grande Sul, simultaneamente ensolarada e melancólica. Evocava a água fresca que a mulher e o amante partilhavam nas margens do rio, na cumplicidade de uma madrugada amorosa; ela falava da juventude que se esvaía com a corrente e se afogava nas escoadas de areia ocre que desciam para o Nilo.
Comovido até às lágrimas, o intendente esperou pelo final da melodia antes de se dirigir ao seu senhor. Era o único servidor que tinha acesso aos aposentos do casal; um rápido inquérito permitira à esposa de Akanosh descobrir que os outros estavam a soldo de Yegeb e procuravam comprometer o marido.
— Tefnakhte está furioso revelou o intendente.
— Contra mim?
— Não, príncipe, sossegai. Acaba de saber que os líbios pagos para matar Piankhi durante a viagem falharam. O faraó negro ultrapassou a segunda catarata e já não deve tardar a chegar à ilha de Elefantina.
— Piankhi no Egito... Esse sonho louco vai realizar-se efetivamente?
O mangusto passava a maior parte do tempo a dormir, Valoroso estava perfeitamente calmo, a navegação era agradável, Piankhi e Abilé saboreavam momentos maravilhosos. Em Napata, as suas respectivas obrigações privavam-nos muitas vezes da intimidade a que aspiravam; aqui, nesta cabina espaçosa e bem arejada, saboreavam cada instante de felicidade com tanto maior intensidade quanto uma sombria realidade se aproximava inexoravelmente.
Abilé possuía o encanto misterioso de uma água profunda e o ascendente mágico de um felino. Nenhuma das suas atitudes, mesmo no momento em que o desejo se desencadeava, era desprovida de nobreza.
Aventura cada dia recomeçada que fascinava Piankhi. Sem ela, não teria tido qualquer hipótese de vencer.
O mangusto acordou e ergueu-se de encontro à porta de madeira da cabina. Instantes depois, Cabeça-fria bateu.
— Entra.
O anão entreabriu a porta.
— Majestade, o capitão está inquieto. Levantou-se o vento do sul e já está a provocar vagas no rio e a ficar cada vez mais forte, a uma velocidade anormal. A sua violência pode vir a ser terrível! Era necessário que parássemos o mais rapidamente possível e amarrássemos os barcos. Caso contrário, naufragaremos.
— Estamos a aproximar-nos da primeira catarata, não é verdade?
— Sim, Majestade.
— Vamos à biblioteca, depressa!
— Cabeça-fria não se separara de um certo número de papiros, na primeira linha dos quais figuravam os rituais ordinários e extraordinários, o calendário das festas, a lista dos templos e uma centena de outros assuntos essenciais sem o conhecimento dos quais era impossível governar.
— Piankhi desenrolou mais de dez antes de encontrar aquele que procurava, convocou logo os oficiais encarregados da administração e dirigiu-se para a proa do navio almirante onde lhe trouxeram imediatamente os objetos que pediu.
Com a coroa azul na cabeça, o faraó ofereceu ao gênio do Nilo um saiote de linho real, um papiro virgem de primeira qualidade, óleo de festa, um jarro de vinho datado do ano do seu reinado, um bolo de mel e um lingote de ouro. Envergando um longo vestido vermelho, a rainha Abilé fazia soar dois sistros de ouro para afastar as forças nocivas e restabelecer a harmonia entre o rio e os humanos.
Pouco a pouco, o vento do sul caiu, os turbilhões desapareceram e a corrente acalmou.
— Fazer oferenda murmurou Piankhi é o que ensinam os velhos escritos. Só ela pode repelir o mal e abrir o caminho. Nunca mais o esqueçamos, Abilé: todo o Egito é uma oferenda ao princípio criador. Será sobre ele que estabelecerei a minha estratégia.
— O caos granítico da primeira catarata impressionou os núbios. Muitos perguntaram a si mesmos como fazer para ultrapassar aquela barreira de rochedos entre os quais o rio manifestava acessos de fúria.
Utilizando mapas exatos, Piankhi não teve qualquer dificuldade em encontrar o canal aberto pelos faraós da XII dinastia. Mesmo durante os períodos mais perigosos, permanecia livre de escolhos e continuava navegável. A fim de facilitar as trocas com a Núbia, os monarcas da XVIII dinastia tinham aumentado a passagem para fazer dela um verdadeiro canal onde circulavam até os barcos de carga.
