O Romance de um Homem Rico
XX Conclusão
Ajoelharam todos. Maria commungou, e foi ungida. Terminada a ceremonia, e desempedido o quarto, a moribunda acenou ao filho, que continuava de joelhos. Alvaro foi, e curvou-se sobre o leito, applicando-lhe o ouvido aos labios. Os labios de Maria já não tinham palavras; se estavam ainda quentes, era o calor do ultimo suspiro. Tomou-o Alvaro no coração quando a boca se entre-abria proferindo a palavra «mãe!»
Fez-se o terror do silencio alli n'aquelle quarto. Ninguem se desafogou em gritos, porque era de todos a dôr que os afoga na garganta.
XX
CONCLUSÃO
Oublie-toi! dévoue-toi! sacrifie-toi!
J. SIMON (Le devoir.)
E não ha um remançoso abrigo onde saiam a repousar-se e a deleitar-nos estes desafortunados dos prazeres reaes da vida!
De força ha-de o animo do leitor compenetrar-se dos regalos intimos da virtude, para entender que a virtude é boa?
Quando raiará o dia de felicidade para Alvaro?
Quando entardeceu o dia de contentamento para Maria da Gloria?
Peccaminosa pergunta, se o leitor duvida das consolações mysteriosas com que Deus acode e se amerceia dos que o confessam e chamam nas atribulações.
Que ante gosto da bemaventurança não provou Maria, abraçando aquella mortalha de seu filho! Que suave doer, e dulcissimo anhelar a Deus não será o d'aquelle levita na correnteza dos annos, de penitencia voluntaria, e de evangelica abnegação? Não duvidemos: abaste-nos o orgulho da nossa miseria, e não façamos do nosso scepticismo um cadafalso injurioso á dor e á fé. Se em volta de nós não vemos senão imagens nossas, e almas aferidas no padrão vulgar; se a nossa idéa do prazer a aceitamos do vulgo, remodelada nas suas apreciações; será justo que não desdenhemos a felicidade que nos fica incomprehensivel áquem da baliza onde o curto alcance do espirito viciado nos leva.
Se Alvaro foi feliz?! Perguntemos a Deus se os seus martyres correm n'este mundo os estadios de suas dores, sem que a luz ineffavel de seus olhos os não guie ao horisonte da bemaventurança, assignalado pela cruz! E o caminhar sem desvio nem tropeços á patria infinita que nome tem, se não é a felicidade suprema?
Oito dias depois do trespasse de Maria da Gloria, padre Alvaro fallou a sua prima, n'um tom de voz e magestade de postura, que denotava a mudança do homem, ou o esforço d'elle sobre o coração do homem amortalhado.
—Leonor—disse elle—bem me vês: vesti-me assim para a mim me vêr e convencer de que tudo se acabou para mim, menos a vida da alma e as voluntarias mortificações do meu sacrificio. Este caminho é o das alegrias da virtude, por elle irei indo ao lado da sombra de minha mãe, até me identificar com a luz da sua gloria. Se errar o passo dificultoso, a santa pedirá por mim ao Pae compassivo dos que se levantam da queda, chorando. Aqui tens o amigo da tua infancia, minha prima: os teus infortunios ganharam para sempre a dedicação, que a tua paciencia merece, e me ensina a praticar. Deus perdoar-me-ia se te eu agora contasse a longa historia, os longos trabalhos que me custou o morrer do coração. Tu é que me não desculparias a inutil crueza de te dar um espectaculo de angustias, que eu de mim proprio forcejava por esconder. Lá vai tudo. Agora, perdão e paz. Nem lagrimas me dês ás cinzas da paixão desgraçada! Escuta, Leonor, tu tens nos Olivaes uma casa em ruinas. Venho-te pedir que m'a cedas para os dias todos da minha vida.
—A casa é tua, Alvaro; é teu tudo quanto o mundo chamava meu...
