O Último Magnata
Notas
capítulo 1
O autor escreveu o seguinte no topo da página de seu último rascunho do primeiro capítulo:
Reescrever conforme disposição. O texto ficou empolado de tanto ser reescrito. Não olhar [o rascunho anterior]. Reescrever conforme disposição.
*
O primeiro esboço de Fitzgerald para o final do capítulo talvez transmita suas ideias de maneira mais completa do que ele conseguiu atingir na última versão.
O material será baseado em uma conversa que tive com —— na primeira vez em que fiquei sozinho com ele, em 1927, no dia em que me contou algo sobre as ferrovias. O máximo que posso me lembrar da conversa é o seguinte: Sentamos no antigo refeitório em —— e ele disse: “Scottie, vamos supor que seja necessário fazer uma estrada que corte uma montanha — uma ferrovia — e você tenha dois ou três peritos e outras pessoas a orientá-lo, e que você acredite em algumas dessas pessoas e não acredite em outras, no final das contas, vai parecer haver meia dúzia de caminhos possíveis para atravessar as tais montanhas, e cada um deles, até onde você pode julgar, é tão bom quanto os demais. Agora, suponha que você é o chefão, chega uma hora em que você não exercita mais a faculdade de julgar de forma ordinária, como os outros, mas o faz de forma arbitrária. Diz: ‘Bem, acho que vamos fazer a estrada aqui’, e traça o caminho com o dedo, sabendo, em segredo, algo que ninguém mais sabe: que não existe nenhuma razão específica para escolher aquela localização em detrimento das várias outras, mas você é a única pessoa que sabe que não sabe o que está fazendo, e tem de se manter firme, precisa fingir que entende do assunto e que tomou a decisão por razões específicas, mesmo sendo assaltado por dúvidas sobre a sabedoria de sua decisão — e tendo outras decisões possíveis ecoando em seus ouvidos. Quando está planejando um novo empreendimento de grande escala, as pessoas abaixo de você nunca devem perceber ou saber que está em dúvida, porque todos precisam ter um norte e não podem sequer sonhar que o chefe está indeciso. Essas coisas acontecem direto”.
A essa altura, algumas outras pessoas entraram no refeitório e se sentaram, e a primeira coisa que percebi é que se tratava de um grupo de quatro, e que a intimidade de nossa conversa fora quebrada, mas permaneci muito impressionado pela perspicácia do que ele dissera — algo além de perspicácia —, pela amplitude de seu pensamento e por imaginar de que forma ele o construiu com a idade de vinte e seis anos, que era o que tinha naquele momento.
Então, acho que este último episódio acontecerá quando Stahr se levanta e vai sentar com o piloto lá na frente. Este reconhece em Stahr alguém que, em sua própria área, deve ser tão determinado e corajoso quanto ele próprio. Pouquíssimas palavras serão trocadas entre o piloto e Stahr — na verdade, esse é um episódio que enxergaremos inteiramente pelos olhos curiosos de Cecilia, ou pelo relato da aeromoça que conta a Cecilia o que viu na cabine, ou por Schwartz, que ainda tenta chegar a Stahr antes de o avião descer em Los Angeles. É possível que não estejamos sozinhos com Stahr até o final desse capítulo, mas, bem no fim, quero falar sobre aquele estranho sentimento, presente naquela anotação prévia, sobre o desligamento do motor e a aterrissagem da aeronave e as luzes de Los Angeles e, por um minuto, quero iluminar a alma intensamente passional de Stahr, seu amor pela vida, seu amor pelo empreendimento imenso que construiu, sua satisfação — talvez não exatamente — mas, isso é certo, sua sensação de voltar para casa, para um império que é seu, um império que construiu.
Quero que isso contraste brutalmente com o sentimento daqueles que, por meios ilícitos, se apoderam do império de outras pessoas, a exemplo dos quatro grandes donos de ferrovias na costa… ou com o sentimento de quem poderia ter agido assim. Stahr não se interessa por isso apenas porque é o chefão. Ele possui o interesse do artista que criou a coisa toda e, misturado a esse poderoso sentimento de triunfo e felicidade, precisa haver, inevitavelmente, uma sensação de tristeza, como em todos os atos de coragem — um sentimento de que, em certa medida, se chegou ao fim de algo, e também de dúvida sobre quanto se poderá avançar no próximo passo.
Depois que o avião desce, talvez seja melhor fechar o capítulo com essa exaltação — repetindo meu próprio medo ao aterrissar em Los Angeles, aquele sentimento de que havia novos mundos a conquistar em 1937, e transferir isso a Stahr, ou talvez seja melhor acabar com a cacofonia de um rival.
capítulo 2
Fitzgerald havia escrito Nada mais justo diante do parágrafo que começa com “O Robby vai
cuidar de tudo quando chegar”, assegurou Stahr ao meu pai. Essa deveria ser a primeira aparição do personagem que viria a ter um papel importante na trama e o autor desejava, presumivelmente, com essa introdução casual, dar uma viva expressão a ele. Suas anotações sobre Robinson podem ser encontradas adiante, entre os esboços preliminares dos personagens.
capítulo 3
O autor não ficou completamente satisfeito com a revisão e a organização desse capítulo. O texto aparece aqui como estava no rascunho, apenas com algumas poucas mudanças para lhe dar maior consistência interna.
No rascunho, a passagem aparece assim:
O ataque fora planejado, provavelmente, pois Popolos, o grego, entrou no assunto com uma
conversa meio enrolada, o que, para o príncipe Agge, trouxe à lembrança Mike Van Dyke, exceto que a fala, ali, tentava e conseguia ser mais clara do que confusa.
O autor escreveu uma cena, com a qual não ficou satisfeito, em que o príncipe encontra Mike Van Dyke, o veterano comediante; mas as falas de duplo sentido de Mike Van Dyke deveriam se encaixar em outro lugar. A passagem em questão é a seguinte:
“Olá, Mike”, disse Monroe. E o apresentou ao visitante: “Príncipe Agge, este é o sr. Van Dyke. Já deve ter rido de suas piadas muitas vezes. Ele é o melhor comediante do cinema.”
“Do mundo”, disse o homem de olhos arregalados, solenemente, “o mais engraçado do mundo. Como vai, príncipe?”
Imediatamente, o príncipe engatou uma conversa com Mike Van Dyke. Ele respondia de forma educada, sem entender bem a essência das palavras do interlocutor. Havia algo sobre o refeitório, onde o senhor Van Dyke julgou ter ouvido o príncipe pedir um prato que soava como “peixe trançado com guidão de gato”, embora o príncipe estivesse seguro de não ter dito tal coisa.
Ele tentou explicar que não tinha estado no refeitório, mas a essa altura os dois já estavam tão envolvidos no assunto que o príncipe considerou que o melhor era admitir que tinha pedido o tal prato para pôr fim às observações equivocadas do sr. Van Dyke. Para este, não era tanto uma questão de insistência quanto de convicção, e falava muito rápido…
O príncipe foi apresentado ao sr. Spurgeon e ao casal sr. e sra. Tarleton, mas estava agora tão confuso pela conversa que tivera com o sr. Van Dyke que declarou “muito prazer em me conhecer”, porque, entre uma coisa e outra, tentara explicar ao sr. Van Dyke que não havia visto Technigarbo em Gretacolor. Novamente ele não conseguira se fazer entender. Se seu nome era Albert Edward Butch Arthur Agge David, príncipe da Dinamarca? “Esse aí é meu primo”, já quase dizia, meneando a cabeça.
A voz de Stahr, clara e tranquilizante, o trouxe de volta à realidade.