E foi a entrada na terra amada pelos deuses, na primeira província do Alto Egito, a cabeça do Duplo País, simbolizada por um elefante cujo nome significava também «a cessação», visto que a fronteira marcava o fim do Egito propriamente dito.
Nas muralhas da fortaleza de Elefantina, outrora barragem impossível de franquear para os núbios e agora muralha destinada a deter o invasor vindo do Norte, a guarnição em peso aclamava o faraó negro. Todos esperavam que desembarcasse na fortaleza para estabelecer a primeira ligação entre os dois corpos do exército, mas Piankhi tinha algo mais urgente a fazer.
Foi no desembarcadouro do templo do deus Khnum que o rei fez parar o navio almirante. Desceu só, sob o olhar dos marinheiros da sua frota e dos soldados da guarnição, estupefatos por descobrirem a impressionante estatura do faraó negro.
Piankhi franqueou a porta do primeiro pilone e foi acolhido pelo grande sacerdote de Khnum, o deus carneiro que criava os seres na sua roda de oleiro e libertava a cheia erguendo a sandália pousada sobre o rio. No interior do esplêndido edifício de grés, cujas soleiras e portais eram de granito, pairava o odor do incenso.
— Este santuário é vosso, Majestade.
— Conduz-me à capela de meu pai.
Um pequeno compartimento em cujas paredes estavam esculpidas cenas figurando Kashta, o pai de Piankhi, em atitude de apresentar as oferendas a Khnum. Junto da estátua do fundador da dinastia núbia, uma Estela recordava que se deslocara a Elefantina e dotara ricamente o seu principal santuário.
Piankhi leu as colunas de hieróglifos que evocavam a perpétua ressurreição da alma de seu pai, na eternidade luminosa, em companhia dos justos.
E o pai falou-lhe por intermédio desses sinais capazes de atravessar as eras sem perder a sua força de transmissão. Alimentados pela existência permanente da pedra, os hieróglifos preservavam as palavras dos deuses pronunciadas na alvorada da vida.
E seu pai pediu-lhe que continuasse a sua obra como Ramsés tinha continuado a de Seti, como qualquer faraó devia continuar a do seu antecessor, pela felicidade das Duas Terras.
Piankhi teria podido explicar-lhe que a situação mudara, que a invasão de Tefnakhte o deveria ter incitado a permanecer em Napata para proteger melhor a Núbia, que já não era possível reunir o Alto e o Baixo Egito... Mas, por respeito, um filho não discute as diretivas de um pai que se tornou eterno.
Eram três, dois grandes e um pequeno. O pequeno comandava. Ordens secas e precisas, visto que conhecia perfeitamente o terreno. Antes da invasão de Tefnakhte, morava na aldeia situada no extremo sul da província de Liévre, na fronteira imposta pelo corpo expedicionário de Piankhi.
A intervalos regulares e próximos, acampamentos de soldados formavam uma linha de defesa impossível de franquear.
Impossível de franquear, exceto para os três homens treinados a rastejar como serpentes. Faltava ainda descobrir uma passagem que permitisse ao trio sair daquela ratoeira para se dirigir a Tebas a fim de estabelecer contacto com a rede de espionagem líbia e preparar o assassinato de Piankhi.
Já por quatro vezes o pequeno fora impedido de passar graças a uma vigilância mais meticulosa do que supusera. Os camaradas propuseram-lhe que voltassem para trás, mas ele tinha uma última idéia: o cemitério abandonado, no limite entre os campos cultivados e o deserto. Os egípcios eram supersticiosos, nenhum soldado estaria de guarda àquele lugar onde podiam circular os que regressavam do além. Deslizando entre os túmulos, o trio escaparia à vigilância do inimigo.
Logo que penetrou na necrópole, o pequeno teve a certeza que tinha encontrado a falha. No entanto, não abrandou a atenção, exigindo a mesma prudência dos dois outros. Logo que tivessem saído da província de Liévre, atravessariam um canal a nado, roubariam um barco de pescador e navegariam até aos arrabaldes de Tebas onde os esperava o chefe da rede de espionagem líbia.
