O Partido Revolucionário Cubano de José Martí: concepção ético-política original
Biografia e trajetória política de José Martí
Biografia e trajetória política de
José Martí
José Julián Martí y Pérez nasceu em Havana em 28 de janeiro de 1853 e morreu em 19 de maio de 1895, no combate de Dos Ríos, num dos tantos enfrentamentos contra as tropas da Espanha na última guerra pela independência de Cuba, de cara al sol, como ele tinha sonhado em verso memorável.
Seus pais, Mariano Martí e Navarro e Leonor Pérez Cabrera, nasceram, respectivamente, em Valencia (Espanha) e em Santa Cruz de Tenerife (Ilhas Canárias) e se casaram em Havana.
Em 1857, seu pai, com problemas de saúde, renunciou a seu trabalho como primeiro-sargento do Corpo Real de Artilharia e embarcou com a família para a Espanha. A família regressou dois anos depois e o pai teve um emprego do governo em uma região rural onde Martí pôde ver de perto os horrores da escravidão. A visão de um escravo assassinado o acompanhou durante toda a vida e se viu refletida anos depois em seu poemário Versos Simples.
Em 10 de outubro de 1868, Carlos Manuel de Céspedes deu o grito da independência e começou a luta pela libertação, guerra que se estendeu por dez anos. Cuba então recebeu um novo governador, de ideologia liberal, disposto a terminar com a guerra mediante a implementação de reformas, entre elas a liberdade de imprensa.
Martí compartilhou da inquietação geral, pois entre os estudantes crescia a agitação política e nas ruas havia choques entre cubanos e peninsulares. Aumentava a pressão anticubana e ocorriam ações de extrema violência. A ansiedade crescia entre os jovens havaneiros e os lutadores clandestinos (chamados Laborantes), e no colégio São Paulo eram lidos poemas clandestinos e sátiras impressas, e muitos conspiravam, apesar da censura da imprensa e da repressão instaurada pelos representantes do governo de Espanha.
Martí e seus amigos desejavam incorporar-se à luta no campo, mas as saídas da cidade estavam bloqueadas e o único caminho, bastante difícil, seria tentar fugir para o estrangeiro para depois regressar à região oriental em uma expedição.
Durante o período de liberdade de imprensa, surgiram numerosos jornais e entre eles, El Diablo Cojuelo, cujo único número saiu em 19 de janeiro de 1869, com a colaboração de José Martí, nos artigos de fundo, não isentos de ironia, especialmente aos limites impostos, já que se podia escrever sobre tudo, exceto da abolição e da independência.
Martí preparou o único número do seu semanário democrático-cosmopolita, La Patria Libre, onde aparecem os seus poemas patrióticos, entre os quais “Abdala”, símbolo trágico da luta que marcará toda sua vida, entre o amor filial e a mãe maior, como chamava a pátria.
Os pais viam com preocupação a repressão e a violência do governo e o perigo que isso constituía para seu filho e para seu lar. Rafael María de Mendive, mestre de Martí desde tenra idade e do qual recebe as primeiras sementes de rebeldia, foi preso e depois embarcou para seu desterro na Espanha.
Em outubro de 1869, foi preso após ter escrito, com um amigo, uma carta criticando um ex-colega de escola que se unira às tropas espanholas. Foi julgado e condenado a seis anos de prisão com trabalhos forçados, a pena mais alta de todos seus amigos, apesar de ser menor de idade – tinha apenas 16 anos. Em sua perna direita colocaram um grilhão. Esse tempo na prisão afetou sua saúde e pôde ver os aspectos mais horríveis do regime colonial.
Os pais de Martí, atemorizados por seu estado de saúde e por seu futuro, começaram a realizar gestões para conseguir um indulto, alegando sua menoridade e que necessitavam dele no lar com sete filhas. Sua pena foi comutada alguns anos depois e Martí foi desterrado para a Espanha.
Na península publicou um folheto “O presídio político em Cuba”, testemunho de denúncia e crítica do colonialismo da guerra. Continuou seus estudos e se matriculou no curso de Direito na Universidade Central de Madri e deu aulas particulares, leu muito, apesar de doente, resultado do tempo de prisão.