“Já chega, Mike. Ele está fazendo brincadeiras de duplo sentido”, explicou ao príncipe Agge. “Os baixos escalões por aqui acham engraçado. Pega leve, Mike.”
Mike demonstrou polidez.
“Encontrei o primo do príncipe no portão hoje de manhã”, e apontou para Stahr, “ou será que…?”
Desconcertado, o príncipe dinamarquês caiu de novo na armadilha.
“O quê? Ele o quê?” Então sorriu: “Entendi, ele é sua Gertrude Stein”.
capítulo 4
Fitzgerald fez a seguinte anotação no episódio com o diretor, que inicia esse capítulo:
O que está faltando na cena de Ridingwood é paixão e imaginação etc. Que coisa extraordinária que ele tivesse tudo e, de repente, não tivesse nada.
capítulo 5
Depois da frase, De modo que tinha tomado a tolerância, a bondade, a indulgência e até mesmo a
afeição como lições, o autor escreveu a si próprio: (e aqui vem a ideia sobre ser jovem e generoso).
Anotação que se segue à seção que termina na página 141.
Isso talvez não esteja suficientemente conciso e claro. Ou talvez não esteja forte o bastante. Talvez seja o momento para o veredito do médico. Gostaria de lhe dar uma pegada mais forte.
Dois esboços
A carta e o esboço a seguir lançam alguma luz sobre o desenvolvimento da história e mostram como ela evoluiu e mudou desde a concepção inicial do autor.
*
Carta escrita por Fitzgerald em 29 de setembro de 1939, na qual o autor explica o plano inicial do romance a seu editor e ao editor de uma revista na qual esperava publicá-lo em capítulos.
A história se passa durante quatro ou cinco meses no ano de 1935. É narrada por Cecilia, filha de um produtor de Hollywood chamado Bradogue. Cecilia é uma garota bonita e moderna, nem boa nem má, tremendamente humana. Seu pai também é um personagem importante. Um homem astuto, um gentio, e um canalha da pior espécie. Típico homem que se fez sozinho, criou Cecilia para ser uma princesa: enviou-a para estudar na Costa Leste, fez dela uma criatura quase esnobe, embora, no decurso da história, a personagem evolua e se distancie muito desse perfil. Ela tinha vinte anos quando tudo aconteceu, mas já está com vinte e cinco quando nos conta a história e, evidentemente, muitos dos personagens se apresentam a ela sob uma ótica diferente agora.
Cecilia é a narradora porque julgo saber exatamente como uma pessoa assim reagiria à minha história. Ela é do ramo do cinema, mas não está nele. Ela provavelmente veio ao mundo no dia em que O nascimento de uma nação estreou, e Rodolfo Valentino esteve em seu aniversário de cinco anos. É, ao mesmo tempo, inteligente, cínica e compreensiva com as outras pessoas, seja nomes expressivos, seja inexpressivos em Hollywood.
Ela concentra nossa atenção em dois personagens principais — Milton Stahr e Thalia, a mulher que ele ama.
No começo do livro, pretendo apresentar esse homem, Stahr, enquanto ele faz uma viagem de avião de Nova York para a Costa Oeste — claro, pelos olhos de Cecilia. Ela está perdidamente apaixonada por ele há tempos. Mas jamais vai ganhar mais do que um olhar de afeição, e ainda assim marcado pela aversão que ele sente pelo pai da moça.
Stahr trabalha demais e está morto de cansaço, comanda os negócios com um brilho quase moribundo em sua fosforescência. Foi alertado de que sua saúde não vai bem, mas, sendo um destemido, não deu ouvidos aos médicos. Stahr teve tudo na vida, exceto a experiência de se doar por inteiro a outro ser humano. Ele descobre isso na noite de um terremoto razoavelmente sério (como o de 1935), que acontece poucos dias depois que a história começa a ser contada.
Foi um dia cheio até mesmo para Stahr — a força da água que invade toda a parte térrea do estúdio, e atinge o nível de alguns metros, parece abrir as comportas desse homem. Chamado à parte externa do estúdio para supervisionar a salvação da planta elétrica (já que Stahr controla tudo por ali), ele vê duas mulheres presas no telhado de uma das casas cenográficas e se dirige até lá para socorrê-las.
Thalia Taylor é uma viúva de vinte e seis anos — e a presente ideia que tenho dela deve transformá-la em uma de minhas heroínas mais simpáticas e sedutoras. Mas sedutora de uma forma diferente, já que terei entrado em secreto acordo com meus leitores de que devemos detestar o tipo de arrogância feminina que ganhou fama por causa do caso de —— etc. As pessoas simplesmente não simpatizam profundamente com personagens que tiveram tudo, e vou proporcionar a essa moça “algum infortúnio”, como acontece com Rosalba em Rose and the Ring, de Thackeray. Ela e a outra garota (de quem é uma espécie de acompanhante) entraram secretamente no estúdio devido à curiosidade dessa outra mulher. E são pegas quando a catástrofe ocorre.
Agora temos um caso de amor entre Stahr e Thalia, um caso premente, dinâmico, inusitado e muito físico — e o descreverei de forma que vocês possam publicá-lo. Ao mesmo tempo, vou enviar uma cópia de como essa parte vai sair em livro, com um tom um pouco mais vigoroso.
Esse relacionamento amoroso é o centro do livro — embora eu vá tratá-lo, lembrem-se, a partir da ótica de Cecilia. Isso significa que, ao fazer de Cecilia, conforme ela conta a história, uma mulher observadora e inteligente, terei o privilégio, como fez Conrad, de deixá-la imaginar as ações dos personagens. No entanto, espero atingir a verossimilhança de uma narrativa em primeira pessoa, combinada a um conhecimento onisciente de todos os acontecimentos a que estão sujeitos meus personagens.
Além do caso amoroso, dois outros eventos importantes ocorrem nos capítulos intermediários. Há uma trama engendrada pelo pai de Cecilia, Bradogue, para tirar Stahr da empresa. Ele chega mesmo a considerar mandar matá-lo. Bradogue é um monopolista do pior tipo — Stahr, apesar do conservadorismo inevitável do homem que se fez sozinho, é um empregador paternalista. Obteve sucesso ainda jovem, aos trinta e três anos, e alguns de seus ideais de juventude se mantiveram imaculados. Além disso, é um trabalhador. Figurativamente, ele ainda chega ao trabalho e arregaça as mangas, enquanto Bradogue não está interessado em fazer cinema, a não ser na medida em que isso possa ajudar a aumentar seu saldo bancário.
O segundo incidente ocorre quando Cecilia, desesperadamente apaixonada por Stahr, se declara a ele. Em sua reação à indiferença do amado, ela se entrega a um homem a quem não ama. Esse episódio não é absolutamente necessário à sequência. Poderia perder importância, mas talvez seja melhor cortá-lo de uma vez.
De volta ao tema principal: Stahr não consegue se decidir a casar com Thalia. Simplesmente parece não haver lugar para isso em sua vida. Ele não se dá conta de quanto ela se tornou necessária. Em outros tempos, seu nome sempre estivera associado a atrizes famosas e celebridades, e Thalia é pobre, sem graça, e tem um verniz de classe média que não se encaixa com a grandiosidade que Stahr espera da vida. Quando percebe isso, ela o abandona temporariamente, deixando-o não por ele não ter a intenção de oficializar o compromisso, mas porque a coisa toda a magoa — e é uma lembrança de um tipo de vaidade do qual ela já se considerava livre.
