O Gato Preto

Edgar Allan Poe · Capítulo 1 de 1

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O Gato Preto

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Tradução

MARCIA HELOISA

 

Ilustrações

RAMON RODRIGUES

 

Volume 1

O

 

GATO

 

PRETO

 

1 8 4 3

 

Para a narrativa fantástica, embora prosaica, que estou prestes a re-

latar, não espero ou peço crédito. Eu seria louco se de fato esperasse

por isso, sendo uma história cujas evidências são rejeitadas por meus

próprios sentidos. Contudo, não sou louco — e, com toda a certe-

za, não foi um sonho. Mas amanhã estarei morto, e hoje preciso re-

mover este fardo de minha alma. Meu intento imediato é expor pe-

rante o mundo, de maneira direta, sucinta e sem especulações, uma

série de meros acontecimentos domésticos. Tais acontecimentos, em

suas consequên cias, me aterrorizaram, me torturaram, me destruí-

ram. No entanto, não tentarei explaná-los. Para mim, apresentaram-

-se como total Horror — para muitos, hão de parecer mais barrocos

do que terríveis. É possível que, doravante, algum espírito mais sá-

bio possa reduzir minha ilusão ao lugar-comum — algum sábio de

natureza mais calma, mais lógica e menos excitável do que a minha, que perceberá, nas circunstâncias que detalharei com assombro, nada

além de uma sucessão insuspeita de causas e efeitos bastante naturais.

Desde criança, sou conhecido por meu temperamento dócil e hu-

mano. A ternura de meu coração era conspícua a ponto de tornar-me

motivo de escárnio por parte de meus companheiros. Era especial-

mente afeiçoado aos bichos, e meus pais sempre me agradaram com

uma grande variedade de animais de estimação. Passava a maior parte

do tempo com eles e nada me alegrava mais do que alimentá-los e aca-

riciá-los. Esse traço de personalidade cresceu junto comigo e, na idade

adulta, constituía uma de minhas principais fontes de contentamen-

to. Para aqueles que já nutriram afeição por um cão fiel e sagaz, não

preciso me dar ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da

gratificação que obtemos de tal vínculo. Há algo de altruísta e abnega-

do no amor de um animal que toca o coração daquele que pôde testar

amiúde a amizade precária e a fidelidade leviana dos Homens.

Casei-me cedo e foi com alegria que descobri em minha esposa uma

inclinação semelhante. Observando a afeição que eu tinha pelos animais

domésticos, ela não hesitou em providenciar os mais adoráveis. Tivemos

pássaros, um peixe-dourado, um cão, coelhos, um mico e um gato.

Este último era um animal de porte e beleza sem par, todo negro

e de uma sagacidade impressionante. Ao comentar sobre sua inteli-

gência, minha mulher — que, no fundo, era um pouco influenciada

pela superstição — aludia repetidas vezes à antiga crendice popular,

segundo a qual todos os gatos pretos eram bruxas disfarçadas. Não

que ela acreditasse nisso de verdade — menciono o fato apenas por ter

me ocorrido à lembrança.

Plutão,1 o gato, era meu animal de estimação favorito, meu melhor

companheiro. Só eu o alimentava e ele me seguia por toda parte. Era com

dificuldade que o impedia de me seguir pelas ruas quando saía de casa.

 

1 Plutão, para os romanos, correspondia ao deus Hades na mitologia grega.

Conta-se que na divisão feita com seus dois irmãos, Júpiter (Zeus) e Netuno (Poseidon), Plutão assumiu o submundo, reinando sobre os mortos. Seu nome em grego (Hades) evoca sua característica de se fazer invisível (Aidos).