—Não sei se eram minhas as ruinas dos Olivaes, Leonor; sei que sinto prazer em pedir-t'as.
—E poderemos alli viver, Alvaro?—atalhou Leonor.
—Eu viverei.
—Tu! e eu não, meu primo?!
—Não, Leonor—respondeu o padre com um ar de firmeza, que não animava a ser contrariado—Ficas aqui, com as criadas de minha mãe, senhora d'estes nadas que pouco importam á tua triste existencia; mas o teu lugar é este onde recende ainda o perfume da mulher virtuosa, que nos levou a Deus a conta das nossas lagrimas.
—E queres que eu aqui fique, Alvaro? não poderei pedir-te que me deixes escolher outra residencia? Respeitarás, ou terás piedade do coração que t'a pede, do coração que não morreu ainda?
—Escolhe, Leonor; quererás voltar a Lisboa? queres antes viver na casa que lá temos?
—Não, meu primo. Dá-me uma cella n'um convento, e uma criada, que me sirva.
—E a chorar me pedes um convento, Leonor?
—Quem deixaria de chorar a esta hora, Alvaro!...
—Eu, bem vês.
—Tu, sim, primo... Só podiam ser do coração as tuas lagrimas!...
—Não são, não devem ser...—Alvaro concentrou-se, levantou ao céo os olhos, e continuou:
—Irás para um convento, deixando-me sem condições a licença de regular a tua casa. As criadas de minha mãe irão comtigo, menos Eufemia, que me embalou o berço, e me ha-de fechar o caixão. Ámanhã iremos para Lisboa. Se, durante a noite a reflexão alterar o teu proposito, dir-m'ohas, Leonor.
No proximo dia, sahiu Leonor com as suas criadas para Lisboa. O padre Alvaro anticipou-se algumas horas, e foi em direitura ao convento de Santa Joanna, e d'alli ao conseguimento das licenças ecclesiasticas para a reclusão de sua prima.
N'esse mesmo dia, entrou Leonor de Brito no mosteiro de franciscanas, e depós ella uma sumptuosa mobilia.
O padre abraçou-a no portico do convento, e disse-lhe:
—A paciencia faz os anjos: pedirás a Deus por mim, quando te sentires alumiada da graça que fortalece e santifica.
Leonor soluçava em gemidos, que lhe tomavam a voz. Alvaro pôz-lhe a mão de leve no rosto, e murmurou:
—Não sejam as ultimas que chores por saudade de nossa mãe... Nossa, de certo, minha irmã!... Juntos seremos em cada prece que ella fizer a Deus.
Alvaro cortejou a prioreza e outras religiosas que assistiam á entrada de Leonor, e sahiu.
No mesmo dia, foi o padre para as ruinas dos Olivaes, onde Eufemia o estava esperando. Em quanto fazia habitavel uma parte do edificio alluido, viveu na casinha, onde encontrara Leonor esvaida de sangue. Reconstruída uma pequena porção do palacio, transferiu-se para lá, e decorou-a com parte dos moveis, que conhecia desde a sua infancia em casa de Sebastião de Brito. Entre estes objectos, de sua casa levara apenas o leito em que morrera sua mãe, e o retrato de João de Mattos.
Os bens de fortuna de padre Alvaro Teixeira eram ainda grandes. Adjudicou a maior parte d'elles ao tratamento de Leonor, e a pensões de algumas religiosas necessitadas do convento d'ella. Para si tomou uma pequena parte dos rendimentos de um capital, que doara a Eufemia. Dizia elle muitas vezes á velha criada «que estava vivendo da beneficencia d'ella.»
Este viver assim durou desde 1839 até 1859. Vinte annos!