Stahr se vê agora diretamente na luta para se manter no controle da companhia. Sua saúde se deteriora de repente, durante uma viagem a Nova York para se reunir com acionistas. Quase morre por lá e, quando retorna, descobre que Bradogue aproveitou sua ausência para tomar atitudes que Stahr considera impensáveis. Ele se lança novamente ao trabalho para tentar colocar as coisas em ordem.
Tendo se dado conta de quanto precisa de Thalia, eles voltam a ficar juntos. Por um ou dois dias vivem um idílio feliz. Vão se casar, mas ele precisa fazer mais uma viagem à Costa Leste para consolidar a vitória em relação aos negócios da empresa.
Aqui acontece o episódio final, que deve atribuir brilho ao romance por seu desfecho pouco usual. Vocês se lembram da ocasião em que, em 1933, um avião de passageiros caiu numa montanha do sudoeste e um senador morreu? O que me chamou a atenção foi que as pessoas do local saquearam os corpos. Isso é exatamente o que acontece com esse avião que está levando Stahr para longe de Hollywood. A ótica é a de três crianças que, num piquenique, são as primeiras pessoas a encontrar os destroços. Entre os mortos, além de Stahr, estão dois outros personagens que já conhecemos. (Não me foi possível entrar em detalhes sobre personagens secundários neste curto resumo.) Das três crianças que encontram os corpos, dois meninos e uma menina, é um dos meninos quem rouba os pertences do cadáver de Stahr; o outro menino saqueia o corpo de um ex-produtor arruinado; e a menina, os pertences de uma atriz de cinema. As coisas que as crianças encontram nos cadáveres simbolicamente determinam suas atitudes em relação ao roubo. A menina que roubou a atriz se vê diante de um sentimento egoísta em relação aos achados; já as coisas do ex-produtor influenciam o menino a uma atitude indecisa; ao passo que o menino que ficou com a pasta de Stahr é aquele que, depois de uma semana, salva os três ao procurar uma autoridade local e confessar tudo.
A história volta uma vez mais a Hollywood para seu fim. Durante todo o romance, Thalia jamais entra num estúdio. Depois da morte de Stahr, parada diante do grande empreendimento construído por ele, ela se dá conta de que jamais entrará. Sabe apenas que ele a amava, que foi um grande homem e que morreu em busca do que acreditava…
Não há nada que me preocupe no romance, nada que pareça incerto. Ao contrário de Suave é a noite, não é a história de uma deterioração — não é deprimente nem mórbida, apesar do fim trágico. Se um livro pudesse “se parecer com outro”, eu diria que esse “se parece” mais com O grande Gatsby do que com qualquer outra de minhas obras. Mas espero que seja completamente diferente — espero que traga algo novo, que desperte novas emoções, talvez até uma nova forma de encarar determinados fenômenos. Situei o livro cinco anos atrás para obter um distanciamento, e agora que a Europa se encontra em plena convulsão, a escolha parece ter sido apropriada. É uma fuga para um passado pródigo e romântico que talvez não volte mais em nosso tempo.
cecilia
O primeiro dos fragmentos que se seguem foi originalmente escrito como uma introdução para o romance; mas Fitzgerald decidiu descartá-lo por medo de tornar a história muito deprimente. A imagem de Cecilia no sanatório para tuberculosos apareceria, de qualquer forma, ao final do livro.
Ambos estávamos fascinados por aquele rosto jovem. Alguns meses antes, tínhamos feito uma pequena excursão aos cânions do Colorado, como que para apreciar uma última vez a vida; agora, de volta ao hospital, o rosto da garota, exposto ao sol e à febre, parece emprestar alguns dos tons rosados primordiais daquela “maravilha da natureza”.
“Vamos, conte”, dissemos. “Não sabemos nada dessas coisas.”
Ela começou a tossir, e mudou de ideia — acontece.
“Não me importo de contar a vocês. Mas por que nossos amigos asmáticos têm de ouvir?”
“Eles vão se retirar”, asseguramos a ela.
Nós três esperamos, cabeças reclinadas nas cadeiras, enquanto uma enfermeira orientava um grupo agitado, que talvez tivesse ouvido o comentário de Cecilia, e o conduzia em direção ao sanatório. A enfermeira lançou um olhar de reprovação a Cecilia, como se desejasse voltar e lhe dar um tapa — mas o olhar aos poucos se dissipou e a mulher correu atrás de seu rebanho.
“Eles se foram. Agora fale.”
Cecilia mirou o céu claro do Arizona. Olhou para cima — o ar azul, que para nós um dia foi sinal de esperança matinal — não com arrependimento, mas com aquele estado de confusão misturado a arrogância, comum a quem foi apanhado pela Depressão em plena adolescência. Tinha agora vinte e cinco anos.
“O que vocês quiserem saber”, ela prometeu. “Não devo a eles nenhuma lealdade. De vez em quando tomam um avião e vêm me visitar, mas isso não importa — estou arruinada.”
“Estamos todos”, falei, suave.
Ela se sentou, as figuras astecas de seu vestido contrastando com o cobertor estampado com motivos navajos. O vestido de tecido fino — tão apropriado para aquela região ensolarada — me fez lembrar dos ossos salientes e arredondados dos ombros de uma outra mulher, em outro lugar, num outro momento, mas aqui todos devemos permanecer na sombra.
“Você não devia falar assim”, ela sugeriu. “Eu estou arruinada, mas vocês são apenas dois caras legais que acabaram por ser infectados.”
“Assim você nos tira o direito de ter uma aventura”, objetamos, com ironia. “Ninguém com mais de quarenta tem direito a uma.”
“Não quis dizer isso. Só quis dizer que vocês vão ficar bem.”
“Conte-nos a história, para o caso de não ficarmos. Ainda se ouvem rumores sobre ele. Quem era: o messias da indústria? Conheço alguns caras que trabalhavam na Costa Oeste e o detestavam. E você, era louca por ele? Conte logo, Cecilia. Um pouco de sabor pra um paladar maltratado! Pense no jantar de hospital que vamos ter de encarar em meia hora.”
O olhar de Cecilia suspeitava de nossa existência, depois a rejeitava — não nosso direito de viver, mas nosso direito a qualquer sentimento importante de perda ou paixão ou esperança ou de grande entusiasmo. Ela começou a falar, mas se interrompeu brevemente tentando se livrar de um pigarro na garganta.
“Ele nunca reparou em mim”, disse, com indignação, “e não vou falar a respeito dele enquanto vocês mantiverem essa atitude.”
Jogou de lado o cobertor e se levantou. Seus cabelos, partidos ao meio, caíam-lhe em ondas castanhas sobre as têmporas pálidas. Estava muito magra, mas ainda tinha o brilho da juventude. Sua superioridade ficou implícita no bater dos saltos, enquanto caminhava até a porta aberta que dava acesso ao corredor do prédio — nossa única passagem para a terra encantada. Aparentemente, Cecilia agora desacreditava de tudo, mas parecia ter sido diferente em outra época, que ficara para trás.
Tínhamos certeza, de qualquer forma, de que em algum momento ela acabaria por nos contar tudo — e foi o que fez. O que se segue é nossa versão imperfeita de sua história.
*
Aqui é Cecilia contando a história. Acho que devo começar explicando por que gastei boa parte do verão circulando pelo estúdio. Bem, pra começar, eu já estava bem grandinha para ficar de fora e sabia como circular sem incomodar ninguém. Segundo, discordara de Wylie White sobre quem mandava no meu corpo. Havia um ator, x, com quem não tinha intenção de casar e que interpretava o papel do homem que quase conquista uma garota em três filmes ao mesmo tempo, de modo que certamente andaria sempre por ali. Em terceiro lugar, e a razão mais importante, eu não tinha mais nada pra fazer. (Quarto, com descrição dos rapazes de Hollywood.)
*
[Cecilia e Kathleen]
Ela usava um vestidinho de verão da Sacks de 18,98 dólares, aproximadamente, e um chapéu rosa e azul abaulado de um dos lados. Suas unhas estavam pintadas de um rosa pálido, quase natural, e era impossível determinar se os cabelos também eram pintados. Era educada e reticente. x perdeu algum tempo tentando explicar quem eu era, mas esbarrava no fato de Kathleen More nunca ter ouvido falar de meu pai.
“Estou procurando um emprego”, ela disse.
“Que tipo de emprego?”
“Estou olhando os anúncios. O que é um swami?”
x explicou — era muito interessante.
“Muito encorajador”, disse Kathleen. “Mas eu não serviria para isso — aquela toalha imunda enrolada na cabeça.”
*
Papai costumava ter grandes desentendimentos com os judeus por causa de suas piadas a respeito deles e dos irlandeses. Os judeus sempre alegavam que ele pegava pesado demais. Papai achava que as brincadeiras eram apenas justas. Por exemplo, aquela piada do choro…
stahr
Muitas vezes o dia de Stahr já começava no estúdio. Desde a morte da esposa, ele frequentemente dormia por lá; sua sala tinha um banheiro e um quarto de vestir, e seu divã se transformava em cama. Dadas as imensas distâncias dentro do Condado de Los Angeles — onde três horas por dia no trânsito não são uma exceção —, isso representava uma grande economia de tempo.
*
Ele nunca quis seu nome nos créditos dos filmes — “não preciso disso porque crédito é algo que eu dou aos outros. Quando se está numa posição de dar o crédito a si mesmo, então não se necessita disso”.
*
É preciso também mencionar uma grande falha de Stahr: cercar-se de homens que estavam muito abaixo de seu nível. No entanto, isso pode ter acontecido porque, na época, aos vinte e tantos anos, ele tinha certeza de sua boa saúde e acreditava poder manter tudo sob controle. Assim, supervisores muito pró-ativos poderiam atrapalhar ao invés de ajudá-lo. Interferia o mínimo no trabalho dos diretores, mas ainda assim tinha inimigos — até sua chegada a Hollywood os diretores gozavam de poder absoluto desde que Griffith filmara O nascimento de uma nação. Alguns diretores se ressentiam, portanto, do fato de ele os ter reduzido de donos da bola a simples peças em uma engrenagem. Porém, o interesse por todas as funções dentro do estúdio e seu temperamento absolutamente democrático garantiam-lhe popularidade nos baixos escalões.
Entretanto, isso não diz tudo sobre Stahr. É preciso voltar a sua infância e recuperar uma observação feita por sua mãe: “Sempre soubemos que Monroe se daria bem”. Vale lembrar também que esse homem era um lutador, ainda que fosse baixinho — não devia ter mais de 1,68 e pesava pouco (uma das razões por que sempre preferia receber as pessoas sentado) —, e, certa vez, em Veneza, quando um homem cortejou sua esposa, perdeu a cabeça e se meteu numa briga… Deve ter sido briguento desde a infância, provavelmente fez parte de alguma turma de encrenqueiros. Era popular entre os rapazes logo de cara, era sempre “da turma”. Era um homem mais popular entre os homens do que entre as mulheres.
Nas conversas casuais que tinha com outros caras, não havia nada de pedante ou superior — o que faz alguns homens se sentirem desconfortáveis. De vez em quando saía com um grupo de diretores festeiros — muitos deles grandes bebedores, embora não fosse seu caso. E eles o aceitavam como um dos seus, num espírito de companheirismo. Ou seja, apesar da crescente austeridade a que o aumento da quantidade de trabalho o obrigara nos últimos anos, Stahr nunca demonstrou pedantismo ou frescura, e acredito que isso, nele, era uma coisa verdadeira, não apenas um verniz. Era meio napoleônico e gostava de um combate, o que me faz supor novamente que deve ter sido encrenqueiro desde menino. Se, depois de ter se tornado poderoso, ele às vezes recorreu a subterfúgios para conseguir o que queria, era mais resultado de sua posição do que um traço de sua natureza. Acho que, por natureza, era direto, franco, desafiador. Tentem, diante disso, imaginar o que foi seu tempo de garoto.
Este capítulo não deve se desenvolver meramente como uma análise de caráter. Cada descrição que faço sobre Stahr deve conter, ao final de cada centena de palavras, alguma anedota interessante para manter a história viva. Não quero que o livro tenha um viés de análise. Quero que tenha tanto drama quanto uma história do velho Laemmle ao telefone.
*
Stahr tinha um conhecimento técnico geral das operações do estúdio, porém, como exercia a função de chefe fazia bastante tempo, e tantos novos aprendizes tinham se formado sob sua gestão, era atribuído a ele um conhecimento maior do que de fato tinha. Aceitava que fosse assim porque era o caminho mais fácil e costumava blefar, mas com cautela. No estúdio de dublagem, que era para o som o que a sala de edição era para as imagens, ele sabia das coisas de orelhada e constantemente se via perdido na babel de gírias e termos novos. O mesmo acontecia durante as pausas. Assistia, com uma secreta aprovação infantil, ao processo de criação de cenários animados, a partir de cenas realizadas para outros filmes. Seria capaz de facilmente compreender todo o processo — mas frequentemente preferia não fazê-lo, para preservar uma aceitação sensual que ocorria quando via uma cena projetada a partir dos copiões. Havia jovens espertos por ali — Reinmund era um deles — que plagiavam opiniões para dar a impressão de que entendiam tudo sobre o mundo dos filmes. Mas não Stahr. Quando interferia, era sempre a partir de seu próprio ponto de vista, não do de outros. Assim, sua função era um pouco diferente da que Griffith tivera no passado, quando a mão do diretor era indispensável para cada cena do filme.
*
É duvidoso que algum daqueles executivos tivesse lido uma única obra de ficção ao longo de um ano inteiro. E Stahr, que não tinha nenhum tempo para ler e dependia de sinopses, começou a duvidar que algum de seus supervisores lesse o que quer que fosse além do que lhes era exigido; duvidava que os encarregados dos elencos (aqui, nota para um personagem) pudessem cobrir a ampla gama de atores disponíveis — como era seu desejo. Uma peça encenada durante um ano e meio em San Francisco só seria descoberta depois que chegasse a Los Angeles, onde atraía espectadores enfadados sedentos por novidades. E, aí, em uma semana esse artista já teria explodido e seu salário seria muito alto, quando poderia ter sido contratado por quase nada se tivesse sido descoberto com um pouco mais de competência.
*
Para perdoar Stahr pelo que fez naquela tarde é preciso lembrar que ele era fruto da velha Hollywood — aquele território bruto e duro onde apenas os melhores blefadores prosperavam. Ele criara brilho, polimento e controle na nova Hollywood, mas de vez em quando gostava de jogar duro para ver se essas coisas ainda vigoravam.
*
Mas agora, parado ali enquanto a orquestra começava a tocar e os pares se levantavam para dançar, uma frase veio-lhe à mente e o surpreendeu: “Estou entediado para além de qualquer medida”.
Nenhuma dessas palavras parecia sua. “Para além de qualquer medida” era tão teatral que Stahr começou a se perguntar se não teria lido a expressão em algum lugar recentemente. Não saía tanto assim a ponto de se entediar ou de pensar no assunto nesses termos. Sabia como se esquivar dos chatos e tinha aprendido a aceitar deferência e admiração com humildade e graciosidade; e quase sempre se divertia.
Alguns homens se aproximaram, e conversou com eles com as mãos enfiadas nos bolsos. Um deles era um agente que o detestava e constantemente se referia a ele, pelo menos era o que tinha ouvido, como “o messias de Vine Street”, “Oscar ambulante” ou “Napoleão redivivo”.
*
Em algum momento após a instauração da censura, Monroe se revolta contra a infantilidade.
Mostrar Stahr recolhido ou evitando as pessoas, mas sem magoá-las.
*
Como muitos homens, ele não gostava muito de flores, exceto por algumas poucas mais selvagens — eram por demais elaboradas e autoconscientes. Gostava, porém, de folhas, galhos descascados, castanhas da índia, e até de frutas verdes, maduras e bichadas.
*
Stahr se sente infeliz e amargurado mais para o final.
*
Antes da morte, pensamentos sobre O Colapso.
Eu me pareço com morte? (diante do espelho, às seis da tarde)
*
Homens dotados de capacidade incomum para o trabalho, a análise ou outros ingredientes que ajudam a forjar um grande sucesso pessoal parecem esquecer, assim que ficam ricos, que tais habilidades não são distribuídas de forma equânime entre os homens de seu tipo. Então, quando a sugestão de um sindicato é trazida à tona por Bradogue [Brady], Stahr sente vontade de mudar de lado e se aliar a Bradogue. Deixar claro, também, no epílogo, que Stahr fez algum mal em sua vida, assim como fez algum bem. Mostrar que algumas de suas criações combativas, como a Associação dos Roteiristas, continuaram existindo após sua morte, assim como boa parte de seu trabalho criativo também sobreviveu a ele. Lembrar, no entanto, que essas observações devem desempenhar um papel pequeno no capítulo e precisam ser escritas epigramaticamente, com inteligência; talvez possam sair da boca de algum personagem que esteja deixando Hollywood nesse mesmo capítulo [em que Stahr decola para seu último voo]. De qualquer maneira, não devo permitir que isso influencie no clima desse capítulo, que deve — seja de forma aproximada ou distanciada — pertencer a Thalia [Kathleen], para que ela perdure na mente do leitor.
kathleen
Ela se deu conta de que os caminhos da vida eram como rotas de avião, jamais levando a lugar algum; de que ninguém sabia qual era de fato seu lugar, uma vez que não existia nenhum Daniel Boone para abrir picadas; de que a vida tinha de seguir em frente e não se restringia ao que acontecia dentro dela, e ainda assim era preciso que houvesse aqueles caminhos. Era uma jornada terrivelmente solitária.
*
Ela pensou nos ventiladores elétricos de pequenos restaurantes com lagostas em gelo na vitrine, e nas placas luminosas piscando e girando contra um céu obscuro, urbano, quente e negro. E, permeando tudo, o misterioso e terrível aglomerado de telhados e apartamentos vazios, de vestidos brancos nas alamedas dos parques, de dedos apontando as estrelas, não aquelas do céu, mas aqueles rostos de pessoas desconhecidas, um universo em que as pessoas mal sabiam o nome umas das outras.
*
Refletido no espelho, o brilho de sua beleza ainda fresca a atormentava.
*
[Kathleen e seu marido?]
Ele a pegou ali parada, na cabana, pensativa. Ficava receoso quando a via assim porque sabia que, nessa hora, ela estava no território mais afastado dele, um local em que as incansáveis racionalizações se desenvolviam, pensamentos cuja síntese resultava sempre num calmo senso de injustiça e insatisfação com a vida. Sabia o (?) com que sua mente operava, mas sempre se surpreendia que dali brotassem protestos puramente abstratos, nos quais ele figurava apenas como um elemento tão desamparado quanto ela. Isso o deixava com medo de que ela dissesse: “Foi culpa sua”, como frequentemente fazia — porque ao agir dessa forma ela parecia sempre colocar a situação e sua interpretação fora de seu alcance. Nesse aspecto, sua mente era mais feminina do que a dela — ele se sentia leve, meio zonzo — e um pouco como aquele personagem de Dickens que acusou a esposa de rezar contra ele.
stahr e kathleen
Objetivo: quero uma sedução — bastante californiana, mas nova, bem hollywoodiana, digamos. Se ele não tem ilusões, sente pelo menos uma grande piedade, excitação, amizade, estímulo, fascinação.
De onde virá o calor, nesse caso? Por que ele acha que ela é calorosa? Mais calorosa que a voz no filme Adeus às armas. Minhas heroínas sempre são calorosas e promissoras. O que posso fazer para tornar essa diferente?
O mar à noite. Lago de Como. St-Pol (usado em Suave é a noite). Por que os romances franceses, au fond, são frios e tristes? Por que Wells era caloroso?
*
Clima geral. Incomodados pelo clarão, eles retornam, ela ainda pensando que talvez possa recuar. Embora não suporte pensar nisso. Era hoje à noite. O crepúsculo sombrio, depois de um dia lúgubre (modificar o tempo usado antes para pôr do sol). Eles deixaram o hotel há pouco mais de três horas, mas parece ter se passado um longo tempo. Cuidar de que cheguem ao clímax de forma rápida. O lugar provoca um efeito estranho, como se estivessem em um set de filmagem. O clima é o de duas pessoas disponíveis. Ele sente uma atração incontrolável pela garota, que promete devolver a ele a vida — embora Stahr ainda não pense em casamento —; ela é uma promessa de esperança e frescor. Ele a seduz porque ela lhe está escapando — e ela se deixa seduzir por causa da imensa admiração que sente (o telefonema). Uma vez definidos os papéis, a coisa é sensual, imediata, de tirar o fôlego, depois gentil e terna por um tempo.
*
Ela estava muito interessada, o que foi bom. Teria sido bom de qualquer jeito, mas pela primeira vez foi muito além do que ele esperava. Não como acontece com pessoas jovens, foi mais sensato, profundo e muito doce, como era com Minna quando ele voltava depois de ter ficado fora por muito tempo. Ele esteve a léguas de distância, dentro dele mesmo, mas não deixou que ela percebesse.
*
Aquela garota tinha vida própria — era muito raro encontrar alguém cuja vida não dependia ou viria a depender de alguma forma dele.
robinson
Essas passagens sobre Robinson estão todas relacionadas a um plano inicial do romance. O autor desistiu da ideia de fazer com que Kathleen e Robinson tivessem um caso amoroso, mas o último talvez ainda figurasse como agente selecionado por Brady para tirar Stahr da jogada. Aqui, Kathleen é chamada de Thalia.
Gostaria que esse capítulo desse uma ideia do trabalho de um montador, de um cinegrafista e de um assistente de direção em um filme como Carnaval de inverno, enfatizando a rapidez com que Robinson deve trabalhar, suas reações e o porquê de ser o que é em vez de ser o cara com alto salário cujas habilidades técnicas permitiram que fosse. Talvez use um pouco da atmosfera de Dartmouth, neve etc. — tendo o cuidado de não remeter a nenhum material que Walter Wagner esteja usando em Carnaval de inverno, ou que eu tenha sequer sugerido como ideia para ele.
Poderia começar o capítulo pelos olhos de Cecilia, uma convidada do carnaval, depois passar rapidamente para Robinson, e talvez fazer ambos se encontrarem na mesa do telégrafo, onde ela o surpreende enviando um telegrama a Thalia. Mas a essa altura, e com os recursos que escolhi — panos de fundo de neve para o filme —, vou não apenas desenvolver o personagem de Robinson como também deixar uma brecha que demonstre que, mais tarde, ele poderá ser corrompido. Em uma transição ou montagem curta, levarei todos para a Costa Oeste. Cecilia, talvez acompanhada de amigos, se mostra lisonjeira em relação ao produtor que estava no comando (aliás, ineficiente) e em relação a Robinson.
