O Romance de um Homem Rico
Capítulo XIX
Alvaro reprimiu a resposta que, repulsa dos lábios, fallou em lagrimas. Leonor tomou-lhe as mãos com estremecimento carinhoso, e disse-lhe:
—Por que é, meu querido primo? Por que te não dá Deus a felicidade que mereces?
—Dá, minha Leonor...—balbuciou o internecido moço—Dá... é a tua amisade... são as melhores lagrimas do teu coração... Que lhe tenho eu pedido? N'aquelle tempo em que eu olhava para esta época, e te via continuando a estação de felicidade que minha santa mãe me trouxera do seu carcere... n'aquelle tempo, Leonor, gozei horas de alegria celestial... Eu, sem ti, não sabia recordal-as, e nem o bem da saudade me era dado. Agora, quer Deus que a minha alma se alumie á luz dos meus dias alegres... pallida luz, como a da lampada do sacrario ao amanhecer... mas, aqui estou vendo os olhos, que me viram feliz... E tu, Leonor, o teu espirito vive e falla... O melhor de ti era o sentimento que hontem acordou... e a amisade sem os dissabores da paixão... N'aquelle tempo...
—Oh! por piedade, cala-te, Alvaro!...—atalhou Leonor, afogada de soluços...—Não me castigues tu, meu anjo de desgraça e de compaixão...
XIX
.... Já dava no rosto a friagem da noite da eternidade; só faltava
regelar
de todo... e cahir.
A. F. DE CASTILHO (Fr. F. de
Monte-Alverne).
Leonor, ao cabo de dous annos de padecer, difficultosamente sahia do leito. A extrema fraqueza e tremor espasmodico das pernas seguiu-se a paralysia, e a inteira inactividade. Se a tiravam do leito, transferiam-na a uma poltrona de rodas, que Alvaro com sua mão conduzia a uma varanda envidraçada, onde Leonor ficava horas embebecida nas bellezas do céo, e do valle de Santarem. Duas maravilhas então occorreram: nunca mais Leonor se lastimou da sua desgraça. E se acontecia Maria ou Alvaro olharem-na com piedade, sorria ella, e dizia:
—O espirito é feliz; e as dôres abrandaram muito, desde que metade do corpo morreu. Vejo-me meia morta, e não me aterro.
A outra maravilha foi o remoçar-se-lhe o rosto, até á formosura que ella naturalmente conservaria, com vida quieta e bonançosa, nos seus vinte e nove annos. A nutrição encheu-lhe os sulcos das faces; a pelle amaciou-se e restaurou a antiga alvura; volveram as cores purpurinas, e contornou-se o oval do rosto. Eufemia esmerava-se em toucal-a, em quanto ella, sorrindo, dizia:
—Queres por força que a morte se namore de mim!
Alvaro depunha muitas vezes o livro, com que sua prima se recreava, e extasiava-se nos olhos d'ella; mas que amargura elle escondia n'aquelles extasis!
—Vejo os teus dezoito annos, Leonor!—disse-lhe elle um dia.
—Valho hoje mais, Alvaro! Perdi meio corpo, e ganhei o coração!— respondeu ella—A primeira paralysia era a peor...
Maria da Gloria chamou uma vez o filho ao seu quarto, e disse-lhe:
—Vaes ouvir-me, sem sobresalto, meu Alvaro. Eu tenho até hoje escondido de ti o unico segredo, que devia esconder—a sensivel aproximação do meu fim.
—Que é, minha mãe?!—exclamou o filho, correndo a abraçal-a.
—Não é isso o que eu te pedi, Alvaro!... Escuta-me com socego: sê até ao meu ultimo dia o homem forte. Pedi ao meu medico que nunca te revelasse a minha molestia, depois que lhe arranquei a confissão de que ella é incuravel. Eu morro do coração. Os rebates d'esta dolorosa doença senti-os no meu primeiro anno de convento. A minha vida tem sido um milagre. Quiz Deus por intercessão das almas que me presaram, que eu chegasse até aos teus vinte e sete annos, filho. E choras como aos dez, Alvaro! e tiras-me assim as forças de que eu tanto carecia para te dizer o fim para que te chamei!...