Nossa amizade conservou-se assim por vários anos, durante os

quais meu temperamento e minha personalidade — por obra do De-

mônio da Intemperança — experimentaram uma mudança radical (ru-

borizo ao confessar) para pior. A cada dia, tornava-me mais inconstan-

te, mais irritável, mais insensível aos sentimentos alheios. Dirigia-me

à minha esposa com uma linguagem intempestiva. Por fim, acabei fa-

zendo uso de violência física contra ela. Os animais, é claro, sentiram

as alterações em meu humor. Eu não apenas os negligenciava, como

passei a maltratá-los. No entanto, conseguia manter estima suficiente

por Plutão para não o atormentar, como fazia sem escrúpulos com os

coelhos, o mico ou até mesmo o cão, quando, por acidente ou afeição,

eles se punham em meu caminho. Porém, a doença tomou conta de

mim — pois o álcool é uma doença! — e, por fim, até mesmo Plutão

(que já estava ficando velho e, portanto, um pouco impertinente), até

mesmo ele passou a sofrer os efeitos do meu mau gênio.

Certa noite, ao chegar em casa muito embriagado após uma de mi-

nhas incursões noturnas pela cidade, cismei que o gato me evitava.

Eu o segurei à força e, assustado com tanta violência vinda de mim, ele

feriu minha mão com uma leve mordida. Na mesma hora, fui possuí-

do por uma fúria demoníaca. Mal podia me reconhecer. Minha alma

parecia ter escapado e uma maldade mais do que diabólica, alimenta-

da pelo gim, eletrizava cada fibra de meu corpo. Tirei um canivete do

bolso do casaco, abri-o, agarrei o pobre animal pelo pescoço e, delibe-

radamente, removi um de seus olhos! Sinto-me ruborizar, sinto-me

febril e estremeço ao relatar tamanha atrocidade execrável.

Quando recuperei a razão na manhã seguinte — tendo depura-

do em sono o veneno dos excessos noturnos —, experimentei uma

mescla de horror e remorso pelo crime do qual era culpado; mas foi,

na melhor das hipóteses, um sentimento débil e ambíguo, e minha

alma permanecia impermeável. Mais uma vez, mergulhei em excessos

e logo afoguei no vinho a lembrança de meu feito.

Entrementes, o gato foi se recuperando aos poucos. A órbita do

olho removido, é bem verdade, exibia uma aparência tenebrosa, mas

ele não mais parecia sofrer dor alguma. Vagava pela casa como de costume, porém, como se poderia imaginar, fugia em terror absolu-

to quando eu me aproximava dele. Preservava ainda uma porção su-

ficiente de meu antigo coração para lamentar a evidente ojeriza de

uma criatura que outrora me amara tanto. Entretanto, tal sentimento

logo deu lugar à irritação. E então, em minha queda derradeira e ir-

revogável, apossou-se de mim o espírito da perversidade. A filosofia

ignora tal espírito. Contudo, com a mesma certeza com que creio em

minha alma, acredito que a perversidade seja um dos impulsos primi-

tivos do coração humano — uma de suas faculdades primárias indivi-

síveis, ou sentimentos, que fornecem direção ao caráter do Homem.

Quem, centenas de vezes, não se viu cometendo um ato vil ou estú-

pido pelo simples motivo de saber que lhe é proibido? Não temos uma

inclinação perpétua, a despeito de nosso juízo, para violar a Lei ape-

nas por compreendê-la como tal? O espírito da perversidade, eu di-

zia, trouxe-me a derrocada final. Foi esse anseio insondável da alma

em se conspurcar — de oferecer violência à própria natureza, de mal-

tratar por maltratar — que me impeliu a continuar e, por fim, con-

sumar o dano que já infligira a um animal que jamais me causara mal

algum. Em uma manhã, a sangue-frio, passei uma corda ao redor de

seu pescoço e o pendurei no galho de uma árvore; enforquei-o com

as lágrimas correndo por meu rosto e sentindo a pontada do remor-

so mais pungente em meu coração; enforquei-o porque sabia que ha-

via me amado e porque sentia que não me dera motivo algum para lhe

causar mal; enforquei-o por saber que, ao fazê-lo, estava cometendo

um pecado — um pecado mortal que, se possível, colocaria em risco

minha alma eterna, alijando-a para além da misericórdia infinita do

Deus Mais Piedoso e Mais Terrível.