O homem escolhido para tirar Stahr da jogada é Robinson, o montador. Devo desenvolver o caráter de Robinson para que isso seja possível — ou seja, Robinson, agora, tem três diferentes aspectos. A possibilidade mais viável é que ele seja uma espécie de sargento — caracterizado como tal. Sua relação com o mundo é convencional, um tanto estereotipada e banal; e esse novo elemento é o que dá a possibilidade de ele ser corrompido pelas circunstâncias a ponto de se envolver diretamente na questão e ser usado por Bradogue. Para isso, é praticamente necessário que exista desde o começo algum aspecto falho de Robinson, apesar de sua coragem, engenhosidade, seu conhecimento técnico e seu jeito de sargento — virtudes que quero que ele tenha. Alguma falha secreta — talvez algo sexual. Pode ser por aí, mas, se eu fizer isso, ele não pode ter um relacionamento com Thalia, que com certeza não aceitaria um amante ruim. Talvez ele tenha uma falha — não sexual — nada a ver com sua masculinidade. De qualquer forma, não tenho uma ideia por enquanto, e isso precisa ser inventado. De qualquer forma, o fato de ele ter amado Thalia o transforma em uma ferramenta natural para Bradogue empregar em seu ódio em relação a Stahr.
*
(Thalia) vem tendo um caso intermitente, do qual se sente um pouco envergonhada, com o personagem a quem venho chamando de Robinson, o montador, que, em sua vida profissional (e isso é muito importante), é extremamente interessante e sutil, inspirado na ideia do sargento — seja um do Exército ou aquele montador da United Artits a quem eu admirava tanto, ou então em qualquer outra pessoa do tipo que resolve problemas práticos, ou em algum técnico da área do cinema —, e quero fazer um contraste entre isso e seu convencionalismo e sua aceitação da banalidade do universo cultural urbano. As mulheres conseguem manipulá-lo sem fazer força. Ele é capaz de desemaranhar os fios mais embaraçados durante uma forte tempestade de neve, no escuro, do alto de um poste de vários metros, usando pouco mais do que um alicate e os pregos de suas botas, mas, colocado diante de uma situação que até a pessoa mais ignorante e inútil daria conta no universo urbano, ele se torna impotente e apalermado, a ponto de parecer um Babbitt ou um cara estúpido, desajeitado e incompetente.
Em algum ponto da história, Stahr precisa se dar conta disso, já que deve ser um homem que consegue enxergar além das aparências.
A atitude de Thalia em relação a esse homem é, até mesmo nos momentos de maior prazer do caso amoroso, de autoridade. E a profunda gratidão que ele tem por ela é ligada ao amor que sente por Thalia, embora, no decorrer da história, ele sempre pense nela como uma pessoa superior. Stahr, em alguns momentos, mostra a ela que isso não faz sentido, e quero mostrar aqui a diferença de pontos de vista de homens e mulheres: particularmente, que as mulheres têm a tendência de se apegarem a uma vantagem, ou melhor, de ter um caráter menos generoso do que o dos homens, ou talvez elas não vejam tão longe?
*
Stahr concordou e seguiu à frente de sua equipe. Robinson, que estava quase ao lado dele, um pouco atrás, era um técnico competente — talvez o melhor montador de Hollywood. Não tive muito contato com gente dessa classe dentro do estúdio, mas sei que Robinson era considerado tão bom que chegou a ser chamado para dirigir um filme. Ele fez uma tentativa, nos tempos do cinema mudo, mas fracassou. Jamais, jamais um homem como Jack Robinson se arriscou tanto, e sei do que estou falando. Desde o tempo em que foi chamado para um trabalho realizado no alto dos postes de Michigan em meio a tempestades, um trabalho no qual devia exercer a difícil tarefa de, como sargento, tentar estabelecer uma ligação com a artilharia no batalhão da infantaria, quando descobriu que um técnico competente valia mais do que mil novatos inexperientes, os chamados “oficiais especializados”, ele deixou de acreditar em seus superiores e nunca mais quis servir de elemento de ligação entre o comando e os que ficam na linha de baixo.
Existia nele uma espécie de calor humano que atraía Stahr. Muitas vezes ele confrontava Stahr, a respeito da falsidade ou verdade de certas partes do roteiro — mas, na prática, seus conselhos ficavam no “Ora, afinal de contas, o que é que eles… sabem? Muito bem, vamos em frente. E esses cabos, onde os colocamos? Claro, é uma grande ideia”.
queda do avião
Fitzgerald esboçou com algum detalhamento o episódio em que as crianças encontram o avião em pedaços — o que é mencionado na carta a seu editor. Ele chegou a, em determinado momento, descartar a ideia, imaginando que um relato do funeral de Stahr daria um epílogo melhor; mas uma anotação, certamente escrita mais adiante, mostra que ainda não tinha batido o martelo.
É importante que eu comece este capítulo com uma transição delicada, porque não vou descrever a queda do avião, vou apenas dar uma última imagem de Stahr quando o avião decola, e descreverei, muito brevemente, ainda no aeroporto, as pessoas que estão a bordo. O avião, portanto, parte em direção a Nova York e, quando o leitor mudar para o capítulo x, devo me assegurar de que não fique confuso com a mudança de cenário e de situação. Aqui, a melhor transição que posso fazer é incluir um parágrafo de abertura no qual alerte o leitor de que a história de Cecilia acabou e de que o relato que se segue foi descoberto pelo autor, ele próprio, e organizado de acordo com o que ficou sabendo em uma pequena cidade de Oklahoma, com a ajuda de um juiz municipal. Os incidentes se passam um mês após a queda do avião. A aeronave ficou enterrada, com Stahr e os outros passageiros, em uma alva escuridão. A neve ocultou os destroços e, apesar das buscas, o avião foi considerado desaparecido. Então, vou retomar a narrativa quando os destroços aparecerem, num degelo prematuro, no mês de março (tenho de revisar bem o elemento climático em todos os capítulos de modo que a segunda viagem de Stahr a Nova York, quando ele morre, aconteça na época das primeiras neves nas Montanhas Rochosas. Quero que esse avião seja como aquele que ficou perdido por dois meses completos antes que fossem encontrados os destroços e os sobreviventes). Devo considerar, cuidadosamente, se é possível, por meio de algum truque técnico, ocultar do leitor que o avião caiu até o momento em que ele é encontrado pelos garotos. O problema é considerar que o leitor pode se sentir confuso ao voltar para o capítulo x, mas, por outro lado, o efeito dramático, mesmo que o leitor se sinta perdido por alguns minutos, pode ser mais efetivo se ele não ficar sabendo logo no início do capítulo que o avião caiu. Na verdade, tenho quase certeza de que essa é a melhor forma de escrever, devo apenas encontrar como fazer isso do jeito certo. Devo colocar um parágrafo intermediário no início do capítulo x que tranquilize o leitor de que a história é a mesma e continua — mas esse parágrafo pode ser evasivo e limitar-se a situar o leitor sobre o fato de que Cecilia não é mais a narradora da história, sem contar que o avião caiu no topo da montanha e desapareceu por vários meses.