—Diga, minha mãe...—atalhou Alvaro com simulada quietação.
—Pois, sim; socega, escuta-me, filho... Que farás tu, depois da minha morte? Em que destino tens tu pensado? Assistirás á agonia de Leonor, ou acabarás por pedir ao mundo um quinhão do contentamento qualquer que te compense da triste vida que tens vivido!? Acharás um dia uma esposa com o coração de tua mãe, ou ficarás esperando a tua hora final, depois que deres a mortalha a tua prima? E a ti quem te amortalhará, meu pobre Alvaro!?
—Hei-de eu amortalhar-me, minha mãe—respondeu elle tranquillamente após alguns instantes de concentração—Agora, rogo-lhe, por quanto amor lhe tenho, que me não faça mais perguntas.
No dia seguinte, pediu licença a sua mãe, e foi Alvaro a Lisboa. Apresentou-se ao cardeal-patriarcha, e demorou-se algumas horas em pratica secreta. Commetteu importantes encargos ao advogado de sua casa, e voltou ao valle. No caminho encontrara o medico de sua mãe, e, como quem ouvira da enferma o terrivel segredo, obteve do medico a confirmação d'uma breve morte. Era a doença um scirro no coração, já em seu periodo final.
Alvaro encontrou sua mãe animada, fóra do leito, ouvindo Leonor, que lia os manuscriptos de seu primo, na maior parte traducções, feitas no collegio. A que ella estava lendo, era a do «Cura do Wakefield» de Goldsmith. Reviam lagrimas suaves os olhos de ambas, quando Leonor lia o XXIX capitulo que eu inculco muito d'alma a todos os desgraçados, e que vem assim intitulado: Demonstração da equidade da Providencia para com felizes e infelizes. Resulta da propria natureza do prazer e da dôr, que os desgraçados devem encontrar na vida futura compensação dos seus soffrimentos.
Alvaro não consentiu que Leonor fechasse o manuscripto, e sentou-se a ouvil-a, até estas linhas que a leitora já lêra a custo, de turvada que tinha a vista por lagrimas: «A morte nada é, e todo homem póde mostrar-lhe rosto sereno; mas os tormentos é que são provações horriveis, que poucos sabem supportar.»
—Não leias mais, filha...—disse Maria da Gloria—conta-nos o que fizeste em Lisboa, Alvaro... Devia de parecer-te nova a cidade! Ha tres annos que lá não tinhas ido!... Com quem fallaste, filho?
—Com poucas pessoas, minha mãe. Passados dias, tenho de me lá demorar algum tempo para negocios nossos.
—Algum tempo!—disse Leonor—e com que placidez de espirito dizes isso, primo! Pois tu deixas-nos por algum tempo!? E podes, Alvaro?
—São sacrificios necessarios, minha prima. Eu hei-de aligeirar a minha demora o mais que possa...
—Soubeste—atalhou Maria—se teem sido cumpridas as nossas determinações?
—As mezadas?... tem sido pontualmente pagas, minha mãe... Parece-me que a vejo reanimada!...
—Estou, filho... Por que te admiras?! No final das jornadas parece que o vigor do caminhante se recobra para maior caminho. A esperança é tudo, meu Alvaro, e, a morte é nada... não o ouviste ainda agora?
Nos tres dias consecutivos, Maria padeceu muito, e perguntou placidamente ao seu medico se seria chegado o termo. Não era. As dôres abrandaram; e o descanço de alguns dias faria reviver esperanças a quem as tivesse vivas e anciosas no espirito.
Leonor, desde que sua tia acamou, pediu que lhe não dessem outro local, senão o quarto d'ella; Alvaro entregou-lhe á sua vigilancia a mãe, e foi para Lisboa.
Ao termo de quatro dias, foi chamado por uma carta de Leonor, atribulada pelo receio de ver morrer sua tia, posto dizer a enferma que não morreria sem ver seu filho, com um ar de certeza e contentamento que parecia instincto do céo. Em carta, escripta de seu proprio punho ao filho, dizia ella: «não te apresses nem alvoroces, filho, que eu pão morro sem te dar o ultimo suspiro.»
A tempo foram as cartas de estar cumprida a diligencia que o levara a Lisboa. Sem respiro, transpoz Alvaro as doze leguas que o separavam de sua moribunda mãe. Diziam as criadas, e Leonor com ellas, que Maria da Gloria, sem delirio nem fraqueza de espirito, horas antes da chegada do filho, estava sempre dizendo, com sombra de jubilo, estas e outras exclamações:
—Como elle vem triste; mas que linda é a sua auréola de justo!
—O senhor condoeu-se da mãe innocente, e deu-lhe aquelle filho. Bemdito seja o Senhor no improfundavel mysterio dos seus juizos!
Foi Aivaro offegante ao quarto de sua mãe, que tinha a cabeça encostada ao peito de Eufemia, e os olhos postos no crucifixo. Maria, ao vêr o filho, nem sequer se aterrou no rosto, a não ser o sorriso instantaneo, que se abriu, na custosa articulação d'estas palavras:
—Não te disse eu que não era pressa, filho? Estou agora socegada; e, se assim morrer, suave é a morte. Tinham-me dito que o morrer d'este mal era horrivel de agonias! Deus faz o que os medicos não sabem... Estás fatigado, Alvaro? Vai descançar... Almoçaste, filho? Vai tratar d'elle, Eufemia... A nossa Leonor, coitadinha, não póde ir... A tua irmã querida... Deixo-t'a como filha.
—Eu vou comtigo, Alvaro?—disse com muita doçura Leonor— Ajuda-me? levas comtigo este meu esquife?
—A mãe quer estar sósinha?—disse Alvaro.
—Quero, filho: está ahi o meu confessor...
Sahiram da camara, e acharam fóra o confessor e o medico. O segundo pediu venia ao medico da alma para vêr a doente. Demorou-se instantes, e disse ao padre:
—Agora é toda sua a missão. Eu não venho em cata de esperanças; vinha espantar-me da serenidade da moribunda.
Depois de confessada, preparou-se o quarto para a recepção do Sagrado Viatico.
Alvaro, quando soube que sua mãe ia ser ungida, entrou no quarto, beijou-lhe a mão com torrentes de lagrimas, e pediu-lhe licença para vir da igreja acompanhando o Senhor. Maria fez um gesto de gostoso assentimento.
Soava já o toque lugubre da campainha, e o «bemdito» do povo, que acompanhava a extrema-unção. Os servos da casa ajoelharam na ante-camara da agonisante. Leonor estava já aos pés do leito, n'um recanto escuro, com as mãos erguidas.
Entrou o ostiario, e ao lado d'elle um outro sacerdote com as ambulas dos santos-oleos.
Ouviu-se um ai agudo, e o nome de Alvaro proferido com espanto. Leonor reconheceu-o, Maria descerrou as palpebras, e balbuciou:
—Não está aqui meu filho!?
E o levita, que entrára a par do vigário, aproximou-se da cabeceira do leito, e disse:
—Aqui estou, minha mãe.
Maria da Gloria estremeceu, estendeu os braços ao vulto que fallára na voz de seu filho, abriu a boca para deixar sahir a respiração convulsa, correu as mãos na face de Alvaro, que se aproximára da sua, e pôde exclamar:
—Tu!... Alvaro!... tu!... ministro de Jesus!
—Já vê que fico amortalhado, minha santa mãe...—disse o padre Alvaro.
Maria poz as mãos, cerrou os olhos, e murmurou:
—Infinitas graças, meu divino Senhor! Bemdito seja o vosso nome, Virgem Mãe de Jesus! Joanna das Cinco Chagas, santa, filha escolhida do meu Deus! pede um raio da tua gloria para a alma da tua serva!