Durante a noite, no dia em que cometi tal ato cruel, fui desper-

tado de meu sono por um grito acusando incêndio. As cortinas de

meu quarto estavam pegando fogo. A casa inteira ardia em chamas.

Foi com grande dificuldade que minha esposa, meu criado e eu conse-

guimos escapar do fogaréu. A destruição foi absoluta. Toda a riqueza

mundana que eu possuía foi devorada pelo fogo e fui obrigado a resig-

nar-me diante do desespero.

Não vou ceder à fraqueza de buscar estabelecer uma relação de

causa e efeito entre o desastre e a atrocidade. No entanto, estou de-

talhando uma cadeia de fatos — e não quero deixar solto nenhum elo

possível. No dia posterior ao incêndio, visitei as ruínas. As paredes,

com uma única exceção, haviam desmoronado. Restou apenas uma

parede interna, não muito espessa, que se erguia no meio da casa, con-

tra a qual repousava a cabeceira de minha cama. Seu reboco resistira,

em grande medida, à ação do incêndio — fato que atribuí à sua aplica-

ção recente. Em torno dessa parede, reunira-se uma expressiva mul-

tidão e várias pessoas pareciam examinar uma região específica com

muita atenção e interesse. Exclamações como “Estranho!”, “Singular!”

e outras semelhantes despertaram minha curiosidade. Aproximei-me

e vi, como se entalhado em baixo relevo na superfície branca, a figu-

ra de um enorme gato. A imagem era de uma precisão extraordinária.

Havia uma corda em volta do pescoço do animal.

Quando fitei aquela aparição — decerto fantasmagórica —, expe-

rimentei grande surpresa e horror. No entanto, por fim, fui acudido

pela razão. O gato, relembrei, havia sido enforcado em um jardim con-

tiguo à casa. Ao alarme de incêndio, o jardim fora de pronto invadido

pela multidão e alguém deveria ter removido o animal da árvore, ati-

rando-o em meu quarto pela janela aberta. Isso deve ter sido feito no

intuito de me despertar do sono. A queda das demais paredes compri-

mira a vítima de minha crueldade na massa do emboço recém-feito;

a cal, com as chamas do incêndio e a amônia da carcaça do animal, fora

responsável pelo relevo que eu agora contemplava.

Embora tenha sem demora apelado para a razão, bem como para

a consciência, a fim de justificar o fato surpreendente que acabo de

detalhar, não pude evitar que causasse profunda impressão em minha

mente. Por meses a fio, não consegui me livrar do fantasma do gato; e,

durante esse ínterim, tornei a experimentar um sentimento impreciso

que parecia, mas não era, remorso. Cheguei de fato a lamentar a per-

da do animal e a buscar ao meu redor, nos redutos torpes que passara

a frequentar com assiduidade, outro bicho de estimação da mesma es-

pécie, com aparência semelhante, que pudesse substituí-lo.

Certa noite, entorpecido em um antro de incontestável infâmia,

atinei para uma silhueta preta, repousada sobre a tampa de um dos

imensos barris de gim ou de rum, que compunham praticamente

toda a mobília do local. Contemplei, concentrado, a superfície do

barril por alguns minutos e surpreendi-me ao constatar que não per-

cebera a sombra antes. Aproximei-me e a toquei com a mão. Era um

gato preto — um felino imenso — tão grande quanto Plutão e pare-

cido com ele em todos os aspectos, com uma única exceção. Ao con-

trário de meu antigo animal, que não possuía um único pelo branco

no corpo, o gato exibia uma extensa mancha branca, indefinida, que

lhe cobria todo o peito.

Tão logo foi tocado, ele se levantou, ronronando alto, e pôs-se a se

esfregar em minha mão, mostrando-se satisfeito com a atenção. Pare-

ceu-me ser exatamente o animal que estava procurando. Ofereci-me

para comprá-lo do proprietário do local; ele, no entanto, alegou não

ser o dono — nada sabia ao seu respeito nem nunca o vira antes.