Organizar um atentado contra Piankhi não seria fácil, mas certamente que se proporcionariam ocasiões. A chegada do faraó negro era um acontecimento tão excepcional que no decurso das festividades ou das recepções oficiais a segurança do soberano não poderia ser garantida de forma constante.
O trio passou ao lado de uma capela em ruínas, a última da necrópole. Um dos dois grandes tomara a dianteira. Voltava-se para anunciar alegremente que o obstáculo fora franqueado quando o braço de madeira do capitão Lamerskény lhe quebrou a nuca. O outro grande brandiu a espada curta, mas a acha do capitão cortou-lhe o pescoço. Quanto ao pequeno, tentou escapar-se pela necrópole, mas um soldado pregou-o ao solo com a sua lança.
— Tinha a certeza que tentariam uma estupidez deste gênero disse Lamerskény aos seus homens. Foi por isso que deixei uma única passagem possível... Estes imbecis julgavam sem dúvida que eu tinha medo dos fantasmas! Algum sobrevivente?
— Não, meu capitão.
— É pena, teríamos podido interrogá-los... Mas teriam mentido com certeza.
De regresso ao acampamento, Lamerskény matou a sede com cerveja forte e depois entrou na tenda de Puarma.
— Detive um trio de líbios que tentavam sair da província de Liévre. Estás a ver o que isto significa?
— Desertores?
— Para o sul? Claro que não! Dirigiam-se para Tebas.
— Tens alguma prova?
— Basta-me o meu instinto. E se se dirigiam para Tebas é porque tinham a certeza de serem bem acolhidos.
— Divagas, Lamerskény! Tebas é fiel a Piankhi.
— Estás convencido que Tefnakhte não tem lá nenhum partidário? Mesmo sendo pouco numerosos, alguns tebanos devem certamente ter apostado na vitória dos nortistas.
O capitão dos arqueiros ficou perturbado.
— Que conclusões tiras disso?
— Que aqueles três patifórios iam levar diretivas aos seus aliados tebanos para preparar um golpe traiçoeiro contra o faraó negro.
— Um atentado...
— Se Piankhi for morto, regressaremos a Napata para proteger a nossa capital e Tefnakhte terá o campo livre.
— Infelizmente, tens razão.
O galope de um cavalo ressoou na noite. O oficial encarregado do correio desmontou e apresentou-se perante os dois capitães. Entregou a Puarma duas finas tabuinhas de madeira, uma proveniente de Tebas e a outra da Falésia-das-grandes-vitórias, uma aldeia da província de Liévre.
O rosto de Puarma iluminou-se.
— Piankhi acaba de pisar o solo egípcio! Dirigiu-se ao templo de Khnum, em Elefantina, prestou honras à memória de seu pai e embarcou de novo para Tebas.
— Piankhi no Egito murmurou Lamerskény estupefato. Incrível...
O júbilo de Puarma extinguiu-se.
— A outra notícia não é tão boa: sob o comando de um dos filhos de Tefnakhte, os nortistas reconquistaram de surpresa a aldeia fortificada da Falésia-das-grandes-vitórias, que nos corta o caminho de Hermopólis.
— Desta vez, basta! rugiu Lamerskény, fazendo sobressaltar Puarma. Vamos retomar essa posição e provar ao faraó negro que não somos uns incapazes.
Reinava a discórdia no seio do conselho de guerra reunido por Tefnakhte. Alguns desejavam partir para o Norte, outros reforçar as defesas das cidades de Heracleopólis e Hermopólis, outros ainda travar uma batalha frontal contra Piankhi.
O príncipe Akanosh tomou a palavra.
— Sou um chefe de clã e um guerreiro, como vós. Provei no passado o meu valor e a minha coragem. Hoje, devemos fazer um balanço da nossa ação e mostrarmo-nos lúcidos. Nem nós nem Piankhi conseguiremos vencer porque as forças em presença se equilibram. Graças ao impulso dado por Tefnakhte, ao qual prometemos obediência, apoderámo-nos de uma região próspera: saibamos contentar-nos com isso e proclamemos Tefnakhte faraó deste vasto território que vai da extremidade do Delta até ao sul da província de Liévre!