Martí conheceu as características do liberalismo espanhol, diferente do cubano e compreendeu que nem os conservadores nem os liberais tinham condições de propor soluções adequadas para os problemas de Cuba.
Em 1873 foi proclamada a primeira República espanhola e, com a chegada dos liberais ao poder, pareceu haver um raio de esperança. Em uma varanda, Martí colocou a bandeira da estrela solitária e publicou seu folheto “A República Espanhola ante a Revolução Cubana”, exigindo dos republicanos uma atitude consequente com os princípios e o reconhecimento da liberdade de Cuba, o que não aconteceu. Nesse mesmo ano, sua família se mudou para o México, pois em Cuba estava sem trabalho e sem possibilidade de se unir a Martí.
Em junho de 1874 recebeu o grau de Licenciado em Direito Civil e Canônico. Martí e seu amigo Fermín Valdés Domínguez, também desterrado, se encontraram na França, visitaram outras cidades europeias e depois Martí embarcou até Nova York rumo ao México, para reunir-se com seus familiares. No México também se enfrentavam forças democráticas e progressistas contra as conservadoras. Todas as experiências vividas por Martí em plena juventude lhe permitiram meditar sobre o futuro de Cuba e as tarefas necessárias na luta contra o colonialismo.
Voltou a Cuba em 1877, foi à Guatemala e continuou dessa forma aprofundando seus conhecimentos da realidade dos povos latino-americanos amadurecendo politicamente. Casou-se, nesse mesmo ano, no México, com Carmen Zayas Bazán, da província de Camaguey (Cuba), que conhecera no México.
Terminada a guerra em 1878, regressa a Cuba. Nasce seu filho José, o Ismaelillo de seu poemário, e Martí fica junto a sua família. Solicitou autorização para exercer a função de advogado, mas lhe foi negada. Trabalhou em um escritório de advocacia e realizou um intenso trabalho literário, destacando-se também como orador. Conheceu a nova política autonomista permitida depois da guerra, mas a recusou por entender que não solucionaria os problemas de Cuba.
Em 1879 Martí se uniu ao movimento que conspirava para recomeçar a luta armada e terminou detido pelas autoridades com outros cubanos. Foi desterrado para Espanha pela segunda vez e, pouco depois, seguiu para Nova York, onde continuaria suas atividades revolucionárias. Destacou-se entre os emigrantes por seus discursos patrióticos e chegou a presidir o Comitê Revolucionário Cubano nos últimos meses dessa tentativa fracassada.
Em 1881, viajou à Venezuela, onde permaneceu por quase um ano. Nesse país realizou um amplo trabalho literário e jornalístico antes de regressar definitivamente a Nova York, cidade onde residiria até 1895.
Martí ocupou vários cargos de renome, como os de cônsul da Argentina, do Uruguai e do Paraguai em Nova York. Sua esposa e filho, depois de regressar a Cuba em 1885, voltaram para Nova York em 1889, quando aconteceu a separação definitiva do casal. Em seguida Martí caiu enfermo. Em 1892, ocorreu a proclamação do Partido Revolucionário Cubano, cujas bases e estatuto foram redigidos por ele, e Martí começou uma intensa etapa de viagens, reuniões, entrevistas com patriotas em vários lugares, com contatos mais sistemáticos com Máximo Gómez e Antonio Maceo, figuras de proa da luta revolucionária cubana. Em 1893, foi vítima de um envenenamento. Em 25 de março de 1895, assinou com Máximo Gómez o Manifesto de Montecristi, declaração conclamando a um novo período de guerra pela independência de Cuba.
Em 1895 chegou a Cuba e se reuniu com Máximo Gómez e Antonio Maceo para organizar a guerra recém-iniciada. Desde o início tentou pôr em prática suas concepções políticas para garantir, no futuro, a criação de uma república trabalhadora e democrática, com instituições e princípios que garantissem a verdadeira democracia.
Martí chegou a Cuba na condição de Delegado do Partido Revolucionário Cubano e de organizador principal da guerra. Nos primeiros dias recebeu do Generalíssimo Máximo Gómez o grau de Major Geral do Exército Libertador. Entrou em combate, pela primeira vez, em 19 de maio de 1895 na localidade de Dos Ríos e foi mortalmente ferido.