O Renegado a António Rodrigues Sampaio
Capítulo IV
Pobre mulher sem pão, quando de porta em porta tendo batido em vão foste á do lupanar,
e ali deixaste a honra e a virgindade morta, como noiva infeliz que levam a enterrar!
quando foste bater, chagado coração
ás portas soluçando, e que ninguem te abriu, e o leito do bordel quaes taboas d'um caixão te sepultou em vida, e teu calor cingiu!
quando tendo sonhado um sonho aureo e esplendente,
illusões d'uma infanta e os sonhos d'um donzel, viste tudo findar na enxerga repellente
do teu leito de infamia—o catre do bordel! Quando tendo elevado ao ceu teus magros braços, como outr'ora Jesus o fez nas Oliveiras,
só achaste o silencio e o echo dos teus passos, o riso da cazerna e a noute das rameiras! quando ó loura mulher no berço excommungada por um Destino ferreo, inhospito, infeliz,
por tua propria Mãe talvez abandonada,
pobre flor que hão lançado ao pantano a raiz! Quando foste forçada ás bachanaes rasteiras, e a despir e a manchar as brancas vestes tuas, e a deixar teu amor na lama das regueiras, como os sedentos cães que vão beber nas ruas! Quando ó filha do Povo, ó pobre filha impura, que uma mãe não beijou, que um Pae não protegeu, achaste a Fome vil, velha de boca escura, n'uma rua infernal, por um chuvoso ceu!
quando ó dahlia da Dôr, planta dos atoleiros, pobre filha do Povo, exhausta, quasi exangue, tu vaes servir de gaudio á noute dos banqueiros, sentindo dentro em ti as lagrimas de sangue! quando ó selvagem flor, ó poça do abandono,