— Esqueces Tebas! insurgiu-se Aurora. Sem a cidade de Amon, o deus das vitórias, o Egito não passa de corpo truncado e doente. Esse balanço que solicitas, não será motivo de esperança? As nossas posições estão solidamente estabelecidas e conseguimos atrair Piankhi ao Egito! O que significa essa viagem que ninguém esperava? Que o corpo expedicionário enviado pelo faraó negro fracassou e que ele receia Tefnakhte a ponto de ser obrigado a combatê-lo pessoalmente! É a primeira confissão de fraqueza desse usurpador que já não mete medo a nenhum dos nossos soldados.
A eloqüência de Aurora surpreendeu os orgulhosos chefes de clã líbios e nem sequer Akanosh ousou replicar.
— Desde que se encontra em solo egípcio, precisou Tefnakhte — Piankhi deixou de estar em segurança. Embora Tebas se encontre ainda sob o jugo do inimigo, não nos faltam lá partidários que não hesitarão em lutar pela nossa vitória.
O príncipe Pefteu ficou intrigado.
— Queres dizer, general, que Piankhi poderia ser... eliminado?
— Temos de vencer e todos os meios serão bons para o conseguir. O faraó negro faz mal em acreditar no caráter sagrado da sua própria pessoa e na sua invencibilidade por se encontrar na cidade santa de Amon. Ignora que ele é o passado e eu sou o futuro.
Em Tebas, o chefe da rede de espionagem líbia tomou conhecimento com despeito da morte dos três soldados mandatados por Tefnakhte para o auxiliarem. Apesar de experiente, o trio não tinha conseguido franquear a fronteira da província de Liévre.
Com eles, a coisa teria sido mais fácil... Mas era preciso ultrapassar o mais rapidamente possível a decepção e saber correr os riscos necessários para suprimir Piankhi. Há meses que o chefe da rede informava regularmente Tefnakhte da situação em Tebas e do avanço do exército vindo da Núbia. E a sua última mensagem tinha apenas algumas palavras: «Amanhã, Piankhi chega a Karnak.”
Era apenas o faraó negro que impedia Tefnakhte de conquistar o Egito e lhe impor a sua lei. Entre os núbios, não havia ninguém capaz de lhe suceder. Quando Piankhi estivesse morto, as suas tropas bateriam em retirada e voltariam para Napata. A fortaleza de Elefantina barrar-lhes-ia para sempre a passagem.
Mas não se devia vender a pele da pantera antes de a ter morto. Piankhi era uma fera temível, de instinto muito apurado, e seria necessário surpreendê-lo num momento de fraqueza em que não tivesse qualquer motivo para se mostrar desconfiado.
O chefe da rede sentia-se capaz dessa tarefa.
— Há muito que a deveria ter estrangulado! protestou Nartreb, massageando os tornozelos doridos. Essa Aurora é perigosa... Estende o seu domínio sobre esses estúpidos chefes de clã que só têm olhos para ela e a escutam deliciados.
Yegeb, que alinhava números numa velha tabuinha de madeira, era da mesma opinião do seu cúmplice.
— Poderíamos facilmente utilizar o veneno, mas a morte brutal dessa moça retiraria toda a força a Tefnakhte durante várias semanas, talvez mesmo vários meses, e ele não pode perder nada das suas qualidades de guerreiro no momento em que Piankhi se aproxima.
— Então o que propões?
— É preciso desacreditá-la, provar a Tefnakhte que não passa de uma intrigante de que ele se deve desembaraçar e não da futura rainha do Egito.
— Há novidades sobre o príncipe Akanosh?
— Nada respondeu Yegeb mas mantenho-o sob apertada vigilância. Há-de trair-nos, tenho a certeza... A menos que se tenha tornado demasiado cobarde e continue a encerrar-se nos seus aposentos com a esposa. Em todo o caso, não nos incomodará.
— Acreditas no êxito da conspiração tebana contra Piankhi?
— Se se tratasse de uma conspiração, não. Mas a manobra é muito mais subtil e a mordedura da serpente será tão rápida como inesperada. Piankhi está condenado.
— Muito bem... E se tratássemos de Aurora?
