O Renegado a António Rodrigues Sampaio

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 5 de 10

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O Renegado a António Rodrigues Sampaio

Capítulo III

—Eu sou como Jesus chefe dos miseraveis!... Depois erguendo ao ceu a sua Penna eterna: —Vós tendes o knut—eu tenho esta lanterna.

Este homem inda que pobre, inda que perseguido, roto, obscuro, plebeu, humilde, mal vestido, inda que triste e só no seu isolamento,

ao pé do grande Czar, n'este cruel momento, inda que pobre e vil, inda que maltrapilho é tanto como um Deus, e mais do que um seu Filho.

Assim foste tambem, ó Velho solitario!

Assim foste tambem grande pamphletario que soubeste elevar a eterna Alma do Povo! Assim foste tambem quando eras puro e novo e sabias levar á guerra os corações,

quando eras um açoute e o deus das multidões que vinham em tropel beijar os teus joelhos! Mas hoje tu o que és—escoria d'entre os velhos refugo de traidor, ó renegado hostil!

Mas hoje tu o que és, ó lixo impuro e vil!

alma atirada ao estrume, alma aviltada e fraca!...

És o que se vendeu!—Tu és uma cloaca.

 

III

 

Ó seculo de ferro! ó geração escrava!

que ouves Satan ladrar na noute do Evangelho, no teu sollo do Mal, sobre teu sollo em lava, cae a agua do ceu como n'um poço velho!

Sim a agua do ceu que faz viver a flôr

mal que no poço cae transforma-se na lama! Ó seculo de ferro, ó seculo de horror,

que fazes tu da Voz, que em teu deserto clama? Que fazes tu da Voz que ouço passar nos ventos, prégando a Negação, n'um funebre arrepio, que ouço clamar na noute em uivos e em lamentos como um ladrar feroz de ruivo cão sombrio? Que fazes tu da Voz dos teus prophetas santos que dão prantos de sangue ás tuas vexações, e do carro de fogo arrojam os seus mantos que arrastam á Revolta o mar das multidões? Que fazes tu? Tu ris! Tu vaes como a rameira vender teu deus, teu ceu, tua honra ao lupanar. A Justiça tornou-se em velha alcoviteira.

A Egreja ri na orgia, e Christo deixa o Altar! O Desespero crú esparge o seu veneno

na taça d'ouro e onyx das jovens illusões. O Odio faz ouvir o seu terrivel threno.

O Mal com a tenaz aperta os corações!

A virginal Poesia, a virgem d'alvas vestes ergue aos ceus suas mãos, brancas como o alabastro. Traz a Lyra na mão vestida de cyprestes. Seu santo coração flameja como um astro! Só ella faz ouvir n'um seculo corrupto

sua Lyra de bronze ao temporal da Sorte! Só ella faz ouvir seu alaúde em luto

que dá notas crueis de Maldição e Morte. É só ella que empunha o seu chicote em fogo como o açoute de ferro indomito de Deus, para açoutar os reis, o falso demagogo,

os biltres charlatães dos reis e dos plebeus. É só ella que faz na noute secular,

na sua Lyra ouvir—não canticos d'amor— mas as notas fataes que entornam o luar da Ira, do Desdem, do Odio e do Rancor. Achegae-vos a mim, tristes, terriveis Lyras,

que já tendes chorado e que sabeis rugir. Quero em cordas de bronze os canticos das iras! É preciso açoutar, decapitar, punir!...

Deixae agora o Amor e as brizas da bonança! Minae-me o Despotismo esse colosso rhodio! Pela noute vibrae as notas da Vingança.

Sobre a Lyra cantae os canticos do Odio.

Ó poetas do Amor deixae vossos idyllios,

os atalhos do bosque e a lua da floresta! Deixae a musa fresca e simples dos Virgilios, n'uma éra de sangue inhospita e funesta! Deixae de nos cantar o Tedio e o Desengano, as nuvens da montanha e os sinceiraes do val! porque o mundo talvez espera o seu Tyranno. A Terra vae parir algum Christo do mal.

Deixae de nos cantar as nuvens da bonança, e a flor dos laranjaes que o vento faz bulir, por que em breve já vem a hora da matança em que a Espada tem voz, e as torres vão cair. Eu tambem vos cantei, ó cantos langorosos, ó nuvens da manhã, ó flor da romanzeira, ó torrentes do val, ó beijos amorosos

da Mulher que se amou n'uma visão primeira! Tambem já te cantei, estrella do pastor,

ó danças sobre a eira, ó lua das marés.

Mas hoje a minha voz é rouca como a Dôr, terrivel como a Espada e o tribunal dos Dez. Abandonei-te ó Amor! Meu rir fez-se tregeito. Meu pranto fez-se fel, a voz tornou-se berro. Foragido dos reis, armado do Direito

faço vibrar na Lyra os canticos de ferro.