O Partido Revolucionário Cubano de José Martí: concepção ético-política original
Capítulo III – A política e a ética na política
Capítulo III – A política e a ética
na política
A Revolução (trecho)
Nem com a lisonja, nem com a mentira, nem com o alvoroço se ajuda verdadeiramente uma obra justa. A virtude é calada, nos povos como nos homens. Partido cacarejador, partido fraco. Até de ser justo com quem o merece deve ter medo um partido político, não seja que a justiça pareça adulação; a verdade não anda buscando saudações, nem saudando: só os pícaros necessitam treva e cúmplices: os partidos políticos costumam acariciar, melosos, a multidão em que se sustentam, a reserva de abandoná-la, covardes, quando com sua ajuda hajam subido onde possam emancipar-se dela. Tantos agiotas lhe saem à liberdade, tanta alma mercenária prospera com sua defesa, tanto aristocrata astuto mascara, com palavreado piedoso, o orgulho de seu coração, que dá medo – por não lhes parecer – falar de liberdade. O bom é fundá-la caladamente. O bom é servi-la, sem pensar na própria pessoa. Dos homens e de suas paixões, dos homens e de suas virtudes, dos homens e de seus interesses se fazem os povos. Os inimigos da liberdade de um povo, não são tanto os forasteiros que o oprimem, como a timidez e a vaidade de seus próprios filhos. O ofício dos libertadores não é devorarem-se entre si, e acotovelarem-se uns a outros diante da multidão, e olhar com raiva o que lhe cerra a passagem, e derretê-lo com o fogo dos olhos, e jogá-lo para trás a unhadas e mordeduras, e pôr-se adiante, onde todo o mundo o veja, como a odalisca que por fim atraiu os olhares do sultão: o ofício dos libertadores não é alugar eloquências, pagar penas, adular satélites, acaudilhar bandos, assalariar hipócritas, encobrir espiões, custear vícios, pensionar sem-vergonhice: nem é ofício dos libertadores ir de ouvido em ouvido fazendo cócegas no patriotismo, mendigando o cumprimento do dever, ofendendo os homens com a suposição de que lhes é preciso manipular ou mentir para que tenham fé em si próprios ou na pátria, denunciando puerilmente o trabalho revolucionário, que na ideia há de ser público e, na ação, completamente secreto.Os que trabalham para si ou para sua popularidade ou para manter-se sempre onde se aplauda ou se veja, sem ver o dano que a sua pátria causem, publicarão sua atividade, por não parecerem inativos; falarão vaidosamente, para que não os tachem de moderados; bradarão a todos os ventos o que fazem, para que lhes premiem e os aplaudam, ainda que cada palmada que saúdem sua imprudência seja o sinal para a prisão de um homem bom ou a morte de um herói futuro no patíbulo. Os que não trabalham para si, mas para a pátria; os que não amam a popularidade, mas ao povo; os que não amam a vida em si, mas pelo bem que podem fazer nela, esses, mão a mão com todos os homens honrados, com os que não necessitam de lisonja nem comunicação com os que não tiram da vaidade seu patriotismo, mas da virtude, levam adiante, ainda que das gotas de seu coração vão regando o amargo caminho, a obra de ligar os elementos dispersos e hostis que são indispensáveis à explosão da liberdade e de seu triunfo, de exaltar as virtudes de maneira que possam mais que as tentações e máculas dos virtuosos, de passar por entre as vaidades erguidas de modo que a irmandade e a mansidão, e voluntária humilhação, triunfem sobre o susto dos ambiciosos ou o rancor dos altivos, de atrair os fatores todos da pátria à campanha de sua redenção final, a fim de entrar nesta com todos, e não com uns contra outros, de juntar em invencível séquito aos que defendem sem medo a justiça inteira e aos que padecem de uma ou outra forma da tirania: o qual requer mais silêncio que língua; o qual se faz melhor enquanto mais se cala; o qual é mais útil que uma política pessoal e aparatosa, ainda que adule menos e corrompa, ainda que brilhe menos.
