O Romance de um Homem Rico
Capítulo XI
Bem fizeste em não vir comnosco: terias um quinhão d'estas
amarguras, minha prima. Mas, ao mesmo tempo, que allivio
para mim, se eu te visse ao pé de minha mãe! Eu não sei como
hei-de consolal-a! Tu saberias, Leonor, porque no coração da
mulher é que Deus depositou as suas palavras de consolação
para os desgraçados sem culpa... Chama-me a minha pobre
Eufemia... Minha mãe está delirando; faz contra si propria
accusações que me traspassam a alma. Pede perdão a meu
pae por lhe não ter podido dar a felicidade, que ella em si não
tinha!... Não te accuses, minha santa mãe! Tu foste o anjo que
se fez nas cinzas do teu coração, anjo de ternura e de piedade,
anjo de perdão e de supplica por todos que te injuriaram, e te
mataram, primeiro que a meu pae... Não posso mais... Logo
que minha mãe tenha forças vamos para Portugal. Adeus,
minha querida Leonor. Chora uma lagrima, que t'a merecem os
infelizes que mais te amam n'este total desamparo, de amigos.
«Napoles—Maio 15 de 1831.
«Do teu
Alvaro.»
Leonor não tinha lagrimas. Requeimára-lh'as o odio ao pae, e o anceio da vingança.
Pouco antes de lêr aquella carta, recebera ella a noticia do desterro violento de Miguel de Sotto-Mayor.
As commendadeiras do convento houveram horror e não piedade dos esgares phreneticos da morgada.
XI
C'était Ninon de Lenclos qui disa-ti
qu'elle remerciait tous les
soirs, de son esprit, et qu'elle le
priait, tons les matins, de la préserver
des erreurs de son cœur.
MIRABEAU (Lettres à la marquise
de Monnier).
Já Leonor não estava no mosteiro, quando Maria da Gloria, mez e meio depois da morte de seu marido, chegou a Lisboa. O pae, temendo que a exasperação a allucinasse até o extremo do suicidio, levou-a para os Olivaes, e cuidou em amaciar-lhe a braveza com os antigos carinhos e distracção de amigos e parentes, devotados todos a delir-lhe da lembrança a imagem do expatriado.
Alvaro, no dia immediato ao da sua chegada, recebeu recado urgente de João de Mattos, para ir fallar-lhe.
—Chamei-o—disse-lhe elle—para lhe dar o que o senhor Macedo me não pede: é um conselho. Seu pae, que Deus haja, tinha em vista casal-o com sua prima Leonor de Brito. O senhor consultou alguma vez o seu coração sobre este designio de seu pae?
—Sim, senhor, e achei-o conforme aos meus mais ardentes desejos.
—Tem o senhor Alvaro alguma especie de confiança nos merecimentos de sua prima? Crê que ella o estima?
—Devo suppôr que sim.
—Está n'um erro. Agora o conselho sem preambulos: não case com sua prima, nem exponha o seu bom coração ao escarneo e á deshonra que inevitavelmente lhe ha-de vir com o arrependimento extemporaneo. Se não póde esquecêl-a, converta essa lembrança em estima, e a estima em virtude: quando a vir desgraçada, ampare-a. Imagine que sua prima ha-de passar pelos élos d'uma cadêa fatal. Não está nas suas mãos quebrar-lhe a cadêa; mas a misericordia póde muito, e a caridade faz milagres. Ainda o chamei para outro fim. Eu vou depois de ámanhã deportado para Abrantes, á ordem do senhor D. Miguel. Vou ralado de desgostos, e vaticino que toda a força de minha alma, e a muita energia que me dá a consciência pura, me não sustenham na queda. Se eu cahir, e o não tornar a vêr, lembre-se, no longo curso da sua vida, d'estas lagrimas que viu na face de um velho, e por ellas lhe rogo que, em meu nome, ajoelhe aos pés de sua santa mãe, e lhe peça perdão para mim que lhe matei a felicidade de toda a vida.
João de Mattos apertou ao seio o filho de Maria da Gloria, e disse-lhe:
—Vá!... Eu não o verei mais... Na eternidade saberei se sua mãe me perdoou.
Alvaro appareceu a sua mãe ainda com lagrimas. Interrogado acerca d'ellas, contou o successo, e fez de joelhos a supplica. Maria da Gloria ergueu as mãos, e disse em seu coração: «Vós bem sabeis, meu Deus, que eu perdoo a quantos me fizeram mal; e a este, que peccou, e se rehabilitou pela contrição da honra, dai vós, Senhor misericordioso, as consolações que a mim me daes por intervenção de meu filho.» E accrescentou em voz alta:
—Vai dizer a esse nosso amigo que tua mãe lhe deu este nome. Pede-lhe licença para saber as intimidades da sua vida. Se elle quizer emigrar, e não tiver recursos, diz-lhe que és rico: pede-lhe com encarecimento que t'os acceite. Ouvi dizer á santa de Vairão que seu sobrinho era pobre, e morreria pobre. Disse-m'o em elogio da sua probidade. Vai, meu filho, que esse homem perdeu tua mãe para a felicidade; mas restituiu-t'a para o amor.
