O Poder do Agora

Eckhart Tolle · Capítulo 77 de 80

Páginas do PDF

O Poder do Agora

O Poder de Escolher

Nesse momento, para a maioria inconsciente dos seres humanos, o caminho da cruz ainda é o único caminho. Eles só vão acordar através de mais sofrimento, e a iluminação, como um fenômeno coletivo, será precedida por grandes revoluções. Esse processo reflete o funcionamento de certas leis universais que governam o crescimento da consciência e já foi previsto por alguns videntes. Ele é descrito, dentre outros lugares, no Livro das Revelações ou Apocalipse, embora disfarçado em uma simbologia obscura e algumas vezes incompreensível. Esse sofrimento não é imposto por Deus, mas pelos próprios humanos, assim como por certas medidas defensivas que a Terra, que é um organismo vivo e inteligente, vai adotar para se proteger do ataque furioso da loucura humana.

Entretanto, existe um número crescente de seres humanos cuja conscientização está suficientemente desenvolvida para não precisar de nenhum sofrimento adicional antes de alcançar a iluminação. Talvez você seja um deles.

A iluminação através do sofrimento, o caminho da cruz, significa ser levado para o reino dos céus esperneando e gritando. Você finalmente se entrega porque já não suporta mais sofrer. A iluminação escolhida conscientemente significa abandonar nossos apegos ao passado e ao futuro e fazer do Agora o ponto principal da nossa vida. Significa escolher permanecer no estado de presença e não no tempo. Significa dizer sim àquilo que é. Você já não precisa sofrer. De quanto tempo você precisa para ser capaz de dizer “Não vou mais criar dores nem sofrimentos”? Quanto você ainda tem que sofrer antes de fazer essa escolha?

Se você acredita que precisa de mais tempo, terá mais tempo – e mais sofrimento. O tempo e o sofrimento são inseparáveis.

 

O PODER DE ESCOLHER

Por que tantas pessoas escolhem o sofrimento? Tenho uma amiga cujo companheiro abusa fisicamente dela e que já viveu o mesmo problema em uma relação anterior. Por que ela escolhe esse tipo de homem e por que se recusa a sair dessa situação?

Sei que a palavra escolher é um termo muito usado na Nova Era, mas não é apropriado ao presente contexto. É uma ilusão dizer que alguém “escolhe” um relacionamento problemático ou alguma outra situação negativa na vida. Uma escolha implica consciência, um alto grau de consciência. Sem ela, não há escolha. A escolha começa no instante em que nos desidentificamos da mente e de seus padrões condicionados, o instante em que nos tornamos presentes. Até alcançar esse ponto, você está inconsciente, espiritualmente falando. Isso significa que você foi obrigado a pensar, sentir e agir de determinadas maneiras, de acordo com o condicionamento da sua mente. É por isso que Jesus disse: “Perdoai-os, porque eles não sabem o que fazem.” Isso não está relacionado à inteligência no sentido convencional da palavra. Já encontrei inúmeras pessoas altamente inteligentes e educadas que eram também completamente inconscientes, o que equivale a dizer completamente identificadas com suas mentes. Na verdade, se o desenvolvimento mental e o aumento do conhecimento não são contrabalançados por um crescimento correspondente da consciência, o potencial para a infelicidade e o desastre é muito grande.

Sua amiga está paralisada em um relacionamento com um parceiro abusivo e não é a primeira vez. Por quê? Porque não escolheu. A mente, condicionada como é pelo passado, sempre busca recriar aquilo que conhece e com o que está familiarizada. Mesmo que seja doloroso, ao menos é familiar. A mente sempre se apega ao que lhe é familiar. O desconhecido é perigoso porque ela não tem controle sobre ele. É por isso que a mente não gosta do momento presente e prefere ignorá-lo. A percepção do momento presente cria um espaço não somente no fluxo da mente, mas também no contínuo do passado e futuro. Nada realmente novo e criativo pode acontecer neste mundo a não ser através desse espaço, um espaço nítido com infinitas possibilidades.