«Chamam-na a orbe do mundo inteiro, cantava um hino, porque as suas pedras angulares correspondem aos quatro pilares do céu: Tebas é a rainha das cidades, a divina, o olho do princípio criador, todas as cidades exaltam o seu nome! Na origem dos tempos, formou-se uma colina de areia e emergiu da água: sobre ela nasceu o mundo, sobre ela foi construída Tebas, o olho da luz.» Piankhi e Abilé choraram de alegria ao descobrirem a cidade das cem portas e dos inumeráveis templos. Soubera resistir à triste degradação do poder faraônico para preservar as tradições que o Norte, dominado pelo invasor líbio, tinha esquecido. Tebas, o santuário de Amon, o deus oculto que não tinha pai nem mãe, Tebas, a grande obra alquímica que Deus criara cozendo-a com a chama do seu olhar, Tebas onde o invisível revelava a sua mensagem para iluminar as Duas Terras no meio da obscuridade, Tebas que segurava os dois extremos da eternidade!
O olhar de Piankhi abriu-se como se nascesse para um mundo cujo mínimo pormenor sonhara com exatidão mas do qual só agora descobria a sublime realidade. E Tebas falou-lhe, pronunciando as palavras que pronunciava desde a sua fundação: é aqui, e apenas aqui, que um faraó é coroado, porque esta cidade celeste implantada na terra oferece ao rei um país e proporciona-lhe a capacidade de fazer viver, entre os homens, a harmonia dos deuses.
— Vem ter com o Faraó, Amon — salmodiou a rainha — tu que és corajoso como um pastor, e permite-lhe que alcance a margem da vitória; vem ter com ele, Amon, salvador do náufrago, e permite-lhe que alcance a terra da felicidade; vem ter com ele, Amon, o passador, e permite-lhe que alcance o Ocidente da paz.
O par real deixou o navio almirante descendo para uma barca que avançou lentamente pelo canal que ligava o Nilo ao templo de Karnak. Dois «sacerdotes puros» de crânio rapado remavam cadenciadamente, sob um sol esmagador coado pelos salgueiros.
O faraó e a esposa esperavam ser acolhidos pela Divina Adoradora, a irmã mais velha de Piankhi, apesar do seu estado de saúde. Mas foi um idoso sacerdote que se inclinou perante eles.
— Possa Amon conceder-vos a sua proteção, Vossas Majestades Em nome dos sacerdotes e das sacerdotisas de Tebas, permiti-me que vos apresente as boas-vindas.
— Porque está a minha irmã ausente?
— Infelizmente, Majestade, a Divina Adoradora está moribunda.
Piankhi sentiu vontade de se precipitar para a cabeceira da irmã, mas o ritual impunha-lhe que cumprisse um primeiro dever a partir do momento em que penetrava no domínio sagrado de Amon: fazer-lhe uma oferenda.
O faraó negro deu pois ordem aos seus marinheiros para trazerem para o templo vasos de ouro maciço com cerca de vinte quilos cada, jarros de prata, placas de ouro que seriam colocadas na base das colunas, mesas de oferenda em granito e diorito pesando de quatro a seis quintais, e várias toneladas de ouro que os ourives de Karnak utilizariam para executar objetos rituais e recobrir as estátuas divinas.
Apesar da angústia que lhe roia o coração, Piankhi voltou o seu espírito para o dom daquelas riquezas, sinal concreto da sua confiança em Amon. Sem o braço do deus oculto, a sua ação não seria irrisória?
Alfazema, a assistente da Divina Adoradora, pousou na testa da soberana de Tebas um pano úmido perfumado.
— Aperta-me a mão suplicou ela.
Alfazema tentou dissimular a sua angústia.
— Pareceis menos enfraquecida...
— Não mintas, sei que vou morrer... Piankhi já chegou?
— Os vigias anunciam a sua frota.
— Possa Amon dar-me forças para o esperar... Gostaria tanto de revê-lo!
— Vivereis, tenho a certeza... Se pudesse dar-vos um pouco da minha juventude!
— Guarda-a preciosamente, Alfazema... O meu tempo de vida termina e agradeço a Deus por me ter concedido tantos dias felizes neste templo, longe das torpezas humanas. Dá-me de beber, suplico-te...
Alfazema escondeu-se para chorar.
Enquanto deitava água fresca numa taça, um colosso de pele negra de ébano, vestido com um saiote orlado de ouro e acompanhado por uma jovem núbia de traços delicados, entrou nos aposentos da Divina Adoradora.
— Sois...
— A minha irmã está viva?
Alfazema curvou-se.
— Sim, Majestade! Desejava tanto a vossa vinda...