Depois de ter dado ao leitor alguma noção de transição, e depois de tê-lo preparado para uma mudança no cenário e na situação, devo fazer uma quebra da narrativa com um espaço, ou algo assim, e seguir com a história. Que um grupo de garotos está fazendo uma espécie de excursão. Que ocorreu um degelo prematuro nas montanhas. Devo pontuar, dentro do grupo, quem são os três garotos — que vão se chamar Jim, Frances e Dan. O clima é aquele muito particular de Oklahoma quando termina o longo inverno. A atmosfera precisa ser de um frio intenso que cessa rapidamente, quase com violência — a neve parece se partir, em movimentos convulsivos, como o rompimento de uma geleira. O sol está brilhando. Os três jovens se separam do professor, do chefe dos escoteiros, ou de quem seja o adulto responsável, e a garota, Frances, depara com pedaços do motor e do trem de pouso do avião. Ela não tem a menor ideia do que seja. Fica intrigada com o que vê, mas, no momento, está mais preocupada em flertar com os dois garotos, Jim e Dan. No entanto, é uma menina inteligente de seus treze, catorze anos, e, embora não identifique o achado como uma parte de um avião, sabe que é um objeto estranho que não deveria estar nas montanhas. Primeiro, acha que deve ser sucata de uma máquina de mineração. Chama Dan, e em seguida Jim, e eles se esquecem completamente do jogo de sedução juvenil a que estavam se entregando quando descobrem outros destroços do avião. O primeiro instinto juvenil é chamar o resto do grupo, porque Jim, que é o mais esperto da turma (os garotos têm ambos quinze anos), reconhece que se trata de partes de um avião — embora não ligue o fato ao avião que desapareceu no mês de novembro —, mas Frances logo encontra uma bolsa e uma valise que pertenciam a uma artista. A bolsa contém o que, para ela, representa o máximo do luxo. Há uma caixa de joias. Ela está intacta — como se sua queda tivesse sido amortecida por uma árvore. Há frascos de perfume que jamais seriam vistos na pequena cidade em que ela mora, talvez uma camisola ou algo assim que uma atriz pudesse estar carregando, algo que fosse a última palavra em elegância no mundo do cinema. A garota fica completamente fascinada.
Simultaneamente, Jim encontra a mala de Stahr — uma pasta executiva exatamente como ele sempre quisera, em couro de excelente qualidade — e alguns outros pertences. Coisas que estão, em geral, presentes na pasta de homens ricos. No momento, não tenho uma ideia específica, mas pensarei em algo que um senhor abastado e bem equipado levaria em uma viagem, e então Dan faz a sugestão: “Por que precisamos contar a alguém sobre isso? Podemos voltar aqui mais tarde, e talvez haja mais um monte de coisas interessantes, talvez até dinheiro — essas pessoas estão mortas, não vão mais precisar disso — depois podemos contar às pessoas a respeito ou deixar que elas mesmas descubram. Ninguém vai saber que estivemos aqui primeiro”.
Dan assume, em seu modo de falar, uma ligeira semelhança com Bradogue. Isso tem que ser feito com muita sutileza para não parecer uma parábola ou uma lição de moral. Ainda assim, é preciso que fique uma certa impressão, mas só devo usar esse recurso uma vez, sem abusar dele. Se o leitor não perceber, melhor não insistir — não repetir. Mostrar Frances maleável e amoral na situação, mas destacar uma dúvida concreta por parte de Jim, desde o início, sobre roubar os mortos. Fechar o capítulo com os jovens se juntando ao grupo.
Várias semanas mais tarde, os garotos já fizeram diversas viagens até as montanhas e limparam o avião de tudo que poderia ter algum valor. Dan está particularmente orgulhoso de seus achados — que incluem pertences de Ronciman. Frances está preocupada e definitivamente amedrontada, tendendo a se alinhar a Jim, que está agora sem dúvida nenhuma deprimido a respeito da coisa toda. Ele sabe que equipes de busca estiveram em uma montanha vizinha — que o avião tem sido procurado e que, com a eminência da primavera, o segredo será descoberto, e que cada nova excursão ao local do desastre é agora mais perigosa. No entanto, vamos deixar esse sentimento para Frances, porque Jim leu o conteúdo da pasta de Stahr na noite anterior, guardada num baú de madeira, e agora nutre certa admiração pelo cara. Naturalmente, a essa altura do episódio, todos os garotos têm consciência de qual avião encontraram e de quem são as coisas das quais se apropriaram.
Certo dia, eles vão descobrir também os cadáveres — mas não quero tratar essa cena de modo chocante — das seis ou sete vítimas ainda cobertas pela neve. De qualquer forma, alguma coisa que Jim lê nos papéis de Stahr o convence a ir até o delegado e contar tudo o que aconteceu — o que ele faz, mesmo que Dan, que é mais forte do que ele e que poderia lhe dar uma surra, o tenha ameaçado. Abandonaremos os jovens aqui, com a sensação de que os deixamos em boas mãos, que eles não serão punidos, que devolverão todos os pertences roubados. O fato é que eles poderiam alegar que não tinham pleno conhecimento do que estavam fazendo e agiram com boa intenção ao se apoderarem daqueles objetos. Não haverá punição alguma para nenhum dos jovens. Quero deixar a impressão de que Jim é um garoto correto, de que Frances é ligeiramente corruptível e que pode, em um ano ou mais, sair em busca de aventuras e acabar como uma interesseira ou uma prostituta, e que Dan foi completamente corrompido, e que vai passar o resto de seus dias atrás de oportunidades de conseguir coisas sem ter de pagar por elas.
Devo tomar muito cuidado para não forçar a mão ou acabar dando um tom de uma história com moral. Preciso mostrar que Jim é definitivamente um bom garoto e que Frances também talvez seja, e que os dois até possam acabar juntos, e então eliminar essa esperança mostrando que ela tem uma firme convicção de que uma vida de luxo a aguarda em outro lugar, dando, por fim, um amargo e duro fim ao incidente, para afastar qualquer sentimento moral que possa ter se insinuado. Encerrar com Frances, certamente.
*
O efeito sobre as ideias dos jovens persiste. O avião poderia cair num subúrbio de Los Angeles. Ele pensa que estava nas montanhas, mas está ali — a desolação que ele ajudou a criar.
hollywood etc.
É impossível contar sobre a rotina de Stahr sem parecer maçante. As pessoas da Costa Leste fingem estar interessadas em saber como os filmes são feitos, mas, se você explica de fato, descobre que elas só se interessam pelas roupas de Colbert e pela vida pessoal de Gable. Jamais enxergam o ventríloquo por trás do boneco. Mesmo os intelectuais, que deveriam ser mais interessados, só gostam de ouvir a respeito das pretensões, extravagâncias e vulgaridades — conte a eles que o cinema possui uma gramática própria, como a política, a produção de automóveis e a sociedade, e observe o olhar vago tomar conta do rosto deles.
Eu poderia tentar, por exemplo, explicar o que Stahr queria dizer com o uso peculiar que fazia da palavra “bom”, algo correspondente à la politesse de Saint-Simon, e o leitor acabaria por classificar o que eu disse como uma aula sobre bom gosto.
*
A forma narrativa da Warner Brothers e a dramática da Metro — cortar e revisar o que foi escrito a partir de Stahr.
*
[Stahr e o príncipe Agge]
“Vamos almoçar.” E, casualmente, acrescentou: “Broaca é o melhor cara de Hollywood, tirando Lubitsch e Vidor. Mas está ficando velho, e meio rabugento. Ele não compreende que, agora, um diretor não é mais tudo em um filme. Isso acontecia no tempo em que eram eles que davam as cartas”.
“As cartas?”
Alcançaram a porta. Stahr sorriu.
“O diretor era quem comandava. Não havia roteiros. Os roteiristas eram apenas figurativos — normalmente eram repórteres e viviam bêbados. Ficavam atrás do diretor fazendo sugestões e, se ele gostasse de alguma coisa, se achasse que tinha a ver com o filme, se apropriava da ideia.”