Continuei a afagá-lo e, quando estava prestes a ir embora, o animal

manifestou desejo de acompanhar-me. Aceitei que me seguisse; cur-

vava-me, de quando em vez, para acariciá-lo. Ao chegarmos em casa,

ele logo se mostrou à vontade no novo espaço, tornando-se de imedia-

to o favorito de minha mulher.

Quanto a mim, não tardou para que eu percebesse em meu íntimo

uma crescente aversão ao animal. Era o oposto do que eu previa; mas

não sabia como ou por que sua evidente afeição me enojava e irrita-

va. Aos poucos, o nojo e a irritação deram lugar à amargura do ódio.

Eu o evitava. Uma certa vergonha e a lembrança de meu ato de cruel-

dade me impediam de machucá-lo fisicamente. Por algumas semanas,

não lhe bati ou maltratei; mas, pouco a pouco — de maneira bem gra-

dual —, passei a fitá-lo com indizível ojeriza e a fugir de sua odiosa

presença como quem evita um ar pestilento.

O que agravou, sem dúvida, meu ódio pelo animal foi a descober-

ta, na manhã seguinte, de que, como Plutão, ele também havia per-

dido um dos olhos. Tal circunstância tornou-o ainda mais caro à mi-

nha mulher, que, como já mencionei, possuía um temperamento assaz humano, o qual, outrora, representara um traço de meu caráter, bem

como a fonte de muitos de meus mais simples e puros deleites.

Minha aversão ao gato, no entanto, parecia crescer em escala pro-

porcional à sua predileção por mim. Ele seguia meus passos com uma

tenacidade que o leitor dificilmente poderá compreender. Quando me

sentava, aninhava-se sob minha cadeira ou pulava em meu colo, co-

brindo-me com suas repulsivas carícias. Se me levantava para andar,

metia-se entre meus pés quase me fazendo tropeçar ou, cravando as

garras longas e afiadas em minha roupa, subia por meu corpo até al-

cançar o peito. Nessas ocasiões, embora desejasse destruí-lo com um

golpe, ainda conseguia me conter, em parte pela memória do crime

que cometi anteriormente, mas, sobretudo — deixe-me confessar de

uma vez —, pelo pavor absoluto que o animal me inspirava.

Não temia exatamente um dano físico; contudo, não saberia defi-

nir esse medo de outra maneira. É com muita vergonha que admito —

sim, mesmo agora, condenado nesta cela, é com muita vergonha que

admito — que o terror e o horror que o animal me inspirava haviam

sido exacerbados por um dos devaneios mais triviais que se possa con-

ceber. Minha esposa chamara-me a atenção, mais de uma vez, para

o aspecto da mancha branca do animal, à qual já me referi e que cons-

tituía a única diferença visível entre a misteriosa criatura e o gato que

eu destruíra. O leitor há de recordar que tal mancha, embora exten-

sa, era originalmente indefinida; mas, aos poucos — de modo quase

imperceptível, com o qual minha mente lutou por muito tempo para

rejeitar como fantasioso —, ela foi ganhando um contorno cada vez

mais nítido. Era então a representação de um objeto que tremo ao no-

mear — e, por esse motivo, acima de todos os demais, eu abominava,

temia e teria me livrado do monstro se tivesse tido coragem; era agora,

como ia dizendo, a imagem de algo horrendo, macabro: a imagem de

uma forca! Ah, lúgubre e tenebroso instrumento do Horror e do Cri-

me, da Agonia e da Morte!

Eu agora estava desgraçado para além de qualquer tragédia huma-

na. E que um animal estúpido, cujo semelhante eu destruíra com tama-

nho desprezo, que um animal estúpido fosse capaz de impingir a mim — a mim, homem, feito à semelhança do Deus Altíssimo — um sofri-

mento tão insuportável! Ai de mim! Passei a desconhecer, fosse dia ou

noite, a benção do repouso! Durante o dia, a criatura não me deixava

um instante sozinho; à noite, despertava de hora em hora de sonhos

de inexprimível pavor para me deparar com aquele demônio baforan-

do seu hálito quente em meu rosto, o corpo volumoso — um pesadelo

encarnado do qual não podia me desvencilhar — pairando como um

peso eterno sobre meu coração!