Quando a Divina Adoradora viu Piankhi, conseguiu soerguer-se e vencer durante alguns instantes o seu esgotamento. Irmão e irmã abraçaram-se longamente, sem necessitarem de dizer uma palavra.
Depois, o olhar da soberana de Karnak pousou em Chépéna.
— A tua filha... Como é bela! E como o seu olhar é profundo... Foi ela que escolheste para me suceder, não é verdade? Não te enganaste... Aproxima-te, Chépéna. As minhas últimas palavras são-te dirigidas. Vou transmitir-te os segredos da tua função para que cumpras sem falhas os teus deveres de Divina Adoradora.
Nessa mesma noite, uma hora depois da morte da irmã de Piankhi, a quem o faraó proporcionaria funerais dignos de uma rainha, Chépéna foi elevada à dignidade de Divina Adoradora e soberana de todos os templos de Tebas. Depois de se ter purificado numa lagoa, recebeu tecidos sagrados, foi vestida com um longo vestido cingido e calçada com sandálias douradas. Na cabeça, uma coifa em forma de cabeça de abutre evocava a mãe cósmica, a deusa Mut; na testa, a cobra fêmea, o uraeus em ouro; no pescoço, um longo colar de ouro simbolizava a fecundidade espiritual.
Tal como as Divinas Adoradoras que a tinham precedido, Chépéna comprometeu-se a não casar nem ter filhos. O seu único esposo seria o deus Amon, nos mistérios do qual foi iniciada durante uma «subida real» para o templo, à semelhança de um faraó.
Depois, a nova Divina Adoradora enfiou num espeto a estatueta em cera de um inimigo, mergulhando-a num braseiro para afastar de Tebas as forças más e reduzi-las à impotência. Por fim, como representante terrestre da deusa Tefenet, fogo secreto da criação, fez a oferenda de uma estatueta de Maât, símbolo da harmonia eterna do que era vivo.
Face aos dignitários religiosos e civis da cidade de Amon, Piankhi reconheceu a filha como Divina Adoradora, colocada à frente de um verdadeiro governo que compreendia um administrador, um chefe dos celeiros, escribas e diretores de oficinas. Chépéna poderia mandar edificar uma capela no recinto de Karnak onde, depois da sua morte, lhe seria prestado culto.
A madrugada despontava.
No termo de uma noite de ritual, Chépéna não sentia qualquer fadiga. No entanto, em poucas horas, perdera a sua juventude e a sua terra natal. A partir de agora, nunca mais sairia do recinto de Karnak, exceto para se dirigir à margem oeste, ao templo de Medinet Habu, onde seria enterrada ao lado de outras Divinas Adoradoras, próximo da colina onde dormiam os deuses primordiais.
Enquanto Chépéna contemplava o lago sagrado, a rainha Abilé veio até junto dela, iluminada pelos primeiros alvores do dia.
— Mãe...
— Eis o teu primeiro dia de reinado sobre este domínio sagrado, Chépéna. Celebrando todos os dias a invisível presença de Amon, manterás a ligação do Egito com o além. Estou tão feliz por ti e tão triste por saber que nunca mais regressarás a Napata! Perdoa que te sobrecarregue com os meus sentimentos... Precisas de força e deposito em ti a minha confiança.
As duas mulheres caíram nos braços uma da outra.
— Mostrar-me-ei digna da tarefa que o meu pai me atribui, mesmo que esse destino seja maior do que eu.
— O teu pai, tu e eu já não nos pertencemos. Desde a invasão de Tefnakhte, a alma do Egito dita-nos a nossa conduta e devemos servi-la com fervor para que as futuras gerações conheçam a felicidade que nós conhecemos.
— Aceita a rainha do Egito ser assistente da Divina Adoradora para celebrar os rituais da madrugada?
Com passo igual, mãe e filha dirigiram-se para o santuário do templo de Amon.
Tebas estava em efervescência.
A presença do faraó negro rejuvenescia a velha cidade e devolvia-lhe uma esperança que julgava perdida. De repente, via-se a sonhar com um Egito reunificado, colocado sob o governo de um monarca que seguiria os passos dos seus antepassados e restabeleceria, mesmo no Norte, a lei de Maât. Mas quem podia ignorar que esse improvável futuro passava por uma guerra implacável contra Tefnakhte, um conflito demorado e sangrento durante o qual morreriam milhares de homens?