A situação no grande estúdio era a seguinte: diretores, produtores e roteiristas tinham que dar provas de que sabiam fazer dinheiro. Com a desconfiança inicial que a indústria do cinema inspirava nos homens de negócios, a dispensa dos mais capacitados, por causa da pressa em concluir uma produção, com o hábito de privilegiar soluções imediatistas e a crescente complicação dos recursos técnicos e dos fatores imprevisíveis criados por eles, pode-se dizer com certeza que só ficavam no negócio os que sabiam fazer dinheiro — apesar do fato de que nem sequer um terço dos produtores ou vinte por cento dos roteiristas teriam condições de ganhar a vida na Costa Leste. Não havia sequer um desses homens, não importa quão incompetente ou incapacitado, que não pudesse alegar ter participado de pelo menos uma produção de grande sucesso. Isso dificultava o relacionamento com eles.
*
Lembrar de meu resumo em Domingo de loucuras — não dar a impressão de que se trata de pessoas ruins.
*
Atriz — apresentada de forma tão lenta, tão próxima, tão real que é possível acreditar nela. Por alguma razão, ela está sentada perto, não é uma atriz, mas possui todas as qualificações, e as apresenta numa voz alta e dissonante. E, de repente, ela é uma atriz, mas não perder o foco fazendo descrições detalhadas de sua carreira. É preciso mantê-la próxima. Mas sem dizer seu nome. Sempre começar com um maneirismo.
*
O cavanhaque. O cavanhaque de Monty Woolley. Família sustentada pelo cavanhaque. Não funciona há sete semanas. Esteve maravilhoso em Furacão. Se deu mal na quarta-feira. Um roteirista quer cortar sua cena — é trabalho perdido. Quanto prestígio, amour-propre. Danos ao ego. Trinta mil dólares. Eliminar a falsa barba.
*
Tillie Losch preocupado com o significado de “exótico”.
Era um roteirista tão novato que, quando o agente entrou na sala, pensou que ele lhe pediria que escrevesse um texto para o jornal. [Isso se refere ao hábito de alguns veículos de Hollywood de chantagear os novatos, pedindo que escrevam anúncios sob ameaça de dar-lhes divulgação negativa, ou então ignorar seus trabalhos.]
*
Homem [desse tipo de imprensa em Hollywood] aconselhando-me a não ler o livro.
*
Personagem de x, produtor medíocre.
— afirmando mais tarde que morreu com o cinema mudo.
Precisamos de uma nova fórmula.
*
Expressar de forma inteligente uma posição contrária a qualquer ideia geralmente aceita vale uma fortuna para certas pessoas.
*
Piada sobre “filmar dos dois jeitos”.
*
“Vamos pensar em algo”, ela falou, da mesma forma que uma criada negra diria, “vou lavar suas meias” para minimizar o trabalho.
*
Um monte de fios no chão — é possível ouvir todo mundo por meio do ditafone.
*
Seu cabelo louro-acinzentado parecia à prova de reações climáticas, exceto por uma mecha solta, evidentemente proposital, que ela chegava a desejar que o vento despenteasse. Tinha a aura inconfundível de uma pessoa cuidadosamente planejada. Sob as sobrancelhas finas e pintadas, seus olhos etc. Seus dentes eram tão brancos em contraste com a pele, os lábios eram tão vermelhos que, na combinação com os olhos azuis, o efeito era momentaneamente surpreendente — tão surpreendente quanto se os lábios fossem verdes e as pupilas, brancas.
*
Ela teve medo daquele cone preto pendurado em um braço de metal, girando e girando pela sala ensolarada. O objeto parou por um minuto, e seu barulho foi substituído pela batida de seu coração; então, começou tudo de novo.
*
Uma garota de Hollywood. O rosto duro e miúdo de uma prostituta, o corpo de boneca, os gemidos artificiais de sua voz.
*
A maior parte das pessoas pode ser fotografada do dia do nascimento ao dia da morte e, se tudo for mostrado num filme, ele não produzirá nenhuma emoção a não ser tédio e repulsa. Como assistir aos macacos se coçando. O que você acha dos filmes caseiros que seus amigos fazem de seus bebês ou de sua viagem? Não é algo terrivelmente tedioso?
*
Um time de futebol em um dia bastante quente de julho. Dois times de feras se enfrentando, a quinhentos dólares por dia. Atores, extras e equipe de filmagem. No alto do estádio vazio, Stahr e sua garota.
*
Houve, por exemplo, um cara que, falando a sério, pediu a Stahr o seguinte favor: que ele dissesse, “olá, Tim”, e desse um tapa em suas costas em frente ao refeitório. Stahr mandou localizar o rapaz e deu o tal tapinha nas costas. Para o sujeito, foi o céu.
Quase literalmente, já que ele foi localizado por uma das melhores agências, era a isso que George Gershwin estava se referindo ao dizer: “É um bom trabalho se você sabe como fazê-lo”. Ele se senta em seu próprio escritório hoje, tem uma foto da esposa e dos filhos na parede e faz as unhas no Beverly Hills Hotel. Sua vida é um sonho bom.
*
Stahr se lembrou de como, em 1927, eles tinham recorrido a três aberrações. x estava sendo incomodado por uma mulher realmente inconveniente. Um dia antes de o caso ser julgado, ele enviou um anão e (dois outros deficientes) para falarem com ela. A defesa alegou que a mulher era louca. Então, diante do juiz, ela mencionou as visitas que tinha recebido — os membros do júri abaixaram a cabeça, piscando uns para os outros. O homem foi absolvido.
*
O tio de Cecilia é um idiota como o irmão de —— “Tem o rude individualismo de Tommy Manville, Barbara Hutton e Woolie Donahue.” Jamais perdoou Wylie por tê-lo interrompido em seu discurso em defesa de Landon.
*
Deve haver, em algum momento, algo sobre um agente importante, para completar o quadro.
*
Um garoto alto, ombros largos, nariz aquilino e doces olhos castanhos em um rosto sensível.
*
O terrível e poderoso estrondo de sua ausência.
*
[Viagem de avião]
Meu sonho gostoso de estar no cesto de um balão, como uma pipa sendo empinada contra o vento.
*
É gostoso se espreguiçar e contemplar o céu uma vez mais, abrindo-se em azul-celeste para uma nova aventura.
*
Uma garota que parecia um disco, com um lado em branco.
*
Não há segundo ato na vida dos americanos.
*
A tragédia dessas pessoas é que nada na vida delas ultrapassara o limite das superficialidades.
Personagens básicos de Hemingway.
*
plagiário inteligente, senhorio exigente
ninguém sobreviveu à castração.
*
Não despertar os fantasmas de Tarkington.
*
ação é personagem
Copyright do prefácio © 1965 by Edmund Wilson
Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua
Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.
Penguin and the associated logo and trade dress are registered
and/or unregistered trademarks of Penguin Books Limited and/or
Penguin Group (usa) Inc. Used with permission.
Published by Companhia das Letras in association with
Penguin Group (usa) Inc.
título original
The Last Tycoon
preparação
Alexandre Boide
revisão
Isabel Jorge Cury
Adriana Cristina Bairrada
ISBN 978-85-8086-864-7
Todos os direitos desta edição reservados à
editora schwarcz s.a.
Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32
04532-002 — São Paulo — sp
Telefone: (11) 3707-3500 Fax: (11) 3707-3501
www.penguincompanhia.com.br
www.companhiadasletras.com.br
www.blogdacompanhia.com.br