Portanto, sua amiga pode estar recriando um padrão aprendido no passado no qual a intimidade e o abuso eram inseparavelmente relacionados. Por outro lado, ela pode estar representando um padrão mental aprendido na infância, segundo o qual ela é alguém desprezível e merece ser punida. É também possível que ela viva grande parte da vida através do sofrimento, que está sempre em busca de mais sofrimento para se alimentar. O parceiro também tem seus próprios padrões inconscientes, que completam os dela. Quem criou essa situação? A sua própria amiga, ou melhor, o falso eu interior dela, um padrão mental e emocional do passado, nada mais que isso. Se você lhe disser que ela escolheu essa situação, estará reforçando o estado de identificação dela com a mente. Mas o padrão mental é ela? Sua verdadeira identidade é derivada do passado? Mostre à sua amiga como ser a presença observadora por trás dos pensamentos e das emoções. Conte-lhe sobre o sofrimento e como se libertar dele. Ensine a ela a arte da percepção do corpo interior. Demonstre o sentido da presença. Assim que ela for capaz de acessar o Poder do Agora e, em consequência, romper com o passado condicionado, ela vai ter uma escolha.

Ninguém escolhe o problema, a briga, o sofrimento. Ninguém escolhe a doença. Elas acontecem porque não existe presença suficiente para dissolver o passado, ou luz suficiente para dispersar a escuridão. Você não está aqui por inteiro. Você ainda não acordou. Nesse meio-tempo, a mente condicionada está governando a sua vida.

Do mesmo modo, se você é uma das inúmeras pessoas que têm assuntos mal resolvidos com os pais, se ainda guarda ressentimentos por alguma coisa que eles fizeram ou deixaram de fazer, então você ainda acredita que eles tiveram uma escolha e que poderiam ter agido de modo diferente. Sempre parece que as pessoas fizeram uma escolha, mas isso é ilusão. Enquanto a sua mente, com os seus padrões de condicionamento, dirigir a sua vida, enquanto você for a sua mente, que escolhas você tem? Nenhuma. Você não está nem ligando. O estado identificado com a mente é altamente defeituoso. É uma forma de insanidade. Quase todas as pessoas estão sofrendo dessa doença em vários graus. No momento em que você perceber isso, não haverá mais ressentimento. Como você pode se ressentir da doença de alguém? A única resposta adequada é compaixão.

Quer dizer que ninguém é responsável pelos atos que pratica? Não gosto dessa idéia.

Se você é governado pela mente, embora não tenha escolha, vai sofrer as consequências da sua inconsciência e criar mais sofrimento. Vai carregar o fardo do medo, das disputas, dos problemas e do sofrimento. Até que o sofrimento force você, no final, a sair do seu estado de inconsciência.

O que você diz a respeito da escolha também se aplica ao perdão, suponho. Precisamos estar inteiramente conscientes e entregues antes de poder perdoar.

“Perdão” é uma palavra que vem sendo usada há mais de 2 mil anos, mas a maioria das pessoas tem uma visão muito limitada do que ela significa. Não podemos perdoar a nós mesmos ou aos outros enquanto extrairmos do passado o nosso sentido do eu interior. Somente acessando o Poder do Agora, que é o seu próprio poder, pode haver um verdadeiro perdão. Isso tira a força do passado e você percebe, profundamente, que nada que você fez ou que os outros lhe fizeram poderia atingir, nem de leve, a radiante essência de quem você é. Todo o conceito de perdão se torna então desnecessário.

E como chego a esse ponto de consciência?

Quando nos rendemos àquilo que é e assim ficamos inteiramente presentes, o passado deixa de ter qualquer força. Não precisamos mais dele. A presença é a chave. O Agora é a chave.

Quando vou poder dizer que me entreguei?

Quando você não precisar mais fazer essa pergunta.