O Renegado a António Rodrigues Sampaio

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 3 de 10

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O Renegado a António Rodrigues Sampaio

Capítulo I

 

Eis-me em frente de ti, velho urso na caverna— Eis-me em frente de ti erguendo uma lanterna, lanterna que accendi na grande escuridão sobre a plebe açoutada, erguendo a minha mão,

lanterna que accendi n'esta éra ensanguentada, lanterna que accendi, como em sinistra estrada por causa dos ladrões perdido viajante.

Eis-me em frente de ti, eis-me de ti deante cheio d'odio, rancor, com asco, sem respeito, perguntando-te, ó Velho—Onde está o Direito? O que fizeste ao Povo, á Consciencia, ao Brio? Onde está o Pudor, rude ancião sombrio? Quem és? Quem és? Quem és?... velho cheio de fel. Onde está ó Cain o teu irmão Abel?

Quem és? Quem és?... Ó gloria, ó nome hoje avitado? Tu foste a Alma do Povo—hoje és um renegado. Eu sou a voz do humilde e d'esses maltrapilhos, d'esses rotos e nus a quem mandaes os filhos ás palhas da enxovia em vez da luz da escóla. Eu sou a voz de baixo, eu sou o mar que rolla toda uma orchestra d'ais, um mundo de lamentos maior que a voz de Deus, e a voz dos grandes ventos, Sou a voz que maldiz, o pranto que suspira. Trago na minha mão a lampada da Ira.

Eu sou esse rebelde herege, extraordinario que chamo ao biltre um biltre, e a ti um latrinario, que préguei n'este tempo ás turbas assombradas a União e o Direito, e fui pelas estradas

como S. Paulo foi na noute de Damasco, armado do Rancor, cheio do grande asco contra os Escribas vãos, os sordidos judeus, sem ver fender-se a terra, ou ver-se abrir os ceus.

Nós hoje—os infieis—não cremos nos milagres. Não me importa que tu, ó Velho, me consagres o epitheto brutal de herege ou de maldito. Eu sou o Pranto e o Odio! Eu sou o Ai e o Grito!

Eu sou a voz da turba extranha e inominada que uma vez é soluço, outras a gargalhada que chamam povileu, a plebe envilecida, n'uma éra de sangue, uma éra fratricida

riscada por um sol velho e sanguinolento. Eu sou o que Marat chamou o Soffrimento. Sou o que Ezechiel chamou Rebellião.

Eu sou a voz do Pó, eu sou a voz do Chão. O que alguns chamam Zero, os outros chamam Charco.

Ando a erguer uma Ponte, e a abrir um grande Arco.

Em nome pois do Povo, o velho e antigo cedro, sangrento como a cruz, e a quem como S. Pedro tens renegado sempre, ó sordido traidor,

em nome da sua ira, e em nome do suor

que elle verte a chorar, na Terra, o chão antigo, que faz córar a rosa e rebentar o trigo,

em nome dos seus mil cuspidos sacrificios do seu Calyx, da Cruz, da Esponja, dos supplicios, das suas mães sem pão, seus filhos no abandono como um farrapo velho e como um cão sem dono, em nome da Miseria, em nome da Innocencia de tudo que ha de humano e grita na Consciencia, em nome do Direito, em nome d'esta Penna, escuta a minha voz, a voz que te condemna Tu foste n'outro tempo um homem justo, um crente, forte, obscuro, plebeu, filho da santa gente da plebe que trabalha, e com as mãos possantes sabe arrancar da terra as eiras e os diamantes, d'essa raça animal dos grandes infelizes

que são na sociedade assim como as raizes

que em quanto estão no chão, na solidão, no escuro, dando a seiva e o vigor ao tronco bem seguro, vivendo humildes sempre, obscuras, silenciosas —estão as folhas no ar, altivas, gloriosas, olhando para o azul sereno das espheras, todas cheias de flor nas verdes primaveras, sendo a gloria da leiva, a sombra dos caminhos, tendo as bençãos do Sol e os canticos dos ninhos.

Sim, tu foste um plebeu—da raça antiga e rude, que trabalha no escuro assim como a Virtude. Sim, tu foste um plebeu—raça obscura e sem luz, d'onde eu tambem saí, e d'onde vem Jesus.

Mas tu velho sem fé, mordeste-a como um cão. Atraiçoas-te-a, sim, e riste como Cham

se riu do velho Pae dormindo n'um caminho! Sê maldito como elle, e seja o teu espinho o teu espinho eterno, o teu atroz tormento, ouvir-lhe sempre os ais e as maldições no vento!... Tu tinhas a teu lado outr'ora os homens fortes das Alas do Dever, todas as sãas cohortes dos grandes corações, ferreos, e verdadeiros, que trabalham na sombra assim como os mineiros, a lampada na mão augusta da Verdade,

para arrancar do lodo o ouro da Liberdade. Tu tinhas a teu lado os corações valentes dos heroicos plebeus, todos fortes e crentes todos filhos, como eu, da Plebe, nossa mãe!... Mas tu, Velho sem fé, mas tu plebeu tambem, que ambicionavas já as pompas gloriosas, sentiste o asco e o horror d'aquellas mãos callosas que trabalham por nós noutes, dias inteiros, na officina, no val, nas minas, nos outeiros, e quizeste antes ser hoje o leproso Reu,

de que ser como eu sou—simples, leal plebeu.

Vergonha sobre ti que tanto te abaixaste!... Vergonha sobre ti, Velho, que profanaste a fronte d'ancião, a auréola sagrada

que seria por nós mais do que idolatrada, teus louros de escriptor, teu gladio justiceiro, terrivel como Deus, teus louros d'homem puro para os lançar, ó Velho, ao charco d'um monturo! Vergonha sobre ti e os teus cabellos brancos! Vergonha sobre ti que como os saltimbancos foste lançar teu nome ao vento d'uma feira! Vergonha sobre ti, que como uma rameira que vende os seios nus em sordida estalagem ao cobre do quartel e ao rir da marinhagem, em quanto a mãe talvez jaz sobre um catre morta, e o archanjo do Pudor geme e soluça á porta, foste vender a honra ao ouro d'um senhor. Vergonha em teus laureis, e sobre ti traidor que quizeste antes ser rico, ministro, e nobre, do que ser um ninguem—puro, plebeu, e pobre.

Vergonha sobre os vis apostatas da Idea que negam como Pedro o fez depois da ceia na noute de Sião, o Ceu e Deus trez vezes! Vergonha a quem entrega o Povo como as rezes, que levam a matar, balando, ao matadouro! Vergonha a quem trocar seu nome pelo ouro, sua aureola santa e seu brasão de gloria por um titulo em vida—e um pontapé da Historia!

Vergonha sob vós apostatas rafeiros

que vendeis vosso deus pelos trinta dinheiros por que Judas vendeu esse de Nazareth! Vergonha sobre vós, apostatas sem fé

messias sem pudor que andaes pelos caminhos prégando aos corações, embebedando em vinhos de gloria e de ideal, e que depois ao Povo esse sublime Ancião de peito sempre novo,