Enquanto Piankhi não lançasse a grande ofensiva, ainda haveria oportunidade para organizarem banquetes e para se divertirem como se o amanhã devesse ser um dia feliz; assim, cada notável de Tebas convidou o faraó para a sua mesa com a esperança de passar um serão inesquecível. Mas o rei declinou todas as propostas e os nobres compreenderam que não sairia da caserna onde inspecionava as tropas estacionadas em Tebas desde o início do seu reinado.
E a cidade mergulhou pouco a pouco na tristeza, esperando que o faraó negro desse o sinal de partida. Desta vez, para esmagar Tefnakhte, não se contentaria em enviar um corpo expedicionário ao Médio Egito, mas envolveria sim a totalidade das suas tropas.
Quando Piankhi convocou o conjunto das personalidades tebanas para o grande pátio a céu aberto do templo de Karnak, nenhuma duvidou que iria anunciar a data da ofensiva geral. Há já vários dias que os núbios eram submetidos a um treino intensivo e não tinham licenças.
Os que não conheciam o faraó ficaram espantados com a sua força e magnetismo. Perante um guerreiro daquela estatura, o exército nortista não teria outra alternativa senão a fuga ou a derrota. E o sonho de vitória ressurgiu com vigor. E se esse núbio vindo das profundezas do Grande Sul tivesse a coragem de ir até ao fim da sua missão?
— Reuni-vos para vos anunciar uma importante notícia.
Todos sustiveram a respiração. Era o destino do país e da sua cidade santa que estava em jogo.
— Antes de continuar os combates contra Tefnakhte e os nortistas, desejo devolver às festas do Ano Novo e à de Opet a sua grandeza passada. Haverá tarefa mais essencial o que a celebração desses momentos rituais que, desde a origem da nossa civilização, nos permitem comungar com os nossos antepassados?
A estupefação foi total.
Em vez de atacar imediatamente Tefnakhte, Piankhi pensava em fazer reviver uma festa tradicional à qual os próprios tebanos, tendo em conta as circunstâncias, davam cada vez menos importância.
Teria o faraó negro perdido a razão?
A cidade de Heracleopólis cantava os louvores a Tefnakhte. Quem poderia duvidar da vitória final, quando todos os seus planos se concretizavam sem dificuldade?
Aurora estava cada dia mais entusiasta com a idéia de enfrentar o faraó negro e de o vencer. Ia freqüentemente à caserna para encorajar os soldados, encantados por poderem contemplar uma mulher tão bonita que, graças à sua determinação, em breve seria a sua rainha.
Saboreando a sua crescente popularidade, Tefnakhte assistia ao treino dos arqueiros quando Yegeb lhe trouxe uma mensagem proveniente de Tebas.
— Qual a razão desse ar triste, Yegeb?
— É incompreensível, senhor... No entanto, esta mensagem é autêntica! Tem exatamente o código do chefe da nossa rede de espionagem.
— Ele desiste de suprimir Piankhi?
— Com certeza que não, mas o comportamento do faraó negro é aberrante! Em vez de preparar as suas tropas para o combate e dar o sinal de partida para o Médio Egito, só se preocupa em celebrar a velha festa de Opet! Muitos pensam que endoideceu e que os deuses de Tebas o enfeitiçaram a ponto de o fazerem esquecer o sentido das realidades.
— Piankhi não é louco afirmou Tefnakhte. É uma artimanha destinada a fazer-nos baixar as guardas. Confiará a direção dos rituais à Divina Adoradora e lançará um ataque de surpresa no meio da festa. Redobremos de vigilância e intensifiquemos os nossos preparativos.
Estupefato, o capitão Lamerskény largou a taça de cerveja forte.
— O quê, a festa de Opet?
— O faraó decidiu conferir-lhe um brilho excepcional declarou o capitão Puarma em tom sereno.
— Não finjas, arqueiro, porque estás tão admirado como eu! Como pode um faraó pensar em divertir-se quando o seu país está dominado pela anarquia e pela guerra?
— Esta festa não é apenas um simples divertimento, bem o sabes, mas uma indispensável homenagem aos deuses.
— Ah, os deuses! Não serão eles que irão manejar a espada e a lança.