João de Mattos ouviu da bôca de Alvaro as textuaes palavras de sua mãe. Balbuciou muito commovido expressões de reconhecimento, e apontando para um grande painel, disse:
—Guarde de mim aquella lembrança: o retrato de um pae honrado é um constante pregão de honra; o do amigo verdadeiro, e inflexivel no infortunio, é um consolador, quando não póde ser um conselheiro mudo.
Agradeceu Alvaro a dadiva, e ajudou a deslocar o quadro, para o levar comsigo. Foi esse mesmo o que eu vi nas ruinas dos Olivaes. D'este probo e desditoso estadista não fallaremos mais. Logrou ser propheta do seu repouso. Finou-se com pouco tempo de desterro. A sua ultima carta ao filho de Maria da Gloria era uma reminiscencia dorida dos dias em que a paixão o ensandecera a ponto de não vêr o abysmo em que a virtude e a paz d'uma mulher se despenhavam com a honra d'elle. Esta carta denotava desconcerto de espirito; e, por ser a ultima, de perto se seguiu o apagar-se aquella grande luz, que de mais, no entender dos magnates e dos aulicos, alumiava a ignominia e a protervia d'aquelles que empeçavam na virtude do homem, leal ao throno; mas leal ainda mais á honra.
Choraram-no Alvaro e sua mãe. Tão afeiçoado lhe era o moço, que pedira licença a Maria da Gloria para o ir visitar em Abrantes, e conduzil-o para sua casa, indultada a sentença. Algumas horas, scismando n'elle, pensava Alvaro em vêr sua mãe ligada em segundas núpcias a um homem de quem elle já tinha no coração palavras paternaes, e segura base para o amar e respeitar no futuro com o amor e veneração de filho. Deu mate a estas doces cogitações a morte; mas a saudade ficou imperecivel no coração de Alvaro, e a gratidão no espirito de Maria da Gloria.
Se não cahisse a proposito este incidente, logo de começo teria eu dito que Sebastião de Brito foi logo visitar sua cunhada, e offerecer-lhe a sua casa dos Olivaes. A viuva não acceitou, porque a soledade com seu filho era tudo o que lhe restava bom e acceitavel n'este mundo. Leonor, algum tanto desvanecida de Miguel de Sotto-Mayor, cujo silencio de alguns mezes a desmemoriára, e ao mesmo tempo industriada por amigas e parentas, mostrou affavel sombra ao primo, por entre uns gestos de tristeza insinuante. Dizia ella que um anno de vida lhe modificara em muito o genio, e que ainda agora começava a sentir-se no coração. Recebia carinhosa, ou antes desafiava, os agrados de Alvaro, já commovendo-se com arte ás saudades com que elle relembrava o pae, já seguindo-o ás inspirações da vindoura felicidade, e phantasiando-a com elle na vida do campo, na ausencia dos esplendores sociaes, e na permutação intima e obscura dos sentimentos de duas almas apaixonadas. Com Maria da Gloria não era ella menos artificial, ou encarecendo-lhe as virtudes do filho, ou pedindo-lhe conselhos para o igualar em merecimentos.
Escutava Alvaro sua prima com assombro e desconfiança; e Maria da Gloria ouvia a sobrinha, notando-lhe a sagacidade, em que fora industriada pelo pae ambicioso, e pelas mulheres da roda illustre, professas no logro e nas fraudes do coração. E d'ahi, o silencio de ambos no tocante a casamento; e os sustos de Sebastião de Brito, e os despeitos da filha orgulhosa, á conta d'aquelle silencio.
Seccára a fonte perennal dos recursos do morgado com a morte do irmão bastardo. A cunhada não se afoutava elle a pedir as grandes quantias, nas occasiões apertadas; e ainda menos ao sobrinho, o qual, se bem que tivesse dezoito annos, nada pedia nem acceitava dos grandes haveres de sua mãe. Lastimava-se o morgado á filha, arguindo-a de ser causa de tantos desgostos e vexames com o seu proceder. Esta, que os principiava a sentir em certas faltas que a superabundancia sem regimen faz conhecer, duplicava as ciladas ao coração do primo e á bemquerença da tia.
Uma vez estava ella a sós com Alvaro. Este entretinha-se n'esse tempo a escrever as memorias da sua infancia, e deixára o manuscripto aberto na mesa de estudo. Pediu Leonor licença para lêr algumas paginas, e elle hesitou; mas insistiu Leonor tão meigamente que o primo deixou-a lêr as duas ultimas. Tinham estas referencia aos oito annos de sua idade, e terminavam assim: «Não esqueceria nunca os dias dos Olivaes, ainda mesma que da affeição, então nascida, mais odiosa me fosse a lembrança.» Seguiam-se algumas reticencias.
Leonor depoz o manuscripto, e disse triste:
—Estes pontinhos que significam?
—Nada, minha prima.
—Dás-me licença que eu complete o teu pensamento? Deixas-me escrevêl-o sobre as reticencias?
—Escreve—disse Alvaro risonho.
Leonor, sem demora de pensar, continuou assim a escripta: