O Último Magnata

F. Scott Fitzgerald · Capítulo 1 de 2

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O Último Magnata

Prefácio — Edmund Wilson

Prefácio

edmund wilson

Scott Fitzgerald morreu subitamente de um ataque cardíaco, em 21 de dezembro de 1940, um dia depois de escrever o primeiro episódio do capítulo 6 deste romance. O texto apresentado aqui é um rascunho feito pelo autor — reescrito e retrabalhado pelo próprio —, mas que não pode ser considerado, de forma alguma, a versão final. Nas margens de praticamente todos os episódios, Fitzgerald deixou observações — algumas poucas estão presentes ao fim deste livro — que expressam sua insatisfação, ou que indicam que ainda pretendia revisar muitas passagens. A intenção do escritor era produzir um romance tão concentrado e cuidadosamente elaborado quanto O grande Gatsby, e teria, sem dúvida, refinado o efeito de várias cenas, editando-as ou realçando-as. Fitzgerald imaginava que o romance teria 60 mil palavras — conforme revela o planejamento deixado por ele —, mas à época de sua morte já havia escrito cerca de 70 mil, tendo coberto pouco mais de metade da história. Calculara, no início, deixar uma margem de 10 mil palavras para ser editadas, mas tudo indica que o romance acabaria ficando mais longo do que o autor previra originalmente. O assunto era mais complexo do que o proposto em O grande Gatsby — o retrato dos estúdios de Hollywood requeria, para sua apresentação, mais espaço do que o pano de fundo da vida boêmia em Long Island, e da mesma forma os personagens precisavam ser desenvolvidos mais extensamente.

Este rascunho de O último magnata representa, portanto, um estágio no trabalho do artista em que ele já reunira e organizara a matéria-prima e tinha sólido domínio do tema, mas ainda não dera à obra seus contornos finais. É notável que, diante de tais circunstâncias, o romance ofereça tamanha potência e que o personagem de Stahr sobressaia com tanta intensidade e realismo. Esse produtor de Hollywood, em sua grandeza e em seu sofrimento, é certamente uma das figuras centrais de Fitzgerald, um dos personagens mais elaborados e que o autor mais bem compreendeu. Suas anotações sobre o personagem mostram como Fitzgerald conviveu com Stahr por três anos ou mais, amadurecendo as idiossincrasias da figura e reconstituindo sua rede de relacionamentos nos vários departamentos da indústria do cinema. Amory Blaine e Antony Patch eram projeções românticas do escritor. Gatsby e Dick Diver foram concebidos de forma mais ou menos objetiva, mas não explorados muito a fundo. Monroe Stahr se criou a partir de dentro e, ao mesmo tempo que é criticado por uma inteligência que o torna muito seguro de si, o autor sabe como situá-lo em lugar próprio, colocá-lo num contexto mais amplo.

Assim, O último magnata, mesmo em seu estado imperfeito, é a obra mais madura de Fitzgerald. Distingue-se dos outros romances do autor pelo fato de ser o primeiro a abordar seriamente uma profissão ou um negócio. Os livros anteriores de Fitzgerald tratavam de debutantes e universitários, bem como da vida boêmia dos esbanjadores dos anos 1920. As atividades principais dos personagens dessas histórias pregressas, o contexto em que vivem, são grandes festas das quais participam como fogos de artifício e que, em geral, os deixam desestruturados. As festas em O último magnata são incidentais e pouco importantes. Monroe Stahr, ao contrário dos outros heróis de Fitzgerald, está inextricavelmente envolvido com uma indústria da qual foi um dos fundadores — e o destino dessa indústria será influenciado por sua tragédia pessoal. O universo do cinema nos Estados Unidos é observado de perto, estudado com cuidado e dramatizado com sagacidade — uma combinação que não é encontrada em nenhuma outra obra sobre o tema. O último magnata é, de longe, o melhor romance já escrito sobre Hollywood, e o único que nos leva para dentro do mundo do cinema.

Foi possível complementar este rascunho inacabado do autor com um resumo da história, que apresenta a forma como Fitzgerald pretendia finalizar o romance, e com algumas anotações do escritor que, vividamente, comentam personagens e cenas.

Vale a pena ler O grande Gatsby junto com O último magnata, porque a primeira obra mostra o que Fitzgerald pretendia realizar na última. Se a concepção do tema em Suave é a noite foi se modificando enquanto o autor escrevia, é porque as partes desse romance fascinante nem sempre se encaixam perfeitamente. Aqui, porém, Fitzgerald manteve firmemente seu propósito, combinado à prosa de artesão presente na obra anterior. Ao examinarmos a imensa pilha de esboços e anotações que o autor fez para este romance, confirma-se e reforça-se a impressão de que Fitzgerald figura como um dos escritores de primeira linha da literatura americana. As últimas páginas de O grande Gatsby estão, certamente, tanto do ponto de vista dramático como do ponto de vista da prosa, entre as melhores da ficção produzida por nossa geração. T. S. Eliot disse, a respeito do livro, que Fitzgerald dera o primeiro importante passo à frente na literatura americana desde Henry James. E certamente O último magnata, mesmo não tendo sido completamente finalizado, ocupa um lugar de destaque entre os livros que instituem novos modelos de escrita.