Soterrado pela pressão de tais tormentos, o resquício de bonda-

de que havia em mim sucumbiu. Pensamentos malignos tornaram-se

meus únicos companheiros íntimos — as ideias mais tenebrosas e so-

turnas. A instabilidade de meu habitual temperamento acentuou-se

em um ódio generalizado de tudo e por todos; enquanto isso, minha

resignada esposa era a principal e mais paciente vítima dos ataques

súbitos, frequentes e incontroláveis de uma fúria à qual eu então me

abandonava cegamente.

Certo dia, ela me acompanhou, por ocasião de um afazer domés-

tico, até o porão da velha casa onde fomos obrigados a morar em vir-

tude de nossa pobreza. O gato me seguiu, descendo pelos íngremes

degraus e, quase me fazendo cair de cabeça, exasperou-me às raias da

loucura. Erguendo um machado e esquecendo, em minha ira, o pavor

pueril que até então me cerceara, preparei um golpe que, é claro, teria

sido fatal caso eu tivesse acertado o alvo. Porém, a mão de minha mu-

lher o impediu. Instigado, pela interferência, a uma ira ainda mais de-

moníaca, desvencilhei-me do toque dela e enterrei o machado em seu

crânio. Ela caiu morta na hora, sem emitir um único gemido.

Após cometer o hediondo assassinato, engajei-me de imediato,

com total deliberação, na tarefa de ocultar o cadáver. Sabia que se-

ria impossível removê-lo da casa, fosse de dia ou de noite, sem cor-

rer o risco de ser observado pelos vizinhos. Diversas ideias me ocor-

reram. Em determinado momento, pensei em esquartejar o corpo em

diminutos fragmentos e depois destruí-los no fogo. Depois, ponderei

se deveria cavar uma cova no assoalho do porão. Mais adiante, cogitei

arremessá-lo no poço do jardim. Ocorreu-me também embalá-lo em uma caixa, como se fosse uma mercadoria, com todos os arranjos ha-

bituais, e arrumar um carregador para retirá-lo da casa. Por fim, optei

pela solução que me pareceu melhor do que qualquer uma das ante-

riores. Decidi emparedá-lo no porão — como, segundo relatos, faziam

os monges com as suas vítimas na Idade Média.

O local era bem adaptado para tal propósito. As paredes não eram

muito sólidas e haviam sido recentemente emboçadas com um gros-

so reboco que não estava ainda de todo firme em virtude da umidade

do local. Ademais, em uma das paredes, havia uma reentrância, pro-

jetada como uma falsa chaminé ou lareira, que fora preenchida para

se igualar ao restante do porão. Logo constatei que podia desalojar os

tijolos naquele lugar, acomodar o cadáver e vedar a parede novamen-

te, de modo que observador algum jamais poderia desconfiar de que

havia algo suspeito ali.

Meus cálculos não me enganaram. Com a ajuda de um pé de ca-

bra, removi com facilidade os tijolos e, após ter depositado com muito

cuidado o cadáver contra a parede interna, imobilizei-o nessa posição

enquanto reerguia, sem grande dificuldade, a estrutura tal como es-

tivera antes. Após localizar argamassa, areia e fibras com extremada

precaução, preparei um reboco semelhante ao antigo e apliquei-o com

muito cuidado sobre a nova estrutura. Ao concluir o trabalho, fiquei

satisfeito com o bom resultado. A parede não traía qualquer indício

suspeito. Recolhi a sujeira do chão com atenção minuciosa. Olhei ao

redor, triunfante, e disse a mim mesmo: “Aqui, pelo menos, meu tra-

balho não terá sido em vão”.