Enquanto se está elaborando uma revolução, enquanto se lhe afastam os obstáculos que o inimigo põe em seu caminho e se acomodam e fundem os fatores vários e resvalantes com que se há de acometer, enquanto estende, por um país minado de espionagem sutil o conhecimento da força e desinteresse da obra redentora, enquanto se aperta e arremata a obra interrompida a cada passo pelas astúcias do inimigo e nossos medos e vaidades que o iluminam e assessoram, a tarefa da revolução adianta o forçoso silêncio. Só ao governo da Espanha interessa quebrar este governo: ao governo, e àquelas almas pálidas e venenosas a quem paga para excitar à revolução, à denúncia e a imprudência. Mas se a firmeza do trabalho revolucionário obriga a esta contínua discrição – e o asseio moral impede de descer por ruelas e corriolas à triste faina de colocar contra a parede policiais de olhos verdes e malignos, que se fingem, repentinamente, de patriotas íntimos ou exaltados – a certeza de ter amanhã, por fim, como companheiros os cubanos lentos, tímidos ou arrogantes de hoje, impor o dever de calar suas faltas, ou censurá-las impessoalmente, por ser o rancor e a sanha dotes pueris dos caracteres secundários e triste cimento para a fundação de um país, perde-se o escritor ou o orador as oportunidades luzentes de hoje, para não perturbar com a amargura e a cólera delas a plenitude e a concórdia de amanhã, se manda a verdadeira honra servir a nosso povo com o escurecimento e silêncio voluntários, em vez de tirar proveito e pompa dos erros de seus filhos, a guerra próxima, a revolução próxima, não perde por isso clareza nem energia. Quanto sucede a confirma. Os acontecimentos são suficiente comentário.
O proclama mais eloquente é uma olhada pela situação de Cuba. Proclama viva e profecia de fé são as notícias que neste instante se aglomeram sobre a mesa de redação de Patria. De um ministro da Espanha, e de um plano de reformas encaminhado na realidade para impedir a unidade cubana na Ilha, dependia a esperança fútil dos cubanos cegos, e na verdade muito escassos, que emprestavam a mão com lamentável complacência, ou com pleno conhecimento talvez, ao projeto de desfazer, sob capa de reformas, a individualidade crioula que a guerra amassou, que existiu sempre antes da guerra, e que nunca, – e esta é desonra grande, – se tem visto tão ameaçada como depois da guerra pelos criollos, por certa espécie daninha de criollos arrogantes: de um ministro transitório e de seu plano insuficiente e fraudulento se levantavam razões para estorvar a organização final do país e sujeitar nossa Cuba, temperada e avançada, ao povo europeu mais teocrático e preguiçoso: e de uma mudança de assentos fica a poltrona vazia, e Becerra está hoje onde estava ontem Maura. Não é de nossa piedade natural saciar-nos na fraqueza congênita dos que, com cara para todos os bofetões, encontrarão acaso nesta mudança de poltrona causa para novos delíquios e resplandecentes promessas. Cuba não pode satisfazer-se nem viver em paz até que seu governo seja na realidade dos cubanos: que é o que com sua população sobrante, sua política adventícia e seu natural despótico não poderá Espanha permitir jamais. Pode um ministro algo, quando está com o espírito de sua nação e o pensamento e costumes políticos de sua época: e nada, quando está contra eles. Mais que Becerra foi sempre Martos; e dele, o espanhol de fibra governamental, que tem estado mais perto da justiça nas colônias, é a frase decisiva e terrível, a frase que ele disse, deitado às onze do dia, ao que isto escreve em Patria: “Ou vocês ou nós”. Becerra e Ballesteros, tudo o mesmo. Era uma vez um Ballesteros, ministro de Ultramar. Como falara um magistrado ilustre, que contou o conto a Patria, de algo que tinha que fazer com Manzanillo, inclinou-se o senhor ministro sobre o mapa de Cuba, estendido sobre a mesa do despacho, e começou a procurar pela costa norte. “Parece-me que está na costa Sul”, dizia o magistrado: “creio com certeza que está na costa Sul”. E vagava pelo mapa o dedo ministerial, sempre pela costa Norte. Como esmola dar-nos-ia talvez, e a quartos, como suas esmolas, a liberdade o governo espanhol, ainda que nunca tanta que desalojasse do território da Espanha os espanhóis, para beneficiar aos que a querem tirar, com seu último farrapo histórico, do continente: mas não é essa a liberdade que urgentemente necessita um povo cujas cidades se caem de pó e vício, cujos campos sacrificados se cegam ou emigram, sem confiança, sem sustento, sem portos, sem caminhos, sem segurança, sem honra.
[...]
A Política
Patria, 19 de março de 1892
Falava um cubano em público, faz pouco tempo, com seus compatriotas receosos. O auditório não era desses de luxo, que se junta a ouvir o que crê de lábios conhecidos, ou a deixar passar com amável cortesia a verdade abrasante; mas público de lutar, que ouve com os olhos e os ouvidos, e tem ao pé da frase a réplica contundente. Todos atendiam em silêncio profundo, uns de braços cruzados, como quem não quer que se lhe escape o coração detrás do primeiro recém-chegado; outros a dar-se pela metade, com os cotovelos nos joelhos. O discurso acabou em um coro de almas; e um homem desconhecido, um jovem mulato de vibrante voz, falou a seu povo, seguro no corrimão como a rédeas de luta, com acentuações que lhe saiam do mais terno das entranhas. Agradecia: certificava o que o orador dizia: “a política é o dever de filho que o homem cumpre com o seio da mãe; a política é a arte de fazer felizes aos homens”.