— A lenda afirma que foi Amon que permitiu a Ramsés o Grande vencer sozinho milhares de hititas, durante a batalha de Kadesh. E Piankhi é igualmente um protegido de Amon.
— Já passei da idade de acreditar em lendas! Os teus arqueiros estão preparados?
— Continuas a querer...
— Vou fazer a festa à minha maneira.
O chefe da rede de espionagem líbia implantada em Tebas interrogava-se sobre a estratégia a adotar. De princípio, julgara que o discurso de Piankhi não passava de uma fábula destinada a atrair a benevolência do clero local e iludir Tefnakhte; a seguir, tivera que admitir que o faraó negro tinha realmente a intenção de celebrar a festa de Opet com o maior esplendor possível, restaurando as antigas tradições que pouco a pouco tinham caído no esquecimento. Piankhi considerava que a comunhão com os deuses e o respeito pelos rituais eram indispensáveis para iluminar o futuro do país.
O amontoado dos cortesãos, a multidão em folguedo, a exaltação popular. .. outras tantas excelentes condições reunidas para desferir um golpe decisivo. Mas não se trataria de uma armadilha? Não seria fácil aproximar-se de Piankhi. A sua guarda pessoal estava vigilante e havia a rainha, essa escultural núbia tão atenta como uma tigresa e capaz, por si só, de fazer abortar uma tentativa de atentado.
Seria portanto necessário agir de forma mais subtil... E uma idéia germinou na cabeça do assassino.
O comandante líbio que se tinha apoderado da aldeia fortificada da Falésia-das-grandes-vitórias tivera a sorte inaudita de cair sobre um verdadeiro tesouro: na cave do governador havia ânforas de vinho tinto dos oásis com dez anos ou mais! Assim, todas as noites era organizado um banquete com os oficiais e algumas beldades locais a quem a desenvoltura militar não desagradava.
Segundo as informações provenientes do quartel-general de Heracleopólis, a situação mantinha-se estacionária e não evoluiria antes de várias semanas, talvez mesmo vários meses. Pela sua parte, o comandante estava convencido que Piankhi se instalaria em Tebas e renunciaria a meter-se numa luta de resultado incerto.
O conquistador dormia um sono sereno que uma ordenança veio desastradamente perturbar.
— Depressa, comandante, depressa!
— O que é?... Ainda é muito cedo para alguém se levantar.
— Estamos a ser atacados! O despertar foi brutal.
— Piankhi?
— Não sei... Os núbios não parecem muito numerosos.
— Então, é o corpo expedicionário!
Um terrível estrondo rasgou os tímpanos do comandante. Utilizando um aríete, os soldados de Lamerskény acabavam de arrombar a porta principal da aldeia fortificada, enquanto os arqueiros de Puarma, empoleirados numa torre móvel, eliminavam um a um os defensores colocados nas muralhas.
O comandante equipava-se à pressa com a sua couraça quando o filho de Tefnakhte, um jovem longilíneo de rosto desagradável, irrompeu no seu quarto.
—Os núbios... São os núbios! Havíeis afirmado que eles não nos atacariam!
— Vou organizar a vossa fuga.
— Eles... eles não se vão apoderar desta praça forte?
— Se Lamerskény está à cabeça dos seus homens, não passa de uma questão de minutos. Diante de um demônio daqueles, não temos qualquer hipótese.
— Devemos resistir! Tefnakhte não poderá aceitar a cobardia.
— Despacha-te, rapaz, é a tua vida que está em jogo. Lamerskény não faz prisioneiros.
Debruçando-se da janela, o comandante constatou que a situação era desesperada. O assalto desencadeado pelo capitão núbio fora tão violento que metade da guarnição líbia tinha sido massacrada em menos de uma hora. Do alto da sua torre móvel, os arqueiros núbios, infatigáveis e precisos, provocavam a devastação e impediam os defensores de se organizarem.
Seguindo cegamente o seu chefe, os soldados de infantaria de Lamerskény irrompiam no interior da Falésia-das-grandes-vitórias com uma fúria que gelava de terror os seus adversários. Com a sua acha de lâmina dupla, o capitão cortava o pescoço dos mais corajosos e, com o braço de acácia onde se tinham cravado duas flechas, derrubava os cobardes que imploravam piedade.