N'este longo termo, quando alguem acertava de perguntar por aquelle exquisito Alvaro Teixeira, os melhores informadores diziam em tom de plangente hypocrisia que o pobre moço endoudecera. Lembrem-se do que a tal respeito o sacerdote me disse. Como ninguem soubesse atinar com a razão d'aquella virtude, os mais cordatos chamavam-lhe misanthropia, e os poetas achavam-no digno de ser cantado; mas ninguem cantou o heroe obscuro: a piedade era assumpto mingoado para o estro ambicioso dos romanticos d'aquella época. Esqueceu, por tanto, Alvaro Teixeira amortalhado no seu habito.
É de crêr que lêsse muito, porque a sua instrucção era admiravel, e que soffresse muito porque os seus quarenta e cinco annos eram a decrepidez.
Visitava Leonor ás temporadas, e a secular de Santa Joanna vinha á grade, transportada na sua poltrona de rodas, e chorava a cada traço novo de extemporanea velhice, que divisava no rosto de Alvaro.
Algumas vezes supplicou-lhe que a deixasse ir estar com elle, algum tempo, nas suas ruinas. Alvaro respondia que o seu pacto com ella era encontrarem-se na presença de Deus.
Tinha o padre um amigo em Lisboa; era o seu mestre de inglez, aquelle homem que assistiu commigo ao sublime espectaculo da morte do justo. Accrescentado pelas liberalidades do sacerdote, o professor abandonara o officio, e chegara a merecer por suas virtudes uma distincta posição entre os homens uteis d'este paiz. Se elle tivesse passado, e se a gloria da virtude não fosse a modestia, eu escreveria aqui o nome do amigo digno de Alvaro Teixeira.
Não sei que mais lhes possa dizer da vida d'aquelle padre dos Olivaes. Recordem os primeiros capitulos, e suave lhes será relembrar os santos dictames d'aquella boca ungida das lagrimas que lhe sulcavam o rosto venerando.
Já sabem porque elle se esquecia contemplando a janella fronteira das suas ruinas. N'aquella janella ouvira elle, em noite de baile, vinte e nove annos antes, as palavras de Leonor com que o seu amor inflorára a garganta do abysmo onde cahira entre os braços da piedade e da honra. Tambem se lembram da rapida sabida, que elle fez para Lisboa, ao annunciarem-lhe a agonia de Leonor.
Eu fui ao convento de Santa Joanna, e perguntei a historia dos ultimos instantes da entrevada. Disseram-me, debulhadas em pranto as religiosas, que a morte de Leonor fora o remate de um colloquio com o espirito de Maria da Gloria. E, como eu me detivesse em amiudar os pormenores d'este vago dizer, tiveram as senhoras a bondade de me contar que o rosto de Leonor, nos seus ultimos mezes, brilhava de um resplendor, que não era natural; e, ao sahir d'aquelles extasis, dizia ás suas amigas que estivera vendo no céo a imagem de sua tia. N'um d'estes arrobamentos é que Leonor expediu o espirito, dizendo estas palavras: «Abre-nos o teu seio, santa! leva para ti os teus dous filhos, e não me lances de ti, que as minhas lagrimas purificaram-me.»
Eu quiz, não por duvidar, mas por escrupulo, combinar dous factos inconciliaveis.
—Se Leonor morreu de repente, como foi avisado o padre Alvaro de que ella estava em agonia da morte?
—Não se lhe deu tal aviso;—respondeu a prioreza—Leonor, na vespera do seu trespasse, tinha dito que, se o seu primo não viesse vêl-a até ás quatro horas do dia seguinte, só na presença de Deus a veria, Ora, nós tanta confiança tinhamos nas previsões da virtuosa senhora, que nos apressamos a chamal-o.
—Deu-se, por tanto um milagre!—atalhei eu.
—Milagre foi, louvado seja por isso o Senhor, que escolheu a sua serva para nos edificar—respondeu a prelada—O padre Alvaro chegou minutos depois da hora que ella dissera.
—Serei importuno fazendo mais uma pergunta?
—Queira dizer.
—Leonor tinha reminiscencias magoadas, ou mesmo saudosas d'um passado, anterior a trinta annos?