Essa frase tem que ser recordada, agora que uma espionagem sutil, compreendendo que o perigo maior da dominação espanhola está na boa política revolucionária, fomenta em nossos reformadores generosos e em nossas casas de trabalho o ódio à política. Política é o estudo dos diversos métodos de vida comum que tem discernido ou possa discernir o homem. A aristocracia é uma política, e a democracia outra. O czarismo é política, e é política a anarquia, que em muitos corações fervente é o título de moda da aspiração santa e confusa à justiça e, nas mãos do governo espanhol, que espalha anarquistas por todas as partes, é um habilíssimo instrumento. Mas os juízos livres não podem reter esse recurso tosco; os homens que desejam sinceramente uma condição superior para a linhagem humana não podem ser cúmplices da política de polícia que anda pregando o desdém da política; o dever de procurar o bem maior de um grupo de filhos do país não pode ser superior ao dever de procurar o bem de todos os filhos do país; e se a guerra triste vem a ser o modo único de conquistá-lo, nenhum homem bom negará seu apoio a uma guerra inspirada no desejo veemente de obter, pelos métodos amplos de um governo próprio, justiça para todos, uma guerra que não se faz, como se pudesse fazer, por obra e bem dos políticos de ofício, respaldados pelos interesses e pelas castas, mas pela política do amor à humanidade, que não se pode desertar sem delito.
Porque a política se pode desertar, como profissão incômoda que é – ainda que o homem honrado há de exercê-la sempre como vigilância – quando não seja mais que a arte da administração, em cuja pequenez nem todas as paciências cabem, ou o de obter, pelo afago das paixões, e a cumplicidade com os interesses, aquele poder, mantido pela distribuição proveitosa da autoridade, que é grato e leva a tais culpas, os homens de vaidade e de apetites. Mas quando a política tem por objeto salvar para a virtude e para a felicidade um povo de seres humanos que a opressão apodrece no vício e a fome lança ao crime, quando a política tem por objeto salvar aquele povo, raiz principal da vida, onde os seres humanos que se aviltam sutilmente, do aviltamento que os rodeia, são nosso filho e nossa filha, só podem desertar da política os que desertem de seus próprios filhos.
Quando a política tem por objeto mudar de mera forma um país, sem mudar as condições de injustiça em que padecem seus habitantes, quando a política tem por objeto, sob nomes de liberdade, a substituição no poder dos autoritários acomodados pelos autoritários famintos, o dever do homem honrado não será nunca, nem ainda com essa desculpa, o de afastar-se da política, para deixar que seus parasitas a gangrenem. É a casa em que vive o que a gangrena, e há de se entrar nela para purificá-la. Quando a política tem por objeto colocar em condições de vida a um número de homens a quem um estado iníquo de governo priva dos meios de aspirar pelo trabalho e decoro à felicidade, falta ao dever de homem quem se negue a lutar pela política que tem por objeto colocar um número de homens em condição de ser felizes pelo trabalho e decoro.
O que faz o homem bom, com mãos para içar e para arriar, quando vê que vai mal, pelos maus marinheiros, o barco onde navega com uma multidão desvalida? Os homens que o são, juntam-se para salvar o barco daqueles que o desviam, e os homens que não o são, os homens recortados, os egoístas, sairão, sós, nos poucos botes de naufrágio, deixando para trás seus companheiros de desgraça: e vagarão, abandonados, pelas ondas.
Não; cem vezes não: os que o creem, erram de boa-fé. A covardia e a indiferença não podem ser nunca as leis da humanidade. É necessário, para ser servido por todos, servir a todos. Que há outras batalhas que empreender, santas e vitais! Pois primeiro é ensanchar as condições do combate, para podê-lo empreender mais facilmente. Primeiro é ter sob os pés a arrogância do solo nativo, que dá ao homem um direito, e à justiça uma moderação, e ao olhar um raio que não se tem jamais no solo estrangeiro, onde a justiça, pelos diversos métodos e costumes, não acaba nunca de parecer-nos nossa, onde vive o homem como o que anda no mar, e tudo lança e recusa tudo, como os potros livres dão coice por desdém ao cavalo selado. Anseia a besta a mesma a liberdade do ar e da luz, e morre de dor ou vive triste, sem força nem beleza, quando a tiram do solo em que nasceu, e tira vida nova e raios dos olhos quando volta a sua terra natural. Voa a besta ao socorro de seus semelhantes, e morre lutando sob o lobo que ataca aos de sua mesma forma e natureza. Como se há de chamar ao homem que cruza os braços quando seus semelhantes padecem, e com que direito há de pedir simpatia para si quem a nega a seus semelhantes?