O próximo passo foi procurar a criatura que havia causado tama-

nha desgraça; estava firmemente decidido a matá-lo de uma vez por

todas. Se o tivesse encontrado naquele momento, o destino do animal

não teria sido outro; mas, ao que parecia, o engenhoso bicho alarma-

ra-se com a violência de minha raiva e evitava se expor em minha pre-

sença, estando eu naquele estado de espírito. É impossível descrever

ou imaginar o alívio profundo e regozijante que a ausência da detes-

tável criatura provocou em mim. Ele não apareceu durante a noite —

e dessa forma, pela primeira vez desde que o gato fora morar conosco, tive um sono tranquilo; sim, dormi bem, mesmo com o fardo do crime

pesando em minha alma!

O segundo e o terceiro dias se passaram sem que meu algoz re-

gressasse a casa. Pude, mais uma vez, respirar aliviado a liberdade.

O monstro, aterrorizado, fora embora para sempre! Nunca mais o ve-

ria novamente! Minha felicidade era absoluta! A culpa por meu ato

sombrio sequer me perturbava. Foram feitas algumas investigações,

mas respondi de pronto a todas as perguntas. Conduziram até mesmo

uma busca — mas, é claro, nada foi descoberto. A alegria futura pare-

cia-me garantida.

No quarto dia após o assassinato, um grupo de policiais apareceu

de surpresa em minha casa a fim de executar uma rigorosa investiga-

ção no local. No entanto, estava tão seguro acerca da inescrutabili-

dade do esconderijo que não me senti nem um pouco acuado. Os po-

liciais solicitaram que eu os acompanhasse em sua busca. Canto ou

nicho algum escapou de seu escrutínio. Por fim, pela terceira ou quar-

ta vez, desceram ao porão. Mantive-me estoico. Meu coração batia

com a tranquilidade dos que repousam inocentes. Atravessei o porão,

de um lado para o outro. Cruzando os braços, perambulei por toda

sua extensão. Os policiais, mais do que satisfeitos, já estavam prontos

para partir. Contudo, a euforia em meu peito era muito forte para ser

contida. Ansiava por dizer apenas uma palavra, à guisa de triunfo, para

certificar-me de que estavam convencidos de minha inocência.

— Cavalheiros — disse-lhes, por fim, enquanto subiam as escadas

— estou feliz por ter aplacado suas suspeitas. Desejo-lhes saúde e um

pouco mais de cortesia. À propósito, esta... esta é uma casa muito bem

construída. — Na ânsia desarrazoada de comentar uma amenidade,

eu mal sabia o que estava dizendo. — Extremamente bem construí-

da, se me permitem dizer. Estas paredes... Já estão de saída, cavalhei-

ros?... Estas paredes foram assentadas com muita solidez. — E, nesse

momento, tomado pelo frenesi da bravata, golpeei com a bengala que

trazia na mão o local exato onde, oculto sob os tijolos, jazia o cadáver

de minha estimada mulher.

Que Deus me livre e guarde das presas do Demônio! Mal silenciara

o eco dos meus golpes, reverberou uma voz vinda do túmulo! Um gri-

to, primeiro abafado, entrecortado como o choro de uma criança, que,

logo depois, cresceu em um som ensurdecedor e contínuo, anormal

e inumano — um urro — um lamento pungente, que mesclava horror

e triunfo, do tipo que só poderia ter vindo do inferno, escapando da

garganta dos amaldiçoados em sua agonia e dos demônios que exul-

tavam na danação.

É tolice relatar os pensamentos que me tomaram naquele momen-

to. Desfalecendo, cambaleei até a parede oposta. Por um momento, os

policiais parados na escada mantiveram-se imóveis, tomados por ter-

ror e espanto. Logo em seguida, doze braços fortes arrancavam os tijo-

los. A parede veio abaixo. O corpo, já em avançado estado de decom-

posição e coberto de sangue coagulado, pairava ereto diante de seus

espectadores. Sobre a cabeça do cadáver, com a boca aberta em um ric-

to escarlate e um único olho flamejante, sentava-se a criatura hedion-

da cuja artimanha me compelira ao crime e cuja voz delatora haveria

de me condenar à forca. Eu emparedara o demônio dentro do túmulo!

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